18 janeiro, 2019

O Papa pela unidade da família cristã: mais solidariedade, menos divisão


 O Papa Francisco durante a celebração das Vésperas. nesta sexta-feira (18)  (ANSA)

O Papa Francisco deu início à Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos nesta sexta-feira (18/01) ao presidir a celebração das Vésperas na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma. Na homilia, o Santo Padre afirmou que “quando a sociedade deixa de ter como fundamento o princípio da solidariedade e do bem comum”, não partilhando a riqueza, divide-se.
O Papa Francisco presidiu nesta sexta-feira (18), na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, a celebração das Vésperas que deu início à Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. 

Leia a homilia integral do Papa Francisco: 

"Começou hoje a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, na qual somos todos convidados a implorar de Deus este grande dom. A unidade dos cristãos é fruto da graça de Deus, pelo que devemos predispor-nos a recebê-la com coração pronto e generoso. Nesta tarde, sinto-me particularmente feliz por rezar juntamente com os representantes das outras Igrejas presentes em Roma, aos quais dirijo uma cordial e fraterna saudação. Saúdo também a delegação ecuménica da Finlândia, os alunos do Instituto Ecuménico de Bossey que visitam Roma para aprofundar o seu conhecimento da Igreja Católica e os jovens ortodoxos e ortodoxos orientais que aqui estudam com o apoio do Comité de Cooperação Cultural com as Igrejas Ortodoxas, ativo junto do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

O livro do Deuteronómio oferece-nos a imagem do povo de Israel acampado nas planícies de Moab, prestes a entrar na Terra que Deus lhe prometeu. Lá, Moisés, como pai solícito e chefe designado pelo Senhor, repete a Lei ao povo, instrói-o e lembra-lhe que deverá viver com fidelidade e justiça, quando se estabelecer na terra prometida.

A passagem que acabamos de ouvir indica como celebrar as três festas principais do ano: Pesach (Páscoa), Shavuot (Pentecostes), Sukkot (Tabernáculos). Cada uma destas festas convida Israel à gratidão pelos bens recebidos de Deus A celebração duma festa requer a participação de todos; ninguém pode ficar excluído: «Alegrar-te-ás na presença do Senhor, teu Deus, com os teus filhos, as tuas filhas, os teus servos e as tuas servas, o levita que viver dentro das portas da tua cidade, o estrangeiro, o órfão e a viúva, que estiverem junto de ti» (Dt 16, 11).

Por ocasião de cada festa, é preciso realizar uma peregrinação «ao santuário que o Senhor tiver escolhido para ali estabelecer o seu nome» (16, 2). O fiel israelita deve ir lá colocar-se diante de Deus; e, embora todo o israelita tivesse sido escravo no Egito, sem qualquer propriedade pessoal, «ninguém aparecerá com as mãos vazias diante do Senhor» (16, 16) e o dom de cada um será segundo a medida da bênção que o Senhor lhe tiver concedido. Assim, todos receberão a sua parte de riqueza do país e beneficiarão da bondade de Deus.

Não nos deve surpreender o facto do texto bíblico passar da celebração das três festas principais para a nomeação dos juízes. As próprias festas exortam o povo à justiça, lembrando a igualdade fundamental entre todos os membros, todos igualmente dependentes da misericórdia divina, e convidando cada um a partilhar com os outros os bens recebidos. O dar honra e glória ao Senhor nas festas do ano, caminha de mãos dadas com o prestar honra e justiça ao seu vizinho, sobretudo se é vulnerável e necessitado.

Ao debruçar-se sobre a escolha do tema para esta Semana de Oração, os cristãos da Indonésia decidiram inspirar-se nestas palavras do Deuteronómio: «Deves procurar a justiça e só a justiça» (16, 20). Neles, está viva a preocupação pelo facto de o crescimento económico do seu país, animado pela lógica da concorrência, deixar muitos na pobreza, permitindo que se enriqueçam enormemente apenas alguns. Isto põe em perigo a harmonia duma sociedade onde vivem lado a lado pessoas de diferentes etnias, línguas e religiões que partilham um sentido de mútua responsabilidade.

Mas isto não se aplica só à Indonésia; deparamo-nos com a mesma situação no resto do mundo. Quando a sociedade deixa de ter como fundamento o princípio da solidariedade e do bem comum, assistimos ao escândalo de pessoas que vivem em extrema pobreza ao lado de arranha-céus, hotéis imponentes e centros comerciais luxuosos, símbolos de incrível riqueza. Esquecemo-nos da sabedoria da lei mosaica, segundo a qual, se a riqueza não for partilhada, a sociedade divide-se.

