30 março, 2018

QUE É A VERDADE? - SEXTA FEIRA SANTA 2018

 
 
 
 
 
Começa o julgamento.
Agora vai ser julgada a Verdade, vai ser julgada a Justiça, vai ser julgado o amor!

A justiça torna-se injustiça, porque os homens de coração fechado, cegos pelo ódio, tolhidos pelo medo de perderem as suas prerrogativas, não conseguem ver a Verdade, não conseguem ver o Amor.

Pilatos pergunta-Lhe o que é a Verdade e não obtém resposta, porque a Verdade está diante dele e ele não a consegue ver, cego que está pelo seu poder.
Entregam-no aos seus algozes, como “cordeiro ao matadouro” no dizer cru de Isaías, e Ele nada diz, nem um queixume se ouve.

As bofetadas, as cuspidelas, as palavras ofensivas que Lhe são dirigidas não Lhe interessam, não O ofendem sequer.
Aquilo que O ofende e faz sofrer, são os nossos pecados, as nossas fraquezas, que Ele sabe continuarão, apesar do Seu sacrifício.

Colocam-Lhe a cruz aos ombros.
A cruz da ignominia, a cruz dos condenados, é colocada aos ombros do Perdão, aos ombros daquEle que não condena, mas usa de toda a misericórdia para com todos.
Cada passo, cada queda, cada olhar de escárnio que Lhe dirigem, suscita sempre n’Ele a mesma oração, agora intima, interior, mas que mais tarde, na hora derradeira, se vai tornar audível: «Perdoa-lhes Pai, que não sabem o que fazem.»

Deitam-nO sobre a cruz.
Apontam os cravos, pegam nos maços e com fortes batidas rasgam a Sua carne, perfuram as Suas mãos e os Seus pés.
Cada som cavo de cada martelada, lembra-nos o meu pecado, o nosso pecado!
Que fácil é atirar as culpas para cima daqueles que o faziam, como se não fossemos nós todos que O crucificamos!

Levantam-nO ao céu.
A cruz enterrada na terra, aponta agora o Céu.
É uma escada que devemos subir, fortemente agarrados, entregues a ela, porque só nela encontramos a salvação.

De cima da cruz, Ele olha para os seus algozes, Ele olha para nós, com o mesmo olhar com que olhou para Pedro a seguir a este O ter negado.
É o único olhar que Ele tem, o olhar da compaixão, o olhar da misericórdia, o olhar do perdão.

«Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.»

Nesta entrega ao Pai, entrega-nos também a nós, entrega o Seu espírito, para que esse mesmo Espírito seja derramado sobre todos nós, sobre mim, e assim possamos abrir os olhos e reconhecer a Verdade, a Justiça e o Amor.

Faz-se um silêncio avassalador!
Não o silêncio da morte, mas o silêncio da espera, o silêncio que se vai tornar alegria na hora da Ressurreição!

Ah, Senhor, prostrado, joelhos em terra, olhos baixos de vergonha, com lágrimas de contrição, apenas Te digo: Perdoa-me, Senhor, que não sei o que fiz, que não sei o que faço, quando Te crucifico com o meu pecado.

E Tu, Senhor, nesse Teu infindável amor, com esse Teu olhar de misericórdia, com o coração repleto de perdão, apenas me dizes: Levanta-te e anda. Vigia e ora para que não entres em tentação. Não temas que Eu estou sempre contigo.


Sexta Feira Santa 2018
Joaquim Mexia Alves
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"Não percam o zelo apostólico", afirma o Papa no livro do Pe. Diego Fares


Missa do Crisma celebrada na Quinta-feira Santa pelo Papa Francisco  (Vatican Media)

O Pe. Fares é um escritor da revista jesuíta “La Civiltà Cattolica” e o seu livro contém dez recomendações práticas e espirituais particularmente queridas ao Papa. 

Cidade do Vaticano 

O Papa Francisco deu de presente aos sacerdotes, nesta quinta-feira (29/03), após a Missa do Crisma, na Basílica de São Pedro, o livro do sacerdote argentino Pe. Diego Fares, intitulado “Dez coisas que o Papa Francisco propõe aos sacerdotes”.

Pe. Fares é um escritor da revista jesuíta “La Civiltà Cattolica” e o seu livro contém dez recomendações práticas e espirituais particularmente queridas do Papa. 

Falar ao coração do povo 

Segundo o jesuíta argentino, algumas delas “são expressas com a fórmula do “não perder”. Trata-se de “uma maneira de aconselhar na perspectiva da graça, e não na do ter que ser”. É “oferecer o ombro, envolver o coração” para chegar às duas últimas exortações: “Fale ao coração do povo” e “O bom sacerdote se reconhece na maneira como o seu povo é ungido”.

O Papa Francisco escreveu uma carta de agradecimento ao Pe. Fares, relatada no início do livro.

“Obrigado pelo livro ‘Dez coisas que o Papa Francisco propõe aos sacerdotes’ que reflete alguns dos meus desejos e sugestões, que surgem espontaneamente do coração, quando um bispo fala aos seus sacerdotes. Sinto que o livro é fruto de anos de acompanhamento de muitos sacerdotes, tanto na Argentina quanto em Roma, anos de escuta, retiros e ajuda a discernir.” 

