Delegação da Arquidiocese de Ravenna-Cervia na Sala Clementina
(Vatican Media)
“A mesma cruz, por
ocasião deste sétimo centenário, volta a brilhar no lugar que conserva
os restos mortais do Poeta. Que este possa ser um convite à esperança,
àquela esperança da qual Dante foi profeta. A esperança é, pois, que as
celebrações, deste centenário da morte do grande poeta, possa
estimular-nos a reler a sua Comédia”.
Manoel Tavares - Vatican News
O Santo Padre recebeu em audiência na manhã deste sábado, 10, na Sala
Clementina, uma delegação de 50 pessoas da Arquidiocese de
Ravenna-Cervia, norte da Itália, por ocasião do Ano dedicado a Dante
Alighieri. O Papa agradeceu aos presentes por partilharem com ele a
alegria de inaugurar as celebrações do 7º centenário da morte de Dante
Alighieri.
Para ele, disse Francisco, Ravenna é a cidade do seu "último refúgio"
- o primeiro foi Verona -. Com efeito, em Ravenna, o poeta passou os
seus últimos anos e concluiu a sua obra: segundo a tradição, ali ele
compôs os cantos finais do Paraíso. Portanto, em Ravenna, Dante terminou a sua vida terrena e concluiu aquele exílio, que tanto marcou a sua existência e inspirou os seus escritos.
O poeta Mário Luzi, recordou o Papa, destacou o valor do seu
transtorno e da descoberta superior que a experiência do exílio reservou
a Dante. Isto leva-nos a pensar na passagem bíblica: o exílio do povo
de Israel na Babilónia, que constitui, por assim dizer, uma das
"matrizes" da revelação bíblica. Da mesma forma, para Dante, o exílio
foi tão significativo, que se tornou uma chave importante para
interpretar, não apenas a sua vida, mas a "viagem", de cada homem e
mulher, na história e também além da história.
A morte de Dante em Ravenna ocorreu - como escreve Boccaccio - "no dia em que a Igreja celebrava a Exaltação da Santa Cruz".
Por isso, o pensamento do Papa dirigiu-se àquela cruz de ouro, que o
Poeta viu, certamente, na pequena cúpula azul-marinho, constelada por
centenas de estrelas, no Mausoléu de Gala Placidia ou àquela imagem de
Cristo, brilhante e lampejante, - para usar a imagem do Canto do Paraíso
- na ábside da Basílica de Santo Apolinário “in Classe”.
A mesma cruz, por ocasião deste sétimo centenário, volta a brilhar no lugar que conserva os restos mortais do Poeta"
Em 1965, por ocasião do sétimo centenário do nascimento de Dante -
recordou Francisco - São Paulo VI doou a Ravenna uma cruz de ouro para
ser colocada sobre o seu túmulo, que permaneceu, até então - como ele
dizia – “privada de um sinal de religião e esperança”. E o Papa
ponderou:
“A mesma cruz, por ocasião deste sétimo centenário, volta a
brilhar no lugar que conserva os restos mortais do Poeta. Que este possa
ser um convite à esperança, àquela esperança da qual Dante foi profeta.
A esperança é, pois, que as celebrações deste centenário da morte do
grande poeta, possam estimular-nos a reler a sua Comédia”.
Cientes da nossa condição de exilados, exortou, deixemo-nos arrastar
por este caminho de conversão. De facto, Dante convida-nos, mais uma vez,
a redescobrir o sentido, perdido ou obscurecido, da nossa existência
humana.
Poderia parecer, explicou o Papa que, às vezes, estes sete séculos
causaram certa distância intransponível entre nós, homens e mulheres da
era pós-moderna e secularizada, uma distância também do poeta, que foi
um expoente extraordinário em uma época áurea da civilização europeia.
No entanto, observou, algo nos diz que não é bem assim. Os
adolescentes, por exemplo – até aos de hoje -, se tiverem a oportunidade
de se aproximarem da poesia de Dante, de maneira acessível, poderão
encontrar, inevitavelmente, toda a distância do autor e do seu mundo,
mas, também, uma ressonância surpreendente.
Isto, porém, poderá acontecer somente se a alegoria deixar espaço ao
símbolo, o humano parecer mais evidente e nu, a paixão civil vibrar de
modo mais intenso, e, enfim, quando o fascínio da verdade, da beleza e
do bem, e, sobretudo, de Deus, demonstrar a sua poderosa atração.
O Santo Padre concluiu o seu discurso aos presentes na Sala Clementina,
tomando como exemplo este evento dantesco, que ultrapassa os séculos.
E, citando as palavras de São Paulo VI, exortou:
“Poderemos contar com a riqueza da experiência de Dante, para
atravessar os tantos bosques obscuros da nossa terra e realizar,
felizmente, a nossa peregrinação na história, a fim de chegarmos à meta
sonhada e desejada por cada homem: ‘o amor, que move o sol e as outras
estrelas”.
