27 setembro, 2013

O DIVINO “ESCULTOR”



Senhor,
eu sei que és “oleiro”,
que trabalhas o “barro mole”
da vida de cada um,
para poderes moldar,
aqueles que a Ti se entregam
de alma e corpo inteiro.
 
 
Mas,
Senhor,
comigo tens que ser canteiro,
partir a pedra dura,
que teima em resistir
às mãos tuas a esculpir.
 
Tens que insistir,
Senhor,
nem que seja até quebrar,
para depois juntar os cacos,
para reconstruir,
ressuscitar,
para que mesmo homem velho,
na vida e no ser,
pelo teu infinito amor,
possa então eu renascer.
 
Tanto me faz que haja dor,
dure o tempo que durar,
molda,
Senhor,
rompe e quebra,
em Ti me quero abandonar,
porque a minha fé  e confiança,
é em Ti,
e só em Ti,
divino e eterno “Escultor”!
 
 
Monte Real, 27 de Setembro de 2013
Joaquim Mexia Alves

26 setembro, 2013

Para conhecer Jesus é preciso envolvermo-nos com Ele – o Papa na Missa desta quinta-feira

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(RV) Para conhecer Jesus é preciso envolvermo-nos com Ele – esta a mensagem principal do Papa Francisco na Missa desta manhã na Casa de Santa Marta. O Papa afirmou que Jesus só se pode conhecer na vida quotidiana. O Santo Padre desenvolveu a sua homilia partindo da pergunta que Herodes faz sobre Jesus. Uma interrogação que todos que O conhecem fazem, pois, como diz o Papa, da leitura do Evangelho percebe-se que muitos tinham medo daquele homem que lhes poderia trazer problemas políticos com os romanos. Porque Cristo traz tantos problemas...
“Não se pode conhecer Jesus sem ter problemas. E eu ousarei dizer: Queres ter problemas, vai pelo caminho de Jesus. Não vais ter um, mas tantos vais ter! Mas este é o caminho para conhecer Jesus! Não se pode conhecer Jesus na primeira classe! Jesus conhece-se no caminhar quotidiano de todos os dias. Não se pode conhecerJesus na tranquilidade, nem na biblbioteca...Conhecer Jesus!”
“Sim, deve-se conhecer Jesus no Catecismo. Mas não é suficiente conhecê-lo com a mente: é um passo. Mas Jesus é necessário conhecê-lo no diálogo com Ele, falando com Ele, na oração, de joelhos. Se tu não rezas, se tu não falas com Jesus, não O conheces. Tu sabes coisas de Jesus, mas não ficas com aquele conhecimento que te dá o coração na oração. Conhecer Jesus com a mente, o estudo do Catecismo; conhecer Jesus com o coração, na oração, no diálogo com Ele. Isto ajuda-nos bastante, mas não é suficiente...Há um terceiro caminho para conhecer Jesus: é a sequela. Ir com Ele; caminhar com Ele.”
É preciso percorrer os caminhos de Jesus... caminhando. É a linguagem da ação que propôs o Papa Francisco na missa desta manhã. Eis, portanto, as três linguagens que propõe o Santo Padre para conhecer Jesus: a mente, o coração e a ação. Temos que nos envolver com Ele:
“Não se pode conhecer Jesus sem nos envolvermos com Ele, sem arriscar a nossa vida por Ele. Quando tanta gente – e também nós – colocamos esta questão: Mas, quem é este? A Palavra de Deus responde-nos: Tu queres conhecer quem é este? Lê o que a Igreja diz sobre Ele, fala com Ele na oração e caminha pela estrada com Ele. Assim, tu conhecerás quem é este homem. Este é o caminho! Cada um fará a sua escolha!” (RS)
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25 setembro, 2013

PAPA FRANCISCO - Audiência Geral

Praça de São Pedro
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Quarta-feira, 25 de Setembro de 2013


Locutor: 

