03 janeiro, 2020

Não há diálogo sem identidade


A Natividade (Giotto) 

Em destaque, a atividade do Papa e da Santa Sé. Foi publicada esta sexta-feira (03/01) a Mensagem do Papa para o Dia Mundial do Enfermo, programado para 11 de fevereiro. Tuíte do Pontífice no dia em que a Igreja celebra o Santíssimo Nome de Jesus. Na quinta-feira, a mensagem em vídeo dedicada à paz para a intenção de oração de janeiro 

Sergio Centofanti - Cidade do Vaticano

Francisco convida toda a Igreja a rezar pela paz: é a intenção do mês de janeiro relançada pela Rede mundial de oração do Papa. Na sua mensagem em video o Pontífice fala novamente da fraternidade universal, exorta a abater os muros entre as religiões e as ideologias: somos todos irmãos e juntos, crentes e não-crentes, podemos construir a paz e a justiça no mundo. Para Deus somos todos seus filhos: como Pai, quer-nos unidos e não divididos.

O diálogo e a cultura do encontro propostas por Francisco não são para nivelar ou eliminar as diferenças: pode-se dialogar somente a partir da identidade. A Mensagem para o Dia Mundial do Enfermo mostra claramente qual é a identidade cristã integral: por vezes as ideologias de esquerda e de direita procuram puxar a Igreja para o seu lado acentuando alguns valores ao invés de outros. Mas a fé não se deixa aprisionar pelas opiniões políticas, de partidos ou das filosofias.

Assim, Francisco repete claramente que a vida deve ser tutelada “desdo seu nascer até ao seu morrer: requerem-no, ao mesmo tempo, tanto a razão quanto a fé em Deus”. Por conseguinte, convida os profissionais da saúde a defender sempre a dignidade e a vida da pessoa, “sem nenhuma cedência a atos de natureza eutanásica, de suicídio assistido ou supressão da vida, nem mesmo se o estado da doença for irreversível”.

O Papa recorda que em certos casos é necessário recorrer também à objeção de consciência. Ao mesmo tempo, quando se fala em respeito pela vida, não se pode pensar somente no aborto e eutanásia. O respeito concerne a todos e, em particular, aos pobres: o Papa pede que haja justiça social, pede o acesso aos cuidados médicos para todos, sem esquecer aqueles que vivem na pobreza. Respeitar a vida é também lutar pela justiça.

No dia 3 de janeiro a Igreja celebra o Santíssimo Nome de Jesus. A nossa identidade nasce de Cristo: de facto, o cristão é um “alter Christus”. No tuíte de sexta-feira o Papa recorda isto com igual clareza: “A salvação está no nome de Jesus. Devemos dar testemunho disso: Ele é o único Salvador”.

Mas essa identidade não é fechamento, não é para excluir ou separar. A Declaração Dominus Iesus, assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger e aprovada no terceiro trimestre do ano 2000 por João Paulo II, especifica isto muito bem: a Igreja é necessária para a salvação, mas é preciso considerar que Deus quer salvar todos. É a chamada vontade salvífica universal.

Por isso, para aqueles que não são visivelmente membros da Igreja, “a salvação de Cristo é acessível em virtude de uma graça que, mesmo tendo uma relação misteriosa com a Igreja, não os introduz formalmente nela, mas ilumina-os de Cristo, é fruto do seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo”.

Jesus está próximo mesmo de quem não o sabe. Para nós que o sabemos, faz bem repetir durante o dia, inclusive no coração, o Nome de Jesus: dá força, faz-nos sentir que Ele está ao nosso lado e está connosco. Num mundo que nos oferece tantos “salvadores”, esta oração do coração nos faz experimentar que verdadeiramente, somente em Jesus há salvação, afirma Francisco.

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DIÁLOGOS COM O SENHOR DEUS (18)

 
 
 
 
Julgas que Me fui embora, que não estou perto de ti?

Não sei, Senhor!
O meu acreditar, o meu querer, diz-me que estás aqui a meu lado, que me abraças, que me falas, que me envolves!
Mas o meu sentir, este sentir humanamente racional, nada me faz sentir, ou melhor, sinto-Te longe, quase como se me dissesses que estou por minha conta!

Mas sabes que isso não é verdade, não sabes?

Não sei, Senhor!
Quero acreditar que não, que não é verdade, que Tu estás aqui como sempre estiveste, mesmo quando eu não estava, mesmo quando eu não estou.

Repara que só o facto de falares coMigo devia mostrar-te que Eu estou aqui e não largo a tua mão.

