24 fevereiro, 2020

“É a marca da caridade que nos define como cristãos”



Na Semana da Caridade na Vigararia Lisboa V, D. Américo Aguiar agradeceu a todos os agentes desta pastoral que, diariamente, trabalham “com o limite da dignidade da pessoa humana”. Na opinião do vigário, padre Nuno Fernandes, esta iniciativa “despertou” as paróquias para “continuarem a fazer melhor” nesta área. 

No último dia da Semana da Caridade na Vigararia Lisboa V, o Bispo Auxiliar de Lisboa D. Américo Aguiar apelou ao envolvimento de todos os cristãos na área sociocaritativa. “Não pode haver nenhum batizado que não se identifique na área sociocaritativa. É esta marca da caridade que nos define como cristãos, como filhos de Deus”, referiu o Bispo Auxiliar, recordando uma homilia de D. António Francisco dos Santos, antigo Bispo do Porto. “Dizia que: ‘Os pobres não podem esperar’. E pobres não é só de dinheiro, é quem precisa de alguma coisa. Quem precisa de carinho, de amor, de batatas, de atenção, de cuidados médicos, seja lá do que for... Quem precisa de, não pode estar à espera que nós estejamos bem-dispostos seja para o que for”. Na Missa que juntou as dez paróquias da Vigararia Lisboa V, na igreja de São Vicente de Paulo, no Bairro da Serafina, em Lisboa, na tarde do passado dia 16 de fevereiro, D. Américo Aguiar desafiou, por isso, os cristãos a serem “arautos da esperança”. “Em qualquer situação de maiores trevas, dúvida, sofrimento, temos que ser arautos de esperança. E a nossa esperança tem um nome, é uma Pessoa: Jesus Cristo. Está vivo! E nós estamos aqui por causa disso”, apontou.

No Domingo anterior à votação, no Parlamento, das propostas que visam a despenalização da eutanásia no nosso país, o Bispo Auxiliar criticou o facilitismo que pretende ser oferecido pela sociedade. “Aos mais novos, dizem assim: ‘Agora, a vida está facilitada. Há uma pilula do dia seguinte’. E também há solução para o resto: ‘Aos 70 anos, tomamos uma pastilha e vamos para o céu’. A sociedade está a ficar entre a pilula do dia seguinte e a pilula do último dia. É isto que nós queremos?”, questionou. “E não é uma questão religiosa… é como sociedade, como povo, como humanidade”, acrescentou. 

“Encontro, partilha e formação” 

A Semana da Caridade na Vigararia Lisboa V teve como tema ‘A Caridade é o maior de tosos os Dons’, e decorreu entre 9 e 16 de fevereiro. Com esta iniciativa, esta vigararia da cidade quis apostar em “proporcionar momentos de encontro, partilha e formação”, adiantou o vigário, padre Nuno Fernandes, ao Jornal VOZ DA VERDADE. De entre as várias iniciativas previstas – e que juntaram centenas de responsáveis e agentes desta pastoral e de outras, como a juventude, a família e a catequese –, este sacerdote destaca o encontro que reuniu “profissionais e voluntários dos Centros Sociais e de outras instituições”. “Foi um encontro para marcar uma presença junto das pessoas que estão mais próximas dos mais fragilizados”, refere o padre Nuno. Nesta oportunidade, no dia 12 de fevereiro, D. Américo Aguiar, que acompanha pastoralmente as paróquias da cidade, aproveitou a presença dos profissionais e voluntários para transmitir “gratidão pelo trabalho que fazem”. A partir da sua experiência, enquanto sacerdote na Diocese do Porto, o Bispo Auxiliar revelou ter ganhado “muito respeito por todos os que trabalham nesta área, porque se trabalha com o limite da dignidade da pessoa humana”, e sublinhou a importância destes encontros “para sabermos quem somos, quantos somos, o que fazemos, para estarmos afinados naquilo que é a realidade do terreno onde estamos a trabalhar e a servir”. 

Continuar a missão 

O conhecimento, em maior pormenor, da realidade sociocaritativa na vigararia foi um dos frutos desta semana vicarial. Segundo o vigário, as respostas ao questionário feito a cada paróquia permitiram conhecer os “números concretos”. “Sabemos que existem 6330 pessoas apoiadas pelas instituições, e que contam com a colaboração de 1028 profissionais e 439 voluntários”, revela. “Podemos questionar estes números, interrogarmo-nos se é pouco, se é muito… mas esta é a realidade da nossa vigararia. Foi importante criar um painel de divulgação, em todas as paróquias, para que as pessoas saibam o que vai sendo feito, e continuem a ajudar ou despertem para esta missão”, sublinha o padre Nuno Fernandes.

No último dia da Semana da Caridade, a caminhada, desde a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Paróquia de São Domingos de Benfica, até à Igreja de São Vicente de Paulo, no Bairro da Serafina, juntou mais de uma centena de pessoas. “Chamámos ´Peregrinação da Caridade’ e quisemos orientar a nossa oração para a defesa da vida. Entre cânticos e oração do Terço, foi um caminho muito sereno. Depois, à chegada, tínhamos à nossa espera o senhor D. Américo, que celebrou a Eucaristia”, explica o vigário.