Não percam o zelo apostólico 

“Parece-me coisa boa que no centro do ministério sacerdotal se coloque o ‘não perder o zelo apostólico’. Sempre acreditei que esta seja a grande graça do Espírito à Igreja e aos seus pastores: sair com coragem pelas estradas, nas periferias, onde muitos irmãos precisam de experimentar a alegria do Evangelho, que Deus é Pai misericordioso e que realmente não quer que se perca nenhum dos seus pequeninos”, ressalta o Papa na carta.

Francisco pede à Virgem e a São José para que protejam e abençoem a missão do Pe. Fares na “Civiltà Cattolica” para que continue a ajudaf a descobrir o rosto de Jesus no rosto e na vida dos pobres, como aqueles que o sacerdote acompanhava no “El Hogar de San José” (Lar de São José).

“Que estas dez coisas possam fazer o bem e que o Senhor as multiplique, suscitando novas vocações sacerdote~ais no meio do seu povo, sedento de pastores que cuidem dele, que o cure, alimente, console e o guie nos caminhos do Espírito”, conclui o Papa na carta.

VATICAN NEWS

29 março, 2018

Homilia na Missa Vespertina da Ceia do Senhor


« - Compreendeis o que vos fiz?»

Acabámos de escutar o que demoraremos a entender. Parecendo simples, ultrapassa completamente a nossa previsão – como ultrapassou a dos discípulos na Última Ceia.
Jesus levanta-se da mesa. Tira o manto e toma uma toalha, que põe à cintura… Já isto era surpreendente, sendo gesto de servo e servo humílimo. Mais ainda o que fez a seguir, deitando água numa bacia e começando a lavar os pés aos discípulos, enxugando-os coma toalha…
Foi normal a recusa de Pedro, ao chegar a sua vez: – Como podia aceitar tal inversão de papéis e que o seu Senhor se fizesse seu servo? Mais decisiva foi a resposta de Jesus: «Se não tos lavar, não terás parte comigo!»Ainda hoje será difícil de entender a atitude de Jesus, mesmo que as clivagens sociais não sejam tão profundas, legalmente falando. Ainda assim estranharíamos que o principal do grupo nos aparecesse de súbito como o último de todos e no último dos serviços.
No entanto, dois milénios cristãos já nos deviam ter convencido. Todos quantos viveram no Espírito de Cristo repetiram-lhe o gesto daquela Ceia que agora celebramos. Não só o repetiram, mas assim mesmo demonstraram ser autenticamente seus discípulos. Quando Saulo se converteu em Paulo, considerando como lixo tudo quanto fora antes, para se sujeitar a tantos trabalhos para servir a muitos com o anúncio evangélico. Quando Francisco de Assis deixou a vida abastada que levava, para servir a “Senhora Pobreza” e se tornar no menor dos irmãos. Quando, mais tarde, João de Deus albergou no seu hospital de Granada os pobres doentes que já albergara no seu coração. Quando, bem perto de nós, Teresa de Calcutá se dedicou aos últimos dos últimos, como eram os moribundos daquela cidade imensa…
Sim, já devíamos estar inteiramente convencidos. Coisa, aliás, só possível se, como eles, nos deixarmos convencer inteiramente por Cristo - pela sua verdade, que é outro nome da sua caridade.

Convenhamos que não é fácil. Desde que a humanidade se conhece,  sempre tendeu a olhar Deus como se olha a si própria. Em geral, projeta a grandeza que não tem, mas gostaria de ter. Figura-se em grande, em mil e uma representações que no essencial andam em torno do mesmo. Das ruínas de antigas civilizações à moderna cinematografia, repetem-se figuras fantásticas de poder e domínio.
Esta persistência tolda-nos o horizonte e deixa-nos pouco disponíveis para a revelação divina propriamente dita. A história bíblica - de Abraão a Moisés, de Moisés aos antigos reis e destes ao tempo de Jesus - apresenta-nos uma tensão contínua entre a diferença absoluta de Deus e a insistência do povo em apropriá-Lo ao seu desejo e figura.
Não admira que alguns considerassem blasfema a afirmação de Jesus como “Filho de Deus”. – Como podia ser tão simples e tão próximo Aquele em que projetavam os seus próprios fumos de grandeza?
Não admira que Pedro, e os outros certamente, não admitissem que Aquele que já entreviam divino se apresentasse assim, não só como um deles, mas como servo de todos…
Foi preciso que Jesus insistisse com Pedro: «Se não te lavar os pés, não terás parte comigo.» Ter parte é participar, partilhar a vida e o futuro de alguém a quem se quer. Assim queriam Pedro e os outros, saídos das suas terras para seguirem a Cristo. Mas foi-lhes preciso aprender o que era realmente a vida de Cristo, como modo tão imprevisto de ser Deus Connosco.Esse modo concretiza-se em humildade e serviço. Já uma inesquecível página bíblica dissera que, quando o profeta Elias reencontrou a Deus no monte Horeb, tal sucedeu em grande contraste com antigas teofanias. Nem na ventania impetuosa que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, nem no tremor de terra, nem num grande fogo. Foi «no murmúrio de uma brisa suave» (1 Rs 19, 12).
É também assim que Deus está na nossa vida, humilde e quase impercetível no seu poder criador, com que agora mesmo nos faz estar aqui. Corremos o risco de não dar por isso, de não darmos por Ele, de não agradecer o seu amor – e podemos até dizer o seu serviço. Em Cristo é assim mesmo que Se apresenta: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22, 27).

