11 março, 2010

Nota Pastoral - Visita do Papa Bento XVI a Portugal



Reavivar a fé, dinamizar a esperança, revigorar a caridade e fortalecer a unidade

A visita do Papa Bento XVI a Portugal é um acontecimento de singular importância e, por isso, deve ser preparada condignamente, não apenas no brilho exterior e no ambiente festivo, mas sobretudo no horizonte da fé, da construção da unidade eclesial e de uma sociedade mais justa e fraterna.
Vem até nós como peregrino e a Igreja em Portugal deverá caminhar com o sucessor de Pedro, redescobrindo no cristianismo uma experiência de sabedoria e missão.
Sabedoria vivida no conhecimento das realidades terrestres, a partir de uma referência a valores, de modo que, na fidelidade à identidade cristã, sejamos capazes de dar um contributo positivo à construção de uma sociedade mais justa; missão como itinerário de uma vida que se quer mergulhada no mundo, mas diferente em opções e atitudes, e que, sobretudo pelo exemplo, anuncia Cristo e a sua boa nova.

1. PREPARAÇÃO ADEQUADA

Há uma feliz coincidência entre o tempo que antecede a visita do Santo Padre e a vivência litúrgica da Quaresma e do Tempo Pascal.
1.1. Na Quaresma, será importante reflectir e responder aos desafios da mensagem preparada pelo Papa Bento XVI: “A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo” (cf. Rm 3, 21-22). Destacamos três pensamentos:
– A justiça será possível na medida em que se der ao homem o que ele verdadeiramente requer: Deus. Isto acontecerá através do testemunho de comunidades que se deixaram converter pelas interpelações de um anúncio fiel do Evangelho.
– Comprometer-se com a justiça exige trabalho interior para afastar uma “força de gravidade estranha” que permanentemente nos impele para o egocentrismo, a afirmação pessoal e o individualismo. Só vivendo em conversão permanente, a Igreja poderá apresentar‑se com credibilidade, num mundo em que se pretende impor o relativismo e o indiferentismo.
– Ser justo implica assumir uma dinâmica libertadora do pobre, do oprimido, do estrangeiro, da viúva, do órfão... “O cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver, segundo a própria dignidade de pessoa humana, e onde a justiça é vivificada pelo amor”.
1.2. A Páscoa pode e deve tornar-se tempo favorável para mostrar ao mundo um “rosto de gente salva”, feliz, porque infinitamente amada por Deus. É importante que Cristo actue em nós, nos redima, nos transforme a mente e o coração, nos liberte do mal. Só assim seremos verdadeiros rostos de Cristo no mundo onde Ele nos envia e aí assumiremos o estatuto de apóstolos corajosos que concretizam uma necessária e urgente comunicação de Cristo nos ambientes do agir quotidiano: política e saúde, indústria e comércio, agricultura e pescas, educação e ensino, trabalho e lazer.
O dinamismo da Páscoa de Cristo precisa de encarnar em atitudes e gestos de esperança perseverante e de amor criativo.

2. ACOLHER A MENSAGEM

A visita do Papa não é apenas a Lisboa, a Fátima e ao Porto, mas a todo o Portugal, a todos os portugueses e também aos nossos irmãos imigrantes que trabalham e convivem connosco. O Papa a todos quer saudar, independentemente do seu credo ou da sua ideologia.
Assim, a nossa presença nos diversos momentos e lugares do programa da visita, testemunhará o amor ao Papa e a vontade explícita de aceitar as suas propostas. Para facilitar a comunicação, foi criado um site oficial – www.bentoxviportugal.pt – onde é possível encontrar as mais variadas informações, de modo a dinamizar a preparação, a realização e a continuidade da visita.

3. CONTINUIDADE E COMPROMISSOS

A nossa tradição cristã está marcada pelo respeito, apreço e fidelidade à Igreja de Roma. A cátedra de Pedro e dos seus sucessores, como recorda S. Inácio de Antioquia, é «a que preside na caridade», entre todas as Igrejas locais.
Preparar a visita do Papa Bento XVI e acolher os seus desafios deverá desenvolver em nós os dinamismos seguintes:
Reavivar a nossa fé através de um encontro mais consciente com a Palavra de Deus, dando às nossas comunidades um rosto missionário.
Dinamizar a nossa esperança, para podermos abrir caminhos de solução às dificuldades e crises que a nossa sociedade atravessa.
Revigorar a nossa caridade, dando maior consistência aos inúmeros espaços de solidariedade e acção social, como resposta aos dramas da sociedade, particularmente as novas formas de pobreza.
Fortalecer a nossa unidade através de um projecto de pastoral comum, acolhido por todas as comunidades, com o intuito de poder responder às alterações civilizacionais em que vivemos.

