Agora vai ser julgada a
Verdade, vai ser julgada a Justiça, vai ser julgado o amor!
A justiça torna-se injustiça,
porque os homens de coração fechado, cegos pelo ódio, tolhidos pelo medo de
perderem as suas prerrogativas, não conseguem ver a Verdade, não conseguem ver
o Amor.
Pilatos pergunta-Lhe o que é a
Verdade e não obtém resposta, porque a Verdade está diante dele e ele não a
consegue ver, cego que está pelo seu poder.
Entregam-no aos seus algozes,
como “cordeiro ao matadouro” no dizer cru de Isaías, e Ele nada diz, nem um
queixume se ouve.
As bofetadas, as cuspidelas,
as palavras ofensivas que Lhe são dirigidas não Lhe interessam, não O ofendem sequer.
Aquilo que O ofende e faz
sofrer, são os nossos pecados, as nossas fraquezas, que Ele sabe continuarão, apesar
do Seu sacrifício.
Colocam-Lhe a cruz aos ombros.
A cruz da ignominia, a cruz
dos condenados, é colocada aos ombros do Perdão, aos ombros daquEle que não
condena, mas usa de toda a misericórdia para com todos.
Cada passo, cada queda, cada
olhar de escárnio que Lhe dirigem, suscita sempre n’Ele a mesma oração, agora
intima, interior, mas que mais tarde, na hora derradeira, se vai tornar audível:
«Perdoa-lhes Pai, que não sabem o que fazem.»
Deitam-nO sobre a cruz.
Apontam os cravos, pegam nos
maços e com fortes batidas rasgam a Sua carne, perfuram as Suas mãos e os Seus
pés.
Cada som cavo de cada
martelada, lembra-nos o meu pecado, o nosso pecado!
Que fácil é atirar as culpas para
cima daqueles que o faziam, como se não fossemos nós todos que O crucificamos!
Levantam-nO ao céu.
A cruz enterrada na terra,
aponta agora o Céu.
É uma escada que devemos
subir, fortemente agarrados, entregues a ela, porque só nela encontramos a
salvação.
De cima da cruz, Ele olha para
os seus algozes, Ele olha para nós, com o mesmo olhar com que olhou para Pedro
a seguir a este O ter negado.
É o único olhar que Ele tem, o
olhar da compaixão, o olhar da misericórdia, o olhar do perdão.
«Pai, nas tuas mãos entrego o
meu espírito.»
Nesta entrega ao Pai,
entrega-nos também a nós, entrega o Seu espírito, para que esse mesmo Espírito
seja derramado sobre todos nós, sobre mim, e assim possamos abrir os olhos e
reconhecer a Verdade, a Justiça e o Amor.
Faz-se um silêncio
avassalador!
Não o silêncio da morte, mas o
silêncio da espera, o silêncio que se vai tornar alegria na hora da
Ressurreição!
Ah, Senhor, prostrado, joelhos
em terra, olhos baixos de vergonha, com lágrimas de contrição, apenas Te digo:
Perdoa-me, Senhor, que não sei o que fiz, que não sei o que faço, quando Te crucifico
com o meu pecado.
E Tu, Senhor, nesse Teu
infindável amor, com esse Teu olhar de misericórdia, com o coração repleto de
perdão, apenas me dizes: Levanta-te e anda. Vigia e ora para que não entres em
tentação. Não temas que Eu estou sempre contigo.
Missa do Crisma celebrada na Quinta-feira Santa pelo Papa Francisco
(Vatican Media)
O Pe. Fares é um escritor da revista
jesuíta “La Civiltà Cattolica” e o seu livro contém dez recomendações
práticas e espirituais particularmente queridas ao Papa.
Cidade do Vaticano
O Papa Francisco deu de presente aos sacerdotes, nesta quinta-feira
(29/03), após a Missa do Crisma, na Basílica de São Pedro, o livro do
sacerdote argentino Pe. Diego Fares, intitulado “Dez coisas que o Papa Francisco propõe aos sacerdotes”.
Pe. Fares é um escritor da revista jesuíta “La Civiltà Cattolica” e o seu livro contém dez recomendações práticas e espirituais particularmente queridas do Papa.
Falar ao coração do povo
Segundo o jesuíta argentino, algumas delas “são expressas com a
fórmula do “não perder”. Trata-se de “uma maneira de aconselhar na
perspectiva da graça, e não na do ter que ser”. É “oferecer o ombro,
envolver o coração” para chegar às duas últimas exortações: “Fale ao
coração do povo” e “O bom sacerdote se reconhece na maneira como o seu
povo é ungido”.
O Papa Francisco escreveu uma carta de agradecimento ao Pe. Fares, relatada no início do livro.
“Obrigado pelo livro ‘Dez coisas que o Papa Francisco propõe aos
sacerdotes’ que reflete alguns dos meus desejos e sugestões, que surgem
espontaneamente do coração, quando um bispo fala aos seus sacerdotes.
Sinto que o livro é fruto de anos de acompanhamento de muitos
sacerdotes, tanto na Argentina quanto em Roma, anos de escuta, retiros e
ajuda a discernir.”
