15 abril, 2010

Retiro Anual Diocesanao - 2010

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Não desprezeis, Senhor, um espírito humilde e contrito (SL 50, 19)



 ORADOR







Pe. Bruno Machado
Assistente Diocesano
do RCC da Diocese de Lisboa



 Para ouvir na íntegra o Orador, clique na frase abaixo:


 1.º ensinamento
Tópicos para reflexão - síntese
(Pe. Bruno Machado) 


Salmo 51 “Um coração humilhado e contrito”.
David é cada um de nós. Também fomos escolhidos e trocamos Deus por coisa pouca. David era um homem piedoso, um santo. Um santo não é perfeito, mas é o que reconhece o dom de Deus e vai ao seu encontro. Renova e dá firmeza ao meu Espírito. É isto que precisamos pedir.


Lucas 15, 11-32 – O Filho Pródigo
Nesta história está a história do nosso pecado (…).
O filho mais novo é o que quer tudo para si, arrecada tudo para si.
E o pecado consiste em estar sempre voltado para aquilo que eu quero, num permanente olhar para mim. E quando assim é partimos para uma terra longínqua, afastamo-nos dos outros, da comunidade.
Esbanja tudo consigo (…), como nós que fazemos tudo para satisfazer os nossos desejos. Atrás de uma bagatela, vem outra. Estamos sempre desejosos de estar descansadinhos. Há sempre o desejo de mais.
Somos este filho mais novo, tentados a viver entregues às nossas próprias forças.
E aonde tudo isto leva o filho mais novo? Até ao mais baixo do baixo, entregue aos porcos, atormentado ao mais fundo da sua dignidade (…).
O pecado fecha-nos em nós mesmos, deixa-nos atormentados. Hoje em dia vendem-se mais anti-depressivos (…) porque as pessoas se afastaram de Deus.
O pecado afasta-nos da alegria e da esperança, que só Deus as pode dar.
O pecado é muito aliciante e nos chama a guardar tudo para nós e vivemos vazios (…) e, só nos damos conta disso, quando chegamos a uma provação. E isso não nos dá felicidade, nem vida. E é aí, que nós damos conta, porque a Palavra de Deus é verdadeira. O Senhor que fez o céu e a terra não precisa de nada nosso, nem do nosso tempo, nem do nosso dinheiro.
Como diz Santa Teresa “quem tem Deus, tem tudo e coisas que nunca imaginou ter”. Mas vivemos fechados como a ostra que esconde a pérola.
E quando se dá conta do pecado, o que o filho mais novo faz é levantar-se e ir ter com o Pai (…). Quando reconhecemos, levantamos o coração e reconhecemos as nossas faltas e vamos ao encontro do Senhor que se antecipa.
É muito difícil reconhecer a miséria, porque olhamos para nós e achamos que tudo é bom, mas não é bem assim (…). Contudo Deus é misericordioso e quer dar-nos tudo, esbanjar a sua misericórdia connosco. Por isso nos convida a termos este coração contrito e humilhado.
Deus não nos quer mortos, mas para isso é preciso uma dor da alma. O verbo utilizado, levantou-se, é correspondente à ressurreição. Deus sofre connosco porque nos vê cansados, humilhados e por isso corre para nós. Veste-nos uma veste nova. Cobre-nos de beijos e calça-nos as sandálias.
E o Pai não tem uma palavra de repreensão, mas de amor, de ternura e alegra-se com a presença do filho.
Jesus morreu e deu a vida na cruz para nos dar a oportunidade de nos amar, Deus veio para nos libertar.
Deus está aqui porque se quer alegrar com a nossa conversão.
É necessário baixar as armaduras. O Senhor conhece-nos e por isso não temos de esconder nada. Os retiros também servem para estarmos a sós com Deus. Temos hoje muito medo da morte, porque só estamos nós e Deus. Por isso é importante que façamos esta experiência enquanto estamos vivos.
O filho mais velho é aquele que tem o coração duro, que está pertinho de Deus, mas nunca conheceu o dom de Deus (…).
Deus tira o bem do mal. Deus não é uma ideia, uma poeira cósmica, mas é uma pessoa próxima que nos quer dar a vida (…).
Quando adoramos o Senhor deixemos que o olhar de Deus nos toque, nos encontre.
Estar a sós, eu e Deus.
Perceber que Deus está por nós, onde é que Deus quer falar, quer trabalhar.
Deixar que Deus nos dê uma Palavra.
Estar de coração a coração. Não há nada a dizer está tudo dito (…).
Jesus não se escandaliza com o nosso pecado, mas senta-se à mesa connosco em cada Eucaristia.

Síntese do 2.º ensinamento
(Pe. Bruno Machado) 


“Não desprezeis Senhor um coração contrito e humilhado” – tema do Retiro que foi desenvolvido em 3 ensinamentos: um, na sexta-feira, baseado em Lc 15, 11-32 sobre a parábola do Filho Pródigo; o segundo, no sábado, a partir da palavra do Evangelho de Mc 12, 28-34; e o terceiro, testemunhar a misericórdia de Deus.
Nesta edição do Labat apresentamos uma síntese do segundo ensinamento.

Ensinamento de sábado

(…) A Palavra que o Senhor nos dirige esta manhã é tirada do evangelho de S. Marcos 12, 28-34.
A pergunta do escriba que se aproxima de Jesus é bem-intencionada, porque no tempo de Jesus era dado um grande valor a um grande número de preceitos e tradições. Havia uma certa confusão sobre qual deles seria o maior que deveríamos agarrar para sermos fiéis a Jesus.
Estes mandamentos e preceitos, alguns deles encontram-se no livro do Levítico; outros são da tradição do talmude dos rabinos. São muitas tradições acumuladas, transmitidas ao longo dos tempos, para preservar a identidade do povo de Israel e da identidade judaica.