Ao términar o seu pronunciamento, o Papa Francisco prometeu, à
delegação de Ravenna-Cervia, que, na conclusão das celebrações deste
centenário, oferecerá uma reflexão mais ampla sobre este importante
evento.
No “O Vídeo do
Papa” de outubro, mês missionário, o Papa Francisco faz um apelo à
promoção de uma maior integração dos fiéis leigos, especialmente das
mulheres, nas instâncias de responsabilidade da Igreja.
Vatican News
“Rezemos para que, como virtude do batismo, os fiéis leigos, em
especial as mulheres, participem mais nas instâncias de responsabilidade
da Igreja, sem cair em clericalismos que anulam o carisma laical.”
Por esta intenção, o Papa Francisco pede que rezemos neste mês de outubro, mês missionário.
O Santo Padre destaca o papel dos leigos e leigas, a quem ele
considera verdadeiros protagonistas do anúncio do Evangelho, e pede que,
especialmente as mulheres participem de cargos de decisão.
Como durante todo o mês, a intenção é acompanhada de um vídeo preparado pela
Rede Mundial de Oração do Papa. Nesta ocasião, o vídeo foi produzido em
colaboração com o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida e conta
com a participação de altas funcionárias do Vaticano e jornalistas do
Vatican News.
Ampliar os espaços de presença feminina relevante na Igreja
“Ninguém foi batizado como padre ou bispo. Todos nós fomos batizados
como leigos”, recorda o Papa no vídeo, afirmando que ”leigos e leigas
são protagonistas da Igreja”.
E nesta presença laical, afirma Francisco, “deve-se sublinhar o feminino, pois as mulheres costumam a ser deixadas de lado”.
“Devemos promover a integração das mulheres em lugares onde são tomadas decisões importantes”, defende o Pontífice.
Comentando esta intenção, o Diretor Internacional da Rede Mundial de
Oração do Papa, padre Frédéric Fornos SJ, destaca que desde 2013 – ano
da eleição de Francisco – “muito foi feito, mas muito mais deve ser
feito”.
O jesuíta cita uma frase do Papa Francisco, da Exortação apostólica
“Evangelii gaudium”: “As reivindicações dos legítimos direitos das
mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a
mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e
não se podem iludir superficialmente” (EG 104).
Noutro documento, “Querida Amazónia”, o Pontífice escreve que
muitas mulheres, impelidas pelo Espírito Santo, mantêm a Igreja de pé em muitas partes do mundo, com admirável dedicação e fervorosa fé. É
fundamental que participem cada vez mais nas suas instâncias de decisão.
Isto exige uma mudança profunda de mentalidade, exige a nossa conversão,
que implica oração.
Num discurso
dirigido aos especialistas do Comité do Conselho da Europa, que vieram
ao Vaticano para a avaliação periódica das medidas contra a lavagem de
dinheiro e o financiamento ao terrorismo, o Papa Francisco lembrou a
necessidade de umas finanças limpas que estejam a serviço do homem, em
particular, dos mais fracos
Raimundo de Lima - Vatican News
“A adoração ao antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel
versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto
e sem uma finalidade verdadeiramente humana.”
Foi o que disse o Papa ao receber em audiência na manhã desta
quinta-feira (08/10), no Vaticano, o Comité de especialistas do Conselho
da Europa (Moneyval). Trata-se um grupo de especialistas “para a
avaliação das medidas contra a lavagem de dinheiro e o financiamento ao
terrorismo”.
Repensar a nossa relação com o dinheiro
Após dar as boas-vindas aos presentes e agradecer ao presidente da
Autoridade de Informação Financeira pelas palavras que lhe foram
dirigidas, o Pontífice ressaltou considerar o trabalho que eles
realizam em relação a este dúplice objetivo, “estreitamente unido com a
tutela da vida, com a convivência pacífica do género humano sobre a
terra e com umas finanças que não oprima os mais fracos e necessitados”.
Francisco disse considerar necessário repensar a nossa relação com o
dinheiro. Em certos casos – enfatizou –, parece que se tenha aceitade o
predomínio do dinheiro sobre o homem.
“Às vezes, para acumular riqueza, não se presta atenção à sua origem,
às atividades lícitas ou não que a originaram e à lógica de exploração
que pode subjugá-la. Assim, acontece que em alguns âmbitos toca-se em dinheiro e suja-se as mãos de sangue,
do sangue dos irmãos. Ou mesmo, pode acontecer que recursos financeiros
sejam destinados a semear o terror, para afirmar a hegemonia do mais
forte, do mais prepotente, de quem, sem escrúpulo,s sacrifica a vida do
irmão para afirmar o próprio poder.”
Que os pobres não sejam obrigados a deixar os seus países
O Santo Padre lembrou que São Paulo VI propôs (na Populorum progressio,
51) que, com o dinheiro utilizado nas armas e noutras despesas
militares, se constituísse um Fundo mundial para ajudar os mais
carentes.