São Paulo, quando escreve aos Romanos, aplica a mesma lógica à comunidade cristã: aqueles que são fortes devem ocupar-se dos fracos. Não é cristão «procurar aquilo que nos agrada» (Rom 15, 1). De facto, seguindo o exemplo de Cristo, devemos esforçar-mo-nos por edificar os que são fracos. A solidariedade e a responsabilidade comum devem ser as leis que regem a família cristã.

Também nós, como povo santo de Deus, encontramo-nos sempre prestes a entrar no Reino que o Senhor nos prometeu. Mas, estando divididos, precisamos de recordar o apelo à justiça que Deus nos dirigiu. Também entre nós, cristãos, há o risco de prevalecer a lógica conhecida pelos israelitas dos tempos antigos e pelo povo indonésio nos dias de hoje, ou seja, tentando acumular riqueza, esquecermo-nos dos vulneráveis e dos necessitados. É fácil esquecer a igualdade fundamental que existe entre nós: originariamente todos nós éramos escravos do pecado, mas o Senhor salvou-nos no Batismo, chamando-nos seus filhos. É fácil pensar na graça espiritual que nos foi dada como sendo nossa propriedade, algo que nos é devido e pertence. Além disso, é possível que os dons recebidos de Deus nos tornem cegos aos dons dispensados a outros cristãos. É um grave pecado desdenhar ou desprezar os dons que o Senhor concedeu a outros irmãos, pensando que estes sejam de algum modo menos privilegiados aos olhos de Deus. Se alimentarmos tais pensamentos, consentimos que a própria graça recebida se torne fonte de orgulho, injustiça e divisão. E então como poderemos entrar no Reino prometido?

O culto condizente a este Reino, o culto que a justiça exige, é uma festa que engloba a todos, uma festa na qual se disponibilizam e partilham os dons recebidos. Para realizar os primeiros passos rumo à terra prometida que é a nossa unidade, devemos, em primeiro lugar, reconhecer humildemente que as bênçãos recebidas não são nossas por direito, mas por dádiva, tendo-nos sido concedidas para as partilharmos com os outros. Em segundo lugar, devemos reconhecer o valor da graça concedida às outras comunidades cristãs. Consequentemente será nosso desejo participar nos dons dos outros. Um povo cristão, renovado e enriquecido por esta troca de dons, será um povo capaz de caminhar, com passo firme e confiante, pelo caminho que leva à unidade."

VN

Inicia hoje a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos


 Oração Ecuménica pela Paz em Bari  (ANSA)

Nesta sexta-feira (18/01) o Papa Francisco presidirá as Vésperas na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, para dar início à Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos com o tema: “Procurarás a justiça, nada além da justiça” 

Cidade do Vaticano 

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2019 foi preparada pelos cristãos da Indonésia. Com uma população de 265 milhões, 86% dos quais identificam-se como muçulmanos, a Indonésia é bem conhecida como o país que tem a maior população muçulmana. No entanto, 10% dos indonésios são cristãos de tradições diversas.

Veja também:

Papa abrirá a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

Textos preparados pelos cristãos da Indonésia

“A corrupção – segundo o texto preparado pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos - manifesta-se de muitas maneiras. Ela infeta a política e os empreendimentos, frequentemente com consequências devastadoras para o ambiente. Em particular, a corrupção enfraquece a justiça e a implementação da lei. Com frequência, os que se supõe que deveriam promover a justiça e proteger os fracos fazem o oposto. Como consequência, a distância entre os ricos e os pobres tem aumentado; e assim, um país rico em recursos tem o escândalo de muitas pessoas vivendo na pobreza”.

Ser verdadeiramente justos

Para os cristãos indonésios, as palavras de Deuteronónio “Procurarás a justiça, nada além da justiça” refletem fortemente sobre sua situação: “As comunidades cristãs num ambiente assim se tornam, de um modo novo, conscientes da sua unidade quando partilham uma preocupação comum e buscam uma resposta comum para uma realidade injusta. Ao mesmo tempo, diante dessas injustiças, somos obrigados, como cristãos, a examinar as situações em que nos tornamos cúmplices. Somente dando total atenção à prece de Jesus “para que eles sejam um” podemos testemunhar a vivência da unidade na diversidade. É através da nossa unidade em Cristo que seremos capazes de combater a injustiça e atender às necessidades das vítimas”. 