E diante desta pergunta: “Mestre qual é o maior de todos os mandamentos da lei?” Jesus não faz referência ao decálogo, aos mandamentos que Deus deu a Moisés lá no monte.
Jesus remonta à tradição dos pais e responde-lhe com o Shemá Israel, o Senhor é o único Deus, amarás o Senhor teu Deus com toda a tua alma, com todas as tuas forças. Faz isto e serás feliz”.

Este texto do Shemá é muito importante para nós, é a oração privilegiada do povo de Israel e é por isso, também a oração privilegiada de Jesus. Jesus, como todos os israelitas, reza o shemá 3 vezes ao dia (…).
Este famoso Shemá é chamado o credo histórico de Israel, porque encerra esta profissão de fé: o Senhor é o único Deus, não há outro Deus para além do Senhor.
Jesus, nosso Senhor, assume estas palavras como o fundamento da sua relação com o Pai, como o fundamento da sua relação com Deus.
Jesus assume para si estas palavras do Shemá e por isso nós que somos os discípulos de Jesus, que somos os outros cristos, havemos de ter também estas palavras como fundamento da nossa relação com o Pai.
Escuta Israel é a primeira atitude do crente, diante de Deus nós somos todos ouvidos e não língua, escuta Israel, escuta o que o Senhor tem para ti, o que o Senhor diz à tua vida (…).

Escuta, escuta Israel. Faz do teu coração um coração que ouve, um coração que perscruta aquilo que sai da boca de Deus.
Então um coração crente é um coração aberto à novidade de Deus, é um coração que não se escuta a si mesmo, mas que escuta a palavra de Deus.
Olhai, muitas vezes nas orações escutamo-nos a nós mesmo e dizemos muitas palavras, muitas coisas, de tal forma que às vezes até nos esquecemos que estamos a falar com Deus.

Um coração que escuta a Palavra não escuta uma Palavra qualquer, mas uma Palavra criadora. Deus diz e acontece, como na obra da criação.
Deus diz e faz-se. Deus diz, o homem responde e Deus faz a maravilha.

Por isso a Palavra de Deus é uma Palavra criadora, é uma Palavra recreadora. Deus cria-nos e recria-nos constantemente através da sua Palavra e por isso é que é tão importante este Shemá, escuta a palavra que te cria e recria, que te dá a vida eterna de Deus.

Um coração crente é um coração que se deixa conduzir pela verdade revelada pelo próprio Deus, que se deixa conduzir pela verdade, como único critério para a sua vida.
É um coração vigilante que pede a Deus discernimento para acolher esta Palavra no concreto do dia-a-dia, no quotidiano e é esta a primeira coisa que temos de pedir todos os dias.
Não é saúde, não é que tenhamos um dia agradável, nem que o Senhor abençoe os nossos filhos. A primeira coisa é escuta, escuta que o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Depois de pedir isto a Deus podemos pedir tudo o resto, mas primeiro pedir a Deus um ouvido que escuta, um ouvido que desperta para a novidade de Deus.

Este Shemá Israel é a raiz da nossa espiritualidade, da nossa oração. Não seremos cristãos adultos se não treinarmos o nosso ouvido. Não seremos cristãos adultos se não escutarmos a Palavra que nos indica o caminho.
Não podemos ter a vida de Deus, se não escutarmos a sua Palavra. É o próprio Jesus que nos diz: quem é de Deus escuta as palavras de Deus, vós não as escutais porque não sois de Deus.
É muito importante, irmãos, porque está na hora de tirarmos aquele fatinho da primeira comunhão, de sermos cristãos adultos, viris, que se deixam recriar pela palavra de Deus. Desse modo, perceberemos que escutar a Palavra não é um trabalho menor, não é mais uma coisa, mas é a atitude fundante e fundamental do coração crente, do coração que acredita.
Quem não escuta a Palavra não pode viver a verdade porque não a conhece, como diz Jesus a Pilatos naquelas palavras dramáticas do pretório, quando Pilatos pergunta a Jesus tu és rei? E Jesus diz: é verdade Eu sou rei, para isto nasci, para isto vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que vive da verdade escuta a minha voz.
Por isso mesmo, rezar o Shemá pela manhã ajuda-nos a ter um coração aberto à palavra criadora de Deus e à sua vontade. Porque Deus está atento à nossa vida. Atende à nossa história concreta. Não está indiferente às nossas vicissitudes, às nossas dores, às nossas tribulações e é por isso, que precisamos de ouvir esta palavra de Deus que nos conduz e nos mostra o caminho.

Este é o caminho da felicidade. Faz isto e serás feliz. Nós, muitas vezes em situações concretas da nossa vida, queremos dizer a Deus: Oh Senhor, tu não vês isto, tu não vês aquilo, as minhas dores; olha isto olha, aquilo, como se fôssemos os autores da Palavra.
E isto, porque nós temos sempre a tentação terrível de construir a nossa história e então muitas vezes na nossa oração damos recados a Deus, lembramos Deus da nossa fragilidade, das nossas dores, das nossas vicissitudes. Quando deve ser o contrário. É Deus nos convida a escutar a sua vontade, a escutar a sua Palavra.
Deus é omnisciente, sabe tudo. Por isso, rezar o Shemá é também um exercício de humildade. Colocamo-nos nas mãos de Deus, quando Tu quiseres, como Tu quiseres e onde Tu quiseres. Aqui estou Senhor para fazer a Tua vontade. É o coração que se abre à novidade de Deus.