Não percam o zelo apostólico
“Parece-me coisa boa que no centro do ministério sacerdotal se
coloque o ‘não perder o zelo apostólico’. Sempre acreditei que esta seja
a grande graça do Espírito à Igreja e aos seus pastores: sair com
coragem pelas estradas, nas periferias, onde muitos irmãos precisam
de experimentar a alegria do Evangelho, que Deus é Pai misericordioso e que
realmente não quer que se perca nenhum dos seus pequeninos”, ressalta o
Papa na carta.
Francisco pede à Virgem e a São José para que protejam e abençoem a
missão do Pe. Fares na “Civiltà Cattolica” para que continue a ajudaf a
descobrir o rosto de Jesus no rosto e na vida dos pobres, como aqueles
que o sacerdote acompanhava no “El Hogar de San José” (Lar de São José).
“Que estas dez coisas possam fazer o bem e que o Senhor as
multiplique, suscitando novas vocações sacerdote~ais no meio do seu povo,
sedento de pastores que cuidem dele, que o cure, alimente, console e o
guie nos caminhos do Espírito”, conclui o Papa na carta.
Acabámos de
escutar o que demoraremos a entender. Parecendo simples, ultrapassa
completamente a nossa previsão – como ultrapassou a dos discípulos na
Última Ceia. Jesus levanta-se da mesa. Tira o manto e toma uma
toalha, que põe à cintura… Já isto era surpreendente, sendo gesto de
servo e servo humílimo. Mais ainda o que fez a seguir, deitando água
numa bacia e começando a lavar os pés aos discípulos, enxugando-os coma
toalha… Foi normal a recusa de Pedro, ao chegar a sua vez: – Como
podia aceitar tal inversão de papéis e que o seu Senhor se fizesse seu
servo? Mais decisiva foi a resposta de Jesus: «Se não tos lavar, não
terás parte comigo!»Ainda hoje será difícil de entender a atitude de
Jesus, mesmo que as clivagens sociais não sejam tão profundas,
legalmente falando. Ainda assim estranharíamos que o principal do grupo
nos aparecesse de súbito como o último de todos e no último dos
serviços. No entanto, dois milénios cristãos já nos deviam ter
convencido. Todos quantos viveram no Espírito de Cristo repetiram-lhe o
gesto daquela Ceia que agora celebramos. Não só o repetiram, mas assim
mesmo demonstraram ser autenticamente seus discípulos. Quando Saulo se
converteu em Paulo, considerando como lixo tudo quanto fora antes, para
se sujeitar a tantos trabalhos para servir a muitos com o anúncio
evangélico. Quando Francisco de Assis deixou a vida abastada que levava,
para servir a “Senhora Pobreza” e se tornar no menor dos irmãos.
Quando, mais tarde, João de Deus albergou no seu hospital de Granada os
pobres doentes que já albergara no seu coração. Quando, bem perto de
nós, Teresa de Calcutá se dedicou aos últimos dos últimos, como eram os
moribundos daquela cidade imensa… Sim, já devíamos estar
inteiramente convencidos. Coisa, aliás, só possível se, como eles, nos
deixarmos convencer inteiramente por Cristo - pela sua verdade, que é
outro nome da sua caridade.
Convenhamos que não é fácil. Desde
que a humanidade se conhece, sempre tendeu a olhar Deus como se olha a
si própria. Em geral, projeta a grandeza que não tem, mas gostaria de
ter. Figura-se em grande, em mil e uma representações que no essencial
andam em torno do mesmo. Das ruínas de antigas civilizações à moderna
cinematografia, repetem-se figuras fantásticas de poder e domínio. Esta
persistência tolda-nos o horizonte e deixa-nos pouco disponíveis para a
revelação divina propriamente dita. A história bíblica - de Abraão a
Moisés, de Moisés aos antigos reis e destes ao tempo de Jesus -
apresenta-nos uma tensão contínua entre a diferença absoluta de Deus e a
insistência do povo em apropriá-Lo ao seu desejo e figura. Não
admira que alguns considerassem blasfema a afirmação de Jesus como
“Filho de Deus”. – Como podia ser tão simples e tão próximo Aquele em
que projetavam os seus próprios fumos de grandeza? Não admira que
Pedro, e os outros certamente, não admitissem que Aquele que já
entreviam divino se apresentasse assim, não só como um deles, mas como
servo de todos… Foi preciso que Jesus insistisse com Pedro: «Se não
te lavar os pés, não terás parte comigo.» Ter parte é participar,
partilhar a vida e o futuro de alguém a quem se quer. Assim queriam
Pedro e os outros, saídos das suas terras para seguirem a Cristo. Mas
foi-lhes preciso aprender o que era realmente a vida de Cristo, como
modo tão imprevisto de ser Deus Connosco.Esse modo concretiza-se em
humildade e serviço. Já uma inesquecível página bíblica dissera que,
quando o profeta Elias reencontrou a Deus no monte Horeb, tal sucedeu em
grande contraste com antigas teofanias. Nem na ventania impetuosa que
fendia as montanhas e quebrava os rochedos, nem no tremor de terra, nem
num grande fogo. Foi «no murmúrio de uma brisa suave» (1 Rs 19, 12). É
também assim que Deus está na nossa vida, humilde e quase impercetível
no seu poder criador, com que agora mesmo nos faz estar aqui. Corremos o
risco de não dar por isso, de não darmos por Ele, de não agradecer o
seu amor – e podemos até dizer o seu serviço. Em Cristo é assim mesmo
que Se apresenta: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22, 27).