4. ACÇÕES CONCRETAS A PROMOVER

Confiando na criatividade das Dioceses e Paróquias, Congregações e Movimentos, apresentamos algumas sugestões para a preparação da visita de Sua Santidade o Papa Bento XVI:
Colocar esta visita nas intenções da oração pessoal e comunitária.
Aproveitar as acções de formação que a Igreja costuma promover (Retiros, Cursos, Encontros, Palestras, Publicações) para abordar temas relacionados com o Papa: Igrejas particulares e Igreja universal; Missão do Bispo de Roma e Pastor da Igreja universal; Catolicidade e diversidade, obediência e liberdade na Igreja; Temas fundamentais do magistério do Papa Bento XVI, etc.
Promover e facilitar a participação nas celebrações eucarísticas presididas pelo Santo Padre em Portugal (Lisboa, Fátima e Porto) e noutros encontros de sectores.
Queremos apelar a todos, para que não deixem que esta visita do Santo Padre se esgote num mero acontecimento passageiro, porventura muito participado e festivo, mas que seja antes uma semente que germine e dê frutos de renovação espiritual, apostólica e social.

Fátima, 1 de Março de 2010

06 março, 2010

Mensagem Quaresmal - D. José Policarpo

Mensagem do Cardeal-Patriarca de Lisboa

para a Quaresma de 2010

 

Acolher o Papa é aceitar o desafio da Redenção

Queridos irmãos e irmãs, 


Aproxima-se a Quaresma. É um tempo litúrgico que nos propõe, no realismo do presente da nossa vida, a radicalidade da Redenção. Celebremos a Páscoa, não apenas como uma rotina adquirida, mas como um assumir, com verdade e generosidade, aquela “passagem”, aquela mudança na nossa vida, que nos permita sentir a alegria da vida nova que começa na ressurreição de Cristo, aquela luz que aponta novos caminhos e dá à nossa vida um sentido novo. Em cada Páscoa devemos sentir que a morte de Cristo não foi em vão, que ela continua a ser a fonte abundante donde jorra a água que fecunda e transforma, capaz de mudar o coração do homem e o tornar digno da vida eterna.
Com esta Mensagem, pretendo, como Patriarca de Lisboa, dinamizar os cristãos da nossa Diocese, a aceitarem o realismo e a actualidade da redenção, a abrirem os seus corações à misteriosa fecundidade da Cruz de Cristo, que levou o amor por nós ao extremo de sacrificar a sua própria vida. Com esta Mensagem, não pretendo substituir ou relativizar aquela que o Santo Padre Bento XVI, para a Quaresma deste ano, dirigiu a toda a Igreja; pretendo, apenas, situar, na realidade actual da nossa Igreja diocesana, a palavra que o Papa dirige a toda a Igreja. Assim perceberemos melhor que a Páscoa é uma festa de toda a Igreja, e que a “passagem” que ela nos sugere é desafio para toda a comunidade humana.
Não posso esquecer que nos preparamos para receber a visita pastoral de Sua Santidade Bento XVI à nossa diocese, no próximo dia 11 de Maio. A Quaresma será, também, um tempo forte de preparação dessa visita. Para que ela seja, para os cristãos de Lisboa, um momento de graça, ela tem de significar um reencontro de cada um de nós com Nosso Senhor Jesus Cristo, com a Sua Páscoa libertadora.


