25 dezembro, 2014

Missa do Dia de Natal na Sé de Lisboa

 O passado que contemplamos é o presente que continuamos

O Natal, irmãos caríssimos, é tão verdadeiro e belo que nenhuma comemoração o esgota, nenhuma reflexão o abrange, nenhuma palavra o exprime por completo. Sucedem-se os anos que Deus nos deu e nunca conseguimos receber à altura o próprio Deus que a si mesmo se dá, no Verbo incarnado em que se exprime.

Só em Deus tudo foi, é e permanece absolutamente “dito e feito”, em plena coincidência de palavras e ações. Daqui decorre para nós, adoradores do presépio, a mais exigente das coerências, como reconstrutores do mundo, deste mundo concreto, de esplendor tão sofrido.
Nenhuma data concitou na tradição cristã mais expandida – religiosa ou culturalmente expandida – tal concurso das mais diversas artes, literárias, musicais e plásticas, eruditas e populares. Nenhum acontecimento sugeriu tantos outros, nas famílias, nas comunidades e em nações inteiras, tomando uma criança nascida como forma e figura da esperança mais profunda de todos.
A liturgia cristã desdobra-se em alusões e sinais na cíclica roda dos anos. Tem o seu centro na Páscoa, que irradia e desdobra. Mas o Natal mantém sempre a surpresa e o espanto da aventura divina no mundo, como se manifestou ao princípio e já apontava o fim. O despojamento de Deus naquela criança que Ele realmente foi, concluiu-se na cruz onde absolutamente se deu. Mas ali mesmo, no presépio de Belém, era já a inocência retomada e a recriação do mundo. Ali mesmo, nascido de Maria e guardado por José, abismados os dois no mistério que nela perpassara, no mistério que ele adotara.
Sendo o Natal assim, o que mais houve naquela noite foi um imenso silêncio que só os anjos quebraram, ou melhor, reforçaram, pois era o próprio Deus que ali se dizia. Silêncio, atenção profunda que mantemos já em pleno dia, mesmo nos cânticos que entoamos.
Chamemos a isto “dignidade humana”, com a dimensão inteira que Deus humanado lhe confere. Porque «o Verbo fez-se carne e habitou entre nós» - e também em nós, em cada um de nós e dos outros, todos os outros, como Natal continuado. Ao dizermos “carne”, dizemos o que somos, enquanto humanidade feliz e sofredora, ridente ou chorosa, saudável ou enferma, e tal e qual assim, como em nós e nos outros, sem omitir os momentos nem excluir ninguém. Aqui se encontrou Deus connosco, na vida daquele menino, depois jovem e adulto, do presépio à cruz. Aqui, indispensavelmente aqui, pois que riu e chorou, viveu e tomou por dentro o que só com Deus podemos ser ou voltar a ser. Como não Lhe chegaríamos nunca, chegou Ele próprio até nós, indissoluvelmente agora.
E somam-se as consequências. No modo de vermos a Deus e no modo de nos vermos a nós e aos outros, a nós com os outros e a partir dos outros – como certamente Maria, José, os pastores e os magos, se reviram e redescobriram no divino olhar daquele menino tão humano, o «eterno menino de ainda agora», como lhe chamou um dos nossos clássicos. Ainda hoje espanta como se pôde acusar o cristianismo de alienação, quando é precisamente o contrário, como incarnação de Deus na humanidade mais real e comezinha. Quando o presépio de Belém é agora a casa de toda a gente e mesmo – muito especialmente – a dos que a não têm, ou perderam entretanto.
Mas, se ainda espanta, é certo que também dói, no que tem de omissão nossa, sempre que não dissemos nem testemunhamos a incarnação divina, falando de Deus como se O não reconhecêssemos em Cristo, como realmente foi e enquanto “Deus connosco”.
Não nos faltam, porém, e muito felizmente, exemplos e estímulos de incarnação continuada em pessoas, famílias e grupos que continuam e ativam o Natal de Cristo no mundo, a incarnação de Deus na carne viva duma humanidade que sofre e que espera.
- Que dizer do nosso Papa Francisco e da sua constante preocupação por aproximar-se e aproximar-nos a nós de todas as periferias deste mundo, outras tantas Beléns com seus presépios vivos?! – Que dizer, neste ano da vida consagrada, daquelas comunidades religiosas que não desistem de estar presentes em meios socialmente difíceis e até os procuram, para serem sinais dum Deus que não desiste de incarnar? – Que dizer de tantas famílias, onde esta demorada crise reforçou laços de cuidado mútuo e intergeracional? – Que dizer de paróquias e outras agregações e instituições cristãs que redobram esforços para responder às mais diversas necessidades, de ontem ou agora? – Que dizer de tanto homem e mulher de boa vontade, que não deixa fechar o coração nem cair os braços, com uma persistência em que o próprio Criador certamente se revela?!