Chamados a rezar
 
“Também neste ano, na audiência geral da quarta-feira 16 de janeiro o Papa Francisco disse: "Devemos rezar para que todos os cristãos voltem a ser uma só família, coerente com a vontade divina, que quer “que todos sejamos um” (Jo 17, 21). O ecumenismo não é uma coisa opcional. A intenção (da iniciativa) será amadurecer um testemunho comum e concertado na afirmação da verdadeira justiça e no apoio aos mais fracos, através de respostas concretas, adequadas e eficazes”.

 VN

17 janeiro, 2019

52° Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

 
Celebração das Vésperas em São Paulo Fora dos Muros  (Vatican Media)
 
Pela ocasião da 52° Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, presidida pelo Papa Francisco na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, convidamos o Padre Alexandre Favretto, doutorando em Teologia Dogmática, a explicar -nos algumas particularidades históricas desta celebração. 
 
Padre Alexandre Boratti Favretto - Limeira

“Que todos sejam um” (Jo 17, 21) e haja “um só coração e uma só alma” (At 4, 32). Trata-se da unidade desejada por Cristo, no propício tempo em que Ele determinar e através dos meios que Ele escolher. Eis aí o sentido da Oração pela Unidade dos Cristãos. O espírito do ecumenismo é o mesmo, embora haja flexibilidade no que se refere às datas de sua celebração.

O Papa Leão XIII exortou nos seus escritos Providae Matris (1865) e Divinum illud múnus (1897) que nos oito dias consecutivos à Solenidade de Pentecostes fosse promovida a Oração pela Unidade dos Cristãos. A data é bastante significativa e motiva as Igrejas e Comunidade Eclesiais cristãs a unirem-se a Maria e aos Apóstolos, num cenáculo contemporâneo, para que uma vez mais o ardor da unidade da fé faça ecoar uma mesma oração: envia o teu espírito Senhor e renova a face da terra.

O hemisfério Sul manteve a datação da celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos após Pentecostes, conforme sugerido pela Comissão Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas.

Já no hemisfério Norte, o período tradicional é de 18 a 25 de janeiro, conforme sugestão de pe. Paul Wattson, anglicano convertido ao catolicismo e grande incentivador desta Semana de Oração. Em ambos os casos, as sugestões de datas devem-se ao significado simbólica de unidade que representam.

Atualmente a organização e confeção de materiais para a Semana de Oração pela Unidade é da responsabilidade de Comissão Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

Um dado interessante foi o anúncio da realização do Concílio Vaticano II, feito pelo Papa João XXIII numa aula capitular na Abadia de São Paulo Extramuros, precisamente na ocasião do encerramento da semana de oração pela unidade dos cristãos, a 25.01.1959. De facto, o Concílio promoveu um novo Pentecostes na Igreja e concedeu revigorado impulso ao ecumenismo.

Este ano, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Panamá, o Santo Padre celebrará a 52° Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, no dia 18/01/19 na Basílica São Paulo Fora dos Muros.
 
VN

Papa: a Palavra de Deus é vida, não endurece o coração

 
Papa celebra a missa na Casa Santa Marta  (ANSA)
 
O Papa Francisco indicou três palavras que podem ajudar a entender a atitude do cristão de coração fechado: "dureza", "obstinação" e "sedução".
 
Gabriella Ceraso – Cidade do Vaticano

"Cuidai, irmãos, que não se ache em algum de vós um coração transviado pela incredulidade, levando-o a afastar-se do Deus vivo". Esta advertência contida na Carta aos Hebreus, extraída da Primeira Leitura, inspirou a homilia do Papa Francisco ao celebrar a missa desta manhã (17/01), na capela da Casa de Santa Marta.

Todos os membros da comunidade cristã, afirmou o Pontífice, padres, freiras e bispos, correm o risco de ficar com o coração endurecido. Mas o que significa para nós esta advertência?

O Papa indicou três palavras, extraídas sempre da Primeira Leitura, que podem ajudar-nos a entender: "dureza", "obstinação" e "sedução".

Cristãos pusilânimes, sem a coragem de viver

Um coração endurecido é um coração “fechado”, “que não quer crescer, defende-se, fecha-se". Na vida, isto pode acontecer na decorrência de inúmeros fatores, por exemplo, uma “forte dor”, porque “os golpes endurecem a pele", notou Francisco. Aconteceu com os discípulos de Emaús e também com Tomé. E quem permanece nesta atitude negativa é "pusilânime", e um "coração pusilânime é perverso":