1. O Santo Padre centrou a sua Mensagem no fruto precioso da redenção, que é a justiça. Cristo é o Justo, diante de Deus e diante dos homens, e mereceu, na sua morte, poder tornar-nos justos, segundo a linguagem de São Paulo, ser justificados. Só em Cristo o homem se torna completamente justo, ele que pagou um preço pesado à injustiça, porque deixou o pecado endurecer o seu coração, isto é, manchar a sua inteligência e a sua liberdade. Esta visão sobre a verdadeira justiça significou uma revolução no pensamento acerca dos caminhos da justiça. Não basta mudar as leis, corrigir desequilíbrios sociais; é preciso mudar o coração do homem. Este não pode limitar-se a esperar que lhe seja feita justiça; tem de aceitar uma mudança interior para que os novos caminhos da justiça sejam os novos caminhos da liberdade. E, para os cristãos, o caminho desta mudança interior, está claramente indicado: participar na Páscoa de Cristo, acreditando n’Ele e na sua ressurreição. “A justiça de Deus manifestou-se mediante a fé em Jesus Cristo” (cf. Rom. 3,21-22), porque “o justo viverá da fé”, porque nele a justiça de Deus revela-se na fé (cf. Rom. 1,17). Essa conversão interior do homem a que São Paulo chama justiça, só pode ser fruto do amor. O amor é a força que realiza a justiça. O Santo Padre termina assim a sua Mensagem: No Tríduo Pascal “celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça”.
A justiça, obra do Espírito de Deus em nós, à qual nos abrimos pela fé, coincide com a santidade. Esta é a plenitude da justiça, porque nos torna semelhantes a Deus e participantes da sua vida de amor. Desejamos muito que a proposta da santidade seja o grande desafio que nos lança a visita do Santo Padre.


Santidade e Missão 


2. Escolhemos para lema da visita do Papa a Lisboa “Santidade e Missão”. A santidade é exigência da nossa identificação com Cristo e dinamismo mobilizador para a missão. A santidade começa na fé profunda e sincera, exprime-se na caridade, torna-nos família de Deus. Só ela cria em nós o desejo e a força para a missão, para anunciar o Senhor, para viver de tal forma que sejamos a inauguração do Reino de Deus no meio do mundo. Só o ardor e a inquietação do amor nos mobiliza para a missão. Só a caridade cria em nós a urgência do Reino de Deus, ajudando a instaurar a justiça na cidade dos homens. Sem essa motivação da caridade a missão só é programa, porventura estratégia, mas não é aquele fogo devorador que o próprio Senhor sentiu. “Eu vim lançar o fogo à terra e só desejo que ela se incendeie” (Lc. 12,49).
Foi esse ardor da caridade, que leva a perceber a vida como um dom, que fez partir missionários para longes terras para anunciarem essa descoberta inaudita da fé que nos salva; é esse fogo da caridade que ajudará os cristãos a serem, no meio do mundo tão repassado de injustiças e tão carente de amor, testemunhas da verdadeira justiça, expressão de um amor radicado na verdade; é essa força da fé que dá coragem aos esposos para serem fiéis, no seu amor, ao amor com que Cristo nos amou; é esse desejo de testemunhar a fé que leva hoje, tantos homens e mulheres, jovens e adultos, a não cederem ao espírito do mundo e a serem, na Igreja, obreiros da evangelização. 


3. A presença dos cristãos na sociedade, a agirem e a reagirem à realidade com as exigências da justiça é elemento decisivo para a transformação da sociedade na linha do Reino de Deus. Só “homens justos” podem ajudar a transformar a sociedade na linha da justiça. Há uma fecundidade da presença dos justos na sociedade. É que o ideal do “justo” é a santidade, sabe que a sua luta será estéril se não assentar na verdade, tem a humildade de reconhecer que não se torna justo só a partir de si, mas precisa da ajuda do “Outro”, “o Justo”, para vencer a injustiça no seu coração. Ele sabe que a grande causa das injustiças da sociedade estão no coração dos homens. E esse, só Cristo o pode redimir. A luta pela justiça é a aceitação humilde da Redenção. 