Na opinião deste sacerdote, esta iniciativa “deixa o compromisso de acentuar mais um caminho conjunto das dez paróquias de continuarem esta missão da caridade”. “O nosso Patriarca despertou-nos para ela com este ano pastoral, que se enquadra neste caminho sinodal que estamos a fazer, mas é algo que já vai sendo realizado e faz parte da missão da Igreja. Deixa-nos este despertar para continuar e continuar a fazer melhor”, garante.

in Jornal Voz da Verdade
Patriarcado de Lisboa

23 fevereiro, 2020

“O Evangelho desdobra-se em ação social”



O Cardeal-Patriarca de Lisboa lembrou, no encontro com a Pastoral Social da Vigararia de Oeiras, que a caridade “faz parte integral da vivência cristã”. “A Igreja tem estas obras sociais porque o Evangelho desdobra-se em ação social. Estamos no mundo, há dois mil anos, a reproduzir, pessoal, familiar e comunitariamente, aquilo que o próprio Jesus Cristo começou a fazer”, salientou D. Manuel Clemente, neste encontro no âmbito da Visita Pastoral.

No auditório da Paróquia de Queijas, na noite do passado dia 14 de fevereiro, o Cardeal-Patriarca apontou que a caridade “é algo que vai além da filantropia”. “Se nos abeirarmos de Deus não de uma maneira genérica, mas como Jesus Cristo nos ensina, então isso depois tem de ser consequente, e é consequente na prática deste sentimento a que nós chamamos caridade. É algo que vai além da filantropia, e leva ao ponto a que Jesus o levou, a partir da filiação divina que Ele nos proporciona e que o seu Espírito ativa em nós, e que nos faz verdadeiramente irmãos”, apontou, lembrando que as comunidades cristãs são também “comunidades caritativas”. “Isto faz parte integral da vivência cristã. Se com Jesus Cristo aprendemos a ser filhos de Deus e a crescer nessa filiação divina, com Jesus Cristo e no Espírito de Jesus Cristo, sendo isto autêntico, desdobra-se em atenção ao irmão, com o amor com que Ele nos amou e isso, propriamente, se chama caridade”, observou. Neste sentido, segundo D. Manuel Clemente, de “uma maneira mais organizada” ou “mais espontânea”, a caridade “identifica uma comunidade cristã”, para que “o Reino de Deus continue a acontecer”. “Isto é muito importante e faz parte da iniciação cristã. A nossa catequese só resulta quando atende a estas duas dimensões: ensina a rezar filialmente, como Jesus nos ensinou, e ensina a atuar fraternalmente, como também Jesus nos ensinou. A caridade é fundamental, é uma marca, é um testemunho, é uma definição de uma comunidade cristã propriamente dita”, reforçou.

O Cardeal-Patriarca sublinhou ainda que os agentes de Pastoral Social “dão sabor evangélico à vida, por isso mesmo que realizam às comunidades onde estão”. “É muito importante serem sal da terra, para não deixarem que as coisas se estraguem, para não deixar que a sociedade deixe de ser sociedade, ou seja, gente que acompanha gente”, apelou. “Não sei como estaríamos, com todos os problemas que, na nossa sociedade, enfrentamos, se não houvesse esta miríade de atuações, que estão espalhadas pelo país inteiro e que não deixam que as coisas se estraguem”, acrescentou D. Manuel Clemente.

O encontro contou também com uma atuação dos utentes e familiares do Centro Social e Paroquial de Queijas. “Temos de ser muito criativos nas nossas instituições, para que o envelhecimento – que tem um certo sentido triste – seja transformado em longevidade, para que aquilo que eles [os idosos] trazem, e aquilo que eles são, possam beneficiar o todo”, desejou o Cardeal-Patriarca, pedindo ainda “às comunidades cristas e às instituições para integrar as populações que, de todo o mundo, afluem a Portugal e precisam de acolhimento e de integração sociocultural”.

Pastoral social em todas as paróquias

Antes da intervenção do Cardeal-Patriarca, o diácono Carlos Borges, que dinamizou o encontro onde foram apresentadas 19 instituições sociais e obras de caridade da vigararia, sublinhava que cada uma das 13 paróquias da Vigararia de Oeiras tem “os mais variados grupos a dedicarem uma atenção especial às diversas pobrezas, a olhar as pessoas mais esquecidas, mais distanciadas, que esperam da Igreja uma sensibilidade e um olhar de consideração, um olhar de Jesus Cristo”. “Praticamente todas as paróquias têm o Centro Social Paroquial. Encontramos grupos de Visitadores, grupos de Vicentinos, grupos de Pastoral da Saúde, grupos de Pastoral Penitenciária, grupos de Pastoral da Deficiência”, exemplificou este diácono permanente, que é colaborador da Paróquia de Barcarena.

in Jornal Voz da Verdade
Patriarcado de Lisboa

O Papa a bispos do Mediterrâneo: não há alternativa possível à paz


 O Papa Francisco em Bari, no encontro com os Bispos do
Mediterrâneo, na Basílica de S. Nicolau

“A construção da paz, que a Igreja e toda a instituição civil devem sempre sentir como uma prioridade, tem como pressuposto indispensável a justiça. Esta acaba espezinhada quando são ignoradas as exigências das pessoas e onde os interesses económicos duma parte prevalecem sobre os direitos dos indivíduos e da comunidade”, disse o Papa no encontro com os Bispos do Mediterrâneo, este domingo (23/02), na cidade italiana de Bari.

Raimundo de Lima - Cidade do Vaticano 

O objetivo de toda a sociedade humana continua a ser a paz, pelo que reafirmo que “não há alternativa possível à paz” para ninguém. Foi o que disse o Papa Francisco na manhã deste domingo (23/02) no encontro com os Bispos do Mediterrâneo, na Basílica de São Nicolau, em Bari, região italiana da Puglia, sul da Península, no âmbito do Encontro de reflexão e espiritualidade “Mediterrâneo, fronteira de paz”, promovido pela Conferência Episcopal italiana (CEI).