“Retomei tal proposta na Encíclica Fratetlli tutti,
pedindo que, ao contrário de se investir no medo, na ameaça nuclear, química
ou biológica, se usem esses recursos “para finalmente eliminar a fome e
para o desenvolvimento dos países mais pobres, de modo que os seus
habitantes não recorram a soluções violentas ou enganadoras e não sejam
obrigados a deixar os seus países para procurar uma vida mais digna” (n.262),
enfatizou o Papa.
O Magistério social da Igreja, continuou Francisco, ressaltou o erro
do “dogma” neoliberal segundo o qual a ordem económica e a ordem moral
são tão díspares e estranhas uma da outra que a primeira não dependeria
de forma alguma da segunda.
Reagir à idolatria do dinheiro
À luz dos tempos atuais, prosseguiu, constata-se que “a adoração ao
antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo
do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem uma finalidade
verdadeiramente humana. De facto, a especulação financeira com o lucro
fácil como finalidade fundamental continua a fazer destruição”.
Continuando a sua reflexão, o Pontífice ressaltou que “quando a
economia perde o seu rosto humano, não se serve do dinheiro, mas serve ao dinheiro. Esta é uma forma de idolatria contra a qual somos
chamados a reagir, repropondo a ordem racional das coisas que reconduz
ao bem comum, segundo o qual “o dinheiro deve servir e não governar!”
Transparência na gestão dos recursos
Francisco concluiu destacando que em aplicação a tais princípios, o
Ordenamento Vaticano empreendeu, também recentemente, algumas medidas
sobre transparência na gestão de dinheiro e para combater a lavagem de
dinheiro e o financiamento ao terrorismo.
No primeiro dia de junho passado, destacou, foi promulgado um Motu Proprio
para uma gestão mais eficaz dos recursos e para favorecer a
transparência, o controle e a concorrência nos procedimentos de
licitação de contratos públicos. A 19 de agosto, uma ordem do
presidente do Governatorato submeteu as Organizações de voluntariado e
as Pessoas Jurídicas do Estado da Cidade do Vaticano à obrigação de
relatar atividades suspeitas à Autoridade de Informação Financeira.
Desejando bom trabalho e renovando a sua gratidão pelo serviço que
realizam, Francisco disse ainda aos presentes que as realidades sobre as
quais eles são vigilantes colocam-se para a proteção de uma “finança
limpa”, no âmbito da qual é impedido aos “mercadores” especular naquele
templo sagrado que é a humanidade, segundo o desígnio de amor do
Criador.
O Patriarcado de Lisboa, através do IDFC – Instituto Diocesano da
Formação Cristã, propõe o curso ‘À Descoberta da Bíblia’, em regime
e-Learning (ou seja, apenas online), organizado em parceria com a
Editora Paulinas, e que visa “proporcionar uma formação elementar de
base sobre a Sagrada Escritura”. “Ao longo do curso poderá encontrar
resposta a perguntas como: quem escreveu a Bíblia? Por que razão este
livro é tão importante para a humanidade? Quais os livros que a compõem e
quando foram escritos? Como descobrir em que época determinado texto
bíblico foi escrito?”, refere um comunicado, apontado o dia 12 de
outubro para início da formação.
Na Audiência Geral
realizada na Sala Paulo VI, Francisco retoma as catequeses sobre a
oração após o ciclo dedicado ao cuidado da criação no mundo ferido pela
pandemia de coronavírus. “A oração não é um fechar-se com o Senhor para
maquilhar a alma. A oração é um confronto com Deus e um deixar-se enviar
para servir os irmãos”, disse o Pontífice.
Mariangela Jaguraba - Vatican News
“A oração de Elias” foi o tema da catequese do Papa Francisco
na Audiência Geral desta quarta-feira (07/10), realizada na Sala Paulo
VI, dev da chuva que começou a cair cedo na Cidade Eterna.
O Pontífice retomou as catequeses sobre o tema da oração,
interrompidas para dar espaço ao ciclo de catequeses dedicado ao cuidado
da criação. “Conheçamos um dos personagens mais fascinantes de toda a
Sagrada Escritura: o profeta Elias", disse o Papa. "Ele vai além dos
limites do seu tempo e podemos ver a sua presença também em alguns
episódios do Evangelho. Ele aparece ao lado de Jesus, junto com Moisés,
no momento da Transfiguração. O próprio Jesus refere-se à sua figura
para dar crédito ao testemunho de João Batista”, sublinhou Francisco.
Elias, incapaz de compromissos mesquinhos
O Papa frisou que “a Escritura apresenta Elias como um homem de fé
cristalina: no seu próprio nome, que poderia significar “Javé é Deus”,
está incluído o segredo da sua missão. Ele será assim para o resto de sua vida: um homem integérrimo, incapaz de compromissos mesquinhos. O
seu símbolo é o fogo, a imagem do poder purificador de Deus. Será o
primeiro a ser posto à prova e permanecerá fiel. Ele é o exemplo de
todas as pessoas de fé que passam por tentações e sofrimentos, mas não
deixam de viver à altura do ideal para o qual nasceram”.
A oração é a linfa que alimenta constantemente a sua existência.