Dizemos no Credo: «Creio na Igreja una…», isto é, professamos que é única; a Igreja é uma só para todos. Em todo o lado, mesmo no sítio mais isolado da Terra, na paróquia mais pequenina, aí existe a mesma e única Igreja; aí estamos em casa, somos irmãos e irmãs. Penso na experiência da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro: naquela multidão sem fim de jovens presentes na praia de Copacabana, ouviam-se falar muitas línguas, viam-se rostos com traços muito diversos; e, contudo, estávamos unidos, sentíamo-nos e éramos uma única Igreja. Perguntemo-nos: Sinto eu esta unidade? Quando ouço falar de cristãos que sofrem no mundo, fico indiferente ou sinto-o como se sofresse um da minha família? A unidade da Igreja, porém, não é primariamente fruto do nosso esforço por vivermos de acordo e unidos; o motor desta unidade é o Espírito Santo, que faz a harmonia na diversidade. Peçamos-Lhe que nos faça cada vez mais unidos e não nos deixe ser jamais instrumentos de divisão.

 * * *
Santo Padre: 

Carissimi pellegrini di lingua portoghese, seguendo ogni giorno strade diverse, oggi avete una fermata comune in quest’Incontro con il Vescovo di Roma, che vi dà il benvenuto e vi saluta tutti, in particolare le diverse comunità parrocchiali del Brasile e il gruppo di Lisbona. Il Signore Gesù vi riempia di gioia e il suo Spirito vi illumini e vi guidi nell’adempimento del vostro servizio di uomini e donne di comunione e di unità. Nello stringervi tutti al cuore, vi imparto la mia Benedizione, che estendo alle vostre famiglie.

* * *
Locutor:

[Amados peregrinos de língua portuguesa, seguindo caminhos diversos no dia a dia, mas hoje com paragem comum neste Encontro com o Bispo de Roma que vos dá as boas-vindas e saúda a todos, especialmente às diversas comunidades paroquiais do Brasil e ao grupo de Lisboa: O Senhor Jesus vos encha de alegria e o seu Espírito vos ilumine e guie na realização do vosso serviço de homens e mulheres de comunhão, de unidade. Estreitando-vos a todos ao coração, dou-vos a minha Bênção, extensiva às vossas famílias].



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24 setembro, 2013

“O sacramento não é um rito mágico, mas um encontro com Jesus Cristo” – Papa Francisco na missa desta terça-feira em Santa Marta

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(RV) Jesus Cristo sempre nos espera, esta é a humildade de Deus - o Papa Francisco retirou a sugestão para a sua mediatação na missa desta manhã do Salmo que nos diz: ” Iremos com alegria para a Casa do Senhor”. Mesmo com histórias e momentos marcados pelo pecado o Senhor sempre por nós espera de braços abertos:

“E seja nos momentos maus, seja nos momentos bons, uma coisa sempre é igual: o Senhor está lá, nunca abandona o Seu povo! Porque o Senhor, no dia do pecado, no primeiro pecado, tomou uma decisão, fez uma escolha: fazer História com o Seu Povo. E Deus, que não tem História porque é eterno, quis fazer História, caminhar junto do Seu Povo. Mas mais ainda: fazer-se um de nós, caminhar connosco em Jesus. E isto diz-nos o que é a humildade de Deus”.

A grandeza de Deus é precisamente a humildade. Mesmo quando o seu povo o esquecia e regressava à idolatria, Deus ficava à sua espera. E Jesus veio para caminhar com o seu povo mesmo com os soberbos. E fez tanto para ajudar os corações soberbos dos fariseus:

“Humildade. Deus sempre nos espera. Deus está connosco, Deus caminha connosco, é humilde: espera sempre por nós. Jesus sempre nos espera. Esta é a humildade de Deus. E a Igreja canta com alegria esta humildade de Deus que nos acompanha, como o fizemos no salmo. ‘Iremos com alegria para a casa do Senhor’: vamos com alegria porque Ele nos acompanha, Ele está connosco. É o Senhor Jesus, mesmo na nossa vida pessoal acompanha-nos: com os Sacramentos. O Sacramento não é um rito mágico: é um encontro com Jesus, nós encontramos o Senhor e Ele está junto a nós e nos acompanha.”