Está bem, Senhor!
Aceito que assim seja. Aceito que estás aqui, que me tomas pela mão, que me envolves e amas, mas porque não o sinto, Senhor, porque não me sinto em paz?

Olha, meu filho, uma coisa é aceitares que Eu estou contigo agora e sempre, outra é confiares que estou contigo e te ajudo a ultrapassar os maus momentos.
Confias tu, que Eu te ajudo, (assim tu queiras), a ultrapassar as dificuldades, os vazios, os escuros da vida?

Quero confiar, Senhor!
Mas Tu és tão difícil!
Não queres dar sinais, ou então dás mas não os vejo!
Não queres dar soluções, mas dás caminho para as soluções!
Não queres colocar-me ao colo, mas queres fazer-me andar pelos meus próprios pés.
Caramba, Senhor, dá-me só um abraço que me faça sentir a Tua presença e eu poderei descansar em Ti!

O abraço está dado, meu filho, nesta pequena conversa!
Não vês como te sentes mais confiante, mais em paz?
Não sentes essa lágrima que cai pela tua face?
Não sentes esse calor no coração?
Sou Eu, meu filho, descansa, confia e espera, não deixando nunca de fazeres a tua parte.

Devolveste-me o sorriso!
Realmente, Senhor, realmente:
Só Deus basta!


Monte Real, 3 de Janeiro de 2020
Joaquim Mexia Alves
 
Série constante na faixa lateral, em "Pesquisa rápida" -  "DIÁLOGOS COM O SENHOR DEUS"
 

A vida é sacra, não ceder a formas de eutanásia: mensagem do Papa para o Dia do Enfermo


Papa Francisco com um enfermo na Praça de São Pedro  (Vatican Media) 

“Lembremo-nos de que a vida é sacra e pertence a Deus, sendo por conseguinte inviolável e indisponível. A vida há-de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte”, escreve o Papa.´
Bianca Fraccalvieri - Cidade do Vaticano

“Vinde a Mim”: as palavras de Cristo dirigidas à humanidade aflita e sofredora inspiraram a Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Enfermo, divulgada esta sexta-feira (03/01)

A 28º edição será celebrada, como todos os anos, no dia 11 de fevereiro, dia de Nossa Senhora de Lourdes. O tema para 2020 foi extraído do Evangelho de Mateus 11, 28: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos”.

“No XXVIII Dia Mundial do Enfermo, Jesus dirige este convite aos doentes e oprimidos, aos pobres cientes de dependerem inteiramente de Deus para a cura de que necessitam sob o peso da provação que os atingiu. A quem vive na angústia devido à sua situação de fragilidade, sofrimento e fraqueza, Jesus Cristo não impõe leis, mas, na sua misericórdia oferece-Se a Si mesmo, isto é, a sua pessoa que dá alívio.”
Ao tratamento, acrescentar o amor

Jesus tem estes sentimentos, prossegue o Pontífice, porque Ele mesmo viveu na primeira pessoa o sofrimento humano e só quem passa por esta experiência poderá ser de conforto aos demais.

De facto, constata o Papa, nota-se por vezes falta de humanidade na relação com os doentes. Ao tratamento, deve-se somar a solicitude, ou seja, o amor, sem esquecer que com o enfermo há uma família que também pede conforto e proximidade.

É de Cristo que vem a luz para superar este momento de provação. Nele, os doentes encontrarão força para ultrapassar as inquietações e interrogações que surgem nesta «noite» do corpo e do espírito. É verdade que Cristo não nos deixou receitas, mas, com a sua paixão, morte e ressurreição, liberta-nos da opressão do mal.

Nesta condição, reforça Francisco, a Igreja quer ser, cada vez mais e melhor, a «estalagem» do Bom Samaritano que é Cristo, isto é, a casa onde os enfermos podem encontrar a sua graça, que se expressa na familiaridade, no acolhimento, no alívio. 

Não ceder a formas de eutanásia

Neste ponto, o Papa fez uma menção aos profissionais da saúde, que colocam as suas competências em prol do enfermo. E recorda que o substantivo “pessoa” deve vir antes do adjetivo “enfermo”.

Assim, a ação dos médicos e enfermeiros têm que ter em vista “constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a atos de natureza eutanásica, de suicídio assistido ou supressão da vida, nem mesmo se for irreversível o estado da doença”.