Podemos questionar: eu tenho o coração duro, tenho o coração fechado? Eu deixo o meu coração crescer? Tenho medo que cresça? E se cresce sempre com as provações, com as dificuldades, se cresce como crescemos todos nós quando crianças: aprendemos a caminhar caindo, do gatinhar ao caminhar quantas vezes caímos! Mas cresce-se com as dificuldades. Dureza e também fechamento. Mas quem permanece nisto… “Quem são, padre?” São os pusilânimos. A pusilanimidade é uma atitude má no cristão, falta-lhe a coragem de viver. Ele fecha-se… 

Cristãos obstinados

A segunda palavra é "obstinação": "animai-vos uns aos outros, dia após dia, para que nenhum de vós se endureça" está escrito na Carta aos Hebreus e é a acusação que Estevão faz àqueles que o lapidarão. A obstinação é "a teimosia espiritual ": um coração obstinado – explicou Francisco - é "rebelde", é "teimoso", está fechado no próprio pensamento, não “aberto ao Espírito Santo". É o perfil dos “ideólogos”, também orgulhosos e soberbos:

A ideologia é uma obstinação. A Palavra de Deus, a graça do Espírito Santo, não é ideologia: é vida que o faz crescer, ir avante e também abrir o coração aos sinais do Espírito, aos sinais dos tempos. Mas a obstinação é também orgulho, é soberba. A teimosia, aquela teimosia que faz muito mal: fechados de coração, duros – primeira palavra – são os pusilânimes; os teimosos, os obstinados, como diz o texto, são os ideólogos. Mas eu tenho um coração teimoso? Cada um que pense. Eu sou capaz de ouvir as outras pessoas? E se penso diversamente, dizer: “Mas eu penso assim…” Sou capaz de dialogar? Os obstinados não dialogam, não sabem, porque se defendem sempre com as ideias, são ideólogos. E as ideologias quanto mal fazem para o povo de Deus, quanto mal! Porque fecham a atividade do Espírito Santo. 

Cristãos escravos da sedução

A última palavra sobre a qual o Papa reflete é a "sedução", a sedução do pecado, obra do diabo, o “grande sedutor”, “um grande teólogo, mas sem fé, com ódio", o qual quer "entrar e dominar" o coração e sabe como fazê-lo. Então, conclui o Papa, um “coração perverso é aquele que se deixa conquistar pela sedução e a sedução leva-o à obstinação, ao fechamento e a tantas outras coisas":

E com a sedução ou te convertes e mudas de vida, ou tentas fazer pactos: um pouco aqui e um pouco ali. “Sim, sim, eu sigo o Senhor, mas eu gosto desta sedução, mas um pouco...” E começas a fazer uma vida cristã dupla. Para usar a palavra do grande Elias ao povo de Israel naquele momento: “Vocês mancam com as duas pernas”. Mancar com as tuas pernas, sem ter uma firme. É a vida de pactos: “Sim, eu sou cristão, sigo o Senhor, sim, mas este eu deixo-o entrar …”. E assim são os mornos, aqueles que sempre fazem pactos: cristãos de pactos. Também nós muitas vezes fazemos isso: o pacto. Quando o Senhor nos indica a estrada, também com os mandamentos, com a inspiração do Espírito Santo, mas eu gosto de outra coisa e busco o modo de caminhar nos dois trilhos, mancando com as duas pernas.

A invocação final do Papa é para que o Espírito Santo nos ilumine para que ninguém tenha um coração perverso: "um coração duro, que o leva à pusilanimidade; um coração obstinado que o leva à rebelião; um coração seduzido, escravo da sedução, que o leva a um cristianismo de pactos”.



VN

16 janeiro, 2019

Papa: para um cristão, rezar é dizer "Abbà" com a confiança de uma criança

 
 
Na expressão "Abbà", Pai, concentra-se toda a novidade do Evangelho disse o Papa Francisco na sua catequese. Nas primeiras palavras do "Pai Nosso", encontramos imediatamente a novidade radical da oração cristã.
 
Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

“Basta evocar esta expressão - Abbà – para que se desenvolva uma oração cristã. (...) Nesta invocação há uma força que atrai todo o resto da oração". E para rezar bem, é preciso ter um coração de criança.

Dando continuidade à sua série de catequeses sobre a oração do Pai Nosso, o Papa inspirou-se nesta quarta-feira na Carta de São Paulo aos Romanos 8, 14-16 para falar sobre a ossa filiação divina: “hoje partimos da observação de que, no Novo Testamento, a oração parece querer chegar ao essencial, até concentrar-se numa única palavra: Abbà, Pai”. Nesta invocação afirmou, dirigindo-se aos 7 mil fiéis presentes na Sala Paulo VI -  concentra-se toda a novidade do Evangelho:

“ Depois de ter conhecido Jesus e ouvido a sua pregação, o cristão não considera Deus mais como um tirano a temer, não sente mais  medo dele, mas floresce no seu coração a confiança nele: pode falar com o Criador, chamando-o de "Pai". A expressão é tão importante para os cristãos, que muitas vezes é conservada intacta na sua forma original. Paulo conservou intacta 'Abbà'”.