E com uma conclusão lógica e obrigatória: Se Deus é serviço, com Ele aprendemos o que toda a nossa vida há de ser, como serviço também. A única maneira de Lhe agradecer a vida que nos concede é reparti-la com os outros. Por isso continua Cristo: «Compreendeis o que vos fiz? […] Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também.»
Viver eucaristicamente é agradecer a Deus a vida que nos concede e partilhá-la com os outros. Como Cristo nos ensinou a viver, do Pai para os outros e com todos para o Pai, no movimento do Espírito.
Do modo mais concreto e simples, no dia-a-dia da celebração e da caridade. Neste sentido, são muito claras as palavras do Papa Francisco, ainda há pouco (audiência geral de 7 de março): «O significado desta Oração [Eucarística] é que toda a assembleia dos fiéis se una com Cristo para magnificar as grandes obras de Deus e para oferecer o sacrifício. E para nos unir devemos compreender. Por isso, a Igreja quis celebrar a Missa na língua que as pessoas entendem, a fim de que cada um possa unir-se a este louvor e a esta grande oração juntamente com o sacerdote.» Para sublinhar depois as três atitudes decorrentes: «primeira, aprender a “dar graças, sempre e em todos os lugares”, e não só em determinadas ocasiões, quando tudo corre bem; segunda, fazer da nossa vida um dom de amor, livre e gratuito; terceira, fazer comunhão concreta, na Igreja e com todos.»
Concluamos serem verdadeiramente assim a Eucaristia de Cristo, o sacerdócio comum e o ministerial que a celebram, o mandato recebido e a cumprir.  
Como está anunciado, dedicaremos o próximo ano pastoral à receção ativa do número 47 da Constituição Sinodal de Lisboa, para melhor compreendermos e vivermos a liturgia como lugar de encontro com Deus e como comunidade celebrante. Insistiremos numa «catequese mistagógica que introduza toda a comunidade na vivência dos tempos litúrgicos e na compreensão dos seus símbolos e ritos. […] As comunidades cristãs são chamadas a recuperar o sentido profundo do Dia do Senhor, pela participação na Eucaristia e pela escuta da Palavra e encontrando formas de viver a fraternidade e a alegria cristãs.»
Começando agora o Tríduo Pascal, respondamos com mais certeza à premente pergunta do Senhor: «- Compreendeis o que vos fiz?» Para renovar em cada Eucaristia a disposição mais forte de agradecer e servir. Sigamo-Lo agora no rito, para O imitarmos continuamente na vida.    

Sé de Lisboa, 29 de março de 2018

+ Manuel, Cardeal-Patriarca


Patriarcado de Lisboa

Homilia na Missa Crismal


O ano da graça da parte do Senhor

«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça da parte do Senhor.»



Naquele sábado, como acabámos de ouvir, Jesus leu na sinagoga de Nazaré o anúncio do “ano da graça”, o jubileu. Mas não o leu apenas, declarou-o começado, realizando-o nele próprio e em seu redor: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».
Era uma marcação antiga, o jubileu, que de cinquenta em cinquenta anos deveria ser como um recomeço absoluto do Povo de Deus, fazendo jus a tal nome. Povo reconciliado com o seu Deus e entre todos e cada um dos seus membros, escravidões abolidas, terras restituídas, gente congraçada (cf. Lv 25, 8 ss). Um mundo como Deus não deixava de o querer, onde todos tivessem lugar primeiro, verdadeiramente irmãos.
Apesar de anunciado há tanto tempo, nunca acontecera realmente. Agora Jesus proclamava-o como certo e a acontecer de súbito. Nele próprio, com certeza, absolutamente de Deus e de Deus para todos. E o que fez a partir de então, até à cruz que lhe levantaram em Jerusalém, foi conforme ao anúncio. O jubileu concretizou-se por palavras de inteira justiça e gestos de verdadeira paz. Quando o quiseram impedir e mesmo encerrar com a grande pedra do sepulcro, ainda mais irradiou numa ressurreição que não deixa de alastrar – e de que nós próprios seremos hoje o sinal.
Por isso e só por isso estamos aqui, preparando a Páscoa e celebrando-a sempre, num tempo repleto, o ano da graça da parte do Senhor. Dizendo tradicionalmente, no “ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2018”.
Caríssimos padres, caríssimos irmãos e irmãs: Lembrar as palavras de Jesus na sinagoga de Nazaré da Galileia, lembrá-las em Missa Crismal, para que o Espírito e os óleos sacramentais santifiquem muitas vidas, tudo isto só pode incluir-nos ainda mais na realidade e missão de Jesus, por isso mesmo o “Cristo” (ungido).