E
com uma conclusão lógica e obrigatória: Se Deus é serviço, com Ele
aprendemos o que toda a nossa vida há de ser, como serviço também. A
única maneira de Lhe agradecer a vida que nos concede é reparti-la com
os outros. Por isso continua Cristo: «Compreendeis o que vos fiz? […] Se
Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar
os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz,
vós façais também.» Viver eucaristicamente é agradecer a Deus a vida
que nos concede e partilhá-la com os outros. Como Cristo nos ensinou a
viver, do Pai para os outros e com todos para o Pai, no movimento do
Espírito. Do modo mais concreto e simples, no dia-a-dia da celebração
e da caridade. Neste sentido, são muito claras as palavras do Papa
Francisco, ainda há pouco (audiência geral de 7 de março): «O
significado desta Oração [Eucarística] é que toda a assembleia dos fiéis
se una com Cristo para magnificar as grandes obras de Deus e para
oferecer o sacrifício. E para nos unir devemos compreender. Por isso, a
Igreja quis celebrar a Missa na língua que as pessoas entendem, a fim de
que cada um possa unir-se a este louvor e a esta grande oração
juntamente com o sacerdote.» Para sublinhar depois as três atitudes
decorrentes: «primeira, aprender a “dar graças, sempre e em todos os
lugares”, e não só em determinadas ocasiões, quando tudo corre bem;
segunda, fazer da nossa vida um dom de amor, livre e gratuito; terceira,
fazer comunhão concreta, na Igreja e com todos.» Concluamos serem
verdadeiramente assim a Eucaristia de Cristo, o sacerdócio comum e o
ministerial que a celebram, o mandato recebido e a cumprir. Como
está anunciado, dedicaremos o próximo ano pastoral à receção ativa do
número 47 da Constituição Sinodal de Lisboa, para melhor compreendermos e
vivermos a liturgia como lugar de encontro com Deus e como comunidade
celebrante. Insistiremos numa «catequese mistagógica que introduza toda a
comunidade na vivência dos tempos litúrgicos e na compreensão dos seus
símbolos e ritos. […] As comunidades cristãs são chamadas a recuperar o
sentido profundo do Dia do Senhor, pela participação na Eucaristia e
pela escuta da Palavra e encontrando formas de viver a fraternidade e a
alegria cristãs.» Começando agora o Tríduo Pascal, respondamos com
mais certeza à premente pergunta do Senhor: «- Compreendeis o que vos
fiz?» Para renovar em cada Eucaristia a disposição mais forte de
agradecer e servir. Sigamo-Lo agora no rito, para O imitarmos
continuamente na vida.
«O
Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a
boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a
vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o
ano da graça da parte do Senhor.»
Naquele sábado, como
acabámos de ouvir, Jesus leu na sinagoga de Nazaré o anúncio do “ano da
graça”, o jubileu. Mas não o leu apenas, declarou-o começado,
realizando-o nele próprio e em seu redor: «Cumpriu-se hoje mesmo esta
passagem da Escritura que acabais de ouvir». Era uma marcação antiga,
o jubileu, que de cinquenta em cinquenta anos deveria ser como um
recomeço absoluto do Povo de Deus, fazendo jus a tal nome. Povo
reconciliado com o seu Deus e entre todos e cada um dos seus membros,
escravidões abolidas, terras restituídas, gente congraçada (cf. Lv 25, 8 ss). Um mundo como Deus não deixava de o querer, onde todos tivessem lugar primeiro, verdadeiramente irmãos. Apesar
de anunciado há tanto tempo, nunca acontecera realmente. Agora Jesus
proclamava-o como certo e a acontecer de súbito. Nele próprio, com
certeza, absolutamente de Deus e de Deus para todos. E o que fez a
partir de então, até à cruz que lhe levantaram em Jerusalém, foi
conforme ao anúncio. O jubileu concretizou-se por palavras de inteira
justiça e gestos de verdadeira paz. Quando o quiseram impedir e mesmo
encerrar com a grande pedra do sepulcro, ainda mais irradiou numa
ressurreição que não deixa de alastrar – e de que nós próprios seremos
hoje o sinal. Por isso e só por isso estamos aqui, preparando a
Páscoa e celebrando-a sempre, num tempo repleto, o ano da graça da parte
do Senhor. Dizendo tradicionalmente, no “ano da graça de Nosso Senhor
Jesus Cristo de 2018”. Caríssimos padres, caríssimos irmãos e irmãs:
Lembrar as palavras de Jesus na sinagoga de Nazaré da Galileia,
lembrá-las em Missa Crismal, para que o Espírito e os óleos sacramentais
santifiquem muitas vidas, tudo isto só pode incluir-nos ainda mais na
realidade e missão de Jesus, por isso mesmo o “Cristo” (ungido).