“É raro que no Novo Testamento as expressões aramaicas não são traduzidas para o grego”, observa o Papa. “Temos que imaginar que, nestas palavras em aramaico permanece como que "gravada" a voz do próprio Jesus, "respeitaram o idioma de Jesus". Nas primeiras palavras do "Pai Nosso", encontramos imediatamente a novidade radical da oração cristã”. 

Rezar com verdade o Pai Nosso

Se entendermos que não se trata apenas de usar a figura do pai como um símbolo para relacionar ao mistério de Deus, mas  o mundo inteiro de Jesus transvasado no próprio coração, podemos rezar com verdade o “Pai Nosso”:

“Dizer "Abbà" é algo muito mais íntimo, mais comovente do que simplesmente chamar Deus de "Pai". Eis porque alguém propôs traduzir esta palavra aramaica original "Abbà" como "Papá" ou “Babbo" (ndr - em italiano) (...). Nós continuamos a dizer "Pai nosso", mas com o coração somos convidados a dizer "Papá", a ter uma relação com Deus como a de uma criança com o seu pai, em que diz "papá" (...).  Na verdade, essas expressões evocam afeto, evocam calor, algo que nos remete para o contexto da infância: a imagem de uma criança completamente envolvida pelo abraço de um pai que sente infinita ternura por ele. E por isso, queridos irmãos e irmãs, para rezar bem é preciso chegar a ter um coração de criança. Para rezar bem, não um coração auto-suficiente. Assim não se pode rezar bem. Mas como uma criança nos braços do seu Pai, do seu papá.” 

Deus conhece somente amor

Mas são os Evangelhos no entanto – completa o Papa - a apresentarem-nos melhor o sentido desta palavra. O "Pai Nosso"  ganha sentido e cor se aprendemos a rezá-lo depois de ter lido a parábola do Pai misericordioso (cf. Lc 15,11-32):

“Imaginemos esta oração pronunciada pelo filho pródigo, depois de ter experimentado o abraço do seu pai, que o tinha esperado durante algum tempo, um pai que não recorda as palavras ofensivas que ele tinha proferido, um pai que agora o faz perceber simplesmente a falta que sentiu dele.  Então descobrimos como aquelas palavras ganham vida, ganham força. E perguntamos: como é possível que Tu, ó Deus, conheças somente o amor? Mas Tu não conheces o ódio? Não, responderia Deus. Eu conheço somente o amor. Onde está em Ti a vingança, a pretensão de justiça, a ira pela tua honra ferida? E Deus responderia: eu conheço somente amor.” 

A força da palavra "Abbà" 

A forma como o pai da parábola age – observa o Papa -  “recorda muito o espírito de uma mãe”, pois no geral  são as mães que desculpam os seus filhos, que os cobrem, que não rompem a empatia que têm por eles, que continuam a querê-los bem. Mesmo quando não mereceriam mais nada:

“Basta evocar esta expressão - Abbá – para que se desenvolva uma oração cristã. (...) Nesta invocação há uma força que atrai todo o resto da oração”:

Deus procura-te, mesmo que não o procures. Deus ama-te, mesmo que te tenhas esquecido dele. Deus vê em ti uma beleza, ainda que pense ter desperdiçado inutilmente todos os seus talentos. Deus é não somente um Pai, é como uma mãe que nunca deixa de amar a sua criação. Por outro lado, há uma "gestação" que dura para sempre, bem para além dos nove meses daquela física, e que gera um circuito infinito de amor." 

Ter a confiança de uma criança

Para um cristão, "rezar é simplesmente dizer "Abbá", dizer papá (...), mas com a confiança de uma criança. E acrescentou ao concluir:

“Pode acontecer que também a nós aconteça, caminhar por vias  distantes de Deus, como aconteceu com o filho pródigo; ou de precipitar-mo-nos numa solidão que nos faz sentir abandonados no mundo; ou ainda de errar e ser paralisados por um sentimento de culpa. Nesses tempos difíceis,  podemos ainda encontrar a força de rezar, recomeçando pela  palavra "Abbá", mas dita com o sentido terno de uma criança, "Abbá", papá. Ele não esconderá de nós o seu rosto. Recordem bem, talvez alguém tenha dentro de si coisas más, coisas que não...não sabes como resolver, tanta amargura por ter-mos feito isto ou aquilo. Ele não esconderá o seu rosto. Ele não se fechará no silêncio. Diz "Pai" e Ele responderá. Tens um Pai! "Sim, mas eu sou um delinquente". Mas tens um Pai que te ama. Digz-he "Pai" e começa a rezar assim, e no silêncio ele nos dirá que nunca nos perdeu de vista. "Mas Senhor, eu fiz isto e aquilo". Mas eu nunca te perdi de vista. Eu vi tudo. Mas estive sempre ali, próximo de ti, fiel ao meu amor por ti. Esta será a resposta. Nunca se esqueçam de dizer Pai. Obrigado!".