Foto Patriarcado de Lisboa

Tudo partirá de Deus, assim recomecemos com Ele, como Jesus a partir do Pai. Não só um pouco melhor do que é costume, mas sim tudo melhor porque é de Cristo. Não negamos, antes reconhecemos, quanto de bom há neste mundo, que é constante criação divina. A humanidade não deixa de ser imagem de Deus, mesmo quando Lhe perca ou diminua a semelhança. Nem temos, nós cristãos, o exclusivo do bem, que felizmente se assinala em tantas pessoas de boa vontade. O próprio Jesus o disse a um discípulo mais cioso, que se queixava porque alguém fora do grupo praticava igualmente o bem. Advertiu-o o Mestre: «Não o impeçais, pois quem não é contra nós é por nós» (Lc 9, 50). É por nós – e predisposto ao que Cristo traz como totalidade, primeira e última.
O ponto verdadeiramente cristão é retomar agora a perfeição do princípio, outro modo de dizer a intenção divina que restaura e garante a verdade das coisas. O pecado, original e originante, é, muito pelo contrário, o afastamento da Fonte, que nos resseca depois. Esquecemos o princípio e perdemos-lhe o fim, a finalidade e o sentido. Desvinculados de Deus, perdemo-nos a nós e esquecemos os outros.
O Espírito restaura-nos em Cristo, na perfeita filiação e na fraternidade autêntica. É este o ano da graça e o jubileu realizado. Onde a vida é respeitada e nunca cerceada, quando nova e quando idosa, quando saudável e quando frágil. Onde a justiça é prioritária, dando realmente a cada um o que lhe é devido, em termos de habitação e trabalho, de educação e saúde. Onde quem chega seja bem acolhido e integrado.
Usando a linguagem do Papa Francisco, teremos de passar do pecado que nos isola à vinculação que nos refaz. Isto em relação a Deus, aos outros e à criação inteira: «O grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada». Efetivamente, as coisas são boas, mas não têm em si mesmas nem a sua causa nem a sua finalidade. São ocasiões de fruição e comunhão, dando graças a Deus e repartindo com todos. Se as retemos em nós, como se fossem tudo, o resultado é triste, continua o Papa: «Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem» (Evangelii Gaudium, nº 2).
Os outros e a criação inteira são o campo total do nosso jubileu vinculativo. Para realizarmos aquela “ecologia integral” que a encíclica Laudato si’ tanto urgiu. Vinculados à vida, respeitando-a inteiramente da conceção à morte natural; vinculados aos outros na dignidade efetivamente reconhecida; vinculados à criação inteira, casa comum de todos. Acolhamos a advertência papal: «Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos -, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser humano se declara autónomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da sua existência…» (Laudato si’, nº 117).  

Por isso o Papa Francisco insiste tanto na necessidade duma vinculação que previna e ultrapasse qualquer deriva egoísta. Vinculação que tenha como lugar original e pedagógico a família, para nascer, crescer e aprender a conviver.
Devemos fazer deste ponto uma prioridade irrecusável na pastoral da Igreja. O Papa está tão convencido desta prioridade de vincular as famílias para vincular a sociedade que ainda este ano insistiu, falando ao corpo diplomático acreditado no Vaticano, a 8 de janeiro: «… não se mantém de pé uma casa construída sobre a areia de relacionamentos frágeis e volúveis, mas é preciso a rocha, sobre a qual assentar bases sólidas. E a rocha é precisamente aquela comunhão de amor, fiel e indissolúvel, que une o homem e a mulher, comunhão essa que tem uma beleza austera, um caráter sacro e inviolável e uma função natural na ordem social».
Caríssimos sacerdotes e pastores do Povo de Deus no Patriarcado de Lisboa, com os nossos irmãos diáconos e todos os batizados: Os compromissos sacerdotais renovados, os óleos sacramentais abençoados, tudo se ordena ao ano da graça começado em Cristo e agora prosseguido, com o mesmo Espírito. Continua a ser a recriação do mundo, o jubileu ansiado. Aprendamos a conviver com Deus, com os outros, com a criação inteira, reforçando cada comunidade familiar por ação da Igreja, família espiritual de todos.
O que implica duas atitudes básicas, pastoralmente falando: Primeiro – e porque é a Palavra de Deus que nos suscita a fé, como lembramos e cumprimos com a Constituição Sinodal de Lisboa em plena receção – apresentemos sempre e com toda a clareza o ensinamento de Cristo sobre o matrimónio (cf. Mt 19, 1 ss e Mc 10, 1 ss). Tal não diminui a atenção devida às situações de fragilidade neste campo, mas acompanha-as em “discernimento dinâmico”, rumo à efetivação dos ditames evangélicos. Ao mesmo tempo, é-nos pedido um reforçado empenho na preparação e acompanhamento do matrimónio e das famílias.
Numa fórmula feliz e programática, o Papa cita a seguinte proposição sinodal: «A principal contribuição para a pastoral familiar é oferecida pela paróquia, que é uma família de famílias» (Amoris Laetitia, nº 202). Para insistir, mais à frente: «Tanto a pastoral pré-matrimonial como a matrimonial devem ser, antes de mais nada, uma pastoral do vínculo, na qual se ofereçam elementos que ajudem quer a amadurecer o amor quer a superar os momentos duros» (nº 211).