Foto Patriarcado de Lisboa
Tudo partirá de Deus, assim recomecemos com Ele, como Jesus a partir do
Pai. Não só um pouco melhor do que é costume, mas sim tudo melhor porque
é de Cristo. Não negamos, antes reconhecemos, quanto de bom há neste
mundo, que é constante criação divina. A humanidade não deixa de ser
imagem de Deus, mesmo quando Lhe perca ou diminua a semelhança. Nem
temos, nós cristãos, o exclusivo do bem, que felizmente se assinala em
tantas pessoas de boa vontade. O próprio Jesus o disse a um discípulo
mais cioso, que se queixava porque alguém fora do grupo praticava
igualmente o bem. Advertiu-o o Mestre: «Não o impeçais, pois quem não é
contra nós é por nós» (Lc 9, 50). É por nós – e predisposto ao que Cristo traz como totalidade, primeira e última. O
ponto verdadeiramente cristão é retomar agora a perfeição do princípio,
outro modo de dizer a intenção divina que restaura e garante a verdade
das coisas. O pecado, original e originante, é, muito pelo contrário, o
afastamento da Fonte, que nos resseca depois. Esquecemos o princípio e
perdemos-lhe o fim, a finalidade e o sentido. Desvinculados de Deus,
perdemo-nos a nós e esquecemos os outros. O Espírito restaura-nos em
Cristo, na perfeita filiação e na fraternidade autêntica. É este o ano
da graça e o jubileu realizado. Onde a vida é respeitada e nunca
cerceada, quando nova e quando idosa, quando saudável e quando frágil.
Onde a justiça é prioritária, dando realmente a cada um o que lhe é
devido, em termos de habitação e trabalho, de educação e saúde. Onde
quem chega seja bem acolhido e integrado. Usando a linguagem do
Papa Francisco, teremos de passar do pecado que nos isola à vinculação
que nos refaz. Isto em relação a Deus, aos outros e à criação inteira:
«O grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta
de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração
comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da
consciência isolada». Efetivamente, as coisas são boas, mas não têm em
si mesmas nem a sua causa nem a sua finalidade. São ocasiões de fruição e
comunhão, dando graças a Deus e repartindo com todos. Se as retemos em
nós, como se fossem tudo, o resultado é triste, continua o Papa: «Quando
a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço
para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus,
já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de
fazer o bem» (Evangelii Gaudium, nº 2). Os outros e a
criação inteira são o campo total do nosso jubileu vinculativo. Para
realizarmos aquela “ecologia integral” que a encíclica Laudato si’
tanto urgiu. Vinculados à vida, respeitando-a inteiramente da conceção à
morte natural; vinculados aos outros na dignidade efetivamente
reconhecida; vinculados à criação inteira, casa comum de todos.
Acolhamos a advertência papal: «Quando, na própria realidade, não se
reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa
com deficiência – só para dar alguns exemplos -, dificilmente se saberá
escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser
humano se declara autónomo da realidade e se constitui dominador
absoluto, desmorona-se a própria base da sua existência…» (Laudato si’, nº 117).
Por
isso o Papa Francisco insiste tanto na necessidade duma vinculação que
previna e ultrapasse qualquer deriva egoísta. Vinculação que tenha como
lugar original e pedagógico a família, para nascer, crescer e aprender a
conviver. Devemos fazer deste ponto uma prioridade irrecusável na
pastoral da Igreja. O Papa está tão convencido desta prioridade de
vincular as famílias para vincular a sociedade que ainda este ano
insistiu, falando ao corpo diplomático acreditado no Vaticano, a 8 de
janeiro: «… não se mantém de pé uma casa construída sobre a areia de
relacionamentos frágeis e volúveis, mas é preciso a rocha, sobre a qual
assentar bases sólidas. E a rocha é precisamente aquela comunhão de
amor, fiel e indissolúvel, que une o homem e a mulher, comunhão essa que
tem uma beleza austera, um caráter sacro e inviolável e uma função
natural na ordem social». Caríssimos sacerdotes e pastores do Povo de
Deus no Patriarcado de Lisboa, com os nossos irmãos diáconos e todos os
batizados: Os compromissos sacerdotais renovados, os óleos sacramentais
abençoados, tudo se ordena ao ano da graça começado em Cristo e agora
prosseguido, com o mesmo Espírito. Continua a ser a recriação do mundo, o
jubileu ansiado. Aprendamos a conviver com Deus, com os outros, com a
criação inteira, reforçando cada comunidade familiar por ação da Igreja,
família espiritual de todos. O que implica duas atitudes básicas,
pastoralmente falando: Primeiro – e porque é a Palavra de Deus que nos
suscita a fé, como lembramos e cumprimos com a Constituição Sinodal de
Lisboa em plena receção – apresentemos sempre e com toda a clareza o
ensinamento de Cristo sobre o matrimónio (cf. Mt 19, 1 ss e Mc
10, 1 ss). Tal não diminui a atenção devida às situações de fragilidade
neste campo, mas acompanha-as em “discernimento dinâmico”, rumo à
efetivação dos ditames evangélicos. Ao mesmo tempo, é-nos pedido um
reforçado empenho na preparação e acompanhamento do matrimónio e das
famílias. Numa fórmula feliz e programática, o Papa cita a seguinte
proposição sinodal: «A principal contribuição para a pastoral familiar é
oferecida pela paróquia, que é uma família de famílias» (Amoris Laetitia,
nº 202). Para insistir, mais à frente: «Tanto a pastoral
pré-matrimonial como a matrimonial devem ser, antes de mais nada, uma
pastoral do vínculo, na qual se ofereçam elementos que ajudem quer a
amadurecer o amor quer a superar os momentos duros» (nº 211).