Por esta razão, é um dos personagens mais queridos à tradição monástica,
de tal forma que alguns o elegeram padre espiritual da vida consagrada a
Deus. Elias é o homem de Deus, que se levanta como defensor da primazia
do Altíssimo. No entanto, também ele é obrigado a enfrentar as próprias
fragilidades. É difícil dizer quais as experiências lhe foram mais úteis:
se a derrota dos falsos profetas no Monte Carmelo, ou a perplexidade em
que constata que ele «não é melhor do que os seus pais».
A oração é deixar-se conduzir por Deus
Segundo Francisco, na alma de quem reza, o sentido da própria
debilidade é mais precioso do que momentos de exaltação, quando parece
que a vida é uma cavalgada de vitórias e sucessos”, e acrescentou:
Na oração acontece sempre isso. Momentos de oração que nos puxam
para cima, nos enche de entusiasmo, e momentos de oração de dor, aridez e
provações. A oração é assim: deixar-se conduzir por Deus e deixar-se
também golpear, pelas situações ruins e até mesmo pelas tentações. Esta
realidade que a oração é assim se encontra em muitas outras vocações
bíblicas, também no Novo Testamento; pensemos, por exemplo, em São Pedro
e São Paulo, a vida deles era assim: momentos de exultação e momentos
de abaixamento, de sofrimentos.
“Elias é o homem de vida contemplativa e, ao mesmo tempo, de vida
ativa, preocupado com os acontecimentos do seu tempo, capaz de se lançar
contra o rei e a rainha, depois de eles mandaram matar Nabot para
tomar posse da sua vinha”, disse ainda o Pontífice.
Precisamos do espírito de Elias
Quanto precisamos de fiéis, de cristãos zelosos que agem diante de
pessoas que têm responsabilidade gerencial com a coragem de Elias, para
dizer: “Isto não deve ser feito! Isto é um assassinato”! Precisamos do
espírito de Elias.
Elias mostra-mos, deste modo, “que não deve haver dicotomia na vida
de quem reza, não há diferença: se está perante o Senhor e se vai ao
encontro dos irmãos para os quais Ele envia".
“A oração não é um fechar-se com o senhor para maquilhar a alma.
Não, isto não é oração. Isto é fingir de rezar. A oração é um confronto
com Deus e um deixar-se enviar para servir os irmãos. A prova da oração
é o amor concreto pelo próximo.”
"E vice-versa: os fiéis agem no mundo depois de, primeiro, terem
silenciado e rezado; caso contrário, a sua ação é impulsiva, desprovida
de discernimento, é uma corrida ofegante sem meta. Quando os fiéis fazem
assim, cometem muitas injustiças, porque não foram primeiro diante do
Senhor para rezar, discernir o que devem fazer”.
Regressar a Deus com a oração
O Papa disse ainda que “as páginas da Bíblia sugerem que também a fé
de Elias progrediu: ele cresceu na oração, refinou-a pouco a pouco. Para
ele, o rosto de Deus tornou-se mais nítido ao longo do caminho, até
atingir o seu ápice naquela experiência extraordinária, quando Deus se
manifestou a Elias no monte. Ele manifesta-se não na tempestade
impetuosa, não no tremor de terra nem no fogo devorador, mas no
«murmúrio de uma brisa suave». Ou melhor, uma tradução que reflete bem
essa experiência: num fio de silêncio sonoro. É assim que Deus se
manifesta a Elias”.
É com este sinal humilde que Deus comunica com Elias, que
naquele momento é um profeta fugitivo que perdeu a paz. Deus vai ao
encontro de um homem cansado, de um homem que pensava ter falhado em
todas as frentes, e com aquela brisa suave, com aquele fio de silêncio
sonoro, traz de volta a calma e a paz ao seu coração.
“Esta é a vicissitude de Elias, mas parece escrita para todos nós”,
disse ainda Francisco. “Em certas noites podemo-nos sentir inúteis e
solitários. É então que a oração virá e baterá à porta do nosso coração.
Todos nós podemos tocar uma orla do manto de Elias. E mesmo que
tivéssemos feito algo de errado, ou se nos sentíssemos ameaçados e
apavorados, regressando a Deus com a oração, voltarão também como que
por milagre a serenidade e a paz. Isto é o que nos ensina o exemplo de
Elias”, concluiu o Papa.
A gestão dos negócios exige a todos uma conduta leal e clara que não ceda à corrupção
Ao receber os
diretores e funcionários da Caixa de Depósitos e Empréstimos, Francisco
reiterou que “o pensamento cristão não é contrário, por princípio, à
perspetiva do lucro, mas opõe-se ao lucro a qualquer custo, ao lucro
que esquece o ser humano, que o torna escravo, que o reduz a uma coisa
entre as coisas”.
Mariangela Jaguraba - Vatican News
O Papa Francisco recebeu em audiência, nesta segunda-feira (05/10),
na Sala Paulo VI, no Vaticano, os diretores e funcionários da Caixa de
Depósitos e Empréstimos, instituição financeira italiana, por ocasião dos
seus cento e setenta anos de fundação.