A celebração plena e coerente da Missa Crismal há de levar-nos, no Espírito de Cristo, ao cumprimento do jubileu que o mundo espera, do ano da graça da parte do Senhor, proclamado naquele sábado em Nazaré da Galileia. Trata-se da vinculação geral, outro nome da aliança plena, nossa com Deus, com tudo e com todos. Da família à comunidade cristã, da vida respeitada e promovida no seu arco existencial completo à inclusão de cada um, especialmente dos mais frágeis.
O prefácio da primeira Missa da Reconciliação proclama-o excelentemente. Dando graças a Deus por sempre nos chamar a uma vida mais feliz, continua assim: «Apesar de tantas vezes termos sido infiéis à vossa aliança, não Vos afastais de nós; antes, por Jesus Cristo, Vosso Filho, Nosso Senhor, estabelecestes entre Vós e a família humana um vínculo tão forte que nada o poderá destruir». - Da parte de Deus, o vínculo está seguro. No Espírito de Cristo, também o estará da nossa!

Sé de Lisboa, 29 de março de 2018

+ Manuel, Cardeal-Patriarca


Patriarcado de Lisboa

Papa no cárcere de Regina Caeli: toda pena deve ser aberta à esperança

 Papa celebra missa da Ceia do Senhor com o rito do lava-pés  (Vatican Media)
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Sem transmissão ao vivo, o Pontífice celebrou a Missa da Ceia do Senhor na prisão de Regina Caeli. Após a homilia, Francisco lavou os pés de 12 detidos, entre os quais católicos, muçulmanos, um ortodoxo e um budista. 

Cidade do Vaticano –

Entre os encarcerados da prisão romana de Regina Caeli o Papa Francisco celebrou nesta Quinta-feira Santa a Missa da Ceia do Senhor, com o rito do Lava-pés.

A cerimónia foi feita em caráter reservado, sem transmissão ao vivo pela televisão.

Antes da celebração, o Papa visitou a enfermaria, para saudar os detidos doentes. Já na sua homilia, Francisco recordou o costume daquele tempo, de os escravos lavarem os pés dos hóspedes antes de entrarem na casa.

“Era o trabalho dos escravos, mas era também um serviço. E Jesus quis fazer este serviço para nos dar um exemplo de como devemos servir uns aos outros.”

Jesus pede aos discípulos que não façam como os chefes das nações, reis e imperadores, que eram servidos pelos escravos.
“ Entre vós isso não deve acontecer. Quem comanda deve servir. Jesus inverte o costume histórico, cultural daquela época e também de hoje. Quem comanda, para ser um bom patrão, seja onde estiver, tem que servir. ”
Pensando na história, acrescentou o Papa, se muitos reis, imperadores e chefes de estado tivessem compreendido este ensinamento de Jesus, muitas guerras teriam sido evitadas.

Serviço

Francisco prosseguiu recordando o modo amoroso de agir de Cristo. Às pessoas que sofrem, descartadas pela sociedade, Jesus vai e diz: És importante para mim. Jesus aposta em cada um de nós. “Jesus chama-se Jesus, não Pôncio Pilatos. Jesus não sabe lavar as mãos, sabe somente arriscar”, afirmou o Pontífice.
“ Eu sou pecador como vocês, mas hoje represento Jesus. Sou embaixador de Jesus. Quando eu me ajoelho diante de cada um de vós, pensem: Jesus apostou neste homem, um pecador, para vir até mim e dizer que me ama. Este é o serviço, este é Jesus. Jamais nos abandona, jamais se cansa de nos perdoar, ama-nos muito. ”

Lava-pés

A cerimónia prosseguiu com o rito do lava-pés a 12 homens provenientes de sete países: quatro italianos, dois filipinos, dois marroquinos, um moldavo, um colombiano, um nigeriano e um de Serra Leoa.

Oito são da religião católica, dois muçulmanos, um ortodoxo e um budista.

No momento do abraço da paz, o Papa improvisou mais algumas palavras para dizer que no nosso coração vivemos sentimentos contrastantes. É fácil estar em paz com quem queremos bem, mas é mais difícil com que nos ofendeu e a quem ofendemos.

“Peçamos ao Senhor, em silêncio, a graça de dar a todos, bons e maus, o dom da paz”, convidou o Santo Padre.

Esperança

Além da saudação aos doentes e a celebração da missa, a visita ao cárcere de Regina Caeli previa também um encontro com outros detidos e a saudação aos diretores e funcionários.

Como noutras ocasiões, Francisco reiterou que não se pode conceber uma prisão sem a dimensão da esperança, da recuperação e da ressocialização:

“Aqui os hóspedes estão para aprender, para semear esperança: não existe qualquer pena justa – justa! – sem que seja aberta à esperança. Uma pena que não seja aberta à esperança não é cristã, não é humana!”