O encontro reúne as Igrejas do Mediterrâneo e o Santo Padre disse vislumbrar na iniciativa a possibilidade de se iniciar um processo de escuta e confronto que contribua para a construção da paz nesta área crucial do mundo. 

Bari, laços com o Médio Oriente e o continente africano

O Pontífice destacou a importância deste encontro na cidade de Bari, tão importante pelos laços que tem, quer com o Médio Oriente como com o continente africano, sinal eloquente de quão enraizadas estejam as relações entre povos e tradições diferentes. Além disto, a Arquidiocese de Bari manteve sempre vivo o diálogo ecuménico e inter-religioso, trabalhando incansavelmente por estabelecer laços de estima mútua e fraternidade.

“Não foi por acaso que há um ano e meio escolhi encontrar, precisamente neste local, os responsáveis das comunidades cristãs do Médio Oriente para um momento importante de confronto e comunhão, que ajudasse as Igrejas irmãs a caminharem juntas e a sentirem-se mais solidárias”, frisou. 

Meditarrâneo ameaçado por instabilidade e guerra

“O anúncio do Evangelho não pode dissociar-se do empenho pelo bem comum e impele-nos a agir como incansáveis pacificadores”, disse Francisco.

“Hoje, a área do Mediterrâneo está ameaçada por muitos focos de instabilidade e guerra, quer no Médio Oriente como em vários Estados do norte da África, bem como entre diferentes etnias ou grupos religiosos e confessionais; e não podemos esquecer também o conflito ainda não resolvido entre israelitas e palestinos, correndo o perigo de soluções não equitativas e, consequentemente, pressagiadoras de novas crises.” 

Não há alternativa sensata à paz

“A guerra, que encaminha os recursos para a aquisição de armas e a força militar, desviando-os das funções vitais da sociedade como o apoio às famílias, à saúde e à instrução, vai contra a razão, de acordo com os ensinamentos de São João XXIII”, disse, referindo-se a uma passagem da encíclica Pacem in terris.

Não há qualquer alternativa sensata à paz, porque todo o projeto de exploração e supremacia brutaliza tanto por quem fere, como a quem é ferido, e revela uma conceção míope da realidade, uma vez que priva do futuro não apenas o outro mas também o próprio. Assim, “a guerra aparece como o falir de todo o projeto humano e divino”, ressaltou. 

Justiça, pressuposto indispensável para a paz

“A construção da paz, que a Igreja e toda a instituição civil sempre deve sempre sentir como uma prioridade, tem como pressuposto indispensável a justiça. Esta acaba espezinhada quando são ignoradas as exigências das pessoas e onde os interesses económicos duma parte prevalecem sobre os direitos dos indivíduos e da comunidade.”

“Para que serve uma sociedade que alcança sempre novos resultados tecnológicos, enquanto se torna cada vez menos solidária para com os necessitados?” – perguntou o Santo Padre. “Ao contrário – disse –, com o anúncio do Evangelho, transmitimos a lógica segundo a qual não existem últimos e esforçamo-nos para que a Igreja, através dum empenho cada vez mais ativo, seja sinal de atenção privilegiada pelos humildes e os pobres.” 

Irmãos forçados a abandonar a pátria

Entre as pessoas mais atribuladas na área do Mediterrâneo, contam-se as que fogem da guerra ou deixam a sua terra em busca de uma vida digna do homem. O número destes irmãos – forçados a abandonar afetos e a pátria e a sujeitarem-se a condições extremamente precárias – tem vindo a aumentar por causa do incremento dos conflitos e das trágicas condições climáticas e ambientais de áreas sempre mais amplas, observou.

Estamos cientes de que, em vários contextos sociais difundiu-se um sentido de indiferença e até de rejeição, disse Francisco. “Cresce um sentimento de medo, que leva a erguer as próprias defesas perante aquilo que, instrumentalmente, é descrito como uma invasão. A retórica do choque de civilizações serve apenas para justificar a violência e alimentar o ódio.” 

Elevar a voz pela tutela das minorias e da liberdade religiosa

Pela nossa vez, irmãos, levantamos a voz para pedir aos governos a tutela das minorias e da liberdade religiosa. A perseguição de que são vítimas sobretudo, mas não só, as comunidades cristãs é uma ferida que dilacera o nosso coração e não nos pode deixar indiferentes, disse Francisco, afirmando com veemência:

“Jamais aceitaremos que pessoas que procuram por um mar a esperança, morram sem receber socorro, nem que alguém que chega de longe acabe vítima de exploração sexual, tanto mal pago como contratado pelas máfias.” 

Não levantar muros, o outro como portador de riqueza 

Obviamente, disse, “a hospitalidade e uma integração digna são etapas dum processo não fácil; mas é impensável poder enfrentá-lo levantando muros. Antes, desta maneira, é-nos impedido o acesso à riqueza de que o outro é portador e que constitui sempre uma oportunidade de crescimento”. 

Superar preconceitos e estereótipos

O Papa afirmou ainda que o Mediterrâneo tem uma vocação peculiar: é o mar da mestiçagem, “culturalmente aberto sempre ao encontro, ao diálogo e à mútua inculturação”. “Só o diálogo permite encontrarmo-nos, superar preconceitos e estereótipos, contar e conhecermo-nos melhor a nós mesmos” frisou.