Fundada como Caixa Piemontesa, mudou o seu nome mais tarde para Caixa
de Depósitos e Empréstimos “e desde então a sua tarefa foi redesenhada
em relação à evolução e necessidades do país, necessitando de constantes
investimentos, modernização, apoio às entidades locais, apoio à
formação profissional e produtividade”, disse o Pontífice.
Estas linhas de desenvolvimento ainda hoje exigem um compromisso
generoso de vós. Pensemos nos desafios produzidos nos campos social e
económico pela grave pandemia ainda em andamento. Pensemos nos fenómenos
com repercussões significativas, tais como o declínio de algumas formas
de produção, que necessitam de renovação ou transformação radical.
Pensemos nas mudanças que ocorreram na maneira de comprar e vender os
bens, com o risco de concentrar trocas e comércios nas mãos de poucas
realidades de dimensão global. E isto em detrimento das peculiaridades
dos territórios e das competências profissionais locais, tão típicas da
realidade italiana e europeia.
Não ao lucro que esquece o ser humano
O Papa ressaltou que “a Doutrina Social da Igreja concorda com uma
visão na qual mais investidores esperam uma remuneração justa dos
recursos coletados, para depois canalizá-los para o financiamento de
iniciativas destinadas à promoção social e coletiva".
“O pensamento cristão não é contrário, por princípio, à
perspectiva do lucro, mas opõe-se ao lucro a qualquer custo, ao lucro
que esquece o ser humano, que o torna escravo, que o reduz a uma coisa
entre as coisas, a uma variável de um processo que ele não pode de forma
alguma controlar ou ao qual não pode de forma alguma se opor.”
A seguir, Francisco acrescentou:
A gestão de negócios exige sempre, de todos, uma conduta leal e
clara que não ceda à corrupção. No exercício das responsabilidades é
necessário saber distinguir o bem do mal. De facto, mesmo no campo da
economia e das finanças, a intenção correta, a transparência e a busca
de bons resultados são compatíveis e não devem ser separadas. É uma
questão de identificar e percorrer com coragem linhas de ação que
respeitem e promovam a pessoa humana e a sociedade.
O Papa concluiu, dizendo que uma instituição como a Caixa de
Depósitos e Empréstimos “pode testemunhar concretamente uma
sensibilidade solidária, favorecendo o relançamento da economia real
como força motriz do desenvolvimento das pessoas, das famílias e de toda
a sociedade. Desta forma também é possível acompanhar o progresso
gradual de uma nação e servir o bem comum, com o esforço para multiplicar
e tornar mais acessível a todos, os bens deste mundo”.
Tenho 71 anos e não sei se na
sociedade em que vivo sou um velho, um idoso, ou alguém já descartável, como
quem já não tem nada para dar.
Não me sinto assim, antes pelo
contrário, mas esta sociedade quase me obriga a sentir assim.
Nunca se falou tanto em
liberdade como agora e nunca me pareceu haver tanta falta de liberdade como
agora!
A liberdade de pensamento é
coertada pelo “politicamente correcto”, a liberdade do que trabalha é-lhe negada
pela pressão do trabalho, a liberdade do ser é abstraída pela “necessidade” do
parecer.
Ah, no meu tempo!!!
Não, porque o tempo é o tempo,
e já não volta, por isso é preciso aproveitar o tempo.
Tive uma infância feliz, cheia
de amor, de pais fantásticos e de nove irmãos, todos diferentes, mas todos
iguais no amor.
E deles foram nascendo sobrinhas
e sobrinhos e deles, sobrinhas e sobrinhos netos e qualquer dia sobrinhos
trinetos, que francamente já não sei se já tenho.
Quatro filhos, quatro netos,
para já, e uma vida cheia.
Erros, asneiras,
comportamentos indevidos, provocando a vida, provocando Deus e no fim, (deste
período, claro), um Deus que me diz estou aqui e sempre aqui estive.
Uma guerra, (que me marcou sem
dúvida), e um regressar que ainda talvez não se tenha feito completo, pois
ainda percorro muitas vezes, pela noite, as picadas da Guiné.
Claro que a família que me
rodeava e rodeia afastam de mim os maiores fantasmas, mas ficam aqueles em que
me sinto incapaz ou inútil de ajudar, que tendo sido meus camaradas de armas
continuam a sofrer na pele quase todos os dias o abandono a que foram e são
votados.
Não vás ao hospital, porque lá
se estão borrifando para ti.
Já não tens idade para ser curado,
tens apenas idade para morrer!
Drástico, não é, mas tão real!
Se julgam que estou deprimido,
estão muito enganados, porque a minha esperança está em Deus, e Deus não
abandona ninguém!
Aliás, para o coração de Deus,
eu sou uma criança, sem idade, sem passado e sem futuro, porque tudo isso a Ele
pertence, porque lho entrego nas Suas mãos.