É também um convite à obediência, a seguir o caminho que Deus traçou para nós. Rezar o Shemá é uma profissão de fé. Nós não acreditamos muitas vezes.
Não acreditamos que Deus seja o Senhor da nossa história e por isso estamos sempre tentados a providenciar a resolver as coisas à nossa maneira. Pensamos que Deus nem sempre acerta.
Mas isso é um engano do demónio. É uma mentira que nos está sempre a dizer que se Deus fosse o autor da nossa história nós não teríamos esta vicissitude, não teríamos estes filhos, não teríamos este marido, nem estes pais, nem esta mulher, nem este emprego.
É um engano do demónio que nos diz olha lá, tu achas mesmo que Deus existe? Se Deus existisse, se Deus te amasse, não estarias nessa fragilidade, não estarias nessa precariedade.
E é verdade que nós damos ouvidos ao demónio que está sempre aqui a rosnar, que nos tenta enganar.
O demónio é como uma seta que não vai direita ao alvo. É isto que o demónio provoca no nosso caminho.
Então tudo o que Deus faz através da sua Palavra, criadora e recreadora, através da palavra incarnada que é Jesus Cristo a última Palavra de Deus, é a novidade de Deus, Jesus Cristo, é a Palavra que se faz carne, que se faz história e tudo o que Deus faz por Jesus Cristo é bom e belo, tudo o que Deus permite na nossa vida é para nosso bem, tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus, diz S. Paulo.

Por exemplo, esse marido que tu tens ou essa mulher é a escada que te levará ao céu, é para a tua conversão, é para não seres um tirano, para te relativizares e perceberes que não és tu o senhor, que não há outro senhor para além de Iavé. (…).
Essa comunidade que Deus te deu, que não é ideal nem poderia ser, porque ninguém se escolheu, mas foi Deus que escolheu a comunidade, o grupo de oração, esse irmão que te atrapalha, que fala muito, que diz sempre muitas coisas e com o passar dos anos vemos que diz sempre as mesmas coisas e que já não o podes ouvir. Esse irmão é para que tu te relativizes, é para que tu saias do teu trono, para que deixes a tua cadeira e te ponhas a caminho.

Então esta Palavra de S. Paulo “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” é uma palavra muito difícil de por em prática. Custa-nos muito aceitar e por isso reproduzimos em nós as murmurações do povo de Israel a caminho da terra prometida.
Deus faz maravilhas naquele povo, vai resgatá-lo da casa da escravidão, leva-o pelo deserto, abre o mar vermelho, derrota os inimigos e quando tudo está em paz, o povo tem fome e o que faz depois de ter visto tudo aquilo que Deus fez? Murmura: porque é que Tu nos tiras-te do Egipto. Lá tínhamos que comer. E Deus dá-lhes o maná que os acompanha até às portas da terra prometida onde eles podem semear.
Entretanto, tem sede e o que faz? O mesmo, vai ter com Moisés e pergunta, mas porque é que nos fostes buscar ao Egipto, para nos matares à sede e Deus providencia água no rochedo.

Passado um pouco Deus chama Moisés para subir ao monte para lhe dar as tábuas da lei e o decálogo, Moisés demora-se mais um pouco e o que acontece? Impaciente o povo fabrica um ídolo, um bezerro de ouro, e assim sucessivamente até chegarem à terra prometida.

É o que acontece connosco porque a história de Israel é a minha história e é a tua história.
 

Escutar Deus que me fala na escritura e na minha vida. A Palavra de Deus está na escritura, mas também se torna presente na minha vida concreta.

Shemá! Escuta o Senhor!

Labata n.º 103 de Abril de 2010

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REPORTAGEM



Síntese da Homilia de D. Joaquim Mendes
(Encerramento do Retiro)
- 21 de Março de 2010 -



O Senhor D. Joaquim Mendes falou-nos sobre como a conversão é um «êxodo» permanente e de como este é um convite a olhar um futuro novo, de esperança, que o Senhor prepara para o seu povo.
É na Páscoa que está “este futuro novo pleno e definitivo, que o Senhor nos oferece”.
É um anúncio de “um futuro de graça transformando o deserto num lugar de amor, de intimidade, de vida em Aliança, de comunhão com o seu povo”.
E “é assim que passo a passo, o Senhor edifica e forma o seu povo, através da experiência do êxodo, do caminho do retorno, da conversão, da oferta gratuita e perene do seu amor e da sua misericórdia, que assume em Cristo rosto, realidade, plenitude.
A Páscoa é a libertação suprema e definitiva que nos abre um futuro sempre mais belo e mais pleno.”
O anúncio de S. Paulo que “olha o futuro como uma meta a alcançar” e de como “exprime o dinamismo essencial da vida cristã que é conformação com Cristo, através da conversão, do despojamento de si, da escolha dos valores cristãos, da identificação progressiva com Ele”.
É “o encontro com Cristo, a experiência do seu amor, que transforma o coração, torna a vida fecunda e leva a celebrar os seus louvores.
Este encontro, absolutamente necessário, com Cristo libertador da escravidão do pecado e dador de todos os bens, porque o homem, por si só, é incapaz de se libertar, de se salvar”.
Sobre o Evangelho o Senhor Bispo explicou que este é “um convite à confiança em Deus, que através de Jesus, se revela um Deus misericordioso”. “Revela-nos o essencial da missão de Jesus, ‘que não veio chamar os justos, mas os pecadores’ (Lc 5,32).
Veio procurar a ovelha perdida, ferida, maltratada, para a curar, salvar, libertar e reconduzir ao seio da vida, da comunhão com Deus”.
“A mulher pecadora, infeliz, humilhada, arrependida, confiante, acusada por escribas e fariseus é apresentada a Jesus que improvisamente, com sabedoria divina, lança-lhes um desafio, que cai como uma espada que penetra a profundidade das suas consciências: ‘Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra’”.
“Jesus manifesta a compaixão e o amor misericordioso de Deus para com os pecadores e denuncia o comportamento de todos aqueles que estão sempre prontos para descobrir e denunciar o pecado dos outros.
Se nos olharmos com os olhos com que Deus nos olha, sentiremos necessidade do perdão e da misericórdia de Deus e seremos levados a usar, em relação aos outros, a mesma compaixão e misericórdia com que Deus nos olha e usa para connosco.”
“São muitos e variados modos que o Senhor nos convida a percorrer o caminho da conversão, do retorno à comunhão com Ele”.
Converter-se é descobrir o rosto misericordioso de Deus Pai, em Jesus; a alegria de ser filho de Deus, deixar-se amar por Ele, passar do pecado à reconciliação, da morte à vida.
“Somos amados por Deus, não porque sejamos «justos», não porque sejamos bons, mas porque Deus é nosso Pai, um Pai bom e misericordioso, que nos ama com amor fiel e gratuito, que não retira um milímetro do amor que nos tem, mesmo quando rompemos a comunhão com Ele, quando reivindicamos a nossa «herança», a nossa autonomia, a nossa independência, para buscarmos uma liberdade sem limites, que nos lança numa escravidão degradante.”
Convido-vos a caminharmos “em direcção à Páscoa, assumindo, com “verdade e generosidade, aquela «passagem», aquela mudança na nossa vida, que nos permita sentir a alegria da vida nova que começa com a ressurreição de Cristo, aquela luz que aponta novos caminhos e dá à nossa vida um sentido novo.
Em cada Páscoa devemos sentir que a morte de Cristo não foi em vão, que ela continua a ser fonte abundante donde jorra a água que fecunda e transforma, capaz de mudar o coração do homem e de o tornar digno da vida eterna” (Mensagem do Cardeal Patriarca, para a Quaresma de 2010).