4. Para a celebração presidida pelo Santo Padre, no dia 11 de Maio, no Terreiro do Paço, convoco todos os cristãos da diocese que se deixaram tocar por este desejo de mudar o coração, para serem “justos” e obreiros da justiça. Os esposos, pais e mães das nossas crianças e dos nossos jovens, para que lhes comuniquem o verdadeiro horizonte da justiça, ensinando-lhes a liberdade; os catequistas, para que, com o seu testemunho sincero, ajudem os outros a descobrir a vida como obra de justiça e de amor; todos os que, na realidade quotidiana da nossa sociedade, no trabalho, na empresa, na política, sentem o contraste de uma ideia de justiça à medida do homem e das suas forças, com o ideal da justiça que é obra do Espírito, que se recebe para se comunicar, e começa pela transformação interior, fazendo-os perceber que só os “justos” constroem a justiça. E só são verdadeiramente justos os que foram justificados. Convoco, de um modo particular, os jovens da nossa diocese. Venham, para aprender com o Santo Padre, a luta pela justiça, que é luta pela verdade e, só possível com fé, confiança sem limites na força de Jesus Cristo.
Espero que todos preparem na Quaresma o seu coração para a surpresa de Deus na Páscoa deste ano; só isso os tornará acolhedores à palavra do Papa. A celebração do Terreiro do Paço tem de ser a Páscoa continuada. 


5. A justiça é obra de amor. A vida é um dom: tudo o que somos e temos pode transformar-se em dom. A verdadeira partilha é obra de justiça. Convido todos os católicos da diocese a partilharem generosamente o que são e o que têm. A nossa Renúncia Quaresmal permitirá ao “Fundo Diocesano de Ajuda Inter-Eclesial” responder aos imensos pedidos de ajuda material vindos de Igrejas irmãs. Há já muitos pedidos a que ainda não pudemos responder. Para além do ofertório específico que já foi feito para os irmãos do Haiti, o Patriarcado continuará atento à necessária ajuda à Igreja local, no exigente período de reconstrução e da criação de condições para o exercício da sua missão.
Caminhemos para a Páscoa, escutando a Palavra de Deus; fortaleçamos a nossa fé no encontro renovado com Cristo Pascal e isso tornar-nos-á mais preparados para sermos obreiros da justiça, na edificação do Reino de Deus. 


Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

Mensagem Quaresmal - Papa Bento XVI

 
MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
O PAPA BENTO XVI
PARA A QUARESMA DE 2010
A justiça de Deus está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo
(cfr Rom 3, 21–22 )


Queridos irmãos e irmãs, 


Todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos evangélicos . Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22 ). 


Justiça: “dare cuique suum” 


Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos à morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos - , mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de facto precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se “ a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21). 


De onde vem a injustiça? 


O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua actuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingénua e míope. A injustiça, fruto do mal , não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista:”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram á lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição ; á lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor? 


Justiça e Sedaqah 


No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De facto sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e á viúva ( cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei , pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egipto (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre ( cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro ( cfr Ex 22,20), o escravo ( cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto – suficiência , daquele estado profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?  


Cristo, justiça de Deus 

O anuncio cristão responde positivamente á sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “ Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)
Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O facto de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objecção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico , mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.
Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo, óbvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças à acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça “ maior”, que é aquela do amor ( cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.
Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autentica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica. 


Vaticano, 30 de Outubro de 2009
BENEDICTUS PP. XVI

Mensagem Quaresmal - D. Manuel Clemente

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26 fevereiro, 2010

Imagem oficial da visita do Papa a Portugal


 


O Coordenador da Comissão Organizadora da Visita de Bento XVI a Portugal, D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa, apresentou hoje publicamente
a imagem
oficial criada para acompanhar a visita do Papa ao nosso País, que se realiza de 11 a 14 de Maio.