Quando os profissionais da saúde se deparam com os limites e o possível fracasso da medicina, são chamados a abrirem-se à dimensão transcendente, “que pode oferecer o sentido pleno da profissão”. E lamentou que em contextos de guerras e conflitos, os profissionais e as estruturas da saúde podem ser atacados como forma de represália política.

“Lembremo-nos de que a vida é sacra e pertence a Deus, sendo por conseguinte inviolável e indisponível. A vida tem de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte”, escreve o Papa. Trata-se de uma exigência não só que vem da fé em Deus, mas da própria razão.

E Francisco pede que a objeção de consciência se torne uma opção necessária para que os profissionais da saúde permaneçam coerentes com esta abertura à vida. Quando não se pode curar, pode-se cuidar sempre com gestos e procedimentos que proporcionem amparo e alívio ao doente. 

Acesso negado à saúde

Por fim, o Papa reserva o seu pensamento a tantos irmãos no mundo que não têm acesso aos cuidados médicos porque vivem na pobreza.
“Por isso, dirijo-me às instituições sanitárias e aos governos de todos os países do mundo, pedindo-lhes que não sobreponham o aspeto económico ao da justiça social.”
Francisco concluiu confiando todos as pessoas que carregam “o fardo da doença” à Virgem Maria, bem como as suas famílias, todos os profissionais e voluntários.

Leia também:

Mensagem integral do Papa Francisco para o 28º dia Mundial do Enfermo
 
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Mensagem do Papa Francisco para o 28º Dia Mundial do Enfermo

 
Papa Francisco cumprimenta os enfermos na Praça São Pedro  (Vatican Media)
 
Mensagem integral do Papa, para o Dia Mundial do Enfermo de 2020
 
«Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos,
que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28)

Queridos irmãos e irmãs!
 
1.     Estas palavras ditas por Jesus – «vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28) – indicam o caminho misterioso da graça, que se revela aos simples e revigora os cansados e exaustos. Tais palavras exprimem a solidariedade do Filho do Homem, Jesus Cristo, com a humanidade aflita e sofredora. Há tantas pessoas que sofrem no corpo e no espírito! A todas, convida a ir ter com Ele – «vinde a Mim» –, prometendo-lhes alívio e recuperação. «Quando Jesus pronuncia estas palavras, tem diante dos seus olhos as pessoas que encontra todos os dias pelas estradas da Galileia: muita gente simples, pobres, doentes, pecadores, marginalizados pelo ditame da lei e pelo opressivo sistema social. Este povo sempre acorreu a Ele para ouvir a sua palavra, uma palavra que incutia esperança» (Angelus, 6 de julho de 2014).

No XXVIII Dia Mundial do Doente, Jesus dirige este convite aos doentes e oprimidos, aos pobres cientes de dependerem inteiramente de Deus para a cura de que necessitam sob o peso da provação que os atingiu. A quem vive na angústia devido à sua situação de fragilidade, sofrimento e fraqueza, Jesus Cristo não impõe leis, mas, na sua misericórdia, oferece-Se a Si mesmo, isto é, a sua pessoa que dá alívio. A humanidade ferida é contemplada por Jesus com olhos que veem e observam, porque penetram em profundidade: não correm indiferentes, mas param e acolhem o homem todo e todo o homem segundo a respetiva condição de saúde, sem descartar ninguém, convidando cada um a fazer experiência de ternura entrando na vida d’Ele.

2.     Porque tem Jesus Cristo estes sentimentos? Porque Ele próprio Se tornou frágil, experimentando o sofrimento humano e recebendo, por sua vez, alívio do Pai. Na verdade, só quem passa pessoalmente por esta experiência poderá ser de conforto para o outro. Várias são as formas graves de sofrimento: doenças incuráveis e crónicas, patologias psíquicas, aquelas que necessitam de reabilitação ou cuidados paliativos, as diferentes formas de deficiência, as doenças próprias da infância e da velhice, etc. Nestas circunstâncias, nota-se por vezes carência de humanidade, pelo que se revela necessário, para uma cura humana integral, personalizar o contacto com a pessoa doente acrescentando a solicitude ao tratamento. Na doença, a pessoa sente comprometidas não só a sua integridade física, mas também as várias dimensões da sua vida relacional, intelectiva, afetiva, espiritual; e por isso, além das terapias, espera amparo, solicitude, atenção, em suma, amor. Além disso, junto do doente, há uma família que sofre e pede, também ela, conforto e proximidade.