“E se o Senhor entrou na nossa história, peçamos-Lhe a graça de que seja Ele a escrever a nossa história.”(RS)

23 setembro, 2013

"Sede sempre verdadeiros filhos de Maria e da Igreja" - o Papa Francisco no Angelus durante a sua visita à Nossa Senhora de Bonária em Cagliari na Sardenha

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(RV) No final da Eucaristia o Papa Francisco recitou a tradicional oração do Angelus aproveitando a ocasião para agradecer o acolhimento de todos, nomeadamente dos bispos, sacerdotes e religiosos. Na sua mensagem, para este momento mariano, o Santo Padre confiou todos a Nossa Senhora de Bonária e teve presente todos os outros santuários marianos da Sardenha:

“Sobretudo quero confiar-vos a Maria, Nossa Senhora de Bonária. Mas, neste momento penso em todos os numerosos santuários marianos da Sardenha: a vossa terra tem uma ligação forte com Maria, uma ligação que exprimis na vossa devoção e na vossa cultura. Sede sempre verdadeiros filhos de Maria e da Igreja e demonstrai-o com a vossa vida seguindo o exemplo dos santos!”
O Papa Francisco terminou a sua mensagem no Angelus deste domingo recordando Tomé Acerbis de Olera, frade capuchino proclamado ontem Beato em Bergamo na Itália e que viveu entre os séculos XVI e XVII e que deu testemunho da humildade e da caridade de Jesus Cristo.

Após a celebração eucarística o Santo Padre almoçou com os bispos da Sardenha no Seminário Pontifício Regional de Cagliari. Da parte da tarde estão previstos encontros com os pobres e com os presidiários na Catedral de Cagliari, um encontro com o mundo da cultura na Aula Magna da Faculdade de Teologia da Sardenha e ainda um encontro com os jovens no Largo Carlo Felice de Cagliari. O Papa Francisco egressa a Roma pelas 19.30h. (RS)
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21 setembro, 2013

Papa Francisco na Missa em Santa Marta: Não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Não se pode. Ou um ou outro"

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(RV) O dinheiro faz adoecer o pensamento e a fé e faz-nos ir por outros caminhos. Em síntese é esta a ideia principal da meditação matinal do Papa Francisco na Missa na Casa de Santa Marta. O Santo Padre sublinhou, assim, que da idolatria do dinheiro nascem outros males como a vaidade e o orgulho.
Não se pode servir a Deus e ao dinheiro. O Papa Francisco desenvolveu a sua homilia partindo das palavras de S. Paulo sobre a relação entre o caminho de Jesus e o dinheiro. Segundo o Santo Padre o dinheiro pode desviar-nos da fé e, nessas situações ficamos doentes...“O dinheiro também faz adoecer o pensamento e a fé e faz-nos ir por outros caminhos.” O Papa Francisco lembrou alguns que são católicos e até vão à missa, porque assim têm mais estatuto, mas depois... fazem as suas negociatas vivendo numa cultura do dinheiro...Escolhem a via do dinheiro e essa sedução leva à corrupção. E Jesus foi claro em relação a este assunto:
“Não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Não se pode. Ou um ou o outro! Isto não é comunismo, hen! Isto é o evangelho puro! Estas são as palavras de Jesus! O que é que acontece com o dinheiro? O dinheiro dá um certo bem-estar no início. Depois sentes-te um pouco importante e vem a vaidade. Ouvimos no Salmo dizer que se chega a esta vaidade. Esta vaidade que não serve, mas tu sentes-te uma pessoa importante: aquela é a vaidade. E da vaidade chega-se à soberba e ao orgulho. São três os degraus: riqueza, vaidade e orgulho.”
Ninguém se salva com o dinheiro – diz o Santo Padre – que avisou ser este o caminho do diabo, o caminho das tentações. Como diz S. Paulo, vivamos na justiça, na fé e na caridade e assim, diz o Papa, evitaremos as tentações do dinheiro e seguiremos os Mandamentos da Lei de Deus...
“Mas, Padre, eu leio os Dez mandamentos e nenhum fala mal do dinheiro. Contra que Mandamento se peca quando um de nós faz uma ação pelo dinheiro”. Contra o primeiro! Pecas por idolatria! Eis o porquê: Porque o dinheiro torna-se num ídolo e tu dás-lhe culto! E por isso Jesus diz-nos que não podemos servir ao ídolo do dinheiro e ao Deus Vivo: ou um ou o outro. Os primeiros padre da Igreja – do seculo III, mais ou menos entre o anos 200 e 300 diziam uma palavra forte: ‘O dinheiro é o excremento do diabo’. “ (RS)
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20 setembro, 2013