Veja um trecho da catequese do Santo Padre


VN

Papa abrirá Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

 
 
A Rádio Vaticano/Vatican Media, transmitirá o evento ao vivo da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, sexta-feira (18/01), com comentários em português, a partir das 17h25.
 
Cristiane Murray - Cidade do Vaticano

No final da audiência geral desta quarta-feira (16/01), o Papa Francisco quis recordar a próxima Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que se realiza com a celebração das Vésperas na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, como todos os anos, de 18 a 25 de janeiro, e convidou todos a vivê-la intensamente. 

O tema da Semana deste ano

“Segue estritamente a justiça, e assim viverás e possuirás a terra que o Senhor teu Deus te dá”, conforme o livro do Deuteronómio, será o tema da Semana que, no Brasil, é celebrada entre Ascensão e Pentecostes.

Segundo o Papa, “devemos rezar para que todos os cristãos voltem a ser uma só família, coerente com a vontade divina, que quer “que todos sejam um”.
“ O ecumenismo não é uma coisa opcional. A intenção (da iniciativa) será amadurecer um testemunho comum e concertado na afirmação da verdadeira justiça e no apoio aos mais fracos, através de respostas concretas, adequadas e eficazes ”
Papa abrirá as Vésperas
 
Ao contrário dos anos passados, Francisco abrirá (e não encerrará) a cerimónia das Vésperas na Basílica de São Paulo Fora dos Muros. A Rádio Vaticano/Vatican Media, transmitirá o evento ao vivo, sexta-feira (18/01), com comentários em português, a partir das 17h25. 

Ecumenismo também na saudação em inglês

Cumprimentando os fiéis de língua inglesa, o Papa saudou os estudantes do Instituto Ecuménico de Bossey, em visita ao Vaticano. Francisco esteve neste Instituto durante a sua viagem a Genebra, no dia 21 de junho passado.

VN

15 janeiro, 2019

Papa: a fraternidade permanece a promessa não cumprida

 
Pontifícia Academia para a Vida 
 
O Papa Francisco enviou uma carta a Dom Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida por ocasião do 25º aniversário da sua instituição, em 11 de fevereiro de 1994.
 
Jane Nogara - Cidade do Vaticano

O Papa inicia a Carta a falar sobre a comunidade humana e sobre sua criação a partir do sonho de Deus, sublinhando que “no mistério da geração a grande família da humanidade pode reencontrar-se a si mesma”. 

Paixão de Deus pela criatura humana

O Pontífice evidencia também que “devemos restituir importância a esta paixão de Deus pela criatura humana e o seu mundo”, criatura que foi feita por Deus à sua “imagem” – “homem e mulher” criatura espiritual e sensível, consciente e livre. “A relação entre o homem e a mulher é o ponto eminente no qual toda a criação torna-se interlocutora de Deus e testemunha do seu amor”, acrescentou o Papa. Por isso, escreve ainda, no nosso tempo a Igreja é chamada a relançar com força o humanismo da vida que irrompe desta paixão de Deus pela criatura humana. 

Bem-estar individual e coletivo

Outro ponto citado pelo Pontífice refere-se à degradação do ser humano e o paradoxo com o progresso. O Papa explica:
“ A distância entre a obsessão pelo próprio bem-estar e a felicidade partilhada de toda humanidade parece ampliar-se cada vez mais: chegando-se a pensar que entre o indivíduo e a comunidade humana esteja em curso um verdadeiro cisma ”
Francisco acrescenta depois que se “trata de uma verdadeira cultura – ou melhor anti-cultura – da indiferença pela comunidade: hostil aos homens e às mulheres e aliada à prepotência do dinheiro”.

O Papa pergunta ainda: como pôde acontecer este paradoxo? No momento em que o mundo tem maior disponibilidade de riquezas económicas e tecnológicas aparecem nossas divisões mais agressivas e vive-se uma degradação espiritual, – poderíamos dizer niilismo – no qual o mundo é submetido a esse paradoxo. 