Incarnar, incarnar sempre, incarnar mais, continuando e até aumentando um Natal que o próprio Jesus enunciou assim, em “discurso de despedida”: «Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim também fará as obras que eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque eu vou para o Pai, e o que pedirdes em meu nome eu o farei, de modo que, no Filho, se manifeste a glória do Pai. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.» (Jo 14, 12-14).
Peçamos então, irmãos caríssimos, peçamos sempre e também agora, junto do presépio de Belém, alargado ao presépio do mundo. Peçamos a Jesus, Verbo de Deus incarnado, que por nós e no seu Espírito, continue a obra da verdadeira salvação, que só acontecerá com a mudança profunda do coração de cada um, para chegar ao coração de todos, ao coração duma história verdadeiramente humana, duma história finalmente divina.
Celebremos o Natal, hoje e nos dias que se seguem, num tempo litúrgico particularmente belo. Mas por isso mesmo exigente, com a intensa beleza das coisas verdadeiras e plenas de vida e convivência autêntica. Os Evangelhos da Infância são realmente belos, vazando a história da Sagrada Família em páginas da melhor literatura bíblica e teológica, porque tudo era pouco para falar de “Deus connosco”.
São palavras que “salvam”, porque nos curam e incluem na história de Deus no mundo. Do presépio à apresentação no templo, da fuga para o Egito ao regresso à terra, do reencontro no templo, já adolescente, à oficina de José… Tudo era Jesus, e Deus no mundo, para O acolhermos agora na vida que nasce, e com todo o “direito” a nascer; nas famílias que nos merecem o mais sério e até religioso dos cuidados; nos refugiados, como Jesus menino também foi; nas crianças e jovens que hão de crescer igualmente «em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52); no trabalho que os realize depois, como Jesus iniciou a reconstrução do mundo na oficina de Nazaré da Galileia.    
Sim, amados irmãos e irmãs, «o Verbo fez-se carne e habitou entre nós». Mas o passado que contemplamos é agora o presente que continuamos. Pois a glória que trouxe é hoje a esperança do mundo.

+ Manuel Clemente
Sé de Lisboa, 25 de dezembro de 2014


Homilia do Papa Francisco na Noite de Natal



(RV) «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles» (Is 9, 1). «Um anjo do Senhor apareceu [aos pastores], e a glória do Senhor refulgiu em volta deles» (Lc 2, 9). É assim que a Liturgia desta santa noite de Natal nos apresenta o nascimento do Salvador: como luz que penetra e dissolve a mais densa escuridão. A presença do Senhor no meio do seu povo cancela o peso da derrota e a tristeza da escravidão e restabelece o júbilo e a alegria.

Também nós, nesta noite abençoada, viemos à casa de Deus atravessando as trevas que envolvem a terra, mas guiados pela chama da fé que ilumina os nossos passos e animados pela esperança de encontrar a «grande luz». Abrindo o nosso coração, temos, também nós, a possibilidade de contemplar o milagre daquele menino-sol que, surgindo do alto, ilumina o horizonte.

A origem das trevas que envolvem o mundo perde-se na noite dos tempos. Pensemos no obscuro momento em que foi cometido o primeiro crime da humanidade, quando a mão de Caim, cego pela inveja, feriu de morte o irmão Abel (cf. Gn 4, 8). Assim, o curso dos séculos tem sido marcado por violências, guerras, ódio, prepotência. Mas Deus, que havia posto suas expectativas no homem feito à sua imagem e semelhança, esperava. O tempo de espera fez-se tão longo que a certo momento, quiçá, deveria renunciar; mas Ele não podia renunciar, não podia negar-Se a Si mesmo (cf. 2 Tm 2, 13). Por isso, continuou a esperar pacientemente face à corrupção de homens e povos.

Ao longo do caminho da história, a luz que rasga a escuridão revela-nos que Deus é Pai e que a sua paciente fidelidade é mais forte do que as trevas e do que a corrupção. Nisto consiste o anúncio da noite de Natal. Deus não conhece a explosão de ira nem a impaciência; permanece lá, como o pai da parábola do filho pródigo, à espera de vislumbrar ao longe o regresso do filho perdido.

A profecia de Isaías anuncia a aurora duma luz imensa que rasga a escuridão. Ela nasce em Belém e é acolhida pelas mãos amorosas de Maria, pelo afecto de José, pela maravilha dos pastores. Quando os anjos anunciaram aos pastores o nascimento do Redentor, fizeram-no com estas palavras: «Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). O «sinal» é a humildade de Deus levada ao extremo; é o amor com que Ele, naquela noite, assumiu a nossa fragilidade, o nosso sofrimento, as nossas angústias, os nossos desejos e as nossas limitações. A mensagem que todos esperavam, que todos procuravam nas profundezas da própria alma, mais não era que a ternura de Deus: Deus que nos fixa com olhos cheios de afecto, que aceita a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez.

Nesta noite santa, ao mesmo tempo que contemplamos o Menino Jesus recém-nascido e reclinado numa manjedoura, somos convidados a reflectir. Como acolhemos a ternura de Deus? Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? «Oh não, eu procuro o Senhor!» – poderíamos replicar. Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a encontrar-me e cobrir-me amorosamente das suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?

E ainda: temos a coragem de acolher, com ternura, as situações difíceis e os problemas de quem vive ao nosso lado, ou preferimos as soluções impessoais, talvez eficientes mas desprovidas do calor do Evangelho? Quão grande é a necessidade que o mundo tem hoje de ternura!

A resposta do cristão não pode ser diferente da que Deus dá à nossa pequenez. A vida deve ser enfrentada com bondade, com mansidão. Quando nos damos conta de que Deus Se enamorou da nossa pequenez, de que Ele mesmo Se faz pequeno para melhor nos encontrar, não podemos deixar de Lhe abrir o nosso coração pedindo-Lhe: «Senhor, ajudai-me a ser como Vós, concedei-me a graça da ternura nas circunstâncias mais duras da vida, dai-me a graça de me aproximar ao ver qualquer necessidade, a graça da mansidão em qualquer conflito».

Queridos irmãos e irmãs, nesta noite santa, contemplamos o presépio: nele, «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9, 1). Viram-na as pessoas simples, dispostas a acolher o dom de Deus. Pelo contrário, não a viram os arrogantes, os soberbos, aqueles que estabelecem as leis segundo os próprios critérios pessoais, aqueles que assumem atitudes de fechamento. Olhemos o presépio e façamos este pedido à Virgem Mãe: «Ó Maria, mostrai-nos Jesus!»

