(RV) Esta manhã às 9, 30
horas de Bolívia, 15:30 horas de Roma, o Papa Francisco visitou o
Centro de reeducação de Santa Cruz-Palmasola da Bolívia. Após ter
escutado com grande atenção, comoção e espírito paterno, o testemunho de
três jovens que falaram em nome de todos os prisioneiros residentes
neste centro de reeducação, Francisco dirigiu a todos palavras de
encorajamento, de esperança e de fé no Deus que ama e perdoa: Deus
misericordioso. Eis na íntegra, o discurso pronunciado pelo Santo Padre,
antes de proceder à bênção dos presentes:
Queridos irmãos e irmãs!
Não podia deixar a Bolívia sem vir ver-vos, sem deixar de partilhar a fé e a esperança que nascem do amor entregue na cruz.
Obrigado por me receberem. Sei que se prepararam e rezaram por mim. Muito obrigado!
Nas palavras de D. Jesús Juárez e no testemunho de quem falou, pude
comprovar que a dor não é capaz de apagar a esperança no mais fundo do
coração e que a vida continua a jorrar com força em circunstâncias
adversas.
Quem está diante de vós? Poderiam perguntar-se. Gostaria de
responder-lhes à pergunta com uma certeza da minha vida, com uma certeza
que me marcou para sempre. Aquele que está diante de vós é um homem
perdoado. Um homem que foi e está salvo de seus muitos pecados. E é
assim como me apresento. Não tenho muito mais para lhes dar ou oferecer,
mas o que tenho e amo quero dar-vo-lo, quero partilhá-lo: Jesus Cristo,
a misericórdia do Pai.
Ele veio para nos mostrar, fazer visível o amor que Deus tem por nós.
Por vós, por mim. Um amor activo, real. Um amor que levou a sério a
realidade do seus. Um amor que cura, perdoa, levanta, cuida. Um amor que
se aproxima e devolve a dignidade. Uma dignidade, que podemos perder de
muitas maneiras e formas. Mas, nisto, Jesus é um obstinado: deu a sua
vida por isto, para nos devolver a identidade perdida.
Lembro-me duma experiência que nos pode ajudar. Pedro e Paulo,
discípulos de Jesus, também estiveram encarcerados; também foram
privados da liberdade. Nessa circunstância, houve algo que os sustentou,
algo que não os deixou cair no desespero, na escuridão que pode brotar
da falta de sentido: foi a oração. Pessoal e comunitária. Eles rezaram, e
por eles se rezava. Dois movimentos, duas acções que geram entre si uma
rede que sustenta a vida e a esperança. Sustenta-nos contra o desespero
e incentiva-nos a prosseguir o caminho. Uma rede que vai sustentando a
vida, a vossa e a das vossas famílias.
Porque uma pessoa, quando Jesus entra na sua vida, não fica detida no
seu passado, mas começa a olhar o presente de outra forma, com outra
esperança. A pessoa começa a ver com outros olhos a si mesma, a sua
própria realidade. Não fica enclausurado no que aconteceu, mas é capaz
de chorar e encontrar nisso a força para voltar a começar. E, se em
determinados momentos nos sentimos tristes, mal, abatidos, convido-vos a
fixar o rosto de Jesus crucificado. No seu olhar, todos podemos
encontrar espaço. Todos podemos colocar junto d’Ele as nossas feridas,
as nossas dores e também os nossos pecados. Nas suas chagas, encontram
lugar as nossas chagas; para serem curadas, lavadas, transformadas,
ressuscitadas. Ele morreu por vós, por mim, para nos dar a mão e
levantar-nos. Conversem com os sacerdotes que aqui vêm, conversem… Jesus
sempre nos quer levantar.
Esta certeza move-nos a trabalhar pela nossa dignidade. Reclusão não é
o mesmo que exclusão, porque a reclusão faz parte dum processo de
reinserção na sociedade. Há muitos elementos – bem o sei – que jogam
contra este lugar: a superlotação, a morosidade da justiça, a falta de
terapias ocupacionais e de políticas de reabilitação, a violência… Tudo
isso torna necessário uma pronta e eficaz aliança interinstitucional
para se encontrar respostas.
Mas, enquanto se luta por isso, não podemos dar tudo por perdido. Hoje há coisas que já podemos fazer.
Aqui, neste Centro de Reabilitação, a convivência depende em parte de
vós. O sofrimento e a privação podem tornar o nosso coração egoísta e
levar a confrontos, mas também temos a capacidade de os transformar em
ocasião de autêntica fraternidade. Ajudai-vos mutuamente. Não tenhais
medo de vos ajudar entre vós. O diabo procura a rivalidade, a divisão,
os bandos; lutai para sairdes vencedores contra ele.
Gostaria de vos pedir que leveis a minha saudação às vossas famílias.
É tão importante a sua presença e a sua ajuda! Os avós, o pai, a mãe,
os irmãos, o cônjuge, os filhos. Lembram-nos que vale a pena viver e
lutar por um mundo melhor.
Finalmente, uma palavra de encorajamento a todos os que trabalham
neste Centro: aos seus dirigentes, aos agentes da Polícia Carcerária, a
todo o pessoal. Realizam um serviço público fundamental. Desempenham uma
tarefa importante neste processo de reinserção; tarefa de levantar e
não rebaixar, de dignificar e não humilhar, de animar e não acabrunhar. É
um processo que requer deixar a lógica de bons e maus para passar a uma
lógica centrada na ajuda à pessoa. Gerará melhores condições para
todos, porque um processo assim vivido dignifica-nos, anima-nos e
levanta-nos a todos.
Antes de vos dar a bênção, gostaria que rezássemos uns momentos em silêncio. Cada um faça-o como sabe.
Por favor, peço-vos que continueis a rezar por mim, porque também eu tenho os meus erros e devo fazer penitência. Obrigado!
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