3.     Queridos irmãos e irmãs enfermos, a doença coloca-vos de modo particular entre os «cansados e oprimidos» que atraem o olhar e o coração de Jesus. Daqui vem a luz para os vossos momentos de escuridão, a esperança para o vosso desalento. Convida-vos a ir ter com Ele: «Vinde». Com efeito, n’Ele encontrareis força para ultrapassar as inquietações e interrogativos que vos surgem nesta «noite» do corpo e do espírito. É verdade que Cristo não nos deixou receitas, mas, com a sua paixão, morte e ressurreição, liberta-nos da opressão do mal.

Nesta condição, precisais certamente dum lugar para vos restabelecerdes. A Igreja quer ser, cada vez mais e melhor, a «estalagem» do Bom Samaritano que é Cristo (cf. Lc 10, 34), isto é, a casa onde podeis encontrar a sua graça, que se expressa na familiaridade, no acolhimento, no alívio. Nesta casa, podereis encontrar pessoas que, tendo sido curadas pela misericórdia de Deus na sua fragilidade, saberão ajudar-vos a levar a cruz, fazendo, das próprias feridas, frestas através das quais divisar o horizonte para além da doença e receber luz e ar para a vossa vida.

Nesta obra de restabelecimento dos irmãos enfermos, insere-se o serviço dos profissionais da saúde – médicos, enfermeiros, pessoal sanitário, administrativo e auxiliar, voluntários –, pondo em ação as respetivas competências e fazendo sentir a presença de Cristo, que proporciona consolação e cuida da pessoa doente tratando das suas feridas. Mas, também eles são homens e mulheres com as suas fragilidades e até com as suas doenças. Neles se cumpre de modo particular esta verdade: «Quando recebemos o alívio e a consolação de Cristo, por nossa vez somos chamados a tornar-nos alívio e consolação para os irmãos, com atitude mansa e humilde, à imitação do Mestre» (Angelus, 6 de julho de 2014).

4.     Queridos profissionais da saúde, qualquer intervenção diagnóstica, preventiva, terapêutica, de pesquisa, tratamento e reabilitação há de ter por objetivo a pessoa doente, onde o substantivo «pessoa» venha sempre antes do adjetivo «doente». Por isso, a vossa ação tenha em vista constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a atos de natureza eutanásica, de suicídio assistido ou supressão da vida, nem mesmo se for irreversível o estado da doença.

Quando vos defrontais com os limites e possível fracasso da própria ciência médica perante casos clínicos cada vez mais problemáticos e diagnósticos funestos, sois chamados a abrir-vos à dimensão transcendente, que vos pode oferecer o sentido pleno da vossa profissão. Lembremo-nos de que a vida é sacra e pertence a Deus, sendo por conseguinte inviolável e indisponível (cf. Instr. Donum vitae, 5; Enc. Evangelium vitae, 29-53). A vida há de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte: exigem-no simultaneamente tanto a razão como a fé em Deus, autor da vida. Em certos casos, a objeção de consciência deverá tornar-se a vossa opção necessária, para permanecerdes coerentes com este «sim» à vida e à pessoa. Em todo o caso, o vosso profissionalismo, animado pela caridade cristã, será o melhor serviço ao verdadeiro direito humano: o direito à vida. Quando não puderdes curar, podereis sempre cuidar com gestos e procedimentos que proporcionem amparo e alívio ao doente.

Infelizmente, nalguns contextos de guerra e conflitos violentos, são atacados o pessoal sanitário e as estruturas que se ocupam da receção e assistência dos doentes. Nalgumas áreas, o próprio poder político pretende manipular a seu favor a assistência médica, limitando a justa autonomia da profissão sanitária. Na realidade, atacar aqueles que se dedicam ao serviço dos membros sofredores do corpo social não beneficia a ninguém.

5.     Neste XXVIII Dia Mundial do Doente, penso em tantos irmãos e irmãs de todo o mundo sem possibilidades de acesso aos cuidados médicos, porque vivem na pobreza. Por isso, dirijo-me às instituições sanitárias e aos governos de todos os países do mundo, pedindo-lhes que não sobreponham o aspeto económico ao da justiça social. Faço votos de que, conciliando os princípios de solidariedade e subsidiariedade, se coopere para que todos tenham acesso a cuidados médicos adequados para salvaguardar e restabelecer a saúde. De coração agradeço aos voluntários que se colocam ao serviço dos doentes, procurando em não poucos casos suprir carências estruturais e refletindo, com gestos de ternura e proximidade, a imagem de Cristo Bom Samaritano.

À Virgem Maria, Saúde dos Enfermos, confio todas as pessoas que carregam o fardo da doença, juntamente com os seus familiares, bem como todos os profissionais da saúde. Com cordial afeto, asseguro a todos a minha proximidade na oração e envio a Bênção Apostólica.