Labat n.º 103 de Abril de 2010

08 abril, 2010

Informação do Núcleo do GOVV



O Grupo de Oração “Verdade e Vida”, reuniu-se em oração, no dia 7 de Abril de 2010,  com o Grupo de Azambuja (em formação), no Centro Paroquial daquela localidade.
A reunião de irmãos decorreu em perfeita comunhão, com a presença da Equipa do Serviço Diocesano, da Diocese de Lisboa, e teve como objectivo a preparação para o Seminário de Vida Nova no Espírito, que terá início no dia 14 de Abril, pelas 21 horas, naquele Centro Paroquial.
Perante esta excelente oportunidade, informamos que a realização das nossas orações semanais, no Centro Paroquial de Ota, serão suspensas até à concretização do referido Seminário, de Formação e Aprofundamento, em que o GOVV participará.

25 março, 2010

2.º Aniversário do G. O. Verdade e Vida



14 de Março de 2010!

O Grupo de Oração 'Verdade e Vida', comemorou em festa, o 2.º Aniversário.
A Adoração ao Santíssimo, o Louvor e um lanche partilhado, marcaram este dia comemorativo.
O Padre Manuel, Assistente Regional e nosso Pároco e a Equipa Diocesana acompanharam-nos em todos os momentos da Oração e Adoração ao Senhor.
As palavras proferidas, pela Equipa Diocesana e pelo Padre Manuel, ao Grupo e ao Núcleo incentivando-nos à missão e ao serviço, tocaram-nos verdadeiramente.
Seguiu-se um lanche preparado pelos irmãos, partilhado na alegria e paz fraterna.


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II Assembleia Regional


Benfica/Lisboa, 28 de Fevereiro de 2010


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REPORTAGEM

18 março, 2010

15 março, 2010

Somos filhos da Ressurreição


O Novo Testamento apresenta-nos Jesus Cristo crucificado e morto (Jo 19, 30-31), sepultado num túmulo (Mc 16, 1), ressuscitado (Lc 24, 6; Mc 16, 6) e aparecendo ressuscitado (1Cor 15, 6). Lucas proclama a Ressurreição de Jesus: ‘Não está aqui. Ressuscitou’!
Deus, ao fazer presente o Ressuscitado nos corações, torna a Ressurreição nossa vitória. Jesus Ressuscitado torna-se fonte de vida, salvação e ressurreição para todos os que crêem n’Ele e vivem n’Ele.
Somos chamados a descer ao nosso sepulcro. Ele é sinal de morte causada pelo pecado. Esse nosso descer significa morrer por dentro, sempre que somos desprezados, humilhados, perseguidos, caluniados, rejeitados, maltratados, injustiçados.
Sempre que somos ultrapassados pelos outros ou ficamos feridos no orgulho; sempre que somos comandados pelo ressentimento, pelo poder, pela ganância, pela injustiça, pelo subjectivismo, pela falta de amor, precisamos de morrer e descer ao sepulcro; sempre que temos de aceitar os outros como eles são e não como queremos que eles sejam, necessitamos de morrer e descer à sepultura; sempre que a vaidade, a vanglória e os ídolos moram no coração temos de morrer.
Morte necessária para uma vida nova. Deixemo-nos morrer para que unidos ao Ressuscitado tenhamos Sua vida. Por Ele somos transformados. Vamos ressuscitando cada dia para uma vida nova, mais evangélica, mais santa e mais cheia de graça. Somos filhos da Ressurreição.