Missa da Noite de Natal

 O Natal convida a uma Páscoa urgente



Esta noite é sempre especial e mesmo única, incansavelmente bela. Mas perguntemo-nos porquê?!
Já a pergunta é reveladora duma curiosidade que partilhamos com aqueles pastores, em torno do “sinal” indicado. Aqui estamos também, acordados e atentos, de coração disponível para a lição do Natal. Disponível, apesar de tudo e de tanto que a parece contrariar, mas afinal a destaca.
Porquê, ainda hoje, quando notícias de perto e de longe teimam em trazer-nos perigos, ameaças ou desilusões de pessoas, projetos e causas… Porquê, ainda hoje, quando se dá livre curso a toda a espécie de “pais natais” consumistas, em que já nada resta dum longínquo São Nicolau amigo das crianças… Porquê, ainda hoje, quando motivos realmente importantes, como o convívio familiar e os votos de boas festas felizmente se repetem, mas esquecendo demais que a família e a mensagem do Natal serão sempre as do presépio de Belém, como foram anunciadas aos homens de boa vontade de todo o tempo e circunstância…
Sim, o Natal é belo e a sua atração não acaba, porque se realizou a profecia que ouvimos, e tantos ouviram, ainda antes de acontecer, como realmente aconteceu naquela noite: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado […] e será chamado “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz”». Sim, o Natal é belo, porque «assim se manifestou a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens», como ouvimos também.
- E como aconteceu? Ressoa-nos o Evangelho de há pouco: Enquanto José e Maria se encontravam em Belém, «chegou o dia de ela dar à luz, e teve o seu filho primogénito. Envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria».
Parecerá pouco, mas é realmente tudo. A verdade que esplende e atrai nesta noite reside completamente aqui: na família, na criança e na manjedoura. E a razão de nos atrair tanto, só pode ser uma: o próprio Deus se manifesta assim, no que quer ser connosco e no modo indispensável de tal acontecer, isto é, a partir da família, como realidade central da humanidade, e na pobreza autêntica, que nos faz viver uns dos outros e uns para os outros. Estamos a falar de “amor”, de vida partilhada, que é a verdadeira essência de Deus.
É nessa chave também que o Papa Francisco nos apresenta o nascimento, a vida e a própria religião de Jesus, ou seja, o modo legítimo de nos relacionarmos com Deus – e como Ele mesmo se relacionou connosco. Oiçamo-lo: «Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres. Esta salvação veio a nós através do “sim” duma jovem humilde, de uma pequena povoação perdida na periferia de um grande império. O Salvador nasceu num presépio, entre animais, como sucedia com os filhos dos mais pobres […]. A quantos sentiam o peso do sofrimento, acabrunhados pela pobreza, assegurou que Deus os tinha no âmago do seu coração: “Felizes de vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6, 20), e com eles se identificou: “tive fome e destes-me de comer”, ensinando que a misericórdia para com eles é a chave do Céu (cf. Mt 25, 34-40)» (Papa Francisco, exortação apostólica Evangelii Gaudium, 197).

Voltemos então ao ponto de encontro: a família, a criança e a manjedoura. A família, meio e ambiente indispensáveis para a transmissão da vida, da conceção à educação dos filhos. A família, cuja constituição e acompanhamento devem ser objetivo prioritário e permanente da nossa ação pastoral. A família, cuja sustentação terá de ser igualmente a primeira preocupação da sociedade e do Estado, que não podem prescindir dela, como primeira realização social e insubstituível aprendizagem da vida em comum. A família, economicamente sustentada, profissionalmente garantida e pedagogicamente respeitada, no tocante à transmissão da fé e dos valores aos seus filhos.
Igualmente a criança, cujos inegáveis direitos ainda esperam e muito pela realização cabal, mesmo em sociedades como a nossa. E aqui há por vezes sinais de Natal verdadeiro. Como me contaram há dias: um casal com vários filhos ainda teve lugar para mais um, adotado e portador de deficiência. Uns amigos que souberam, desistiram de grandes enfeites “natalícios” em sua casa, para acorrerem com gosto à dos adotantes e ali contemplarem esse presépio autêntico. E o facto é que nunca houve tanta alegria naquela casa, alegria que continua, para pais e irmãos adotivos. Aí sim, ouve-se a canção dos anjos.
A manjedoura, por fim, na simplicidade dos meios e das coisas, e no gosto educado para que tudo chegue para todos. Educação verdadeira, em que o ter não sufoque o ser, e a satisfação com o bastante permita a festa comum. Pois, realmente, «a felicidade está mais em dar do que em receber» (Ac 20, 35). Felicidade que se aprende, e quanto mais cedo melhor.