Vaticano, Memória do SS. Nome de Jesus, 3 de janeiro de 2020.

[Franciscus]

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02 janeiro, 2020

Em janeiro, Papa propõe rezar pela paz num mundo fragmentado



Cidade do Vaticano

Promover a paz num mundo dividido e fragmentado: este é o convite que o Papa Francisco faz a todos na intenção de oração para o mês de janeiro.

No tradicional “O Vídeo do Papa”, o Pontífice dirige-se não só aos católicos, mas aos fiéis de outras religiões e pessoas de boa vontade tendo em vista a reconciliação e a fraternidade.
“A nossa fé leva-nos a difundir os valores da paz, da convivência, do bem comum. Rezemos para que os cristãos, os que seguem outras religiões e as pessoas de boa vontade promovam juntos a paz e a justiça no mundo.”
As intenções mensais são confiadas à Rede Mundial de Oração do Papa e, em 2020, a iniciativa de acompanhar cada intenção com um vídeo está a completar cinco anos.

O Vídeo do Papa é uma iniciativa global: é publicado em 14 idiomas - os últimos adicionados foram vietnamita, polaco, suaíli e kinyarwanda - e em 2019 as suas edições mensais foram vistas por mais de 12 milhões de pessoas nas redes sociais.

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01 janeiro, 2020

Olhar com o coração é ver o irmão além das suas fragilidades

Papa Francisco abraça senhora idosa durante a sua visita ao Paraguai, em 2015

O Papa celebrou a Missa na Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz. Ao meio-dia, o tradicional Angelus. No início da noite de terça-feira, a homilia do Te Deum e a visita ao Presépio na Praça de São Pedro.
Sergio Centofanti - Cidade do Vaticano

Um hino a Maria e à mulher tor-se um hino de louvor e ação de graças a Deus feito homem. Belíssima a Homilia do Papa Francisco neste primeiro de janeiro. No ventre de Maria, Deus e a humanidade uniram-se para sempre e para sempre Maria será a Mãe de Deus, afirma o Papa, que acrescenta com extrema clareza: se queremos salvação, se nos queremos unir a Deus, “passamos pelo mesmo caminho: por Maria”.

Francisco sempre se colocou no coração de Maria. O Rosário é a sua oração do coração. É ele quem divulgou ao mundo a devoção a Maria Desatadora dos nós: os dolorosos nós da vida, os nós da desobediência e os da incredulidade.

Um hino à mulher, fonte de vida. O Papa recorda as mulheres violentadas, induzidas a se prostituírem e a suprimir a vida que levam no ventre: "Toda a violência infligida às mulheres é uma profanação de Deus, nascido de uma mulher".

Também "a maternidade é humilhada, porque o único crescimento que interessa é o económco". Francisco repetiu sempre que no coração da Igreja existem os mais fracos, os doentes, os pobres, os que são pisados nos seus direitos, os migrantes que arriscam as suas vidas, mas os "filhos ainda não nascidos" - sublinha - "são os mais indefesos e inocentes de todos, aos quais hoje se quer negar a dignidade humana a fim de podermos fazer o que queremos, tirando as suas vidas e promovendo legislações de forma que ninguém possa impedi-lo".  "Não se deve esperar que a Igreja mude de posição sobre esta questão" (Evangelii gaudium, 213-214).

Francisco eleva a sua oração a Maria pela unidade da Igreja. Ele já o fez tantas vezes. Convidou a rezar o Rosário todos os dias por esta intenção. Nós cristãos às vezes brigamos, acusam-mo-nos uns aos outros, dividimo-nos, talvez em nome da fé e da verdade.

E o Papa indica quem está por trás de tantas coisas más: "O inimigo da natureza humana, o diabo", que coloca em primeiro lugar as diferenças, as ideologias, os pensamentos de parte, os partidos. E alguns, em vez de anunciarem a Boa Nova do amor de Deus, tornam-se colecionadores e anunciadores de todos os males verdadeiros ou presumíveis que existem na Igreja. Esquecem o que também São João Paulo II dizia: o anúncio do bem "é sempre mais importante do que a denúncia, e esta não pode prescindir dele" (Sollicitudo rei socialis, 41).

Outro aspeto importante. O cristão não é melhor do que os outros. Ele é uma pessoa que, quando cai, deixa-se reerguer pela misericórdia de Deus. É nesta perspectiva - afirma o Papa - que o crente olha para os outros: olha com o coração, vê “a pessoa para além dos seus erros, o irmão para além das suas fragilidades, a esperança nas dificuldades".