João Silva
Editorial do Labat n.º 102, de Março de 2010

Assumir a Palavra de Deus como luz para a vida



Depois de dois dias intensos de Encontros de Formação em cada um dos pólos, realizaram-se as quatro Assembleias Regionais.
Diferentes das do ano transacto, estas Assembleias tinham uma forte componente de formação, mas também de oração, de louvor, de acção de graças, de abertura, de renovação, de exercício de carismas e de derramamento do Espírito Santo.
Cada uma das zonas teve uma dinâmica distinta, muito pelas razões anteriormente apontadas, mas essencialmente porque todas são diferentes e em conjunto, com o auxílio do Espírito Santo, os grupos são capazes de coisas verdadeiramente espantosas, não só a nível da decoração, como acolhem, como apresentam as mesas, como são delicados e atenciosos na liturgia, como são animadores. Todos diferentes com um só objectivo, o de evangelizar em nome do Senhor.
O Padre Dário Pedroso, s.j., foi o elo comum entre três zonas falando sobre o tema: “Assumir a Palavra de Deus como luz para a vida: alimento da oração; forma da comunidade; sustento da missão”.
Na Portela, na Benedita e em Sintra falou olhando nos olhos dos presentes. Deixou inquietações, interrogações e meditações que todos, certamente, levaram para os seus grupos, a fim de crescerem mais e mais na reza da Palavra do Senhor.
Transcrevemos excertos dos ensinamentos partilhados pelo Padre Dário.

A Palavra de Deus não é uma coisa, é uma pessoa, Jesus Cristo

A Palavra de Deus não é uma coisa, é uma pessoa, Jesus Cristo, que quer entrar em intimidade comigo, o Verbo do Pai, o Filho bem-amado. A Palavra não é uma coisa, mas uma pessoa viva.
O Verbo é a segunda Pessoa da Trindade. Tudo foi feito por Ele e nada foi feito sem Ele. A Palavra vai realizando todas as coisas desde o princípio do mundo.
Ela falou dos mistérios, em aramaico. Revelou o mistério do Pai, do Paizinho, do Pai agricultor, do Pai providente, do Pai pródigo. Anuncia-nos o amor da Trindade. Jesus, Palavra do Pai dada aos homens, Palavra Divina.
A Palavra que me ama, que quer ter uma relação comigo, que quer fazer comunhão comigo. E foi a Palavra chamada Jesus que nos veio revelar com todo o amor, sabedoria, o mistério do Pai, da Eucaristia, todos os mistérios. Veio fundar o mistério da Igreja.
Não conhecemos a Palavra. Mas é preciso ler, rezar, conhecer a Palavra de Deus. A Palavra era a vida, os nacos no tempo de Jesus. Veio-nos revelar os mistérios de amor e da vida. Eu sou o bom Pastor, diz o Senhor. E nós não rezamos, não amamos, não meditamos a Palavra. A Palavra que é tesouro, a pérola, o tudo, o nosso amado, o esposo da alma.
Quantas vezes não amamos a Palavra, não A retemos no coração.
A Quaresma é um tempo do deserto. Temos que a amar mais, fazer da Palavra vida da nossa vida.
“Para mim viver é Cristo” diz S. Paulo, mas para nós, hoje em dia, não é Cristo, mas é a fofoquice.

“Escutai-me, prestai-me atenção e vivereis”

O Senhor diz muitas vezes: “Escutai-me, prestai-me atenção e vivereis”. Porque o coração, a alma também ouve. Temos que fazer silêncio para escutar a Palavra e sem ele não conseguimos escutar nenhuma palavra.
Precisamos de recolhimento, de fazer silêncio. Há o silêncio exterior, mas o mais importante é o silêncio interior. Santa Teresinha dizia que a imaginação é a louca da casa. É preciso pedir este silêncio interior. Sem ele não há oração, não escutamos a Palavra.
Escutai e vivereis, escutai e transformar-vos-ei. Aprender a fazer deserto na minha casa, no trabalho, no meio da azáfama, do barulho, aproveitar e fazer silêncio e escutar a Palavra.
Arranjar maneira de fazer deserto e entrar em intimidade com Ele. A atitude de um cristão é estar sempre com Ele, em namoro com Ele. Em quem é que hei-de pensar, senão n’Ele.
Escutai-me, vinde ter comigo e vivereis.
Quem ouve a Palavra e a põe em prática é como a casa construída sobre a rocha; quem não o faz, é como a casa construída sobre a areia. E como somos nós? Somos casa construída sobre a rocha ou sobre a areia?
Quantas vezes a nossa fé é uma fé enfezada. Em que muitos vão à missa e depois vão à bruxa.
Quando é construída sobre rocha podem vir todas as tempestades que não abano, nem estremeço, porque estou sob a rocha. É preciso meditar a Palavra, rezar, escutar, fazer silêncio e questionar-mo-nos sobre a Palavra.
Precisamos de acolher a Palavra. Que o Senhor nos liberte para a escuta atenta da Palavra. Cada frase tem um conteúdo riquíssimo que não escuto, não medito.
É preciso sermos homens e mulheres da Palavra. Quem tem o fogo da Palavra é incendiário, tal como foi o Padre Américo da Obra do Gaiato – um homem de fogo da Palavra, movido pela Palavra.
Não é preciso ser muito inteligente. Santa Catarina de Sena era analfabeta, mas abriu-se à Palavra, ao Espírito Santo. Não fechar o coração, como diz o Salmo “Se ouvirdes a Palavra do Senhor, não fecheis os corações”.
Como diz o excerto do texto do Documento Dei Verbum, do Concílio Vaticano II: “Quem não ouve a Palavra de Deus por dentro, torna-se um pregador vão e superficial”. Ouvi-la, escutá-la por dentro é como embalar uma criança e deixar-se transformar por dentro. Para escutar a Palavra por dentro é preciso silêncio interior, recolhimento, escuta atenta.
O grande amor que nos tem leva a que o Pai do céu queira que escutemos por dentro e é isso que nos falta. Sem isso não vamos longe na vida cristã e na fé.