A
celebração plena e coerente da Missa Crismal há de levar-nos, no
Espírito de Cristo, ao cumprimento do jubileu que o mundo espera, do ano
da graça da parte do Senhor, proclamado naquele sábado em Nazaré da
Galileia. Trata-se da vinculação geral, outro nome da aliança plena,
nossa com Deus, com tudo e com todos. Da família à comunidade cristã, da
vida respeitada e promovida no seu arco existencial completo à inclusão
de cada um, especialmente dos mais frágeis. O prefácio da primeira
Missa da Reconciliação proclama-o excelentemente. Dando graças a Deus
por sempre nos chamar a uma vida mais feliz, continua assim: «Apesar de
tantas vezes termos sido infiéis à vossa aliança, não Vos afastais de
nós; antes, por Jesus Cristo, Vosso Filho, Nosso Senhor, estabelecestes
entre Vós e a família humana um vínculo tão forte que nada o poderá
destruir». - Da parte de Deus, o vínculo está seguro. No Espírito de
Cristo, também o estará da nossa!
Papa celebra missa da Ceia do Senhor com o rito do lava-pés
(Vatican Media)
. Sem transmissão ao vivo, o Pontífice
celebrou a Missa da Ceia do Senhor na prisão de Regina Caeli. Após a
homilia, Francisco lavou os pés de 12 detidos, entre os quais
católicos, muçulmanos, um ortodoxo e um budista.
Cidade do Vaticano –
Entre os encarcerados da prisão romana de Regina Caeli o Papa
Francisco celebrou nesta Quinta-feira Santa a Missa da Ceia do Senhor,
com o rito do Lava-pés.
A cerimónia foi feita em caráter reservado, sem transmissão ao vivo pela televisão.
Antes da celebração, o Papa visitou a enfermaria, para saudar os
detidos doentes. Já na sua homilia, Francisco recordou o costume
daquele tempo, de os escravos lavarem os pés dos hóspedes antes de
entrarem na casa.
“Era o trabalho dos escravos, mas era também um serviço. E Jesus quis
fazer este serviço para nos dar um exemplo de como devemos servir uns
aos outros.”
Jesus pede aos discípulos que não façam como os chefes das nações, reis e imperadores, que eram servidos pelos escravos.
“ Entre vós isso não deve acontecer. Quem comanda deve servir.
Jesus inverte o costume histórico, cultural daquela época e também de
hoje. Quem comanda, para ser um bom patrão, seja onde estiver, tem que
servir. ”
Pensando na história, acrescentou o Papa, se muitos reis, imperadores
e chefes de estado tivessem compreendido este ensinamento de Jesus,
muitas guerras teriam sido evitadas.
Serviço
Francisco prosseguiu recordando o modo amoroso de agir de Cristo. Às
pessoas que sofrem, descartadas pela sociedade, Jesus vai e diz: És
importante para mim. Jesus aposta em cada um de nós. “Jesus chama-se
Jesus, não Pôncio Pilatos. Jesus não sabe lavar as mãos, sabe somente
arriscar”, afirmou o Pontífice.
“ Eu sou pecador como vocês, mas hoje represento Jesus. Sou
embaixador de Jesus. Quando eu me ajoelho diante de cada um de vós,
pensem: Jesus apostou neste homem, um pecador, para vir até mim e dizer
que me ama. Este é o serviço, este é Jesus. Jamais nos abandona, jamais
se cansa de nos perdoar, ama-nos muito. ”
Lava-pés
A cerimónia prosseguiu com o rito do lava-pés a 12 homens
provenientes de sete países: quatro italianos, dois filipinos, dois
marroquinos, um moldavo, um colombiano, um nigeriano e um de Serra Leoa.
Oito são da religião católica, dois muçulmanos, um ortodoxo e um budista.
No momento do abraço da paz, o Papa improvisou mais algumas palavras
para dizer que no nosso coração vivemos sentimentos contrastantes. É
fácil estar em paz com quem queremos bem, mas é mais difícil com que nos
ofendeu e a quem ofendemos.
“Peçamos ao Senhor, em silêncio, a graça de dar a todos, bons e maus, o dom da paz”, convidou o Santo Padre.
Esperança
Além da saudação aos doentes e a celebração da missa, a visita ao
cárcere de Regina Caeli previa também um encontro com outros detidos e a
saudação aos diretores e funcionários.