Papa Francisco, na primeira grande entrevista após a eleição: do que a Igreja mais precisa é curar feridas e aquecer o coração dos fiéis

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AP Photo/Rodrigo De Luca


A revista "Brotéria", propriedade dos Jesuítas Portugueses, publica esta quinta-feira no seu site uma entrevista exclusiva que o papa Francisco concedeu a 16 publicações periódicas da Companhia de Jesus ao longo de três encontros, a 19, 23 e 29 de agosto, no Vaticano.

O entrevistador, padre Antonio Spadaro, diretor da revista italiana "La Civiltà Cattolica", estará em Portugal no início de outubro para participar nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais, marcadas para Fátima.

A primeira grande entrevista que o papa concede após a sua eleição, a 13 de março, será também publicada na revista "Brotéria" que ficará disponível na próxima semana.

"Quem é Jorge Mario Bergoglio?", "viver em comunidade", "ouvir os outros", "santidade para todos", Igreja de portas abertas", "o que a Igreja mais precisa", "uma Igreja à procura de novos caminhos", "Igreja e homossexualidade", "aborto, casamento homossexual e métodos contracetivos", "anunciar o essencial está primeiro do que as normas morais", "sinodalidade", "mulher na Igreja", "perigo da instrumentalização do rito litúrgico anterior ao Concílio Vaticano II", "encontrar Deus no dia a dia, "paciência com Deus", "desconfiar de quem diz saber tudo de Deus", "a surpresa de Deus", "soluções disciplinares e segurança doutrinal", "referências culturais", "fé de fronteira", "pensamento da Igreja" e "oração", são alguns dos temas e questões abordadas na entrevista, de que apresentamos alguns excertos.

Os subtítulos foram escolhidos pela redação do site da Pastoral da Cultura. 

Quem é Jorge Mario Bergoglio?

Não sei qual possa ser a definição mais correta… Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, um género literário. Sou um pecador. Sim, posso talvez dizer que sou um pouco astuto, sei mover-me, mas é verdade que sou também um pouco ingénuo. Sim, mas a síntese melhor, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira, é exatamente esta: “Sou um pecador para quem o Senhor olhou”. Sou alguém que é olhado pelo Senhor. A minha divisa, "Miserando atque eligendo", senti-a sempre como muito verdadeira para mim. 

Viver em comunidade

Da Companhia impressionaram-me três coisas: o espírito missionário, a comunidade e a disciplina. Isto é curioso, porque eu sou um indisciplinado nato, nato, nato. Mas a sua disciplina, o modo de organizar o tempo, impressionaram-me muito. (...)
«E depois uma coisa para mim verdadeiramente fundamental é a comunidade. Procurava sempre uma comunidade. Eu não me via padre sozinho: preciso de uma comunidade. É mesmo isso que explica o facto de eu estar aqui
 


Ouvir os outros

Na minha experiência de superior na Companhia, para dizer a verdade, nem sempre me comportei assim, ou seja, fazendo as necessárias consultas. E isso não foi uma boa coisa. (...)

Agora oiço algumas pessoas que me dizem: “Não consulte demasiado e decida”. Acredito, no entanto, que a consulta é muito importante. Os Consistórios e os Sínodos são, por exemplo, lugares importantes para tornar verdadeira e ativa esta consulta. É necessário torná-los, no entanto, menos rígidos na forma. Quero consultas reais, não formais. A consulta dos oito cardeais, este grupo outsider, não é uma decisão simplesmente minha, mas é fruto da vontade dos cardeais, tal como foi expressa nas Congregações Gerais antes do Conclave. E quero que seja uma consulta real, não formal. 