Efeitos da Palavra de Deus: Frutos, Acções

- A Palavra vai-nos divinizando, cristificando à medida que rezo.
Dentro de nós é preciso evangelizar a inteligência, para pensar sempre como Jesus pensou. Como chuva miudinha que vai ensopando a terra, a Palavra de Deus vai-me ensopando.
É preciso crescer na Palavra para amar como Jesus amou, o mais pobre, o mais doente. Amar ao jeito de Jesus. A Palavra vai transformando, modificando o coração para amar ao jeito de Jesus. Mas a nossa vontade ainda não está evangelizada, porque não quero sempre fazer a vontade de Deus.
Tenho de evangelizar a minha vontade para querer o que Deus quer, aceitar a vontade de Deus, que por vezes é difícil, mas deixar que a Palavra evangelize a minha vontade.
A nossa afectividade também precisa ser evangelizada, porque temos muitos afectos desordenados, somos mulheres e homens em caminho de evangelização.
Os nossos olhos também não, porque olhamos e cobiçamos.
A língua também, porque estamos na crítica, na fofoquice. Somos homens e mulheres que necessitam de ser evangelizados para vivermos ao jeito de Jesus.
Dentro de mim há terra de missão, muita coisa que precisa de ser evangelizado: o coração, a vontade, a língua, os olhos, a sexualidade, a afectividade. Para sermos os novos cristãos.
É preciso grupos que se deixem tocar pela Palavra e que não fiquem apenas nos braços no ar. É preciso passar para a vida o Evangelho.

-  A Palavra fortalece, dá força, para levar a cruz de cada dia com alegria sem lamentações.
A Palavra anima e dá força para persistir às tentações que se são tantas, sejam elas as que forem. Também dá força para sofrer no silêncio. Palavra que dá força interior, como Santa Teresa de Ávila, é preciso uma determinação bem determinada.
Não sabemos resistir. A fortaleza interior é também um dom do Espírito Santo.

- A Palavra dá fé.
Para não termos uma fé enfezada, mas uma fé adulta. A fé veio pela Palavra. A Palavra faz crescer na fé, conhecer melhor os seus mistérios, Ela é o poço sem fundo.
A alma também tem escamas, tal como os olhos de S. Paulo, e cataratas.

- A Palavra converte.
A Palavra converte para nos ajudar a mudar de vida, só a Palavra nos faz homens e mulheres de Evangelho. Mudar de vida, de critérios para vivermos ao jeito do Evangelho. A Palavra que muda o coração, vai convertendo. Então o que é que é preciso pedir a Deus que mude? A língua é preciso fazer um esforço, é preciso penitência. A Palavra converte, apela à mudança.
Hoje em dia não interessa o que Jesus e Deus acham, mas o que eu acho importante. No mundo em desordem, a alma e o coração do mundo estão doentes e é a minha transformação ou conversão que ajuda o mundo.

- A Palavra de Deus ilumina os nossos passos.
A Palavra de Deus ilumina os nossos passos, para que a minha vida seja santa, caridosa, humilde. É preciso que a Palavra ilumine a nossa inteligência as nossas vontades. Os caminhos da vida não andam iluminados. Quanto mais rezo, mais Deus pega em mim e me transforma.
 
- Nossa Senhora foi a Senhora da Palavra
Paulo VI chama-lhe a Senhora da Palavra rezada, meditada. A primeira bem-aventurança do Evangelho é dita por Isabel: “Feliz tu porque acreditas-te em toda a Palavra que te foi dada da parte de Deus”. Deus escreve, Ela cumpre. Este desejo de viver a Palavra. Quem escuta vive num encanto novo com Jesus.

- A Palavra faz-se pão, alimento na Eucaristia
Como diz Jesus: “Quem me come permanece em mim e Eu nele”. Quem comunga é assim, duas vidas, uma só vida; dois corações, um só coração.
O dom da Eucaristia. A Palavra faz-se vida dentro de mim e é o Espírito Santo que me ajuda a compreender e a saborear a Palavra.
Os membros do Renovamento têm que ser homens e mulheres da Palavra, que comem, vivem, rezam, saboreiam e põem em prática a Palavra”.


Labat n.º 102 de Março de 2010

Jesus foi tentado?

 