22 fevereiro, 2010

Um caminhar com Jesus



Cada ano a Igreja incita-nos à vivência na fé do tempo litúrgico quaresmal. Convida-nos a fazer uma revisão sincera da nossa vida, à luz dos ensinamentos evangélicos, para que vivamos como povo de Deus.
Somos chamados a viver a Quaresma como um caminho para Jesus, através da Palavra. Que sua leitura e reza seja um diálogo pessoal com a Pessoa divina, Verbo Incarnado. Mergulhemos no silêncio. Contemplemos a Palavra divina. Adoremos Jesus que nos fala na Palavra. Ele é a resposta e esperança, pois Jesus é caminho, verdade e vida.
Somos chamados a fazer da Quaresma um caminho com Jesus, na Oração. Conduzidos pelo Espírito, proclamemos sua glória.
Somos chamados a fazer na Quaresma um caminho com Jesus na prática de Boas Obras.  Acolhamos os dons e carismas do Doador divino, com docilidade e discernimento, para que produzam e nos conduzam aos frutos do Espírito Santo, as levamos aos outros - Gl 5, 22-23.
Façamos da Quaresma um caminho com Jesus na Justiça de de Deus, manifestada mediante a fé em Jesus Cristo - Rm 3, 21-22. Bento XVI, em Mensagem da Quaresma de 2010, exorta-nos: "A justiça de Cristo é antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura a si mesmo e aos outros. (...) É o gesto do amor de Deus que se estende até ao extremo, para fazer em si 'a maldição' que toca ao homem, para lhe transmitir em troca 'a bênção' que toca a Deus - Rm 13, 8-10.
(...) Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência - indigência dos outros e de Deus, exigência do Seu perdão e da Sua amizade".
Que este período penitencial seja um tempo de preparação para o Tríduo Pascal.

João Silva 
Editorial do Labat n.º 101, de Fevereiro de 2010)

É tempo de conversão



A Quaresma é tempo favorável para abrir os olhos da alma e do coração, para nos vermos à luz de Deus, para pedir ao Espírito a graça da nossa conversão. Mas parece que há uma nuvem de poeira que nos vai cegando, impedindo de ver mais e melhor, de ver mais profundamente.
Se nalgum dos campos e sectores da nossa vida a nuvem de poeira se fez sentir, parece ser exactamente neste: a necessidade de conversão. É próprio do espírito do mal, do príncipe das trevas, querer convencer-nos que não temos pecados, que o pecado não existe, que não necessitamos de conversão, que não precisamos de nos examinar, converter, corrigir.
Anda por aí uma doença que se poderia chamar permissivismo, em que parece que tudo é permitido, que nada é mal, que tudo se pode fazer ou dizer, que não há pecado em nada, nem sequer em matar, em caluniar, em roubar, etc. E no campo da oração e da fidelidade à vida interior ou espiritual como no sector da vida de castidade, parece que essa nuvem densa ainda se faz sentir com maior profundidade.
O maior pecado deste mundo, deste tempo, é a falta de consciência de pecado. Insensíveis ao amor de Deus, ficamos como calhaus, insensíveis ao pecado, ao mal, à malícia e perversidade que nos rodeia ou que trazemos dentro de nós.
Daí a falta de consciência para encarar a sério a necessidade de conversão. Se sinto e digo que não há pecado, que não tenho pecado, porquê e para quê a conversão?
A nuvem de poeira que o inimigo da natureza humana nos lança nos olhos da alma e do coração, torna-nos menos sensíveis ao bem, à virtude, à graça, à conversão, à necessidade de amar a Deus e ao próximo. A nuvem de poeira quer que fiquemos instalados, comodistas, aburguesados, infiéis à graça e ao amor, insensíveis ao pecado e conversão.
Mas nós, pobres pecadores, somos tão cegos que não caímos na conta que temos mais pecados do que pensamos, do que vemos à superfície de nós próprios, mais pecados dos que aqueles que a nuvem de poeira nos deixa ver. Mas nem por isso a conversão é menos necessária e menos exigente.
Precisamos de conversão, de mudança, de caminhada de santidade, de ascese, de esforço para sermos mais fiéis à graça, ao amor. Precisamos de conversão pois nas nossas vidas há muita coisa que não está como Deus quer, que não é evangélica, que não é correspondência fiel ao amor de Deus e do próximo. O orgulho cega-nos, a vaidade cega-nos, a paixão cega-nos, o ciúme cega-nos e não vemos o pecado que está em nós, tornamo-nos insensíveis à fidelidade.
Rezar mais ou rezar menos, rezar melhor ou pior, dar mais tempo, com gratuidade, ao diálogo com o Senhor, parece que não  nos interpela, não nos questiona, não nos causa impacto. Ser mais casto em olhares, em desejos, em pensamentos, parece que não nos causa impacto, que não nos interroga e interpela. Corresponder mais e melhor às moções do Espírito e aos apelos da graça, parece que nos deixa insensíveis, pouco determinados, pouco audazes, com pouca tenacidade interior. Certa apatia, certa sonolência espiritual, certa tibieza, nos deixam despreocupados, indolentes, infiéis, a deixar-nos conduzir para uma inércia que nos instala, que não nos deixa desejar o mais, o melhor, o mais santo, o mais perfeito.
Falta garra, audácia, tenacidade, força interior, compromisso sério. E assim andamos muitos de nós, ao sabor do prazer, do apetite, do mais cómodo, do menos exigente. Uma mediocridade assustadora. E a nuvem densa de poeira em que o inimigo nos faz mergulhar, torna-nos cegos.
Mas é tempo de conversão, de mudança. Tempo favorável a uma acção decidida de conversão, de busca humilde do melhor, de dinamismo interior para sermos mais santos, mais orantes, mais pobres, mais humildes, mais caridosos, mais evangélicos.
É tempo de conversão. Não deixemos que a poeira nos impeça de olhar para nós, para a nossa vida, para o nosso interior, para nos comprometermos a uma determinada conversão, a uma mudança mais radical na fidelidade ao amor.