Santidade para todos

Vejo a santidade no povo de Deus paciente: uma mulher que cria os filhos, um homem que trabalha para levar o pão para casa, os doentes, os sacerdotes idosos com tantas feridas mas com um sorriso por terem servido o Senhor, as Irmãs que trabalham tanto e que vivem uma santidade escondida. Esta é, para mim, a santidade comum. Associo frequentemente a santidade à paciência: não só a santidade como hypomoné, o encarregar-se dos acontecimentos e circunstâncias da vida, mas também como constância no seguir em frente dia após dia. Esta é a santidade da "Igreja militante" de que fala também Santo Inácio. Esta é também a santidade dos meus pais: do meu pai, da minha mãe, da minha avó Rosa, que me fez tanto bem. 

Igreja de portas abertas

Esta Igreja com a qual devemos “sentir” é a casa de todos, não uma pequena capela que só pode conter um grupinho de pessoas selecionadas. Não devemos reduzir o seio da Igreja universal a um ninho protetor da nossa mediocridade.

 O que a Igreja mais precisa

Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas... E é necessário começar de baixo. (...)

A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, é o primeiro anúncio: “Jesus Cristo salvou-te” (...)

Sonho com uma Igreja Mãe e Pastora. Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o seu próximo. Isto é Evangelho puro. Deus é maior que o pecado. As reformas organizativas e estruturais são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado. Os bispos, em particular, devem ser capazes de suportar com paciência os passos de Deus no seu povo, de tal modo que ninguém fique para trás, mas também para acompanhar o rebanho que tem o faro para encontrar novos caminhos». 

Uma Igreja à procura de novos caminhos

Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fê-lo, por vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas é necessário audácia, coragem. 

Igreja e homossexualidade

Devemos anunciar o Evangelho em todos os caminhos, pregando a boa nova do Reino e curando, também com a nossa pregação, todo o tipo de doença e de ferida. Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la. Dizendo isso, eu disse aquilo que diz o Catecismo. A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira o sacerdote a dizer a coisa mais apropriada. 

Não é preciso estar sempre a falar de aborto, casamento homossexual e métodos contracetivos

Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contracetivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente. 

Primeiro, anunciar o essencial; só depois as consequências morais

Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de caráter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais. 

Sinodalidade

A sinodalidade vive-se a vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo, porque a atual parece-me estática. Isto poderá também ter valor ecuménico, especialmente com os nossos irmãos ortodoxos. Deles se pode aprender mais sobre o sentido da colegialidade episcopal e sobre a tradição da sinodalidade. O esforço de reflexão comum, vendo o modo como se governava a Igreja nos primeiros séculos, antes da rutura entre Oriente e Ocidente, dará frutos a seu tempo. Nas relações ecuménicas isto é importante: não só conhecer-se melhor, mas também reconhecer o que o Espírito semeou nos outros como um dom também para nós. Quero prosseguir a reflexão sobre como exercitar o primado petrino, já iniciada em 2007 pela Comissão Mista, e que levou à assinatura do documento de Ravena. É preciso continuar neste caminho.

 Mulher na Igreja

É necessário (...) aprofundar melhor a figura da mulher na Igreja. É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher. Só realizando esta etapa se poderá refletir melhor sobre a função da mulher no interior da Igreja. O génio feminino é necessário nos lugares em que se tomam as decisões importantes. O desafio hoje é exatamente esse: refletir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja. 

Perigo da instrumentalização do rito litúrgico anterior ao Concílio Vaticano II

O trabalho da reforma litúrgica foi um serviço ao povo como releitura do Evangelho a partir de uma situação histórica concreta. Sim, existem linhas de hermenêutica de continuidade e de descontinuidade. Todavia, uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje, que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível. Depois existem questões particulares, como a liturgia segundo o Vetus Ordo [rito litúrgico da missa substituído em 1969, após o Concílio Vaticano II]. Penso que a escolha do Papa Bento XVI foi prudente, ligada à ajuda a algumas pessoas que têm esta sensibilidade particular. Considero, no entanto, preocupante o risco de ideologização do Vetus Ordo, a sua instrumentalização. 