Por causa da leitura do evangelho do primeiro Domingo da Quaresma sobre as chamadas “Tentações de Jesus”, fui interpelado por várias pessoas “escandalizadas” com semelhante leitura evangélica. Também eu me “escandalizei” com o “escândalo” dessas pessoas, incluindo um Padre. Mas é completamente normal semelhante atitude. Como é que Jesus, sendo Deus, Senhor e Salvador, se deixa tentar pelo Diabo?
Devemos começar por dizer que o “escândalo” depende, em grande parte, da linguagem hilemórfica das duas naturezas de Jesus, a humana e a divina.
O conceito natureza é tipicamente da gramática grega, mas não aparece na gramática nem no dicionário da língua hebraica. O mundo semântico da Bíblia é bem diferente do da grega. E é dentro deste mundo bíblico que devemos entender as tentações de Jesus.
Por muito estranho que pareça, o agente fundamental nas tentações não tem só a ver com Jesus ou com o Diabo, mas também com o Espírito Santo. A narrativa de Lucas 4, 1 começa assim: “Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto”.
Depois das tais tentações, quando Jesus decide ir pregar o Reino de Deus na Galileia, Lucas escreve também: “Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia”.
A vida de Jesus é, pois, inseparável da vida do Espírito Santo. O que distingue o profeta Jesus dos demais profetas é sempre o Espírito Santo. Os tempos do Espírito Santo confundem-se com os tempos messiânicos.
Não é a Lei, a simples Palavra, mas o Espírito que discerne e explica. Razão porque Jesus afirma que todos os pecados são passíveis de perdão menos o pecado contra o Espírito Santo (Mateus 12, 32).
Para o Novo Testamento Jesus é um profeta, um taumaturgo, o filho de David, o Filho de Deus, o Emmanuel de Isaías, isto é, o Deus-Connosco.
Jesus é um judeu e não um político ou mestre de filosofia, moral e ética, como pensaram muitos historiadores e pensadores de velhos tempos racionalistas e românticos. É um judeu que veio para os judeus. Mas veio como Messias e, assim, realizar as velhas esperança messiânicas.
As “tentações” devem entender-se neste carrefour de ideias messiânicas. De facto, entre os séculos segundo a. C. e segundo d. C., os judeus, desanimados de tanto esperar pelo Messias, só esperavam a solução da sua vida numa perspectiva de escatologia apocalíptica.
Viria, em tempos de cronologia iminente, o dia terrível e definitivo do Juízo Final, em que Deus acabaria com os maus e os pagãos e apresentaria um Reino judaico de paz definitiva só para os bons judeus ortodoxos da linha apocalíptica.
João Baptista, em toda a sua grandeza, classificado por Jesus como o “maior nascido de mulher”, navegou por estas águas. E até se escandalizou de Jesus por comer com pecadores e aceitar na sua comitiva gente impreparada para este juízo final.
Diante das suas dúvidas, Jesus responde aos mensageiros de João Baptista, na prisão: “Ide dizer-lhe o que vedes e ouvis: Os cegos vêem, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa-Nova é anunciada aos pobres; e feliz de quem não tiver em mim ocasião de escândalo” . Jesus está a citar Isaías 61, 1.
Realmente, a vida de Jesus é salpicada de encontros desencontrados. Muitos o admiravam, aceitavam, acreditavam nele, mas muitos outros – a maioria? – não o aceitava.
Os seus próprios familiares tinham-no por “louco” (Mc 3, 21), Pedro não o compreendeu e Jesus chamou-lhe “Satanás” (Mc 8, 33), e aos fariseus, que lhe exigiam um sinal do Céu para o identificar como taumaturgo de Deus e não do Diabo, respondeu-lhes muito chateado (o texto de Marcos 8, 12, ao pé da letra, diz: “suspirou profundamente”): “sinal algum será concedido a esta geração!” (Mc 8, 12/Mt 16, 1-4/Lc 12, 54-56).
Jesus foi, portanto, muitas vezes posto à prova. O verbo grego é peirazein (Mc 12, 15/Mt 22, 18; Mt 22, 35). No Getsémani, Jesus pede aos apóstolos: “orai para não entrardes em tentação” (Mc 14, 38/Mt 26, 41/Lc 22, 46).
Em Lucas 22, 40, Jesus dirige a palavra aos seus discípulos: “Vós sois os que preservastes comigo nas minhas provas (tentaçõs)”. E ainda segundo Lucas, o Diabo, depois das tentações no deserto, promete regressar mais tarde, o que aconteceu no Getsémani (Lc 22, 3. 31).
Não vamos aqui discutir o problema linguístico sobre a “natureza” do diabo e dos demónios: são pessoas, seres ontológicos, racionais e livres? São entes “divinos” a simbolizar o poder do Mal? A Bíblia é, de facto, uma grande narrativa dramática (diferente de “tragédia”) onde Deus, anjos e demónios, intervêm.
Por mais que a ciência e a filosofia perscrutem a raiz do mal no mundo, continuamos como o Job bíblico a cuspir para o céu, cheios de dúvidas e interrogações.
Jesus foi tentado, no deserto, como Moisés e Elias, porque precisava de separar as águas sobre o modelo de messianismo a pregar na Galileia. Um messianismo apocalíptico? Um messianismo de escatologia de juízo implacável? Um messianismo dirigido apenas aos bons? Um messianismo de escatologia realizada dirigida a bons e a maus?
O Diabo, na narrativa midráchica das tentações, oferece a Jesus todos os reinos do mundo e todo o espectáculo populista de vaidade e vanglória. Jesus não aceita. O Diabo propõe o seu messianismo com textos bíblicos do Deuteronómio e Jesus responde com outros textos bíblicos.
A “bulha” é de personagens – Jesus e o Diabo – e os argumentos provêm do AT, como cânone divino de projecto, caminho e vida. Há dois caminhos e dois projectos. Jesus escolheu o projecto do Espírito porque viva cheio do mesmo Espírito. Jesus consubstancia-se, isto é, recebe a sua identidade, vocação e missão neste Espírito.
O mundo sem Espírito é um mundo vazio de ideias e ideais. Para o preencher vai buscar o “espírito deste mundo” ao espectáculo idolátrico/diabólico do dinheiro, do egoísmo, das aparências do populismo político e do próprio populismo religioso, que distribui milagres “à la carte”, contrário à doutrina de Jesus.
A taumaturgia (os milagres) de Jesus é aceite pelos doutores da Lei, que a interpretam por obra e graça de Belzebú, o príncipe dos demónios. Jesus responde-lhes que não está feito com os demónios mas apenas com o Espírito Santo (Mc 3, 22-30), como responde aos fariseus, que lhe pedem sinais milagrosos, pela ausência de tais sinais (Mc 8, 12-13).
O grande sinal era Ele e só Ele.
O grande “escândalo” termina numa crucificação, “loucura para os que se perdem mas, para os que se salvam, para nós, é força de Deus” (1Cor 1, 18).

Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM.
Labat n.º 102 de Março de 2010

O Ressuscitado, Fonte de Vida



“Porque motivo procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou” (Lc 24,5-6). Foi a fé na ressurreição, primeiro anunciada a alguns, depois partilhada por todos, nas diversas aparições do Ressuscitado, que é a base, o fundamento, a fonte da nossa vida cristã.
Por isso se diz nos Actos nos Apóstolos: “Nós vos anunciamos a Boa-Nova de que a promessa feita aos nossos pais a cumpriu Deus para nós seus filhos, ao ressuscitar Jesus” (13,32-33).
O Catecismo da Igreja Católica afirma: “A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento, pregada como parte essencial do mistério pascal...”(CIC 638).
Fixemo-nos um pouco nas palavras: verdade culminante, acreditada, vivida, estabelecida, pregada, parte essencial do mistério pascal.
A ressurreição, testemunhada por muitas testemunhas, colocada por escrita nos textos do Novo Testamento, pregada pelos apóstolos, é um acontecimento histórico e transcendente. O próprio S. Paulo, a quem Jesus aparece a caminho de Damasco, transmite resta verdade e esta certeza histórica (Cf 1Cor 15,3-4).
Os textos não descrevem o corpo glorioso, pois é uma realidade espiritual que nos escapa, que a nossa inteligência não é capaz de captar. Insistem os textos na verdade da ressurreição, na certeza que Jesus está Vivo.
É essa verdade essencial que lhes importava transmitir às gerações futuras. Aquele que foi morto e sepultado, aparece-lhes, vivo e glorioso, falou com eles, partilhou com eles a paz e a alegria, o gozo da sua vida nova.
E esta certeza, este acontecimento histórico é de tal modo importante, que é a fonte da vida cristã, da vida da Igreja. Se Ele não tivesse ressuscitado éramos os mais desgraçados dos homens, a nossa fé era vã e sem sentido, sem fundamento.
Aqueles homens e mulheres, que depois da Sexta Feira Santa, ficaram sem fé, tristes, desanimados, frustrados, que mesmo depois das aparições ainda duvidam, Jesus ainda lhes parece um fantasma, vão fazendo a experiência de um Jesus Vivo, “ a sua fé na ressurreição nasceu – sob a acção da graça divina - da experiência directa da realidade de Jesus Ressuscitado” (Cf. CIC 644).
Viram-No, falaram com Ele, tocaram-No, estiveram com Ele à mesa, passearam com Ele na praia do mar da Galileia. O próprio corpo ressuscitado, espiritual, traz as marcas da paixão, embora possua as novas propriedades dum corpo glorioso.
Mas a ressurreição não é um regresso à vida terrena que Jesus possui e viveu. Com Jesus não sucede o mesmo com Lázaro, com a filha de Jairo, com o jovem, filho da viúva de Naim. Estes voltaram à sua vida terrena, antes de morrerem, não ressuscitaram, propriamente dito, e um dia voltarão a morrer.
A ressurreição de Cristo é essencialmente diferente, o corpo do ressuscitado passa a uma outra ordem, é um corpo glorioso, espiritual, participando da vida divina no estado da sua glória (Cf. CIC 645-646). É um “homem celeste”, como afirma S. Paulo (Cf. 1 Cor 15,35-50).
Apesar de histórica, é transcendente. Não podemos afirmar quando se deu, como se deu, qual a sua essência íntima, como é um corpo “celeste”, como se realizou a passagem a uma outra vida.
Não sabemos o “como”, mas sabemos que existiu, sabemos a sua transcendência, a sua veracidade, as suas consequências na vida dos discípulos e das primeiras comunidades cristãs.

Ele está Vivo. É o Senhor da glória.


Dário Pedroso, s.j.
Labat n.º 102 de Março de 2010

Não desprezareis, Senhor, um espírito humilhado e contrito (Sl 50, 19)



No itinerário quaresmal proposto a toda a Igreja, aproximam-se os dias do retiro anual dos grupos de oração do Renovamento Carismático da Diocese de Lisboa, já nos próximos dias 19, 20 e 21 de Março.
O Senhor revela-nos assim a Sua misericórdia concedendo-nos estes dias de deserto, de oração e de encontro com o mistério da graça e do perdão de Deus. Nestes dias o Senhor quer visitar-nos com a Sua Palavra e dizer a cada um de nós: “Já não vos chamo servos mas amigos porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de Meu Pai” (Jo 15, 15).
É fundamental partir para estes dias de retiro com o coração disponível, criar condições para escutar a Palavra de Deus que nos recria e nos chama à conversão.
No ruído do dia-a-dia nem sempre estamos despertos para acolher a presença de Deus que nos convida a mudar de vida, a trilhar caminhos novos, a derrubar os ídolos que nos afastam da verdadeira Vida, enfim, a percorrer os caminhos da construção do Reino.

Por isso, antes de mais, devemos estar agradecidos por este convite que Deus nos faz a partir, como peregrinos e pecadores, confiantes e na certeza de que o Senhor que me chama também me fala e dá a mão.
Peçamos ao Espírito de Deus, nestes dias de preparação para o retiro, que nos dê um coração humilhado e contrito, que nos ajude a ver a nossa realidade e como estamos a precisar destes dias de escuta e de confronto com a Palavra Criadora de Deus.

Que o Senhor nos ajude a deixar “as redes” que nos prendem e atrapalham a vida e nos dê o desejo sincero de participar com alegria e seriedade nestes dias que nos lançarão para a celebração do Tríduo Pascal, o coração do mistério da liturgia.
Deixo-vos com as palavras do Santo Padre, que nos visitará em breve, na oração do Angelus de 28 de Fevereiro de 2010 e que nos falam da Alegria: “As alegrias que Deus nos oferece na vida (como este retiro, por exemplo) não são um fim mas um impulso para fazer de Jesus o centro da própria existência.
As alegrias semeadas por Deus na vida não são pontos de chegada, mas sim luzes que Ele nos dá na peregrinação terrena, para que somente Jesus seja a nossa lei e a Sua Palavra o critério que guia a nossa existência”.

Saúda-vos com esperança,
 

Pe. Bruno Machado 
(Assistente Diocesano do RCC da Diocese de Lisboa)
Labat n.º 102 de Março de 2010