Para quem acredita no Evangelho, o diálogo tem um valor não apenas antropológico, mas também teológico, observou, acrescentando que “é necessário elaborar uma teologia do acolhimento e do diálogo, que reinterprete e reproponha a doutrina bíblica”.

Ao terminar o encontro com os Bispos do Mediterrâneo o Papa desceu à Cripta da Basílica para venerar as relíquias de São Nicolau e saudou os Padres Dominicanos.



VN

Papa na Missa em Bari: optemos pelo amor, mesmo contracorrente

 
Missa presidida peo Papa Francisco em Bari
 
“Se quisermos ser discípulos de Cristo, se nos quisermos chamar cristãos, este é o caminho. Amados por Deus, somos chamados a amar; perdoados, a perdoar; tocados pelo amor, a dar amor sem esperar que comecem os outros; salvos gratuitamente, a não procurar lucro algum no bem que fazemos”, disse o Papa na Missa celebrada este domingo na cidade italiana de Bari, na conclusão do Encontro de reflexão e espiritualidade "Mediterrâneo, fronteira de paz"
 
Cidade do Vaticano

“Aí está a revolução de Jesus, a maior da história: do inimigo a odiar passar ao inimigo a amar; do culto do lamento, à cultura do dom. Se formos de Jesus, este é o caminho!” Foi a indicação do Papa na missa celebrada na manhã deste domingo (23/02) na cidade de Bari, sul da Itália, no encerramento do Encontro de reflexão e espiritualidade “Mediterrâneo, fronteira de paz”, promovido pela Conferência Episcopal Italiana (CEI), ocasião em que Francisco encontrou patriarcas, cardeais, bispos e sacerdotes participantes.

Na homilia da celebração, presidida no Corso Vittorio Emanuele II, centro de Bari, o Santo Padre ateve-se à página do Evangelho deste VII Domingo do Tempo Comum, em cujas leituras somos chamados à santidade.

Francisco ressaltou que nela Jesus cita a lei antiga do “olho por olho e dente por dente”, que já era um progresso, porque impedia retaliações mais graves, para dizer que o Filho de Deus vai mais além, muito mais além!

“Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau” (Mt 5, 39). Mas como, Senhor? Se alguém pensa mal de mim, se alguém me faz mal, não posso retribuir-lhe com a mesma moeda? “Não” – diz Jesus. Não à violência, nenhuma violência, frisou o Pontífice.
 
Qual é o motivo pelo qual Jesus pede para amar mesmo a quem nos faz mal? – perguntou o Papa, respondendo:

“Porque o Pai, o nosso Pai, ama sempre a todos, mesmo quando não é correspondido. Ele ‘faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus, e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores’ (Mt 5, 45).”

Francisco lembrou que Jesus “não levantou a mão contra aqueles que O condenaram injustamente e mataram cruelmente, mas abriu-lhes os braços na cruz. E perdoou a quem Lhe fincou os cravos nos pulsos”.

“Se quisermos ser discípulos de Cristo, se nos quisermos chamar cristãos, este é o caminho. Amados por Deus, somos chamados a amar; perdoados, a perdoar; tocados pelo amor, a dar amor sem esperar que comecem os outros; salvos gratuitamente, a não procurar lucro algum no bem que fazemos.”

“‘Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem’. É a novidade cristã, a especificidade cristã”, ressaltou. “Orar e amar: isto é o que devemos fazer; e não só com quem nos ama, não só com os amigos, não só com os do nosso povo, porque o amor de Jesus não conhece fronteiras nem barreiras. O Senhor pede-nos a coragem dum amor sem cálculos. Porque a medida de Jesus é o amor sem medida.”

Quantas vezes negligenciamos os seus pedidos, comportando-nos como todo mundo, observou o Papa, acrescentando:“O mandamento do amor não é uma simples provocação; está no coração do Evangelho. Sobre o amor para com todos, não procuremos desculpas, nem apregoemos prudências que nos são cómodas. O Senhor não Se mostrou prudente, não desceu a compromissos, pediu-nos o extremismo da caridade. É o único extremismo cristão: o do amor."

Francisco afirmou ainda que o culto a Deus é contrário à cultura do ódio. E a cultura do ódio combate-se, contrariando o culto do lamento.“Quantas vezes nos lamentamos do que não recebemos, daquilo que está errado! Jesus bem sabe que muitas coisas estão erradas, que haverá sempre alguém que nos quer mal, até mesmo alguém que nos perseguirá. Mas a nós, Jesus pede-nos apenas para rezar e amar.”

Nos “getsêmanis” de hoje, ressaltou, no nosso mundo indiferente e injusto, onde parece assistir-se à agonia da esperança, “o cristão não pode fazer como aqueles discípulos que, primeiro, empunharam a espada e, depois, fugiram. Não! A solução não é desembainhar a espada contra alguém, nem sequer fugir dos tempos que vivemos. A solução é o caminho de Jesus: o amor ativo, o amor humilde, o amor levado ‘até ao extremo’”.

Francisco concluiu afirmando que com o seu amor sem limites Jesus eleva o nível da nossa humanidade, e que se a meta fosse impossível o Senhor não nos teria pedido para a atingir.

“Mas, sozinhos, é difícil. É uma graça que devemos pedir. Suplicar a Deus a força de amar, dizendo-Lhe: ‘Senhor, ajudai-me a amar; ensinai-me a perdoar’”, acrescentou.