Felicidade que se aprende, deixai-me insistir. E insistir especialmente agora, quando nos perguntamos sobre o futuro, que queremos melhor, mas também havemos de querer diferente. Estudam os economistas, tentam os políticos, deseja toda a gente: vida digna para todos e cada um, sociedades realmente solidárias em que ninguém fique fora da mesa comum e as necessidades básicas sejam garantidas. Diverge-se no modo de lá chegar, na conceção do Estado e do seu papel, num mundo ambiguamente globalizado, que tanto nos aproxima na informação como nos tolhe a participação, pois não alcançamos o que de facto se passa, nem apuramos quem realmente determina...
Algo de semelhante acontecia há dois milénios. A terra onde Jesus nasceu perdia-se num grande império. Herodes era rei, mas enquanto lho permitisse Roma. Grupos internos dividiam-se em várias pertenças e propostas político-religiosas. A gente mais simples, de Belém, Nazaré ou outras terras, vivia ou sobrevivia, com trabalho ou falta dele. As tradições que tinham destacado aquele povo, em torno do templo de Jerusalém ou nas famílias, sofriam o forte embate do mundo romano ou helenístico, com outras formas de encarar a vida e outros padrões de comportamento...
Mas foi então, sobremaneira então, que recebemos o “admirável conselho” referido pelo profeta Isaías. Nasceu um menino numa manjedoura, cresceu numa família, trabalhou numa oficina: tudo ao perto, situado e reconhecido, com parentes e vizinhos, no dia-a-dia de todos. Também religiosamente, não faltando ao culto semanal. Pelos trinta anos, afirmou desassombradamente que era tempo de se cumprirem as profecias, resumidas em anunciar a Boa Nova aos pobres, de todas as pobrezas que fossem. E começou a fazê-lo, rompendo muitos cativeiros, curando de muitas cegueiras, libertando de muita opressão, num tempo favorável da parte do Senhor (cf. Lc 4, 18-19).
 Nada meramente teórico ou especulativo. Tudo prático, aonde chegava, com quem se encontrava e no que dizia. Falava do céu com coisas da terra. E muito terra-a-terra, como a alegria daquela pobre mulher que fez uma festa quando recuperou a sua moeda, ou daquela outra, igualmente pobre, que deu tudo o que possuía e assim muito mais do que quem só deixara sobras; ou daquele pai que tanto festejou o regresso do filho esbanjador, porque o recuperava a ele; ou do estrangeiro que se tornou muito mais próximo do homem maltratado do que os seus conaturais, que passaram ao lado... Assim foi Jesus até ao fim, em continuado Natal de Deus na terra, que inteiramente consumou (cf. Jo 19, 30).
 Por isto, só por isto aqui nos encontramos, celebrando um Natal que se repercute em quantos continuam, no Espírito de Jesus, a trazer o céu à terra, com idêntica verdade comprovada na vida. O mundo não será outro senão da mesma maneira – a sua maneira, concreta, simples, inteiramente verdadeira porque verificada nos bons efeitos que produz. Assim iremos ao todo, que atingiremos pela parte praticada.
Como Jesus chegou ao mundo inteiro, bastando-lhe pouco mais de três décadas convividas num pequeno território e entre gente periférica, no grande império de então. Mas a solução ficou patente e oferecida: começando por cada homem e mulher, de criança a idoso, com rosto, nome e situação; não deixando para amanhã o que devemos fazer hoje, do modo mais solidário e inclusivo que possa ser. E em cada pequena vitória de humanismo autêntico abrir-se-á um futuro capaz. Comecemos ou continuemos nós agora. Convertamo-nos à divina lição do Natal de Cristo, como Ele se apresentou no mundo, naquela família e naquela manjedoura, cujas tábuas já indicavam as da cruz. O Natal convida a uma Páscoa urgente.

 + Manuel Clemente
 Sé de Lisboa, Missa da Noite de Natal, 2014

24 dezembro, 2014

Mensagem de Natal do Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente - 2014

 


Terra Santa: milhares de cristãos em Belém. Patriarca Twal visitou Gaza



(RV) Em Roma é já grande a expectativa para a grande celebração da Vigília de Natal desta noite na Basílica de S. Pedro. O Papa Francisco presidirá à celebração que será transmitida para todo o mundo. Poderá ver e ouvir no site da Rádio Vaticano: radiovaticana.va. Como aperitivo para este dia de vigília o Santo Padre escreveu na sua conta twitter @pontifex a seguinte mensagem: “Procuremos escutar e fazer silêncio, para deixar espaço à beleza de Deus.”

Entretanto, Belém na Terra Santa transforma-se nesta noite no centro da cristandade. Segundo informações veiculadas pela agência Sir e que citam D. William Shomali, bispo auxiliar de Jerusalém e vigário patriarcal para a Palestina foram emitidas 700 autorizações pelas autoridades israelitas para cristãos de Gaza para que possam celebrar o Natal em Belém. Mais de 25 mil foram as autorizações concedidas aos cristãos da Cisjordânia.

O Patriarca latino de Jerusalém, Fouad Twal, esteve em Gaza em Visita Pastoral no passado domingo dia 21 tendo celebrado Missa na Paróquia da Sagrada Família, onde, segundo as suas palavras citadas pela agência Zenit entre "almas marcadas por dificuldades e dores" encontrou "a pequenez guardada pelo Senhor".

O Patriarca refere à agência Fides ter encontrado uma “igreja unida com os nossos fiéis que vivem uma forte comunhão também com os cristãos ortodoxos.” D Twal afirma ainda que “em Gaza não encontras a grandeza do mundo e a potência efêmera do Senhor. Um pequeno grupo de almas marcadas por circunstâncias difíceis e dolorosas, que colocam as suas esperanças em Jesus. É a imagem do verdadeiro Natal”.