Uma escuta responsável

“O povo cristão ao ouvir o grito de sofrimento dos povos, deve reagir aos espíritos negativos que fomentam divisões, indiferenças e hostilidade” exorta o Papa depois de apresentar o quadro atual da condição humana. Após, destacou a necessidade de se inspirar no ato do amor de Deus, Francisco escreve: “A Igreja deve ser a primeira a reencontrar a beleza desta inspiração e fazer a sua parte, com renovado entusiasmo”. 

Construir uma fraternidade universal

O Santo Padre sugere que
“ É tempo de relançar uma nova visão para o humanismo fraterno e solidário das pessoas e dos povos colocando em primeiro lugar a criatura humana ”
“Para esta missão há como sinais de encorajamento, a ação de Deus nos nossos dias”, continua o Pontífice. Os sinais “devem ser reconhecidos evitando que o horizonte seja obscurecido pelos aspetos negativos”. 

O futuro da Academia

Falando sobre o futuro da Academia Pontifícia afirmou que, “antes de tudo devemos conhecer a língua e as histórias dos homens e das mulheres do nosso tempo, colocando o anúncio do Evangelho na experiência concreta” – “para colher o sentido da vida humana, a experiência à qual nos devemos referir é a que se pode reconhecer na dinâmica da geração”. O Papa sublinha ainda: “Viver significa necessariamente sermos filhos, acolhidos e cuidados, mesmo se algumas vezes de modo inadequado”.

O Pontífice exortou então o trabalho da Pontifícia Academia: “Não tenham medo de elaborar argumentações e linguagens que sejam utilizadas num diálogo intercultural e interreligioso, assim como interdisciplinar”. 

Fraternidade

Francisco conclui reiterando a necessidade de “reconhecer que a fraternidade permanece sendo a promessa não cumprida da modernidade”. “A força da fraternidade, que a adoração de Deus em espírito e verdade gera entre os homens, é a nova fronteira do cristianismo”.

VN

14 janeiro, 2019

Portugal. D. Nuno Brás: “Já me sinto madeirense”

 
 Dom Nuno Brás e D. Manuel Clemente
 
Entrevista a D. Nuno Brás, à VATICAN NEWS, até agora bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, nomeado pelo Papa como novo bispo da Diocese do Funchal.
 
Domingos Pinto - Lisboa
 
“É uma responsabilidade que é sempre partilhada de uma forma muito particular com os sacerdotes, e penso fazê-lo neste sentido de partilha e corresponsabilidade”.

É desta forma que D. Nuno Brás sublinha ao portal da Santa Sé o novo desafio que o Papa lhe confiou ao nomeá-lo, no passado dia 12 de janeiro, como bispo do Funchal.

O prelado, que sucede a D. António Carrilho, já dirigiu uma saudação à sua nova diocese, e diz acolher a sua nomeação “com muita disponibilidade” e  “com uma atitude de fé”.

“Já me sinto madeirense. Quero dizê-lo com toda a clareza”, refere D. Nuno Brás, que destaca “as comunidades cristãs que na Madeira dão testemunho do Evangelho e louvam o Senhor com toda a alegria “.

O prelado, natural do Vimeiro, no Concelho da Lourinhã, aponta neste contexto como grande prioridade “a tarefa de evangelizar, a tarefa de sermos testemunhas do Evangelho”, com uma grande atenção à “realidade da família”.

Já sobre o pontificado do Papa Francisco, o novo bispo do Funchal diz à VATICAN NEWS, que este “é o pontificado que Deus quer para o tempo de hoje”, concluindo que “devemos  agradecer sempre os Papas que Deus nos dá”.

D. Nuno Brás da Silva Martins frequentou os Seminários Maiores do Patriarcado de Lisboa, tendo sido ordenado sacerdote pelo Cardeal-patriarca D. António Ribeiro, a 4 de julho de 1987.

Foi vigário paroquial na Paróquia de Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa, redator, editor e diretor do Jornal Voz da Verdade, reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, formador e depois reitor no Seminário dos Olivais.

O prelado integra a Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, e desde julho de 2016 é também membro da Secretaria para a Comunicação da Santa Sé.

Desde março de 2018, D. Nuno Brás é também coordenador da secção das Comunicações Sociais da Comissão para Evangelização e Cultura, organismo do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE).

Ouça a reportagem!