“Não nos deixemos condicionar pelo pensamento comum – foi a exortação final do Santo Padre –, nem nos contentemos com meias medidas. Acolhamos o desafio de Jesus, o desafio da caridade. Seremos verdadeiros cristãos e o mundo será mais humano.”

VN

22 fevereiro, 2020

Reflexão para o VII Domingo do Tempo Comum: "Chamados à Santidade"


Todos são chamados por Deus à Santidade

No Evangelho, Jesus confirma esta nossa filiação e propõe-nos: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito! Isto fala ele fala depois de nos exortar a uma vida de amor e de perdão em relação ao nosso próximo. 

Pe. Cesar Augusto dos Santos - Cidade do Vaticano 

O Senhor criou-nos para sermos santos e o sermos como Ele é. Todo o filho quer ser igual ao seu pai – se a referência é boa - e a menina tem na sua mãe um modelo a ser seguido.

Do mesmo modo, o Senhor compraz-se que sejamos semelhantes a Ele, pois, de facto, fomos criados à sua imagem e semelhança.

A primeira leitura de hoje, tirada do Levítico diz-nos: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”.

E o que é ser santo? De acordo com a leitura é não ter ódio, é alertar o outro para que não peque, é não ser vingativo, é não guardar rancor e amar o próximo como a si mesmo.

Ser santo é agir de modo diferente das outras pessoas que não conhecem a sua origem divina. Quem sabe de onde vem, qual é sua família e tem consciência disso, porta-se de um modo nobre, porque sabe qual é o valor do seu sangue.

Nós, não apenas fomos criados por Deus à sua imagem e semelhança, mas fomos lavados pelo sangue de Cristo e renascidos no batismo. Somos verdadeiramente filhos do Santo

No Evangelho, Jesus confirma esta nossa filiação e propõe-nos: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito! Isto ele diz depois de nos exortar a uma vida de amor e de perdão em relação ao nosso próximo. Não retribuir ofensas e agressões, não odiar o inimigo e amá-lo, enfim agir como o Pai.

Por fim, a segunda leitura, a primeira carta de São Paulo aos Coríntios, alerta-nos ao dizer-nos que somos templo do Espírito Santo. São Paulo acrescenta que a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus. Com isso Paulo deseja dizer-nos que o nosso modelo de vida, o nosso parâmetro deverá ser Deus, nosso Pai e Jesus Cristo, o Verbo Encarnado.

Não nos iludamos: os valores mundanos não nos darão a felicidade desejada, só Deus a dará. Somente Jesus tem palavras de vida eterna!

VN

Novos beatos: o sacerdote jesuíta Rutílio Grande e o jovem Carlo Acutis


Carlo Acutis e Rutílio Grande

O Papa Francisco autorizou a Congregação para as Causas dos Santos a promulgar os Decretos que aprovam novas beatificações e canonizações, assim como novos Servos de Deus. Entre os novos beatos, o padre jesuíta de El Salvador Rutílio Grande García e o jovem italiano Carlo Acutis  

Cidade do Vaticano

Serão beatificados o sacerdote jesuíta Rutílio Grande García e dois dos seus companheiros. A notícia foi dada pelo cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, depois da autorização do Papa Francisco para promulgar os respectivos Decretos. O padre Rutílio morreu assassinado em 12 de março de 1977 em El Paisnal, El Salvador por ódio à fé. Também será beatificado o jovem italiano Carlo Acutis citado como exemplo pelo Papa para os jovens, na Exortação pós-sinodal pela sua relação saudável com as novas tecnologias

Também serão proclamados santos, o leigo Beato Lazzaro, conhecido como Devasahayam, morto por ódio à fé na Índia em 1752 e uma religiosa, a Beata Maria Francisca de Jesus (de nome original, Ana Maria Rubatto), fundadora das irmãs Terciárias Capuchinhas de Loano, nascida em Carmagnola (Itália) em 1844 e falecida em Montevideu (Uruguai) em 1904.

Com o reconhecimento das virtudes heróicas, serão Servos de Deus: o sacerdote diocesano Emilio Venturini, fundador da Congregação das Irmãs Servas de Maria Dolorosa, nascido em Chioggia no Vêneto (1842-1905); o sacerdote diocesano Pirro Scavizzi, de Gubbio (1884-1964); Emílio Recchia, sacerdote professo da Congregação dos Sagrados Estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo, nascido em Verona (1888-1969); e o leigo Mario Hiriart Pulido, nascido em Santiago do Chile (1931-1964).

VN

21 fevereiro, 2020

Eutanásia - A defesa da vida 'continua' e implica todos



Cardeal-Patriarca afirma que a vida “no seu todo” é uma convicção que “permanece, independentemente do que possa acontecer legislativamente” e implica todos “como sociedade, crentes e não crentes”. 

No dia em que o Parlamento português votou favoravelmente os projetos de lei a favor da legalização da eutanásia, o Cardeal-Patriarca sublinhou que a “luta” pela defesa da vida “continua”. “O apelo que eu tenho a fazer é o que tenho feito: esta é uma frente comum, é uma frente humana essencial, não podemos deixar ninguém sozinho ao longo da sua vida, sobretudo, quando mais precisam de nós. Os clínicos, famílias e voluntários que estão perto de quem sofre dizem que, em geral, as pessoas não querem partir porque estão acompanhadas. A convivência é que é a vida”, destacou D. Manuel Clemente em declarações aos jornalistas, nesta quinta-feira, 20 de fevereiro, após a Missa, no Hospital Dona Estefânia, onde se assinalou o centenário da morte de Santa Jacinta Marto. 