E Ele perdoa o que é para
perdoar, e ama incondicionalmente o meu ser e o meu fraco amor.
Esquerda, direita, um, dois,
parece que estamos na tropa, mas o que verdadeiramente interessa é querer o bem
dos outros e hoje em dia a política parece querer apenas o “bem” dos que a
utilizam para os seus fins.
De derrotismo em mim não há
nada, mas sim determinação de não me calar, sobretudo para testemunhar que só
em Deus encontrei e todos encontraremos a verdadeira liberdade, o verdadeiro
amor.
E apetece-me terminar como
José Régio no seu “Cântico Negro”: «E o mais que faço não vale nada.»
Porque se testemunhar Jesus em
mim, como Ele próprio afirmou, também Ele testemunhará junto do Pai, com o
Espírito Santo, que eu Lhe pertenço, pela inteira liberdade que Deus me deu.
Fraternidade e
amizade social são os caminhos indicados pelo Pontífice para construir
um mundo melhor, mais justo e pacífico, com o compromisso de todos:
pessoas e instituições. Reafirmado com vigor o não à guerra e à
globalização da indiferença.
Vatican News
Quais são os grandes ideais mas também os caminhos concretos para
aqueles que querem construir um mundo mais justo e fraterno nas suas
relações quotidianas, na vida social, na política e nas instituições?
Esta é a pergunta à qual pretende responder, principalmente, “Fratelli
tutti”: o Papa define-a como uma "Encíclica Social" (6) que toma o seu
título das "Admoestações" de São Francisco de Assis, que usava estas
palavras "para se dirigir a todos os irmãos e irmãs e lhes propor uma
forma de vida com sabor do Evangelho" (1). A Encíclica tem como objetivo
promover uma aspiração mundial à fraternidade e à amizade social. No
pano de fundo, há a pandemia da Covid-19 que - revela Francisco -
"irrompeu de forma inesperada quando eu estava a escrever esta carta".
Mas a emergência sanitária global mostrou que "ninguém se salva sozinho"
e que chegou realmente o momento de "sonhar como uma única humanidade",
na qual somos "todos irmãos". (7-8).
No primeiro de oito capítulos, intitulado "As sombras de um mundo fechado",
o documento debruça-se sobre as muitas distorções da época
contemporânea: a manipulação e a deformação de conceitos como
democracia, liberdade, justiça; o egoísmo e a falta de interesse pelo
bem comum; a prevalência de uma lógica de mercado baseada no lucro e na
cultura do descarte; o desemprego, o racismo, a pobreza; a desigualdade
de direitos e as suas aberrações como a escravatura, o tráfico de
pessoas, as mulheres subjugadas e depois forçadas a abortar, o tráfico
de órgãos (10-24). Estes são problemas globais que requerem ações
globais, sublinha o Papa, apontando o dedo também contra uma "cultura de
muros" que favorece a proliferação de máfias, alimentadas pelo medo e
pela solidão (27-28).
A muitas sombras, porém, a Encíclica responde com um exemplo
luminoso, o do bom samaritano, a quem é dedicado o segundo capítulo, "Um estranho no caminho".
Nele, o Papa assinala que, numa sociedade doente que vira as costas à
dor e é "analfabeta" no cuidado dos mais frágeis e vulneráveis (64-65),
somos todos chamados a estar próximos uns dos outros (81), superando
preconceitos e interesses pessoais. De facto, todos nós somos
corresponsáveis na construção de uma sociedade que saiba incluir,
integrar e levantar aqueles que sofrem (77). O amor constrói pontes e
nós "somos feitos para o amor" (88), acrescenta o Papa, exortando em
particular os cristãos a reconhecerem Cristo no rosto de cada pessoa
excluída (85). O princípio da capacidade de amar segundo "uma dimensão
universal" (83) é também retomado no terceiro capítulo, "Pensar e gerar
um mundo aberto": nele, Francisco exorta cada um de nós a "sair de si
mesmo" para encontrar nos outros "um acrescentamento de ser" (88),
abrindo-nos ao próximo segundo o dinamismo da caridade que nos faz
tender para a "comunhão universal" (95). Afinal – recorda a Encíclica - a
estatura espiritual da vida humana é medida pelo amor que nos leva a
procurar o melhor para a vida do outro (92-93). O sentido da
solidariedade e da fraternidade nasce nas famílias que devem ser
protegidas e respeitadas na sua "missão educativa primária e
imprescindível" (114).
O direito a viver com dignidade não pode ser negado a ninguém, afirma
ainda o Papa, e uma vez que os direitos são sem fronteiras, ninguém
pode ser excluído, independentemente do local onde nasceu (121). Deste
ponto de vista, o Papa lembra também que é preciso pensar numa "ética
das relações internacionais" (126), porque cada país é também do
estrangeiro e os bens do território não podem ser negados àqueles que
têm necessidade e vêm de outro lugar. O direito natural à propriedade
privada será, portanto, secundário em relação ao princípio do destino
universal dos bens criados (120). A Encíclica também coloca uma ênfase
específica na questão da dívida externa: embora se mantenha o princípio
de que toda a dívida legitimamente contraída deve ser paga, espera-se,
no entanto, que isto não comprometa o crescimento e a subsistência dos
países mais pobres (126).