 VN

13 janeiro, 2019

Papa: no Batismo estão as raízes da nossa vida em Deus

 

"Como Jesus após o seu Batismo, deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo em tudo o que fazemos. Mas para isso, devemos invocá-lo! Aprendamos a invocar o Espírito Santo com mais frequência, nos nossos dias, para poder viver com amor as coisas ordinárias, e assim, torná-las extraordinárias", foi a exortação do Papa Francisco no final do tradicional encontro dominical na Praça São Pedro.
 
Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

“Renovo a todos o convite para manter viva a memória do próprio Batismo. Ali estão as raízes da nossa vida em Deus; as raízes da nossa vida eterna, que Jesus Cristo nos deu com a sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição”.

No Angelus na Festa do Batismo do Senhor, o Papa Francisco voltou a pedir para não esquecermos a data de nosso Batismo: “Que seja uma data guardada no nosso coração para festejá-la todos os anos”, e convidou a invocarmos “com mais frequência o Espírito Santo”, “para poder viver com amor as coisas ordinárias, e assim, torná-las extraordinárias”.

Na sua alocução, o Papa destaca que “a liturgia chama-nos a conhecer mais plenamente Jesus” e por isso o Evangelho do dia, “ilustra dois elementos importantes: a relação de Jesus com as pessoas e a relação de Jesus com o Pai”. 

Jesus com a multidão

Dirigindo-se aos milhares de peregrinos presentes na Praça de São Pedro, o Pontífice chama a atenção para o facto de que todo o povo que estava presente na cena do Batismo “não é apenas um pano de fundo”,  mas “um componente essencial do evento. Antes de mergulhar na água, Jesus "mergulha" na multidão, une-se a ela assumindo plenamente a condição humana, partilhando tudo, excepto o pecado”.

“Na sua santidade divina, cheia de graça e de misericórdia, disse o Papa, o Filho de Deus fez-se carne justamente para tomar sobre si e tirar o pecado do mundo. Assumir as nossas misérias, a nossa condição humana”. Deixando-se batizar por João, Jesus “manifesta a lógica e o sentido da sua missão”:
 
“Unindo-se ao povo que pede a João o Batismo da conversão, Jesus partilha dele o profundo desejo de renovação interior. E o Espírito Santo que desce sobre Ele "em forma corpórea, como uma pomba",  é o sinal de que com Jesus inicia um mundo novo, uma "nova criação", da qual fazem parte todos aqueles que acolhem Cristo na sua vida”.

O “amor do Pai, que todos recebemos no dia do nosso Batismo, é uma chama que foi acesa no nosso coração, e requer ser alimentada mediante a oração e a caridade”. 

Jesus em comunhão com o Pai

O segundo elemento destacado por Francisco, é a comunhão de Jesus com o Pai, e explica que “o Batismo é o  início da vida pública de Jesus, da sua missão no mundo como enviado do Pai para manifestar a sua bondade e o seu amor pelos homens”:

Tal missão é realizada em constante e perfeita união com o Pai e o Espírito Santo. Também a missão da Igreja e a de cada um de nós, para ser fiel e frutuosa, é chamada a inserir-se na de Jesus. Trata-se de regenerar continuamente na oração a evangelização e o apostolado, para dar um claro testemunho cristão, não segundo os nossos projetos humanos, mas segundo o estilo de Deus”. 

Viver em coerência com nosso Batismo

A Festa do Batismo do Senhor – recorda o Papa – “é uma ocasião propícia para renovar com gratidão e convicção as promessas do nosso Batismo, comprometendo-nos a viver diariamente em coerência com ele”. E reitera a importância de conhecermos a data de nosso Batismo, guardá-la no coração e festejá-la todos os anos.

Após rezar o Angelus e saudar os fiéis presentes, Francisco recordou que tinha batizado um grupo de crianças:

“Esta manhã, de acordo com o costume desta Festa, tive a alegria de batizar um bom grupo de recém-nascidos. Rezemos por eles e pelas suas famílias. E, nesta ocasião, renovo a todos o convite para manter viva a memória do próprio Batismo. Ali estão as raízes da nossa vida em Deus; as raízes da nossa vida eterna, que Jesus Cristo nos deu com a sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição. No Batismo estão as raízes. E nunca se esqueçam da data do nosso Batismo”. 

Invocar com mais frequência o Espírito Santo

Antes de despedir-se com o tradicional “Bom domingo a todos. Não se esqueçam de rezar por mim. Bom almoço e até logo", o Papa pediu para que, a exemplo de Jesus, deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo:

“Mas para isso, devemos invocá-lo! Aprendamos a invocar o Espírito Santo com mais frequência nos nossos dias, para poder viver com amor as coisas ordinárias, e assim, torná-las extraordinárias.”


VN