Inspirado nas Escrituras, o Patriarca latino de Jerusalém afirmou ainda que "sempre nos comoveu ler nos Evangelhos que Maria e José não encontraram lugar na estalagem, e que Jesus Menino nasceu numa gruta. Hoje, entre os milhões de refugiados, existem muitas crianças que  ficariam muito felizes por poder dormir numa gruta como aquela na qual nasceu o Salvador. Para elas seria quase um luxo” – concluiu o Patriarca Twal. (RS)

Padre Pizzaballa: Carta do Papa é encorajamento para todos

 

(RV) O Papa Francisco neste início do Tempo de Natal enviou uma Carta aos cristãos do Médio Oriente com uma palavra de encorajamento para todos: pastores; jovens, idosos, organizações caritativas, cristãos em geral, membros de outros  grupos religiosos e étnicos, comunidade internacional. A todos o Santo Padre apelou a não resignarem-se à situação de conflito, mas a dar, isso sim,  o próprio contributo para que se possa construir o mosaico da paz. É, afinal, um pedido para que sejam tomadas posições contra o fundamentalismo. A Rádio Vaticano ouviu o comentário do Custódio da Terra Santa, o Padre Pierbattista Pizzaballa sobre a Carta do Papa Francisco aos cristãos do Médio Oriente:

“É uma carta que me tocou muito porque é muito clara no descrever a situação que vivem os cristãos, mas não é pessimista, encoraja a comunidade cristã à sua missão, que é aquela de dar testemunho com uma santidade de vida, chama o mal pelo nome, terrorismo que deve ser condenado. Há depois elementos muito importantes, como o diálogo ecuménico e inter-religioso: perante estas situações não nos devemos fechar, mas temos necessidade ainda mais de olhar para o outro no diálogo e na relação que são essenciais e que não têm alternativa. Não há outro caminho, di-lo expressamente. Portanto, recusar toda a forma de parcialidade que é a condenação desta terra.”

“O diálogo inter-religioso é necessário, porque não há outra escolha. No diálogo inter-religioso é preciso porém pedir aos nossos irmãos muçulmanos clareza no condenar estas formas de degeneração do Islão, porque senão o diálogo seria baseado em qualquer coisa de falso. É uma clareza que é importante, ao mesmo tempo é também importante não ceder ao conflito de civilizações, ao chamamento às armas, porque não têm futuro.”

“Eu creio que já a Carta em si, que não era esperada e que não faz parte de alguma tradição, é um gesto de atenção muito importante que será seguramente muito bem recebido. E depois também uma indicação de método e uma indicação de um caminho a seguir por todas as comunidades cristãs. Perante os dramas que todos estamos a assistir era necessário dar-nos uma indicação e uma chamada de atenção com autoridade e forte. E isto era aquilo que tínhamos mesmo necessidade.”

Na sua Carta aos cristãos do Médio Oriente o Papa encoraja-os a ajudarem a maioria muçulmana, que vive à sua volta, a darem com coragem e firmeza testemunho de um Islão como religião de paz e respeitoso dos direitos humanos. Encoraja-os também a usufruir do direito de participar plenamente na vida e crescimento das suas nações, a serem construtores de paz, reconciliação e desenvolvimento e a construírem pontes segundo o espírito das bem-Aventuranças e a colaborarem com as autoridades nacionais e internacionais.

O Santo Padre conclui a sua Carta recordando “às queridas irmãs e irmãos cristãos do Medio Oriente” que têm uma “grande responsabilidade”  e que não estão sozinhos a enfrentá-la”. Exprime também o desejo de “ter a graça de ir pessoalmente” visitá-los e confortá-los. (RS)

23 dezembro, 2014

Consolação e esperança - Papa aos cristãos do Medio Oriente



(RV) O Papa tem uma palavra para todos: pastores; jovens, idosos, organizações carititativas, cristãos em geral, membros doutros  grupos religiosos e étnico, comunidade internacional... a todos apelando a não resignar-se à situação de conflito, mas a dar, isso sim,  o próprio contributo para que se possa construir o mosaico da paz.

Seguindo as pegadas de São Paulo na sua carta aos Coríntios, o Papa Franscisco situa a suamissiva no espírito da consolação e esperança que nos vêm de Deus e que se manifesta mais uma vez, de forma inefável, na comemoraçao do nascimento de Cristo.

O Papa diz acompanhar todos os dias as notícias que chegam do Medio Oriente, onde aflições e tribulações não têm faltado, infelizmente, mas mostra-se particularmente preocupado por aquilo a que define de “organização terrorista, de dimensões antes inconcebíveis, que comete toda a espécie de abusos e práticas indignas do homem”, atingindo de forma particular os cristãos expulsos das suas terras, onde viviam desde o tempo dos apóstolos. Um sofrimento que brada a Deus, apelando ao compromisso de todos por meio da oração e iniciativas.

A todos, sem distinção de religião ou grupo etnico, o Papa exprime, em seu nome e da Igreja em geral “unidade e solidariedade”. E fá-lo pensando de modo particular “nas crianças, nas mães, nos idosos, nos deslocados e refugiados, em quantos padecem a fome, naqueles que têm de enfrentar a dureza do inverno sem um tecto para se protegerem.

Franciso encoraja à unidade em Cristo, nossa consolação e nossa esperança, uma unidade mais do que nunca necessária. E recorda os “pastores e fiéis, a quem foi pedido o sacrifício da vida, nos últimos tempos, muitas vezes pelo simples facto de serem cristãos”; as “pessoas sequestradas, incluindo bispos ortodoxos e sacerdotes de diferentes Ritos”, pedindo a Deus para que possam regressar sãs e salvas às suas comunidades.

O Papa indica depois alguns sinais do “Reino de Deus” no meio dessas hostilidades e sofrimentos:
Antes de mais, alegra-se pela a comunhão vivida com fraternidade e simplicidade entre católicos, ortodoxos e fiéis doutras Igrejas na região. Um “ecumenismo do sangue” – diz -  exprimindo o desejo de que possam sempre “dar testemunho de Jesus através das dificuldades. A vossa presença é preciosa para o Medio Oriente” – escreve Francisco na sua carta em que agradece aos cristãos pela sua “perservença”; cristãos que ele define de “fermento na massa”, um pequeno rebanho, mas com “grande responsabilidade” na terra onde nasceu e donde irradiou o cristianismo.