E é belo que Francisco no Angelus tenha pedido desculpas ao mundo pelo gesto impaciente que teve ontem durante a visita ao Presépio na Praça de São Pedro. Uma mulher puxou-o com força, magoando o seu braço: o Papa perdeu a paciência. Que belo que tenha confessado ao mundo a sua fraqueza. No Dia Mundial da Paz. Porque todos, absolutamente todos, têm necessidade da misericórdia de Deus.

Não vemos somente o mal que existe no mundo: Deus o derrotou na raiz. Por este motivo, o Papa, ontem à noite no Te Deum, agradeceu mais uma vez o grande bem que existe: quanta fraternidade, quanta solidariedade de tantas pessoas corajosas, "crentes e não crentes", que esperam "não obstante tudo" e amam "lutando pelo bem de todos". E são belos os seus votos após o Angelus: "A todos, crentes e não crentes, porque somos todos irmãos, faço votos de nunca deixar de esperar num mundo de paz, a ser construído juntos, dia após dia".

Comovente, após a bênção no Angelus, foi o momento quando todos os presentes na Praça de São Pedro, convidados por Francisco, saudaram Maria três vezes com o título de Mãe Deus: "Santa Mãe de Deus! Santa Mãe de Deus! Santa Mãe de Deus!".

Por fim, a fé cristã diz com clareza não ao pecado - reiterou Francisco - mas não faz cercas, não confunde erro com quem o comete e não divide entre bons e maus, porque somente um é bom. E graças a Deus, esta é a nossa esperança, a todos nós, bons (presumidos) e maus, convida para o seu banquete de casamento (Mt 22).

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Homilia do Papa na Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus



"Aproximando-se de Maria, a Igreja reencontra-se: encontra o seu centro e a sua unidade. Ao contrário o diabo, inimigo da natureza humana, procura dividi-la, colocando em primeiro plano as diferenças, as ideologias, os pensamentos unilaterais e os partidos", disse o Papa Francisco na Missa celebrada na Basílica de São Pedro na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. 

Homilia do Santo Padre na Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

(Basílica de São Pedro, 1 de janeiro de 2020)

«Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher» (Gal 4, 4). Nascido de uma mulher: assim veio Jesus. Não apareceu adulto no mundo, mas, como disse o Evangelho, foi «concebido no seio materno» (Lc 2, 21): aqui, dia após dia, mês após mês, assumiu a nossa humanidade. No seio duma mulher, Deus e a humanidade uniram-se para nunca mais se deixarem: mesmo agora, no Céu, Jesus vive na carne que tomou no seio de sua mãe. Em Deus, há a nossa carne humana!

No primeiro dia do ano, celebramos estas núpcias entre Deus e o homem, inauguradas no seio de uma mulher. Em Deus, estará para sempre a nossa humanidade, e Maria será a Mãe de Deus para sempre. É mulher e mãe: isto é o essencial. D’Ela, mulher, surgiu a salvação e, assim, não há salvação sem a mulher. N’Ela, Deus uniu-Se a nós e, se queremos unir-nos a Ele, temos de passar pela mesma estrada: por Maria, mulher e mãe. Por isso, começamos o ano sob o signo de Nossa Senhora, mulher que teceu a humanidade de Deus. Se quisermos tecer de humanidade a trama dos nossos dias, devemos recomeçar da mulher.

Nascido de uma mulher. O renascimento da humanidade começou pela mulher. As mulheres são fontes de vida; e, no entanto, são continuamente ofendidas, espancadas, violentadas, induzidas a prostituir-se e a suprimir a vida que trazem no seio. Toda a violência infligida à mulher é profanação de Deus, nascido de uma mulher. A salvação chegou à humanidade, a partir do corpo de uma mulher: pelo modo como tratamos o corpo da mulher, vê-se o nosso nível de humanidade. Quantas vezes o corpo da mulher acaba sacrificado nos altares profanos da publicidade, do lucro, da pornografia, explorado como se usa uma superfície qualquer. Há que libertá-lo do consumismo, deve ser respeitado e honrado; é a carne mais nobre do mundo: concebeu e deu à luz o Amor que nos salvou! Ainda hoje a maternidade é humilhada, porque o único crescimento que interessa é o económico. Há mães que, na busca desesperada de dar um futuro melhor ao fruto do seu seio, se arriscam a viagens impraticáveis e acabam julgadas como número excedente por pessoas que têm a barriga cheia, mas de coisas, e o coração vazio de amor.