Como noutras ocasiões, Francisco reiterou que não se pode conceber
uma prisão sem a dimensão da esperança, da recuperação e da
ressocialização:
“Aqui os hóspedes estão para aprender, para semear esperança: não
existe qualquer pena justa – justa! – sem que seja aberta à esperança.
Uma pena que não seja aberta à esperança não é cristã, não é humana!”
O Papa falou ainda da pena de morte, que não é humana nem cristã
justamente porque a condenação insere-se num horizonte de esperança.
“Água de ressurreição, olhar novo, esperança: é isto que vos desejo.”
"Aproximem-se do povo", pediu o Papa aos sacerdotes
(Vatican Media)
Concelebraram com o Pontífice cerca de
mil sacerdotes, bispos e cardeais. Os sacerdotes renovaram O seu
compromisso; os óleos para os batizados e unção dos doentes foram
abençoados e o óleo do sacramento da confirmação consagrado.
Cidade do Vaticano
O Papa Francisco abriu o Tríduo Pascal no Vaticano na manhã desta Quinta-feira Santa presidindo a Missa do Crisma.
Os sacerdotes renovaram o seu compromisso e os óleos dos Catecúmenos
(usados nos batizados) e dos Enfermos (para a Unção dos doentes) foram
abençoados e o óleo do Crisma (usado no sacramento do Crisma)
consagrado.
Evangelizar estando sempre próximo do povo: assim como Jesus – narra o
Evangelho de Lucas – o padre de hoje deve assumir este desafio e
cumpri-lo. “Ser um pregador de estrada, um mensageiro de boas novas”: na
sua homilia, o Papa sugeriu aos padres esta opção, que foi a de Deus:
“ A pedagogia da encarnação, da inculturação; não só nas culturas
distantes, mas também na própria paróquia, na nova cultura dos jovens...
”
Estar 'sempre ' e falar com todos
Como definir um padre como “próximo” das pessoas? Para Francisco, ele
deve estar “sempre” perto e “falar com todos”: com os grandes, com os
pequenos, com os pobres, com aqueles que não crêem... assim como o
Apóstolo Filipe, pregador de estrada, que ia de terra em terra,
anunciando a Boa-Nova da Palavra, inundando as cidades de alegria.
“A proximidade é a chave do evangelizador, porque é uma atitude-chave
no Evangelho, mas é também a chave da verdade”, ressaltou o Papa,
lembrando que esta é também fidelidade e que não devemos cair na
tentação de fazer ídolos com algumas verdades abstratas. Francisco
improvisou e falou da 'cultura do ajetivo', um hábito 'feio'...
“Porque a ‘verdade-ídolo’ se mimetiza, usa as palavras evangélicas
como um vestido, mas não deixa que lhe toquem o coração. E, pior ainda,
afasta as pessoas simples da proximidade sanadora da Palavra e dos
Sacramentos de Jesus”.
O modelo da proximidade materna
E quem nos é mais próximo do que a “Mãe”? Segundo o Papa, podemos
invocá-La como “Nossa Senhora da Proximidade”, que caminha connosco, luta
connosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus, a fim de que
ninguém se sinta excluído.
Francisco sugeriu para meditação três âmbitos de proximidade
sacerdotal que podem ressoar com o mesmo tom materno de Maria no coração
das pessoas com quem falamos: o âmbito do acompanhamento espiritual, o
da Confissão e o da pregação.
Diálogo, confissão e pregação
No diálogo espiritual, o Papa mencionou o modelo co encontro do Senhor
com a Samaritana: que soube trazer à luz o pecado sem ensombrar a oração
de adoração nem pôr obstáculos à sua vocação missionária.
A passagem da mulher adúltera foi o exemplo citado para a proximidade
na Confissão: assim como Jesus, usar o tom da verdade-fiel, que permita
ao pecador olhar em frente e não para trás. O tom justo do “não tornes a
pecar” é o do confessor que o diz disposto a repeti-lo setenta vezes
sete.
Por último, a proximidade do sacerdote no âmbito da pregação: “Quanto
estamos próximos de Deus na oração e quão próximo estamos do nosso povo
na sua vida diária?”. A resposta do Papa é:
“ Se te sentes longe de Deus, aproxima-te do seu povo, que te
curará das ideologias que te entorpeceram o fervor. As pessoas simples
te ensinarão a ver Jesus de outra maneira ”
E explicou que “o sacerdote vizinho, que caminha no meio do seu povo
com proximidade e ternura de bom pastor (e, na sua pastoral, umas vezes
vai à frente, outras vezes no meio e outras, ainda atrás), as
pessoas não só o vêem com muito apreço; mas vão mais além: sentem por
ele qualquer coisa de especial, algo que só se sente na presença de Jesus”.
A proximidade do 'sim'
Dirigindo-se diretamente aos sacerdotes, Francisco elevou uma prece a
Maria, “Nossa Senhora da Proximidade” pedindo que mantenha os
sacerdotes unidos no tom, “para que, na diversidade das opiniões, se
torne presente a sua proximidade materna, aquela que com o seu «sim» nos
aproximou de Jesus para sempre”.