Outro sinal do “Reino de Deus” indicado pelo Papa é “o esforço por colaborar com pessoas doutras religiões, com os judeus e com muçulmanos”. Francisco recorda que não há outro caminho senão o do diálogo inter-religioso. O diálogo é um “serviço à justiça e uma condição necessária para a tão desejada paz” – remata.

O Papa encoraja aos cristãos a ajudarem a maioria muçulmana que vive à sua volta a dar, com coragem e firmeza, testemunho de um Islão como religião de paz e respeitoso dos direitos humanos. Encoraja-os também a usufruir do direito de participar plenamente na vida e crescimento das suas nações, a serem construtores de paz, reconciliação e desenvolvimento, a construirem pontes segundo o espírito das bem-Aventuranças e a colaborarem com as autoridades nacionais e internacionais.
E aqui exprime a sua gratidão aos pastores, desde os patriarcas ás religiosas pela sua presença, acompanhamento e solicitude junto das comunidades, recordando-lhes que a presença dos pastores junto dos seu rebanho é importante sobretudo nos momentos de dificuldade.

Aos jovens o Papa manda um abraço, convidando-os a não terem medo, nem vergonha de ser cristãos. Aos idosos, memória do povo,  exprime a sua estima, esperando que a essa memória seja semente de crescimento para as novas gerações. O seu apreço vai também para a Cáritas e outras organizações caritativas católicas de vários países, enaltecendo de modo particular o esforço na educação para a cultura do encontro, respeito e dignidade de cada ser humano.

Assegurando a ajuda de toda a Igreja, em oração e todos os meios à disposição, o Papa repudia mais uma vez o tráfico de armas, recordando que o que é necessário são projectos de vida. E incita a Comunidade interanacional a acudir os povos do Medio Oriente, “promovendo a paz por meio da negociação e da actividade diplomatica”.

Nos rastos da sua viagem ao Medio Oriente e do encontro de oração no Vaticano com os Presidentes de Israel e da Palestina, o Papa convida a continuar a rezar pela paz no Medio Oriente.

E conclui recordando “às queridas irmãs e irmãos cristãos do Meido Oriente” que têm uma “grande responsabilidade”  e que não estão sózinhos a enfrentá-la”. Exprime também o desejo de “ter a graça de ir pessoalmente” visitá-los e confortá-los.

(DA)

Discurso do Papa Francisco à Cúria Romana – texto integral



(RV) discurso integral proferido pelo Papa à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2014:

“Tu estás acima dos querubins, tu que transformaste a miserável condição do mundo quando te fizeste como nós” (Santo Agostinho).

Amados irmãos,

Ao final do Advento, encontramo-nos para as tradicionais saudações. Dentro de alguns dias teremos a alegria de celebrar o Natal do Senhor; o evento de Deus que se faz homem para salvar os homens; a manifestação do amor de Deus que não se limita a dar-nos algo ou a enviar-nos uma mensagem ou alguns mensageiros, doa-se-nos a si mesmo; o mistério de Deus que toma sobre si a nossa condição humana e os nossos pecados para revelar-nos a sua Vida divina, a sua graça imensa e o seu perdão gratuito. É o encontro com Deus que nasce na pobreza da gruta de Belém para ensinar-nos a potência da humildade. Na realidade, o Natal é também a festa da luz que não é acolhida pela gente “eleita”, mas pela gente pobre e simples que esperava a salvação do Senhor.

Em primeiro lugar, gostaria de desejar a todos vós – cooperadores, irmãos e irmãs, Representantes pontifícios disseminados pelo mundo – e a todos os vossos entes queridos um santo Natal e um feliz Ano Novo. Desejo agradecer-vos cordialmente, pelo vosso compromisso quotidiano ao serviço da Santa Sé, da Igreja Católica, das Igrejas particulares e do Sucessor de Pedro.

Como somos pessoas e não números ou somente denominações, lembro de maneira especial os que, durante este ano, terminaram o seu serviço por terem chegado ao limite de idade ou por terem assumido outras funções ou ainda porque foram chamados à Casa do Pai. Também a todos eles e aos seus familiares dirijo o meu pensamento e gratidão.

Desejo juntamente convosco erguer ao Senhor vivo e sentido agradecimento pelo ano que está a nos deixar, pelos acontecimentos vividos e por todo o bem que Ele quis generosamente realizar mediante o serviço da Santa Sé, pedindo-lhe humildemente perdão pelas faltas cometidas “por pensamentos, palavras, obras e omissões”.

E partindo precisamente deste pedido de perdão, desejaria que este nosso encontro e as reflexões que partilharei convosco se tornassem, para todos nós, apoio e estímulo a um verdadeiro exame de consciência a fim de preparar o nosso coração ao Santo Natal.

Pensando neste nosso encontro veio-me à mente a imagem da Igreja como Corpo místico de Jesus Cristo. É uma expressão que, como explicou o Papa Pio XII “brota e como que germina do que é frequentemente exposto na Sagrada Escritura e nos Santos Padres”. A este respeito, São Paulo escreveu: “Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (1 Cor 12,12).

Neste sentido, o Concílio Vaticano II lembra-nos que “na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui os seus vários dons segundo as suas riquezas e as necessidades dos ministérios (cf. 1 Cor 12,1-11)”. Por isto “Cristo e a Igreja formam o «Cristo total» - Christus totus -. A Igreja é una com Cristo».