“O que nos interessa a todos é que a vida seja devidamente contemplada em todo o arco existencial, da conceção à morte natural. Isto é uma luta, uma insistência. É uma convicção que permanece. Independentemente do que possa acontecer legislativamente, a causa continua”, afirmou.

Maior presença

Momentos antes de estar concluída a votação dos projetos de lei, o Cardeal-Patriarca voltou a sublinhar a necessidade de uma sociedade “mais presente” no cuidado para com todas as pessoas. “Isto implica a todos nós, como sociedade, crentes ou não crentes, uma outra atenção às pessoas. Não basta dizer, como nós dizemos, que a vida tem de ser contemplada no seu todo, porque se nós começamos a fazer exceções, mesmo que seja a pedido, depois, a vida, não se aguenta na sua inteireza. Por isso, como sociedade, temos que estar muito mais presentes”, sublinhou D. Manuel Clemente. “Nós temos que ter um outro cuidado à vida na sua plenitude e é isto que nós queremos fazer, para não deixar ninguém sozinho com o seu sofrimento, físico ou psíquico, mas estarmos ao pé delas”, acrescentou.

Patriarcado de Lisboa

Papa a ortodoxos: acolher como dom para nós o que o Espírito semeou no outro



“A vossa visita não é somente ocasião para aprofundar o conhecimento da Igreja católica, mas é também para nós católicos uma oportunidade para acolher o dom do Espirito que está em vós. A vossa presença permite-nos esta troca de dons e é motivo de alegria”, disse o Papa nesta sexta-feira (21/02) a uma delegação de sacerdotes e monges das Igrejas ortodoxas orientais 

Raimundo de Lima - Cidade do Vaticano

O Santo Padre concluiu a sua série de audiências nesta sexta-feira (21/02) recebendo às 12h20 locais, na Sala dos Papas, no Vaticano, uma delegação de jovens sacerdotes e monges das Igrejas ortodoxas orientais, numa visita de estudo.

Ao dar as boas-vindas, o Pontífice manifestou a sua alegria pela visita e dirigiu, através dos presentes, uma saudação particular aos meus “veneráveis e queridos Irmãos, Chefes das Igrejas ortodoxas orientais, disse.

Francisco ressaltou que uma visita é sempre uma troca de dons. Quando a Mãe de Deus visitou Isabel, partilhou com ela a alegria pelo dom que tinha recebido de Deus. “E Isabel, acolhendo a saudação de Maria que lhe fez saltar o menino no seu ventre, ficou repleta do dom do Espírito Santo e concedeu à prima a sua bênção”, ressaltou. 

Partilhar os dons do Espírito Santo

“Como Maria e Isabel, as Igrejas trazem em si vários dons do Espírito, a partilhar pela alegria e o bem recíprocos. Deste modo – disse –, quando nós cristãos de diferentes Igrejas nos visitamos, encontrando-nos no amor do Senhor, temos a graça de partilhar esses dons.”

“Que possamos acolher o que o Espírito semeou no outro como um dom para nós. Neste sentido, a vossa visita não é somente uma ocasião para aprofundar o conhecimento da Igreja católica, mas é também para nós católicos uma oportunidade para acolher o dom do Espirito que está em vós. A vossos presença permite-nos esta troca de dons e é motivo de alegria” 

Igrejas que marcaram no sangue a fé em Cristo

Citando o apóstolo Paulo, o Papa disse também agradecer a Deus pela graça concedida aos sacerdotes e monges da delegação em visita. “Tudo parte daí, do ver a graça, do reconhecer a obra gratuita de Deus, do crer que Ele é o protagonista do bem que está em nós.” Esta é beleza do olhar cristão sobre a vida. E é também a perspectiva na qual acolher o irmão, como o Apóstolo Paulo ensina, disse ainda, acrescentando:

“Portanto, estou grato por vós, pela graça que acolheram na vida e nas vossas tradições, pelo sim do vosso sacerdócio e da vida monástica, pelo testemunho dado pelas várias Igrejas ortodoxas orientais, Igrejas que marcaram no sangue a fé em Cristo e que continuam a ser sementes de fé e de esperança também em regiões marcadas, infelizmente, pela violência e pela guerra.” 

Não hóspedes, mas irmãos

Antes de despedir-se, o Santo Padre fez votos de que eles tivessem tido uma experiência positiva da Igreja católica e da cidade de Roma e que se tenham sentido não hóspedes, mas irmãos.
“O Senhor encontra contentamento nisto, na fraternidade entre nós. Que a vossa visita, e as que com a ajuda de Deus poderão seguir-se, possam agradar e dar glória ao Senhor! Que a vossa presença se torne uma pequena semente fecunda para fazer germinar a comunhão visível entre nós, aquela unidade plena que Jesus deseja ardentemente.”
Francisco concluiu renovando o seu cordial agradecimento pela visita, assegurando as suas orações por eles, confiando também as orações deles para si e pelo seu ministério. Por fim, convidou-os a rezarem juntos, cada um na própria língua, o Pai-Nosso.

VN

20 fevereiro, 2020

Papa: ser cristão significa aceitar o caminho de Jesus até à cruz

 
 
O cristão é quem aceita o caminho percorrido por Jesus para nos salvar, isto é, o caminho da humilhação. Foi o que disse o Papa Francisco na missa desta manhã na Casa de Santa Marta. Quando os cristãos, os sacerdotes, os bispos e os próprios Papas não seguem este caminho, erram. E o Pontífice acrescentou: peçamos a graça da coerência cristã para não usar o cristianismo para fazer carreira.
 