Encontrar Deus no dia a dia

Deus está, certamente, no passado porque está nas pegadas que deixou. E está também no futuro como promessa. Mas o Deus “concreto”, digamos assim, é hoje. Por isso, os queixumes nunca, nunca, nos ajudam a encontrar Deus. As queixas de hoje de como o mundo anda “bárbaro” acabam por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura conservação, defesa. Não. Deus deve ser encontrado no hoje. 

Paciência com Deus

Deus encontra-Se no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder relativamente aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espaços. Deus manifesta-Se no tempo e está presente nos processos da História. Isto faz privilegiar as ações que geram dinâmicas novas. E exige paciência, espera». 

Desconfiar de quem diz saber tudo de Deus

Neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas. Tem de ser assim. Se uma pessoa diz que encontrou Deus com certeza total e não aflora uma margem de incerteza, então não está bem. Para mim, esta é uma chave importante. Se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ela. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço para a dúvida. Devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas. É necessário ser humilde. A incerteza existe em cada discernimento verdadeiro que se abre à confirmação da consolação espiritual.  

Procurar Deus: uma tarefa de todas as horas

«O risco no procurar e encontrar Deus em todas as coisas é, pois, a vontade de explicar demasiado, de dizer com certeza humana e arrogância: “Deus está aqui”. Encontraremos somente um deus à nossa medida. A atitude correta é a agostiniana: procurar a Deus para O encontrar e encontrá-l’O para O procurar sempre. (...) 

A surpresa de Deus

Encontra-se Deus caminhando, no caminho. E neste ponto alguém poderia dizer que isto é relativismo. É relativismo? Sim, se é mal interpretado, como espécie de panteísmo indistinto. Não, se é interpretado em sentido bíblico, onde Deus é sempre uma surpresa e, portanto, não sabes nunca onde e como O encontras, não és tu a fixar os tempos e os lugares do encontro com Ele. É necessário, portanto, discernir o encontro. Por isso, o discernimento é fundamental». 

Quem procura soluções disciplinares ou tende exageradamente à segurança doutrinal, não vai longe...

Se o cristão é restauracionista, legalista, se quer tudo claro e seguro, então não encontra nada. A tradição e a memória do passado devem ajudar-nos a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à “segurança” doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E deste modo a fé torna-se uma ideologia entre tantas. 

Referências culturais

Gostei muito de autores diferentes entre si. Gosto muitíssimo de Dostoiévski e Hölderlin. De Hölderlin quero recordar aquela poesia para o aniversário da sua avó, que é de grande beleza e que me fez tanto bem espiritual. É aquela que termina com o verso “Que o homem mantenha o que o rapaz prometeu”. Impressionou-me também porque amava muito a minha avó Rosa, e ali Hölderlin compara a sua avó a Maria que gerou Jesus, que para ele é o amigo da terra que não considerou ninguém estrangeiro. Li I Promessi Sposi três vezes e tenho-o agora sobre a mesa para reler. Manzoni deu-me muito. A minha avó, quando eu era criança, ensinou-me de cor o início dos Promessi Sposi: “Quel ramo del lago di Como, che volge a mezzogiorno, tra due catene non interrotte di monti…” (Dos dois braços que formam o lago de Como, um deles dirige-se para o sul, entre duas cadeias ininterruptas de montanhas…) Também gostei muito de Gerard Manley Hopkins.

Na pintura admiro Caravaggio: as suas telas falam-me. Mas também Chagall, com a sua Crucifixão Branca...».

Na música gosto muito de Mozart, obviamente. Aquele Et Incarnatus est da sua Missa em Dó é insuperável: leva-te a Deus! Gosto muito de Mozart executado por Clara Haskil. Mozart preenche-me: não posso pensá-lo, devo ouvi-lo. Gosto de ouvir Beethoven, mas prometeicamente. E o intérprete mais prometeico para mim é Furtwängler. E depois as Paixões de Bach. O trecho de Bach de que gosto muito é o Erbarme Dich, o pranto de Pedro da Paixão segundo São Mateus. Sublime. Depois, num outro nível, não tão íntimo, gosto de Wagner. Gosto de ouvi-lo, mas não sempre. A Tetralogia do Anel executada por Furtwängler no Scala nos anos 50 é, para mim, a melhor. Mas também o Parsifalexecutado em 1962 por Knappertsbusch.