O Papa falou ainda da pena de morte, que não é humana nem cristã justamente porque a condenação insere-se num horizonte de esperança.

“Água de ressurreição, olhar novo, esperança: é isto que vos desejo.”

Ouça a reportagem com a voz do Papa Francisco


VATICAN NEWS

Papa abre Tríduo Pascal com Missa do Crisma no Vaticano

 
"Aproximem-se do povo", pediu o Papa aos sacerdotes  (Vatican Media)
 
Concelebraram com o Pontífice cerca de mil sacerdotes, bispos e cardeais. Os sacerdotes renovaram O seu compromisso; os óleos para os batizados e unção dos doentes foram abençoados e o óleo do sacramento da confirmação consagrado. 
 
Cidade do Vaticano 
 
O Papa Francisco abriu o Tríduo Pascal no Vaticano na manhã desta Quinta-feira Santa presidindo a Missa do Crisma. Os sacerdotes renovaram o seu compromisso e os óleos dos Catecúmenos (usados nos batizados) e dos Enfermos (para a Unção dos doentes) foram abençoados e o óleo do Crisma (usado no sacramento do Crisma) consagrado.
 
Evangelizar estando sempre próximo do povo: assim como Jesus – narra o Evangelho de Lucas – o padre de hoje deve assumir este desafio e cumpri-lo. “Ser um pregador de estrada, um mensageiro de boas novas”: na sua homilia, o Papa sugeriu aos padres esta opção, que foi a de Deus:
“ A pedagogia da encarnação, da inculturação; não só nas culturas distantes, mas também na própria paróquia, na nova cultura dos jovens... ”
Estar 'sempre ' e falar com todos 

Como definir um padre como “próximo” das pessoas? Para Francisco, ele deve estar “sempre” perto e “falar com todos”: com os grandes, com os pequenos, com os pobres, com aqueles que não crêem... assim como o Apóstolo Filipe, pregador de estrada, que ia de terra em terra, anunciando a Boa-Nova da Palavra, inundando as cidades de alegria.
“A proximidade é a chave do evangelizador, porque é uma atitude-chave no Evangelho, mas é também a chave da verdade”, ressaltou o Papa, lembrando que esta é também fidelidade e que não devemos cair na tentação de fazer ídolos com algumas verdades abstratas. Francisco improvisou e falou da 'cultura do ajetivo', um hábito 'feio'...

“Porque a ‘verdade-ídolo’ se mimetiza, usa as palavras evangélicas como um vestido, mas não deixa que lhe toquem o coração. E, pior ainda, afasta as pessoas simples da proximidade sanadora da Palavra e dos Sacramentos de Jesus”. 

O modelo da proximidade materna 

E quem nos é mais próximo do que a “Mãe”? Segundo o Papa, podemos invocá-La como “Nossa Senhora da Proximidade”, que caminha connosco, luta connosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus, a fim de que ninguém se sinta excluído.

Francisco sugeriu para meditação três âmbitos de proximidade sacerdotal que podem ressoar com o mesmo tom materno de Maria no coração das pessoas com quem falamos: o âmbito do acompanhamento espiritual, o da Confissão e o da pregação.

Diálogo, confissão e pregação 

No diálogo espiritual, o Papa mencionou o modelo co encontro do Senhor com a Samaritana: que soube trazer à luz o pecado sem ensombrar a oração de adoração nem pôr obstáculos à sua vocação missionária.

A passagem da mulher adúltera foi o exemplo citado para a proximidade na Confissão: assim como Jesus, usar o tom da verdade-fiel, que permita ao pecador olhar em frente e não para trás. O tom justo do “não tornes a pecar” é o do confessor que o diz disposto a repeti-lo setenta vezes sete.

Por último, a proximidade do sacerdote no âmbito da pregação: “Quanto estamos próximos de Deus na oração e quão próximo estamos do nosso povo na sua vida diária?”. A resposta do Papa é:
“ Se te sentes longe de Deus, aproxima-te do seu povo, que te curará das ideologias que te entorpeceram o fervor. As pessoas simples te ensinarão a ver Jesus de outra maneira ”
E explicou que “o sacerdote vizinho, que caminha no meio do seu povo com proximidade e ternura de bom pastor (e, na sua pastoral, umas vezes vai à frente, outras vezes no meio e outras, ainda atrás), as pessoas não só o vêem com muito apreço; mas vão mais além: sentem por ele qualquer coisa de especial, algo que só se sente na presença de Jesus”. 

A proximidade do 'sim' 

Dirigindo-se diretamente aos sacerdotes, Francisco elevou uma prece a Maria, “Nossa Senhora da Proximidade” pedindo que mantenha os sacerdotes unidos no tom, “para que, na diversidade das opiniões, se torne presente a sua proximidade materna, aquela que com o seu «sim» nos aproximou de Jesus para sempre”.

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VATICAN NEWS

Lava-pés na prisão: o Papa nos Gólgotas modernos

 
Papa preside missa com o rito do lava-pés entre os encarcerados 
 
O Papa Francisco mantém a tradição e celebra a Missa da Ceia do Senhor, com o rito do lava-pés, entre os encarcerados. Ouça o comentário do Pe. Gianfranco Graziola, vice-coordenador da Pastoral Carcerária Nacional. 
 