Nascido de uma mulher. Segundo a narração da Bíblia, no cume da criação surge a mulher, quase como compêndio de toda a obra criada. De facto, encerra em si mesma a finalidade da própria criação: a geração e a conservação da vida, a comunhão com tudo, a solicitude por tudo. É o que faz Nossa Senhora no Evangelho de hoje. «Maria – diz o texto – conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Conservava tudo: a alegria pelo nascimento de Jesus e a tristeza pela hospitalidade negada em Belém; o amor de José e a admiração dos pastores; as promessas e as incertezas quanto ao futuro. Interessava-se por tudo e, no seu coração, tudo reajustava, incluindo as adversidades. Pois, no seu coração, tudo organizava com amor e confiava tudo a Deus.

No Evangelho, esta atividade de Maria reaparece uma segunda vez: na adolescência de Jesus, diz-se que a «sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração» (Lc 2, 51). Esta repetição faz-nos compreender que o gesto de guardar no coração não era simplesmente um ato bom que Nossa Senhora realizava de vez em quando, mas é um hábito d’Ela. É próprio da mulher tomar a peito a vida. A mulher mostra que o sentido da vida não é produzir coisas em continuação, mas tomar a peito as coisas que existem. Só vê bem quem olha com o coração, porque sabe «ver dentro»: a pessoa independentemente dos seus erros, o irmão independentemente das suas fragilidades, a esperança nas dificuldades, Deus em tudo.

Ao começarmos um ano novo, interroguemo-nos: «Sei olhar as pessoas, com o coração? Tenho a peito as pessoas com quem vivo? E sobretudo tenho no centro do coração o Senhor?» Somente se tivermos a peito a vida é que saberemos cuidar dela e vencer a indiferença que nos rodeia. Peçamos esta graça: viver o ano com o desejo de ter a peito os outros, cuidar dos outros. E se queremos um mundo melhor, que seja casa de paz e não palco de guerra, tenhamos a peito a dignidade de cada mulher. Da mulher, nasceu o Príncipe da paz. A mulher é doadora e medianeira de paz, e deve ser plenamente associada aos seus processos decisores. Com efeito, quando é dada às mulheres a possibilidade de transmitir os seus dons, o mundo encontra-se mais unido e mais em paz. Por isso, uma conquista a favor da mulher é uma conquista em prol da humanidade inteira.
Nascido de uma mulher. Jesus, logo que nasceu, espelhou-Se nos olhos duma mulher, no rosto de sua Mãe. D’Ela recebeu as primeiras carícias, com Ela trocou os primeiros sorrisos. Com Ela, inaugurou a revolução da ternura; a Igreja, ao contemplar o Menino Jesus, é chamada a continuá-la. Pois também ela, como Maria, é mulher e mãe, e encontra em Nossa Senhora os seus traços caraterísticos. Vê-A imaculada e sente-se chamada a dizer «não» ao pecado e ao mundanismo. Vê-A fecunda e sente-se chamada a anunciar o Senhor, a gerá-Lo nas inúmeras vidas. Vê-A mãe e sente-se chamada a acolher cada homem como um filho.

Aproximando-se de Maria, a Igreja reencontra-se: encontra o seu centro e a sua unidade. Ao contrário o diabo, inimigo da natureza humana, procura dividi-la, colocando em primeiro plano as diferenças, as ideologias, os pensamentos unilaterais e os partidos. Mas não compreenderemos a Igreja, se olharmos para ela a partir das estruturas, programas e tendências: entenderemos qualquer coisa dela, mas não o coração. Porque a Igreja tem um coração de mãe. E nós, filhos, invocamos hoje a Mãe de Deus, que nos reúne como povo crente. Ó Mãe, gerai em nós a esperança, trazei-nos a unidade. Mulher da salvação, confiamo-Vos este ano, guardai-o no vosso coração. Nós Vos aclamamos: Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus!

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Papa: a paz é um caminho de esperança feito pelo diálogo e a reconciliação



O Menino nascido da Virgem de Nazaré “é a Bênção de Deus para todo o homem e mulher, para a grande família humana e para o mundo inteiro. Jesus não tirou o mal do mundo, mas o derrotou na raiz” disse o Papa, explicando:

A sua salvação não é mágica, mas é uma salvação "paciente", isto é, comporta a paciência do amor, que assume a iniquidade e lhe tira o poder. A paciência do amor: o amor torna-nos pacientes. Tantas vezes perdemos a paciência; também eu, e peço desculpas pelo mau exemplo de ontem. Por esse motivo, contemplando o Presépio vemos, com os olhos da fé, o mundo renovado, livre do domínio do mal e colocado sob o senhorio real de Cristo, o Menino deitado na manjedoura.