O MISTÉRIO DA INIQUIDADE

Nestes tempos quaresmais é urgente pensar no pecado. Parece que não gostamos de o fazer. Há quem afirme que o maior pecado dos tempos de hoje é a falta de consciência do pecado. O demónio, pai da mentira, como lhe chama Jesus, parece estar interessado em enganar-nos, a levar-nos a pensar que não temos pecado, que não há pecado no mundo.
Mas isto é artimanha do maligno, daquele que é o príncipe das trevas, e as trevas, como nuvem densa de poeira, impede que os olhos da alma e do coração descubram o mistério da iniquidade que está em nós e no mundo.
E o mistério da iniquidade não é, propriamente, o somatório dos pecados, mas o elo maligno e satânico, de miséria e maldade, de podridão e fealdade, que os une.
É este mistério de iniquidade que está em nós, nos outros, nas próprias estruturas da sociedade, no mundo mau e satânico, como diz S. João, em oposição ao mundo belo criado por Deus.
Para muitos hoje, há uma permissividade assustadora, quase a caminhar para a loucura, para a máxima aberração, para a paranóia de um agir sem lei, sem regra, sem pudor, sem dignidade, onde tudo se pode fazer, tudo se pode dizer, tudo se pode realizar, desde o matar ao roubar, desde promiscuidade sexual à droga, desde a fraude até ao crime.
Numa avalanche que não para mais, como lava de vulcão a rolar pela montanha abaixo, o mistério da iniquidade está aí, a cada esquina, em cada rosto, nas manobras subtis da tentação, nos enredos nefastos de prazer pecaminoso, nas afrontas indigentes ao valor da vida, da justiça, do amor.
Espreita-nos esse mistério da iniquidade, nos écrans da televisão, nos anúncios dos jornais, em tantos artigos que levam a maldade e o labirinto da mentira ou do suborno.
Espreita-nos quando se deseja votar leis permitindo matar uma criança antes de nascer ou um idoso ou doente através da chamada eutanásia.
Espreita-nos nos cartazes,  por vezes imundos, eróticos, pornográficos, ou nos anúncios do marketing que nos cegam e seduzem.
Espreita-nos dum modo maléfico e subtil quando perante o pecado, o mal, o satisfatório, já há muita gente que fica impassível, sem capacidade de julgar, de optar pelo bem e pelo melhor, aceitando o pecado, com a máxima naturalidade sem pudor ou repugnância instintiva.
Bernanos, um famoso autor francês, afirmou que "o nosso pecado envenena o ar que os outros respiram". E todos vamos ficando contaminados. Como denso nevoeiro que suja  e impede os olhos da alma e do coração de verem com justeza e dignidade.
Chafurdamos na lama, enredados pelo pecado, seduzidos pelo espírito do mal, manobrados pela tentação, enganados pelo poder das trevas, pelo pai da mentira, alienados pelo que luz mas não é oiro, presos pelas correntes do mal e da iniquidade, caminhamos no mundo da iniquidade.
E um pecado vai arrastando a outro. David porque causa adultério vai cometer um homicídio. Judas porque era ladrão vendeu o Mestre.
Quem é orgulhos, forçosamente pisa e destrói os outros, quem é vaidoso nunca terá espírito de pobreza evangélica, quem entra na areia movediça vai-se enterrar cada vez mais. E, às vezes, na tentativa de sair de um pecado cai noutro, pois o emaranhado da teia, ou da densa nuvem de poeira, não o deixa libertar.
Com a Palavra lutemos contra o MISTÉRIO DA INIQUIDADE que está em nós, nos outros, no mundo, na certeza que a vitória será nossa, unidos a Deus e alimentados pelo dom da sua Palavra salvadora.
Com a oração lutemos contra o MISTÉRIO DA INIQUIDADE que está em nós, nos outros, no mundo, e não deixemos de rezar, mais e melhor, para alcançar a vitória do amor que salva e liberta.
Com a penitência lutemos contra o MISTÉRIO DA INIQUIDADE que está em nós, nos outros, no mundo, na certeza de que a ascese, a penitência, a mortificação são um modo de nos identificarmos com Jesus Crucificado, o Homem Penitente e Sofredor.
Bela caminhada de Quaresma.
Dário Pedroso SJ
Labat n.º 101 de Fevereiro de 2010