Papa preside missa com o rito do lava-pés entre os encarcerados
O Papa Francisco mantém a tradição e
celebra a Missa da Ceia do Senhor, com o rito do lava-pés, entre os
encarcerados. Ouça o comentário do Pe. Gianfranco Graziola,
vice-coordenador da Pastoral Carcerária Nacional.
Cidade do Vaticano -
Cárcere para Menores "Casal del Marmo", Novo Pavilhão do Presídio de
Rebibbia, Centro para requerentes do Asilo em Castelnuovo di Porto, Casa
de Reclusão de Paliano, Prisão de Regina Caeli.
Também este ano a tradição repete-se: o Papa celebra a Santa Missa em
Coena Domini nos “Gólgotas modernos”, como os define o vice-coordenador
da Pastoral Carcerária, Pe. Gianfranco Graziola. O local onde diariamente os nossos irmãos e irmãs são crucificados, condenados à morte e executados:
Ouça a reportagem com a reflexão do Pe. Gianfranco Graziola
Papa Francisco escolheu realizar novamente o “Lava-pés” num
estabelecimento prisional, o de Regina Coeli em Roma. Aparentemente,
pode parecer um simples ato que nestes últimos anos faz parte do
calendário das celebrações litúrgicas da Semana Santa do Bispo de Roma.
Na realidade, a opção de Francisco continua a incomodar e a questionar os puritanos da liturgia que não vêem com bons olhos este
gesto que, na sua profundidade, questiona a liturgia espetáculo no qual
infelizmente se transformaram muitas das nossas celebrações, reduzindo a
própria mensagem evangélica a individualismo, sentimentalismo, ou como
ele próprio frequentemente repete “mundanismo”.
E como não recordar outra opção de Francisco de dar a este momento
celebrativo um caráter reservado, limitando ao essencial a presença dos
meios de comunicação, reafirmando um princípio importante: o do encontro
com a pessoa que, na sua sacralidade, precisa de ser respeitada e
valorizada.
Mas existe outra mensagem importante na gestualidade e nas opções de
Francisco: a de atualizar e encarnar a mensagem evangélica nas
realidades periféricas do nosso tempo, e entre elas aquelas que mais
questionam, como o caso dos cárceres, os “Gólgotas” modernos, onde
diariamente tantos irmãos e irmãs nossos são crucificados, condenados à
morte e executados.
Indo a Regina Coeli, o Papa Francisco reafirma e confirma a
identidade da Igreja e das comunidades cristãs: a de uma Igreja
Samaritana, Cirenea e Verónica, capaz de parar diante do sofrimento da
humanidade, de ajudar a carregar o peso da dor e de expressar a sua
ternura enxugando as suas lágrimas e limpando o seu rosto ensanguentado.
Ao mesmo tempo, ele anuncia e expressa uma Igreja viva, presente na
história da humanidade capaz de manifestar e comunicar ao nosso tempo e à
história a vida plena de Jesus Ressuscitado.
Praça São Pedro na Audiência Geral
(Vatican Media)
”Na manhã de Páscoa, levem as crianças
até a torneira e lavem os olhos delas. Será um sinal de como ver Jesus
Ressuscitado”, disse o Papa ao conclui ra sua catequese sobre o Tríduo
Pascal.
Cidade do Vaticano
O anúncio de que Cristo ressuscitou é o centro de nossa fé!
O Papa Francisco dedicou a catequese da Audiência Geral desta
quarta-feira ao Tríduo Pascal, “para aprofundar um pouco” o que
representam para nós, crentes, os dias “mais importantes do ano
litúrgico”, que constituem “a memória celebrativa de um único grande
mistério: a morte e a ressurreição do Senhor Jesus”.
O Papa começou por perguntar aos 12 mil fiéis presentes na Praça São
Pedro qual era a festa mais importante da nossa fé, a Páscoa ou o Natal?
E recordou, que até aos 15 anos, ele acreditava que fosse o Natal,
“mas todos erramos”, pois é a Páscoa, “porque é a festa da nossa
salvação, a festa do amor de Deus por nós, a festa, a celebração da sua
morte e ressurreição”.
Tríduo Pascal
“O Tríduo – explicou o Pontífice - começa amanhã com a Missa da
Ceia do Senhor e concluir-se-á com as vésperas do Domingo da
Ressurreição, depois vem a “Pasquetta” para celebrar esta grande festa”,
mas estes dias constituem a memória celebrativa de um grande e único
mistério: a morte e a ressurreição do Senhor Jesus.
Estes dias marcam as etapas fundamentais de nossa fé e da nossa
vocação no mundo, e todos os cristãos são chamados a viver os três dias
Santos como, por assim dizer, a “matriz” da sua vida pessoal e
comunitária, como viveram os nossos irmãos judeus o êxodo do Egito.
Estes três dias, de facto –frisou o Papa – “repropõe ao povo cristão
os grandes eventos da salvação operados por Cristo, e assim o projetam
no horizonte de seu destino futuro e o fortalecem no seu compromisso de
testemunha na história”.