Cidade do Vaticano - 
 
Cárcere para Menores "Casal del Marmo", Novo Pavilhão do Presídio de Rebibbia, Centro para requerentes do Asilo em Castelnuovo di Porto, Casa de Reclusão de Paliano, Prisão de Regina Caeli.
 
Também este ano a tradição repete-se: o Papa celebra a Santa Missa em Coena Domini nos “Gólgotas modernos”, como os define o vice-coordenador da Pastoral Carcerária, Pe. Gianfranco Graziola. O local onde diariamente os nossos irmãos e irmãs são crucificados, condenados à morte e executados:

Ouça a reportagem com a reflexão do Pe. Gianfranco Graziola

Papa Francisco escolheu realizar novamente o “Lava-pés” num estabelecimento prisional, o de Regina Coeli em Roma. Aparentemente, pode parecer um simples ato que nestes últimos anos faz parte do calendário das celebrações litúrgicas da Semana Santa do Bispo de Roma.

Na realidade, a opção de Francisco continua a incomodar e a questionar os puritanos da liturgia que não vêem com bons olhos este gesto que, na sua profundidade, questiona a liturgia espetáculo no qual infelizmente se transformaram muitas das nossas celebrações, reduzindo a própria mensagem evangélica a individualismo, sentimentalismo, ou como ele próprio frequentemente repete “mundanismo”.

E como não recordar outra opção de Francisco de dar a este momento celebrativo um caráter reservado, limitando ao essencial a presença dos meios de comunicação, reafirmando um princípio importante: o do encontro com a pessoa que, na sua sacralidade, precisa de ser respeitada e valorizada.

Mas existe outra mensagem importante na gestualidade e nas opções de Francisco: a de atualizar e encarnar a mensagem evangélica nas realidades periféricas do nosso tempo, e entre elas aquelas que mais questionam, como o caso dos cárceres, os “Gólgotas” modernos, onde diariamente tantos  irmãos e irmãs nossos são crucificados, condenados à morte e executados.

Indo a Regina Coeli, o Papa Francisco reafirma e confirma a identidade da Igreja e das comunidades cristãs: a de uma Igreja Samaritana, Cirenea e Verónica, capaz de parar diante do sofrimento da humanidade, de ajudar a carregar o peso da dor e de expressar a sua ternura enxugando as suas lágrimas e limpando o seu rosto ensanguentado.

Ao mesmo tempo, ele anuncia e expressa uma Igreja viva, presente na história da humanidade capaz de manifestar e comunicar ao nosso tempo e à história a vida plena de Jesus Ressuscitado.

Feliz e Santa Páscoa.
 
VATICAN NEWS

28 março, 2018

Papa: Jesus Cristo, o único que nos justifica e nos faz renascer, nenhum outro

 
Praça São Pedro na Audiência Geral  (Vatican Media)
 
 ”Na manhã de Páscoa, levem as crianças até a torneira e lavem os olhos delas. Será um sinal de como ver Jesus Ressuscitado”, disse o Papa ao conclui ra sua catequese sobre o Tríduo Pascal. 
 
Cidade do Vaticano 
 
O anúncio de que Cristo ressuscitou é o centro de nossa fé!
 
O Papa Francisco dedicou a catequese da Audiência Geral desta quarta-feira ao Tríduo Pascal, “para aprofundar um pouco” o que representam para nós, crentes,  os dias “mais importantes do ano litúrgico”, que constituem “a memória celebrativa de um único grande mistério: a morte e a ressurreição do Senhor Jesus”.

O Papa começou por perguntar aos 12 mil fiéis presentes na Praça São Pedro qual era a festa mais importante da nossa fé, a Páscoa ou o Natal?

E recordou, que até aos 15 anos, ele acreditava que fosse o Natal, “mas todos erramos”, pois é a Páscoa, “porque é a festa da nossa salvação, a festa do amor de Deus por nós, a festa, a celebração da sua morte e ressurreição”. 

Tríduo Pascal

“O Tríduo – explicou  o Pontífice  - começa amanhã com a Missa  da Ceia do Senhor e concluir-se-á com as vésperas do Domingo da Ressurreição, depois vem a “Pasquetta” para celebrar esta grande festa”, mas estes dias constituem a memória celebrativa de um grande e único mistério: a morte e a ressurreição do Senhor Jesus.

Estes dias marcam as etapas fundamentais de nossa fé e da nossa vocação no mundo, e todos os cristãos são chamados a viver os três dias Santos como, por assim dizer, a “matriz” da sua vida pessoal e comunitária, como viveram os nossos irmãos judeus o êxodo do Egito.

Estes três dias, de facto –frisou o Papa – “repropõe ao povo cristão os grandes eventos da salvação operados por Cristo, e assim o projetam no horizonte de seu destino futuro e o fortalecem no seu compromisso de testemunha na história”.