17 fevereiro, 2010

Falta de tempo para rezar?



Os jesuítas acabam de lançar o www.passo-a-rezar.net, uma proposta de oração para quem não vive parado.
Cada dia, são 10 minutos de texto, pistas de oração e música, em formato MP3 para descarregar. Depois, é só levar e rezar no metro, no autocarro, a passear pela rua ou simplesmente sentado à secretária.
Descubra este novo modo de se encontrar com Deus e viver espiritualmente o dia-a-dia!

O acesso ao referido endereço, também está disponível na faixa lateral deste blogue, em "endereços importantes", com a designação: "Leva contigo a tua oração!".

12 fevereiro, 2010

Bento XVI em Portugal - 2010


CEP lança site dedicado à visita do Papa

 

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) apresentou no dia 9.2.10, o site www.bentoxviportugal.pt onde vão estar todas as informações sobre a visita do Papa Bento XVI ao nosso País, marcada para Maio deste ano. 
A novidade foi avançada no final da reunião do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), pelo porta-voz Padre Manuel Morujão.
"É um grande investimento na comunicação da Conferência Episcopal, para jornalistas estrangeiros e nacionais e para todas as pessoas que se ligam à Internet, que são cada vez mais".
"Contigo caminhamos na esperança - Cristianismo, sabedoria e missão”, foi o slogan  escolhido para o cartaz alusivo ao evento, uma mensagem positiva que contrasta com o momento que se vive.
"É alguma coisa que dá um tom positivo, o pessimismo não é amigo de ninguém e de situações difíceis muito menos. É na esperança que caminhamos e caminhamos unidos ao sucessor de Pedro que nos vem visitar, motivo de alegria para todos nós”, sublinha o porta-voz da CEP, o Padre Manuel Morujão.
Os Bispos portugueses estão a preparar uma nota pastoral sobre a visita do Papa a Portugal, documento que será publicado em Março.
A visita de Bento XVI realiza-se de 11 a 14 de Maio deste ano e vai passar pelas cidades de Lisboa, Fátima e Porto.
Net Rádio Católica

NOTA: O Site  acima referido, encontra-se também disponível na faixa lateral deste blogue, em "endereços importantes" com a designação: "Bento XVI em Portugal - 2010".

11 fevereiro, 2010

Informação da Administração do Blogue



Foram ultrapassadas as dificuldades de reprodução dos  vídeos constantes neste blogue, mas mantém-se ainda a impossibilidade de inserção de novos vídeos de duração superior a 10 minutos, até que o BLOGGER, solucione.

07 fevereiro, 2010

Acções de Formação

Realizadas no período de 15.OUT.06 a 3.JUN.07


Diácono João Carmona

Para acesso a cada Acção de Formação, clique na que pretender:

- ACÇÃO DE FORMAÇÃO (7-7)

 

Com base nas indispensáveis alterações que estão a ser efectuadas pelo BLOGGER, tendo como origem o fecho do GOOGLE Page Creator, lamentamos mas tornou-se inviável a continuação dos lançamentos dos nossos vídeos, a partir da 2.ª parte da 5.ª Acção de Formação, até nova solução.