Adriana Masotti – Cidade do Vaticano

“Quem dizem os homens que eu sou?” E vós, que dizeis quem eu sou?'” São as perguntas feitas por Jesus no trecho do Evangelho da liturgia de hoje e sobre as quais Francisco se baseou para fazer a sua homilia ao celebrar a missa na capela da Casa de Santa Marta. 

As três etapas

O Evangelho, afirmou, ensin-nos as etapas já percorridas pelos apóstolos para saber quem é Jesus. São três: conhecer, professar e aceitar o caminho que Deus escolheu para Ele.

Conhecer Jesus, observou o Papa, é o que “fazemos todos nós” quando  pegamos no Evangelho, procuramos conhecer Jesus, quando levamos as crianças ao catecismo, quando as levamos à missa, mas é só o primeiro passo. O segundo é professar Jesus.

E isto, sozinhos, não podemos fazer. Na versão de Mateus, diz: “Jesus disse a Pedro: ‘Isto não vem de ti. O Pai revelou-te”. Somente podemos professar Jesus com a força de Deus, com a força do Espírito Santo. Ninguém pode dizer Jesus na confissão e confessá-Lo sem o Espírito, diz Paulo. Nós não podemos confessar Jesus sem o Espírito. Por isso, a comunidade cristã dee procurar sempre a força do Espírito Santo para professar Jesus, para dizer que Ele é Deus, que Ele é o Filho de Deus. 

Aceitar o caminho de Jesus até a cruz

Mas qual é a finalidade da vida de Jesus, por qual motivo Ele veio? Responder a esta pergunta significa realizar a terceira etapa no caminho do conhecimento de Cristo. E o Papa recordou que Jesus começou a ensinar os apóstolos que deveriam sofrer, morrer e depois ressuscitar.

Professar Jesus é professar a Sua morte, a Sua ressurreição; não é professar: “Tu és Deus” e parar ali. Não: “Viestes por nós e morreste por mim. E ressuscitastes deste-nos a vida, prometeste-nos o Espírito Santo para nos guiar”. Professar Jesus significa aceitar o caminho que o Pai escolheu para Ele: a humilhação. Paulo, ao escrever aos Filipenses, diz: “Deus enviou o Seu Filho, o qual se aniquilou a si mesmo, fez-se servo, humilhou-se a si mesmo, até à morte e morte de cruz”. Se não aceitamos o caminho de Jesus, o caminho da humilhação que Ele escolheu para a redenção, não somos cristãos e merecemos o que Jesus disse a Pedro: “Vai para longe de mim, Satanás!”. 

A Igreja não pode tornar-se mundana

Francisco explicou que Satanás sabe que Jesus é o Filho de Deus, mas Jesus rejeita a sua “confissão”, assim como afasta Pedro quando não quer aceitar o caminho escolhido por Jesus. “Professar Jesus – afirmou o Papa – é aceitar o caminho da humildade e da humilhação. E quando a Igreja não percorre este caminho, erra e acaba mundana.

E quando nós vemos tantos cristãos bons, não? Com boa vontade, mas confundem a religião com um conceito social de bondade, de amizade, quando nós vemos tantos clérigos que dizem seguir Jesus, mas procuram as honras, o caminho da mundanidade, não buscam Jesus: buscam-se a si mesmos. Não são cristãos; dizem ser cristãos, mas de nome, porque não aceitam o caminho de Jesus, da humilhação. E quando lemos na história da Igreja tantos bispos que viveram assim e também tantos Papas mundanos que não conheceram o caminho da humilhação, não o aceitaram, devemos aprender que aquele não é o caminho.
 
O Papa concluiu com o convite a pedir “a graça da coerência cristã” para “não usarmos o cristianismo para fazer carreira”, a graça de seguir Jesus no seu próprio caminho, até à humilhação.

VN

19 fevereiro, 2020

Audiência: Não há terra mais bela a conquistar do que o coração dos outros

 
 
“Bem-aventurados os mansos, porque receberão a terra em herança”: o Papa Francisco explicou o significado da terceira bem-aventurança, dando continuidade ao ciclo de catequeses sobre este tema.
 
Bianca Fraccalvieri – Cidade do Vaticano

O Papa Francisco reuniu-se com milhares de fiéis e peregrinos na Sala Paulo VI para a Audiência Geral desta quarta-feira (19/02).

A sua catequese foi dedicada à terceira das oito bem-aventuranças: “Bem-aventurados os mansos, porque receberão a terra em herança”.

Francisco explicou o significado da palavra “manso”, que é literalmente “doce, gentil, sem violência”. A mansidão manifesta-se nos momentos de conflito, de come se reage numa situação hostil, e não nos momentos de tranquilidade. Jesus deu-nos o maior exemplo de mansidão quando, pregado na Cruz, perdoou seus algozes. “A mansidão de Jesus vê-se fortemente na Paixão”, disse o Papa. 

Mansidão e posses

Nas Escrituras, a palavra “manso” indica também aquele que não tem propriedades terrenas, por isso a terceira bem-aventurança diz que os mansos receberão a terra em herança.

Isto pode parecer incompatível, mas a posse de terras é o âmbito típico do conflito: combate-se com frequência por um território, para obter a hegemonia sobre um lugar. Nas guerras, o mais forte prevalece e conquista outras terras.