O Canto da Sequência anuncia solenemente que “Cristo, nossa esperança, ressuscitou e nos precede na Galileia”. Aqui, Tríduo Pascal encontra o seu ápice, disse Francisco, que explica:

Ele contém não somente um anúncio de alegria e de esperança, mas também um apelo à responsabilidade e à missão. E não acaba com a “colomba” (especiaria pascal italiana, ndr), os ovos, as festas. Isto é bonito, é bonito porque é a festa de família, mas não fica nisto. Começa ali com o caminho à missão, ao anúncio: Cristo ressuscitou”.

E este anúncio, ao qual o Tríduo conduz preparando-nos para acolhê-lo, é o centro da nossa fé e da nossa esperança, é o cerne, é o anúncio, é o kerigma que continuamente evangeliza a Igreja e que esta, por sua vez, é convidada a evangelizar”. 

Batismo

"O Cordeiro que foi imolado". Assim São Paulo fala de Cristo, e com Ele “as coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo”.  No Tríduo Pascal “a memória deste acontecimento fundamental se faz celebração plena de reconhecimento e, ao mesmo tempo, renova nos batizados o sentido de sua nova condição”:

“E por isto, no dia de Páscoa, desde o início batizava-se as pessoas. Também na noite deste sábado eu batizarei aqui, em São Pedro, oito pessoas adultas que começam a vida cristã. E começa tudo: nasceram de novo”. 

Cristo, o único que nos justifica

São Paulo também recorda-nos que Cristo “foi entregue à morte por causa das nossas culpas e ressuscitou para nossa justificação”:

“O único, o único que nos justifica; o único que nos faz renascer de novo é Jesus Cristo. Nenhum outro. E por isto não se deve pagar nada, porque a justificação – o fazer-se justos – é gratuita. E esta é a grandeza do amor de Jesus: dá a vida gratuitamente para nos fazer santos, para nos renovar, para nos perdoar. E isto é o cerne deste Tríduo Pascal”.

No Tríduo Pascal é renovado nos batizados o sentido da sua nova condição, como diz São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto":

“Olhem para o alto. Olhar, olhar o horizonte, ampliar os horizontes: esta é a nossa fé, esta é a nossa justificação, este é o estado de graça”.

“Um cristão, se verdadeiramente se deixa lavar por Cristo, se verdadeiramente se deixa despojar por Ele do homem velho para caminhar numa vida nova, mesmo permanecendo pecador - porque todos o somos - não pode ser corrupto: a justificação de Jesus salva-nos da corrupção – somos pecadores, mas não corruptos -, não pode viver com a morte na alma e muito menos ser causa de morte”. 

Falsos cristãos

O Papa então, diz que “deve dizer uma coisa triste e dolorosa”:

“Existem cristãos fingidos, aqueles que dizem “Jesus ressuscitou”, “eu fui justificado por Jesus”, estou na vida nova, mas vivo uma vida corrupta. E estes falsos cristãos acabarão mal. O cristão – repito, é pecador – todos o somos, eu sou. O corrupto finge ser uma pessoa honrada, mas no final, no seu coração existe a podridão. Jesus dá-nos uma vida nova. O cristão não pode viver com a morte na alma e nem ser causa de morte.”

Pensemos – para não ir muito longe – pensemos em casa, pensemos nós assim chamados “cristãos mafiosos”. Mas eles, de cristão, não têm nada. Dizem-se cristãos, mas levam a morte na alma, e aos outros. Rezemos por eles, para que o Senhor toque nas suas almas”. 

Lavar os olhos das crianças

O Papa recorda que em muitos países, no dia de Páscoa, quando tocam os sinos, as mães, as avós, lavam os olhos das crianças com água, com a água da vida, num sinal para que possam ver as coisas de Jesus, as coisas novas.

“Deixemo-nos nesta Páscoa – foi o convite de Francisco – lavar a alma, lavar os olhos da alma, para ver as coisas belas, e fazer coisas belas. E isto é maravilhoso! Esta é justamente a Ressurreição de Jesus após a sua morte, que foi o preço para salvar todos nós”. 

Presença da Virgem Maria

O Papa convida a dispormo-nos a viver bem este Tríduo Santo já iminente  “para estar sempre mais profundamente inseridos no mistério de Cristo, morto e ressuscitado por nós” e pede que a Virgem Maria nos acompanhe neste itinerário espiritual:

Ela, “que seguiu Jesus na sua paixão, ela estava lá, olhava, sofria, esteve presente e unida a Ele aos pés da cruz, mas não se envergonhava do filho. Uma mãe nunca se envergonha do filho. Estava lá, e recebeu no seu coração de mãe a imensa alegria da ressurreição. Que ela nos obtenha a graça de estarmos interiormente envolvidos pelas celebrações dos próximos dias, para que o nosso coração e a nossa vida sejam realmente transformados por elas”.

O Santo Padre concluiu, desejando a todos “os mais cordiais votos de uma feliz e santa Páscoa, juntamente com as vossas comunidades e os seus queridos”.

E dou-vos um conselho, disse o Santo Padre ao concluir: ”Na manhã de Páscoa, levem as crianças até a torneira e lavem os seus olhos. Será um sinal de como ver Jesus Ressuscitado.


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