Ao tema das migrações é, ao invés, dedicado em parte o segundo e todo o quarto capítulo, "Um coração aberto ao mundo inteiro":
com as suas "vidas dilaceradas" (37), em fuga das guerras,
perseguições, catástrofes naturais, traficantes sem escrúpulos,
arrancados das suas comunidades de origem, os migrantes devem ser
acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Nos países
destinatários, o justo equilíbrio será entre a proteção dos direitos dos
cidadãos e a garantia de acolhimento e assistência aos migrantes
(38-40). Especificamente, o Papa aponta algumas "respostas
indispensáveis" especialmente para aqueles que fogem de "graves crises
humanitárias": incrementar e simplificar a concessão de vistos; abrir
corredores humanitários; oferecer alojamento, segurança e serviços
essenciais; oferecer possibilidade de trabalho e formação; favorecer a
reunificação familiar; proteger os menores; garantir a liberdade
religiosa. O que é necessário acima de tudo" - lê-se no documento -, é
uma legislação (governance) global para as migrações que inicie
projetos a longo prazo, indo além das emergências individuais, em nome
de um desenvolvimento solidário de todos os povos (129-132).
O tema do quinto capítulo é "A política melhor", ou seja, a que
representa uma das formas mais preciosas da caridade porque está ao
serviço do bem comum (180) e conhece a importância do povo, entendido
como uma categoria aberta, disponível ao confronto e ao diálogo (160).
Este é o popularismo indicado por Francisco, que se contrapõe ao
"populismo" que ignora a legitimidade da noção de "povo", atraindo
consensos a fim de instrumentalizar ao serviço do seu projeto pessoal
(159). Mas a melhor política é também a que protege o trabalho, "uma
dimensão indispensável da vida social" e procura assegurar que cada um
tenha a possibilidade de desenvolver as suas próprias capacidades (162).
A verdadeira estratégia contra a pobreza, afirma a Encíclica, não visa
simplesmente conter os necessitados, mas a promovê-los na perspetiva
da solidariedade e da subsidiariedade (187). A tarefa da política, além
disto, é encontrar uma solução para tudo o que atenta contra os direitos
humanos fundamentais, tais como a exclusão social; tráfico de órgãos, e
tecidos humanos, armas e drogas; exploração sexual; trabalho escravo;
terrorismo e crime organizado. Foi forte o apelo do Papa para eliminar
definitivamente o tráfico de seres humanos, "vergonha para a
humanidade", e a fome, porque é "criminosa" porque a alimentação é "um
direito inalienável" (188-189).
A política da qual há necessidade, sublinha ainda Francisco, é aquela
centrada na dignidade humana e que não está sujeita às finanças porque "o
mercado por si só, não resolve tudo": os "estragos" provocados pela
especulação financeira mostraram-no (168). Assumem, portanto, particular
relevância os movimentos populares: verdadeiros "torrentes de energia
moral", devem ser envolvidos na sociedade, de uma forma coordenada.
Desta forma - afirma o Papa -, pode-se passar de uma política "para" os
pobres para uma política "com" e "dos" pobres (169). Outro desejo
presente na Encíclica diz respeito à reforma da ONU: perante o
predomínio da dimensão económica, de facto, a tarefa das Nações Unidas
será dar uma real concretização ao conceito de "família de nações",
trabalhando para o bem comum, a erradicação da pobreza e a proteção dos
direitos humanos. Recorrendo incansavelmente à "negociação, aos
mediadores e à arbitragem" - afirma o documento pontifício - a ONU deve
promover a força da lei sobre a lei da força (173-175).
Do sexto capítulo, "Diálogo e amizade social", emerge também o
conceito de vida como "a arte do encontro" com todos, também com as
periferias do mundo e com os povos originais, porque "de todos se pode
aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo" (215).
Particular, então, a referência do Papa ao "milagre da amabilidade", uma
atitude a ser recuperada porque é "uma estrela na escuridão" e uma
"libertação da crueldade, da ansiedade que não nos deixa pensar nos
outros, da urgência distraída" que prevalecem em época contemporânea
(222-224). Reflete sobre o valor e a promoção da paz, o sétimo capítulo,
intitulado "Percursos dum novo encontro", no qual o Papa sublinha que a
paz é "proativa" e visa formar uma sociedade baseada no serviço aos
outros e na busca da reconciliação e do desenvolvimento mútuo. A paz é
uma "arte" em que cada um deve desempenhar o seu papel e cuja tarefa
nunca termina (227-232). Ligado à paz está o perdão: devemos amar todos
sem exceção - lê-se na Encíclica -, mas amar um opressor significa
ajudá-lo a mudar e não permitir que continue a oprimir o seu próximo
(241-242). Perdão não significa impunidade, mas justiça e memória,
porque perdoar não significa esquecer, mas renunciar à força destrutiva
do mal e da vingança. Nunca esquecer "horrores" como a Shoah, os
bombardeamentos atómicos em Hiroshima e Nagasaki, perseguições e
massacres étnicos - exorta o Papa - devem ser sempre recordados,
novamente, para não nos anestesiarmos e mantermos viva a chama da
consciência coletiva. E também é importante fazer memória do bem.