Deveríamos também falar do cinema. La strada, de Fellini, é talvez o filme de que mais gostei. Identifico-me com aquele filme, no qual está implícita uma referência a São Francisco. Depois, creio ter visto todos os filmes com Anna Magnani e Aldo Fabrizi quando eu tinha entre 10 e 12 anos. Um outro filme de que muito gostei é Roma città aperta. Devo a minha cultura cinematográfica sobretudo aos meus pais, que nos levavam frequentemente ao cinema.

Em todo o caso, em geral gosto muito dos artistas trágicos, especialmente os mais clássicos. Há uma bela definição que Cervantes coloca na boca do bacharel Carrasco para fazer o elogio da história de Dom Quixote: “Os rapazes têm-na entre as mãos, os jovens leem-na, os adultos entendem-na, os velhos elogiam-na”. Esta, para mim, pode ser uma boa definição para os clássicos.

Apercebo-me de estar absorvido por estas suas referências e de ter o desejo de entrar na sua vida, pela porta das suas escolhas artísticas. Seria um percurso a fazer, imagino que longo. E incluiria também o cinema, do neorrealismo italiano até a A Festa de Babette. Vêm-me à mente outros autores e outras obras que ele citou noutras ocasiões, mesmo menores ou menos conhecidas ou locais: de Martín Fierro de José Hernández à poesia de Nino Costa, a Il grande esodo de Luigi Orsenigo. Mas penso também em Joseph Malègue e José María Pemán. E, obviamente, em Dante e Borges, mas também em Leopoldo Marechal, o autor de Adán Buenosayres, El banquete de Severo Arcángelo e Megafón o la guerra. 

Fé de fronteira

Quando insisto na fronteira, de modo particular, refiro-me à necessidade para o homem da cultura de estar inserido no contexto em que opera e sobre o qual reflete. Está sempre à espreita o perigo de viver num laboratório. A nossa fé não é uma fé-laboratório, mas uma fé-caminho, uma fé histórica. Deus revelou-Se como história, não como um compêndio de verdades abstratas. Tenho medo dos laboratórios, porque no laboratório pegam-se nos problemas e levam-se para a própria casa, para domesticá-los, para os envernizar, fora do seu contexto. Não é preciso levar a fronteira para casa, mas viver na fronteira e ser audazes». 

Pensamento da Igreja deve recuperar a genialidade

Quando é que uma expressão do pensamento não é válida? Quando o pensamento perde de vista o humano ou até quando tem medo do humano ou se deixa enganar sobre si mesmo. É o pensamento enganado que pode ser representado como Ulisses diante do canto das sereias, ou como Tannhäuser, rodeado numa orgia por sátiros e bacantes, ou como Parsifal, no segundo ato da ópera wagneriana, no castelo de Klingsor. O pensamento da Igreja deve recuperar genialidade e entender sempre melhor como é que o homem se compreende hoje, para desenvolver e aprofundar o próprio ensino. 

Oração

Rezo o Ofício [Liturgia das Horas] todas as manhãs. Gosto de rezar com os Salmos. Depois, a seguir, celebro a Missa. Rezo o Rosário. O que verdadeiramente prefiro é a Adoração vespertina, mesmo quando me distraio e penso noutra coisa ou mesmo quando adormeço rezando. Assim, à tarde, entre as sete e as oito, estou diante do Santíssimo durante uma hora, em adoração. Mas também rezo mentalmente quando espero no dentista ou noutros momentos do dia.

E a oração é para mim uma oração “memoriosa”, cheia de memória, de recordações, também memória da minha história ou daquilo que o Senhor fez na sua Igreja ou numa paróquia particular. (...)Mas, sobretudo, eu sei também que o Senhor tem memória de mim. Eu posso esquecer-me d’Ele, mas sei que Ele nunca, nunca, se esquece de mim. 

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Reportagem por Antonio Spadaro
In Brotéria
© SNPC | 19.09.13