A referência do Papa Francisco e as suas palavras de desculpa referem-se ao episódio ocorrido na noite passada durante a visita ao Presépio na Praça de São Pedro, depois da celebração das Vésperas, quando ao saudar os fiéis, foi puxado bruscamente por uma mulher, o que provocou uma forte dor no seu braço, e teve uma reação intempestiva, procurando livrar-se das mãos desta pessoa. 

São Paulo VI e o primeiro dia do ano dedicado à paz

Jesus é "alegria para todo o povo", é a glória de Deus e a paz para os homens, por este motivo – recordou Francisco -  o Santo Papa Paulo VI quis dedicar o primeiro dia do ano à paz: a oração, a tomada de consciência e de responsabilidade pela paz.
“Para este ano de 2020 a mensagem é a esta: a paz é um caminho de esperança, um caminho no qual se avança por meio do diálogo, da reconciliação e da conversão ecológica.”
Neste sentido, o convite para fixarmos o nosso olhar na Mãe e no Filho que ela nos mostra, deixando-nos abençoar no início do novo ano: 

Jesus liberta com amor, abre a porta da fraternidade, reabre horizonte de esperança

Jesus é a bênção para aqueles que são oprimidos pelo jugo das escravidões, escravidões morais e escravidões materiais. Ele liberta com amor. Para aqueles que perderam a autoestima, permanecendo prisioneiros de vícios, Jesus diz: o Pai te ama, não te abandona, espera com paciência inabalável teu retorno.

Para quem é vítima de injustiça e exploração e não vê a saída – disse o Papa -  “Jesus abre a porta da fraternidade, onde encontrar rostos, corações e mãos acolhedoras, onde compartilhar a amargura e o desespero e recuperar um pouco da dignidade.”

Para aqueles que estão gravemente enfermos e se sentem abandonados e desanimados, Jesus faz-se próximo, toca as chagas com ternura, derrama o óleo da consolação e transforma a fraqueza em força do bem para desfazer os nós mais difíceis.

Para quem está encarcerado e é tentado a fechar-se em si mesmo, Jesus reabre um horizonte de esperança, começando por um pequeno vislumbre de luz. 

Deixar-se abençoar, para ter um caminho de paz e esperança

Ao concluir a sua alocução, o convite para descermos dos pedestais de nosso orgulho - todos nós temos a tentação do orgulho - e pedir a bênção da Santa Mãe de Deus, a humilde Mãe de Deus:

Ela mostra-nos Jesus: deixem-mo-nos abençoar, abramos o coração à sua bondade. Assim, o ano que começa será um caminho de esperança e paz, não com palavras, mas através de gestos diários de diálogo, de reconciliação e cuidado para com a criação.

Após rezar o Angelus, o Papa Francisco saudou os presentes na Praça de São Pedro e aqueles que o acompanhavam pelos meios de comunicação, fazendo votos de paz e de bem no novo ano. 

Gratidão e encorajamento às iniciativas de paz

O Pontífice agradeceu as felicitações do presidente da República italiana, Sérgio Mattarella, e saudou em particular os participantes da manifestação "Paz em todas as terras", organizada pela Comunidade de Santo Egídio em Roma e em muitas cidades do mundo. “Eles também têm uma escola para a paz. Em frente!”, foi a sua exortação, antes de agradecer por outras iniciativas de paz:

Estendo a minha saudação e o meu encorajamento a todas as iniciativas pela paz que as Igrejas particulares, as associações e os movimentos eclesiais promoveram neste Dia da Paz: encontros de oração e de fraternidade, acompanhados pela solidariedade com os mais pobres. Em particular recordo a marcha que se realizou na tarde de ontem em Ravena. O meu pensamento vai também para tantos voluntários que, nos lugares onde a paz e a justiça estão ameaçadas, escolhem com coragem estar presentes de forma não-violenta e desarmada; assim como aos militares que atuam nas missões de paz em muitas áreas de conflito. Muito obrigado a eles!
“A todos, crentes e não crentes – porque somos todos irmãos - faço votos de que nunca deixem de esperar por um mundo de paz, a ser construído juntos, dia após dia.”
E por favor, não se esqueçam de rezar por mim.  Bom almoço e até logo.

VN