14 março, 2019

Exercícios espirituais: a hospitalidade como escola da misericórdia


O Papa Francisco durante os Exercícios espirituais em Ariccia  (Vatican Media)

A reflexão do abade concentra-se primeiramente nas portas abertas. “Passem, passem pelas portas, abram caminho para o povo”, diz o versículo 10 do Livro de Isaías.  

Cidade do Vaticano 

O acolhimento e a hospitalidade marcaram a meditação, realizada na manhã desta quinta-feira (14/03), pelo abade beneditino Bernardo Francesco Maria Gianni, nos Exercícios espirituais para o Papa Francisco e os membros da Cúria Romana, na Casa do Divino Mestre, em Ariccia.

Começa com uma reflexão sobre o esplendor de Jerusalém, conforme descrito no capítulo 62 do Livro do Profeta Isaías. A imagem da Jerusalém que é descrita não é “uma cidade ideal”, esclarece o monge, mas sim “um ideal de cidade”. 

As portas abertas das cidades

A reflexão do abade concentra-se primeiramente nas portas abertas. “Passem, passem pelas portas, abram caminho para o povo”, diz o versículo 10 do Livro de Isaías.

“Bonita é a imagem de portas abertas, para que toda a humanidade possa finalmente entrar, encontrar-se e experimentar a grande promessa de Deus que se torna realidade, o futuro que se torna presença de luz, amor, paz e justiça para todos aqueles que caminham em direção ao rosto do Senhor, guiados pela sua Palavra. Contrária a esta perspectiva é a construção de toda a forma de muro, barreira e baluarte que não tem dentro de si uma porta hospitaleira e convidativa”, disse o abade beneditino. 

Toda cidade é lugar de acolhimento

Para Giorgio La Pira, como prefeito de Florença, era necessário que da cidade saísse “uma mensagem renovada de paz e esperança”: “Esperanças de paz, esperanças civis, esperanças de Deus e esperanças do homem.”

O abade Bernardo Francesco Maria Gianni recorda que o Papa Francisco advertiu-nos de que estamos a viver uma Terceira Guerra Mundial em pedaços, em fragmentos lacerantes em várias partes do mundo. Acho bonito, profético e profundamente atual este apelo do prefeito para fazer de Florença e não só, mas de toda cidade, o lugar de acolhimento no qual se renova uma mensagem de paz e esperança.

Esta é uma tarefa que o prefeito La Pira atribuiu ao seu serviço de homem político, mas é um serviço que a Igreja não pode deixar de apoiar, desejar, propor e testemunhar no nosso tempo aos prefeitos e aos homens políticos do mundo inteiro, para que a cidade realmente volte a ser, segundo a perspetiva que Isaías nos faz sonhar, um “símbolo para todos os povos”. 

Oração na base de uma missão de paz

La Pira sabia que Florença poderia ser “uma renovada e reencontrada capital da paz e da justiça” graças à oração e contemplação: “Sem essas raízes místicas, a lei doada pelos seus mosteiros de clausura e pelos seus santos, não seria aquilo que é: cidade de contemplação e beleza teologal”, observa o abade beneditino.

Hospitalidade de São Bento

Bernardo Francesco Maria Gianni recorda as palavras de São Bento sobre a hospitalidade em que o Santo exorta a acolher todos os convidados como se fossem Cristo, mas diz que a troca do beijo da paz não deve ser feita antes da oração. Ter outro diante de mim envolve riscos. Portanto, a de São Bento, disse o abade, não é uma “hospitalidade, é uma hospitalidade lúcida que aceita o risco evangélico do amor e fortalece o homem que se expõe a esse risco com a única força que o fiel tem, ou seja, a oração”. Repercorrendo ainda as instruções sobre o acolhimento dos convidados, o abade observa que é marcada pela oração e por um profundo sentido de humanidade.

Especialmente os pobres e os peregrinos são acolhidos com toda a consideração e cuidado possível, pois é neles que se recebe Cristo de modo particular.

Hospitalidade como escola de misericórdia

O abade recorda que São Bento, em absoluto retiro no início de sua vida monástica, esqueceu-se de que o dia da Páscoa tinha chegado. O Senhor enviou-lhe um sacerdote com comida e água para interromper o jejum e a solidão.

Quando Bento viu chegar esse hóspede, a sua expressão nos dá a medida de como tenha sido esse evento misterioso da chegada do sacerdote: “É realmente Páscoa, pois tive a graça de te ver”. Uma passagem da solidão à comunhão, do jejum à alegria fraterna da partilha, da morte para a vida.

É por isso que a hospitalidade é uma escola de misericórdia que fez Bernard de Clairvaux dizer: “O misericordioso compreende a verdade de seu próximo, conformando-se a ele com simpatia, de modo a viver as suas alegrias e tristezas como se fossem suas, fraco com os fracos, pronto para se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram.” 

Fazer nossa a lógica de Jesus

O abade exorta a aprender de uma hospitalidade radicalmente evangélica. “Ressoam ainda as palavras lembradas pelo Papa Francisco em que a força da fraternidade, que a adoração de Deus em espírito e verdade gera entre os humanos, é a nova fronteira do cristianismo”, disse o abade.

“Todo o detalhe da vida do corpo e da alma, em que brilham o amor e a redenção da nova criatura que está a formar-se em nós, surpreende, como o verdadeiro milagre de uma ressurreição que já está em andamento.”

“Que o Senhor nos ajude a multiplicar esses milagres. Podemos multiplicá-los na medida em que fazemos nossa a lógica, aparentemente perdedora, do amor do Senhor Jesus, que é uma lógica, nãonos podemos esquecer, inevitavelmente crucificada, de modo que a Páscoa seja gerada como um beijo do Espírito Santo com o qual o Pai restitui a plenitude da vida ao que foi cortado e rompido”, conclui o abade Bernardo Francesco Maria Gianni.

VN

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