O Canto da Sequência anuncia solenemente que “Cristo, nossa
esperança, ressuscitou e nos precede na Galileia”. Aqui, Tríduo Pascal
encontra o seu ápice, disse Francisco, que explica:
“Ele contém não somente um anúncio de alegria e de esperança, mas
também um apelo à responsabilidade e à missão. E não acaba com a
“colomba” (especiaria pascal italiana, ndr), os ovos, as festas. Isto é
bonito, é bonito porque é a festa de família, mas não fica nisto. Começa
ali com o caminho à missão, ao anúncio: Cristo ressuscitou”.
E este anúncio, ao qual o Tríduo conduz preparando-nos para
acolhê-lo, é o centro da nossa fé e da nossa esperança, é o cerne, é o
anúncio, é o kerigma que continuamente evangeliza a Igreja e que esta, por sua vez, é convidada a evangelizar”.
Batismo
"O Cordeiro que foi imolado". Assim São Paulo fala de Cristo, e com
Ele “as coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo”. No Tríduo
Pascal “a memória deste acontecimento fundamental se faz celebração
plena de reconhecimento e, ao mesmo tempo, renova nos batizados o
sentido de sua nova condição”:
“E por isto, no dia de Páscoa, desde o início batizava-se as
pessoas. Também na noite deste sábado eu batizarei aqui, em São Pedro,
oito pessoas adultas que começam a vida cristã. E começa tudo: nasceram
de novo”.
Cristo, o único que nos justifica
São Paulo também recorda-nos que Cristo “foi entregue à morte por causa das nossas culpas e ressuscitou para nossa justificação”:
“O único, o único que nos justifica; o único que nos faz renascer
de novo é Jesus Cristo. Nenhum outro. E por isto não se deve pagar nada,
porque a justificação – o fazer-se justos – é gratuita. E esta é a
grandeza do amor de Jesus: dá a vida gratuitamente para nos fazer
santos, para nos renovar, para nos perdoar. E isto é o cerne deste
Tríduo Pascal”.
No Tríduo Pascal é renovado nos batizados o sentido da sua nova
condição, como diz São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as
coisas lá do alto":
“Olhem para o alto. Olhar, olhar o horizonte, ampliar os
horizontes: esta é a nossa fé, esta é a nossa justificação, este é o
estado de graça”.
“Um cristão, se verdadeiramente se deixa lavar por Cristo, se
verdadeiramente se deixa despojar por Ele do homem velho para caminhar numa vida nova, mesmo permanecendo pecador - porque todos o somos -
não pode ser corrupto: a justificação de Jesus salva-nos da corrupção –
somos pecadores, mas não corruptos -, não pode viver com a morte na alma
e muito menos ser causa de morte”.
Falsos cristãos
O Papa então, diz que “deve dizer uma coisa triste e dolorosa”:
“Existem cristãos fingidos, aqueles que dizem “Jesus ressuscitou”,
“eu fui justificado por Jesus”, estou na vida nova, mas vivo uma vida
corrupta. E estes falsos cristãos acabarão mal. O cristão – repito, é
pecador – todos o somos, eu sou. O corrupto finge ser uma pessoa
honrada, mas no final, no seu coração existe a podridão. Jesus dá-nos
uma vida nova. O cristão não pode viver com a morte na alma e nem ser
causa de morte.”
“Pensemos – para não ir muito longe – pensemos em casa, pensemos nós assim chamados “cristãos mafiosos”.
Mas eles, de cristão, não têm nada. Dizem-se cristãos, mas levam a
morte na alma, e aos outros. Rezemos por eles, para que o Senhor toque
nas suas almas”.
Lavar os olhos das crianças
O Papa recorda que em muitos países, no dia de Páscoa, quando tocam
os sinos, as mães, as avós, lavam os olhos das crianças com água, com a
água da vida, num sinal para que possam ver as coisas de Jesus, as
coisas novas.
“Deixemo-nos nesta Páscoa – foi o convite de Francisco – lavar a
alma, lavar os olhos da alma, para ver as coisas belas, e fazer
coisas belas. E isto é maravilhoso! Esta é justamente a Ressurreição de
Jesus após a sua morte, que foi o preço para salvar todos nós”.
Presença da Virgem Maria
O Papa convida a dispormo-nos a viver bem este Tríduo Santo já
iminente “para estar sempre mais profundamente inseridos no mistério de
Cristo, morto e ressuscitado por nós” e pede que a Virgem Maria nos
acompanhe neste itinerário espiritual:
Ela, “que seguiu Jesus na sua paixão, ela estava lá, olhava,
sofria, esteve presente e unida a Ele aos pés da cruz, mas não se
envergonhava do filho. Uma mãe nunca se envergonha do filho. Estava lá, e
recebeu no seu coração de mãe a imensa alegria da ressurreição. Que ela
nos obtenha a graça de estarmos interiormente envolvidos pelas
celebrações dos próximos dias, para que o nosso coração e a nossa vida
sejam realmente transformados por elas”.
O Santo Padre concluiu, desejando a todos “os mais cordiais votos de
uma feliz e santa Páscoa, juntamente com as vossas comunidades e os
seus queridos”.
E dou-vos um conselho, disse o Santo Padre ao concluir: ”Na manhã de Páscoa, levem as crianças até a torneira e lavem os seus olhos. Será um sinal de como ver Jesus Ressuscitado”.