É belo pensar na Cúria Romana como sendo um pequeno modelo da Igreja, ou seja, um “Corpo” que procura séria e quotidianamente ser mais vivo, mais sadio, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo.

Na realidade, a Cúria Romana é um corpo complexo, composto de muitos Dicastérios, Conselhos, Departamentos, Tribunais, Comissões e de numerosos elementos que não têm todos a mesma tarefa, mas são coordenados para um funcionamento eficaz, edificante, disciplinado e exemplar, não obstante as diversidades culturais, linguísticas e nacionais dos seus membros.

Em todo o caso, sendo a Cúria um corpo dinâmico, ela não pode viver sem alimentar-se e sem cuidar de si. De facto, a Cúria – como a Igreja – não pode viver sem ter uma ralação vital, pessoal, autêntica e sólida com Cristo. Um membro da Cúria que não se alimenta quotidianamente com aquele Alimento tornar-se-á um burocrata (um formalista, um funcionalista, um mero empregado): um ramo que seca e pouco a pouco morre e é lançado fora. A oração diária, a participação assídua nos Sacramentos, de modo especial, da Eucaristia e da reconciliação, o contacto quotidiano com a palavra de Deus e a espiritualidade traduzida em caridade vivida são o alimento vital para cada um de nós. Que todos nós tenhamos bem claro que sem Ele nada poderemos fazer (cf Jo 15, 8).

Consequentemente, a relação viva com Deus alimenta e fortalece também a comunhão com os outros, ou seja, quanto mais estivermos intimamente unidos a Deus tanto mais estaremos unidos entre nós porque o Espírito de Deus une e o espírito do maligno divide.

A Cúria está chamada a melhorar-se, a melhorar-se sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria a fim de realizar plenamente a sua missão. No entanto, ela, como todo corpo, como todo corpo humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais. São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria. São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor. Penso que nos ajudará o “catálogo” das doenças – nas pegadas dos Padres do deserto, que faziam aqueles catálogos – dos quais falamos hoje: ajudar-nos-á na nossa preparação ao Sacramento da Reconciliação, que será um passo importante de todos nós em preparação do Natal.

1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” pondo de lado os controles necessários e habituais. Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se actualiza, que não procura melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez que eram imortais, imunes e indispensáveis! É a doença do rico insensato do Evangelho que pensava viver eternamente (cf Lc 12, 13-21) e também daqueles que se transformam em senhores e se sentem superiores a todos e não ao serviço de todos. Esta doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo dos Eleitos”, do narcisismo que fixa apaixonadamente a sua imagem e não vê a imagem de Deus impressa na face dos outros, principalmente dos mais fracos e necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e de dizer com todo o coração «Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).

2. Outra doença: a doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés de Jesus (cf Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a “descansar um pouco’” (cf Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina Coelet que «para tudo há um tempo» (3,1-15).
3. Há ainda a doença do “empedernimento” mental e espiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e são de “dura cerviz” (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade interior, a vivacidade a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel, tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus” (cf Hb 3,12). É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem “os sentimentos de Jesus ” (cf Fl 2,5-11) porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e o próximo (cf Mt 22,34-40). Ser cristão, com efeito, significa ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2,5), sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade.

4. A doença da planificação excessiva e do funcionalismo. Quando o apóstolo planifica tudo minuciosamente e pensa que, fazendo uma perfeita planificação, as coisas efectivamente progridem, tornando-se, assim, um contabilista  ou um comercialista. Preparar tudo bem é necessário, mas sem jamais cair na tentação de querer encerrar e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que toda a planificação humana (cf Jo 3,8). Cai-se nesta doença porque «é sempre mais fácil e cómodo adaptar-se às próprias posições estáticas e imutadas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão de regulamentá-lo e de domesticá-lo… - domesticar o Espírito Santo! - … Ele é frescor, fantasia, novidade».

5. A doença da má coordenação. Quando os membros perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz barulho, porque os seus membros não cooperam e não vivem o espírito de comunhão e de equipe. Quando o pé diz ao braço: “não preciso de ti”, ou a mão à cabeça: “quem manda sou eu”, causando, assim, mal-estar ou escândalo.

6. Há também a doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas atividades autónomas, vivendo num estado de absoluta dependência das próprias visões, tantas vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronómico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com as suas próprias mãos.

7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objectivo primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses , e sim os dos outros» (Fl 2,1-4). É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos, e a vivermos um falso “misticismo” e um falso “quietismo”. O mesmo São Paulo os define «inimigos da Cruz de Cristo» porque se envaidecem da própria ignomínia e só têm prazer no que é terreno» (Fl 3,19).

8. A doença da esquizofrenia existencial. É a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos académicos não podem preencher. Uma doença que atinge frequentemente aquele que, abandonando o serviço pastoral, se limitam aos afazeres burocráticos, perdendo, assim, o contacto com a realidade, com as pessoas concretas. Criam, assim, um seu mundo paralelo, onde colocam à parte tudo o que ensinam severamente aos outros e começam a viver uma vida oculta e muitas vezes dissoluta. A conversão é por demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32).

9. A doença das bisbilhotices, das murmurações e do mexerico. Já falei muitas vezes desta doença, mas nunca é suficiente. É uma doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e se apodera da pessoa, transformando-a em “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e confrades. É a doença das pessoas cobardes que, não tendo a coragem de falar directamente, falam pelas costas. São Paulo nos adverte: «Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes» (Fl 2,14-18). Irmãos, guardemo-nos do terrorismo das maledicências!