Mas a bem-aventurança fala de “herança”, que nas Escrituras tem um sentido ainda mais profundo. O Povo de Deus chama “herança” justamente a terra de Israel, que é a Terra Prometida.

Aquela terra é uma promessa e um dom para o povo de Deus e torna- se sinal de algo muito maior e mais profundo do que um simples território.
“Há uma 'terra' - permitam-me o jogo de palavras - que é o Céu, isto é, a terra para a qual caminhamos.”
Herdar o mais sublime dos territórios
 
Então o manso é quem “herda” o mais sublime dos territórios. Ser manso não é ser covarde, pelo contrário, é o discípulo de Cristo que aprendeu bem a defender outra terra.

"Ele defende a Sua paz,  a sua relação com Deus e os seus dons, protegendo a misericórdia, a fraternidade, a confiança e a esperança. Porque as pessoas mansas são misericordiosas, fraternas, confiantes e com esperança."

Francisco mencionou o pecado da ira e todas as coisas que destruímos quando nos manifestamos: perde-se o controle e não se avalia o que é realmente importante, e pode-se arruinar a relação com um irmão, às vezes sem remédio. “Por causa da ira, muitos irmãos não se falam mais, afastam-se. É o contrário da mansidão. A mansidão reúne. A ira separa.”

A mansidão, ao contrário, conquista tantas coisas. A “terra” a conquistar é a salvação daquele irmão de que fala o mesmo Evangelho de Mateus: "Se te ouvir, ganhaste o teu irmão":
“Não há terra mais bela do que o coração dos outros. Pensemos nisto: Não há terra mais bela do que o coração dos outros. Não há território mais belo a conquistar do que a paz restabelecida com um irmão. Esta é a terra a ser herdada com a mansidão!”
VN

18 fevereiro, 2020

Papa em Santa Marta: seremos julgados pela compaixão, não pelas ideologias



Que o Senhor nos dê a graça de ter um coração repleto de compaixão e não fechado, duro, ideologizado diante da realidade: esta é a oração que resume a homilia do Papa na missa celebrada na capela da sua residência.

Gabriella Ceraso – Cidade do Vaticano 

O Papa Francisco celebrou a missa na capela da Casa de Santa Marta e na sua homilia comentou o Evangelho de Marcos, que narra o episódio em que os discípulos entraram na barca com Jesus e preocupam-se com a gestão de algo material: “discutiam entre si porque não tinham pão”. Jesus adverte-os: "Por que discutis sobre a falta de pão? Ainda não entendeis e nem compreendeis? Vós tendes o coração endurecido? Tendo olhos, vós não vedes, e tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais de quando reparti cinco pães para cinco mil pessoas? Quantos cestos recolhestes cheios de pedaços?" 

Há ideologia quando falta compaixão

A reflexão do Papa partiu destas palavras para mostrar a diferença entre um "coração endurecido", como o do discípulo, e um “coração compassivo”, como o do Senhor, que expressa a Sua vontade.

E a vontade do Senhor é a compaixão: “Quero Misericódia, e não sacrifício”. E um coração sem compaixão é um coração idolátrico, é um coração auto-suficiente, que vai em frente amparado pelo próprio egoísmo, que se torna forte somente com as ideologias. Pensemos nestes quatro grupos ideológicos do tempo de Jesus: os fariseus, os saduceus, os essênios e os zelotas. Quatro grupos que tinham endurecido o coração para levar em frente um projeto que não era o de Deus; não havia lugar para o projeto de Deus, não havia lugar para a compaixão. 

Jesus é o remédio para toda dureza do coração

Mas existe um remédio contra a dureza do coração: é a memória. Por isso, no Evangelho de hoje e em tantos trechos da Bíblia, volta como uma espécie de “refrão” o chamamento ao poder salvífico da memória, uma “graça” a ser pedida, disse Francisco, porque “mantém o coração aberto e fiel”.

Quando o coração endurece, esquece-se... esquece-se a graça da salvação, esquece-se a gratuiticidade. O coração duro leva às brigas, leva às guerras, leva ao egoísmo, leva à destruição do irmão, porque não existe compaixão. E a maior mensagem de salvação é que Deus sentiu compaixão por nós. Aquele refrão do Evangelho, quando Jesus vê uma pessoa, uma situação dolorosa: “Sentiu compaixão”. Jesus é a compaixão do Pai, Jesus é a afronta a toda dureza de coração.  

Ter um coração "no ar" 

Portanto, pedir a graça de ter um coração "não ideologizado" e endurecido, mas "no ar", "aberto e compassivo" diante do que acontece no mundo, porque – recordou o Papa – sobre isto seremos julgados no dia do juízo, não pelas nossas “ideias" ou pelas nossas “ideologias”.

“Tive fome e me destes de comer; estive preso e viestes visitam-me, estive aflito e consolaste-me”, está escrito no Evangelho e esta – afirmou Francisco - é a compaixão, esta é a não dureza do coração”. E a humildade, a memória das nossas raízes e da nossa salvação que nos ajudará a mantê-lo assim. Eis então a oração conclusiva do Papa:

Cada um de nós tem algo que endureceu no coração. Façamos memória e que seja o Senhor a dar-nos um coração reto e sincero que pedimos na oração da coleta, onde habita o Senhor. Nos corações endurecidos o Senhor não pode entrar; nos corações ideológicos o Senhor não pode entrar. O senhor entra somente nos corações que são como o Seu: os corações compassivos, os corações que têm compaixão, os corações abertos. Que o Senhor nos dê esta graça.

VN