10. A doença de divinizar os chefes: é a dos que cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12). São pessoas que vivem o serviço, pensando exclusivamente no que devem obter e não no que devem dar. Pessoas mesquinhas, infelizes e inspiradas só pelo seu próprio egoísmo (cf Gal 5,16-25). Esta doença poderia atingir também os Superiores, quando cortejam alguns seus colaboradores para obter a sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade.

11. A doença da indiferença para com os outros. Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas. Quando o mais especializado não coloca o seu conhecimento ao serviço dos colegas menos especialistas. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde para si, ao invés de partilhar positivamente com os outros. Quando, por ciúme ou por astúcia, se sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo.

12. A doença da cara fúnebre. Quer dizer, das pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros – principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa amável, serena e alegre que transmite alegria por toda parte onde quer que se encontre. Um coração repleto de Deus é um coração feliz que irradia e contagia de alegria todos os que estão à sua volta: é o que se vê imediatamente! Não percamos, portanto, aquele espírito jovial, cheio de humor, e até autoirónico, que nos torna pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de sadio humorismo! Far-nos-á muito bem recitar muitas vezes a oração de São Tomás Moro: rezo-a todos os dias; me faz bem.

13. A doença de acumular: quando o apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro. Na realidade, nada de material poderemos levar connosco, porque “a mortalha não tem bolsos” e todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam presentes – jamais poderão preencher aquele vazio; pelo contrário, torná-lo-ão cada vez mais exigente e mais profundo. A estas pessoas o Senhor repete: «Dizes: sou rico, faço bons negócios, de nada necessito – e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu ... Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te» (Ap 3,17-19). A acumulação só pesa e freia inexoravelmente o caminho! E penso numa anedota: um tempo, os jesuítas espanhóis descreviam que a Companhia de Jesus era como a “cavalaria leve da Igreja”. Lembro-me da mudança de um jovem jesuíta que, enquanto carregava num caminhão os seus muitos bens: bagagens, livros, objectos e presentes, ouvi um velho jesuíta, que estava a observá-lo, dizer com um sorriso sábio: e esta seria a “cavalaria leve da Igreja?”. As nossas mudanças são um sinal desta doença.

14. A doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo  e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também esta doença começa sempre por boas intenções, mas com o passar do tempo, escraviza os membros, tornando-se um câncer que ameaça a harmonia do Corpo e causa tanto mal – escândalos – especialmente aos nossos irmãos menores. A autodestruição ou o “tiro amigo” dos camaradas é o perigo mais sorrateiro. É o mal que atinge a partir de dentro; e, como diz Cristo, «todo o reino dividido contra si mesmo será destruído» (Lc 11,17).

15. E a última: a doença do proveito mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros, até mesmo nos jornais e nas revistas. Naturalmente para se exibirem e se demonstrarem mais capazes do que os outros. Também esta doença faz muito mal ao Corpo porque leva as pessoas a justificar o uso de todo o meio, contanto que atinja o seu objectivo, muitas vezes em nome da justiça e da transparência! E vem-me aqui à mente a lembrança de um sacerdote que chamava os jornalistas para lhes contar – e inventar – coisas privadas e reservadas dos seus confrades e paroquianos. Para ele a única coisa importante era ver-se nas primeiras páginas, porque assim se sentia “potente e convincente”, causando tanto mal aos outros e à Igreja. Pobrezinho!

Irmãos, estas doenças e tais tentações são naturalmente um perigo para todo cristão e para toda a Cúria, Comunidade, Congregação, Paróquia, Movimento eclesial e podem atingir quer em nível individual quer comunitário.

É necessário esclarecer que só o Espírito Santo - a alma do Corpo Místico de Cristo, como afirma o Credo Niceno-Constantinopolitano: «Creio... no Espírito Santo, Senhor e que dá vida» - pode curar todas as enfermidades. É o Espírito Santo que sustenta todo o esforço sincero de purificação e toda boa vontade de conversão. É Ele que nos faz compreender que todo o membro participa da santificação do Corpo ou do seu enfraquecimento. É Ele o promotor da harmonia: “Ipse harmonia est”, diz São Basílio. Santo Agostinho diz-nos: «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».

O restabelecimento é também fruto da consciência da doença e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando pacientemente e com perseverança a terapia.

Somos chamados, portanto – neste tempo de Natal e por todo o tempo do nosso serviço e da nossa existência - a viver «pela prática sincera da caridade, crescendo em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo o Corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a actividade que lhe é própria – efectua esse crescimento , visando à sua plena edificação na caridade» (Ef 4,15-16).
Amados irmãos!
Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam. Muitos criticam e poucos rezam por eles. É uma frase muito simpática, mas também muito verdadeira, porque delineia a importância e a delicadeza do nosso serviço sacerdotal e quanto mal poderia causar um só sacerdote que “cai”, a todo o Corpo da Igreja.

Portanto, para não cair nestes dias em que nos preparamos à Confissão, peçamos à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, que cure as feridas do pecado que cada um de nós tem no seu coração e que ampare a Igreja e a Cúria a fim de que sejam sadias e saneadoras; santas e santificadoras para a glória do seu Filho e para a nossa salvação e do mundo inteiro. Peçamos a Ela que nos faça amar a Igreja como a amou Cristo, seu Filho e nosso Senhor, e que tenhamos a coragem de nos reconhecermos pecadores e necessitados da sua misericórdia e que não tenhamos medo de abandonar a nossa mão entre as suas mãos maternais.

Os melhores votos de um santo Natal a todos vós, às vossas famílias e aos vossos colaboradores. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim! Obrigado de coração!