(246-252).
Parte do sétimo capítulo detém-se, então, sobre a guerra: "uma ameaça
constante", que representa a "negação de todos os direitos", "o
fracasso da política e da humanidade", "a vergonhosa rendição às forças
do mal". Além disto, devido às armas nucleares, químicas e biológicas
que afetam muitos civis inocentes, hoje já não podemos pensar, como no
passado, numa possível "guerra justa", mas temos de reafirmar fortemente
"Nunca mais a guerra!" A eliminação total das armas nucleares é "um
imperativo moral e humanitário"; em vez disto - sugere o Papa - com o
dinheiro do armamento deveria ser criado um Fundo Mundial para acabar de
vez com a fome (255-262). Francisco expressa uma posição igualmente
clara sobre a pena de morte: é inadmissível e deve ser abolida em todo o
mundo. "O homicida não perde a sua dignidade pessoal - escreve o Papa –
e o próprio Deus constitui-Se seu garante" (263-269). Ao mesmo tempo, a
necessidade de respeitar "a sacralidade da vida" (283) é reafirmada
onde "partes da humanidade parecem sacrificáveis", tais como os
nascituros, os pobres, os deficientes, os idosos (18).
No oitavo e último capítulo, o Pontífice detém.se sobre "Religiões ao
serviço da fraternidade no mundo" e reitera que o terrorismo não se
deve à religião, mas a interpretações erradas de textos religiosos, bem
como a políticas de fome, pobreza, injustiça e opressão (282-283). Um
caminho de paz entre a religiões é, portanto, possível; por isso, é
necessário garantir a liberdade religiosa, direito humano fundamental
para todos os crentes (279). Uma reflexão, em particular, a Encíclica
faz sobre o papel da Igreja: ela não relega a sua missão à esfera
privada e, embora não fazendo política, não renuncia à dimensão política
da existência, à atenção ao bem comum e à preocupação pelo
desenvolvimento humano integral, segundo os princípios evangélicos
(276-278).
Enfim, Francisco cita o "Documento sobre a fraternidade humana em
prol da paz mundial e da convivência comum", assinado por ele mesmo em 4
de fevereiro de 2019 em Abu Dhabi, junto com o Grande Imã de Al-Azhar,
Ahmad Al-Tayyib: desta pedra miliar do diálogo inter-religioso, o
Pontífice retoma o apelo para que, em nome da fraternidade humana, o
diálogo seja adotado como caminho, a colaboração comum como conduta, e o
conhecimento mútuo como método e critério (285).
Vatican News Service – IP - SP
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Para aceder à Carta Ensíclica FRATELLI TUTTI (versão integral):
A mensagem da nova
encíclica social do Papa Francisco: ninguém se salva sozinho. A
proposta de uma sociedade fraterna para não ser dominada por guerra,
ódio, violência, indiferença e novos muros.
ANDREA TORNIELLI
Estamos circundados pelas “sombras de um mundo fechado”, mas há quem
não se rende ao avanço da escuridão e continua a sonhar, a ter
esperança, a sujar as mãos, comprometendo-se a criar fraternidade e
amizade social. A terceira Guerra mundial em pedaços já começou, a
lógica do mercado baseada no lucro parece estar a vencer a boa política,
a cultura do desperdício parece prevalecer, o grito dos povos da fome
não é ouvido, mas há quem indique um caminho concreto para construir um
mundo diferente e mais humano.
À cinco anos atrás o Papa Francisco publicou a Encíclica Laudato si’,
evidenciando as conexões existentes entre crise ambiental, crise social,
guerras, migrações e pobreza. Indicou um objetivo a ser alcançado: o de
um sistema económico e social mais justo e respeitador da criação, que
tenha no centro o homem como guardião da Mãe Terra e não o dinheiro
elevado a uma divindade absoluta. Hoje, com a nova encíclica social
“Fratelli tutti”, o Sucessor de Pedro mostra o caminho concreto para
alcançar esse objetivo: reconhecer-mo-nos como irmãos e irmãs, irmãos porque
filhos, guardiões uns dos outros, todos no mesmo barco, como a pandemia
tornou ainda mais evidente. O caminho para não nos render-mos à tentação do
homo homini lupus, dos novos muros, do isolamento, é olhar para o ícone
evangélico do Bom Samaritano, tão atual e fora de esquemas.
O caminho indicado pelo Papa Francisco baseia-se na mensagem de Jesus
que faz cair toda estranheza. O cristão é de facto chamado a “reconhecer
Cristo em cada ser humano, a vê-lo crucificado na angústia dos
abandonados e esquecidos deste mundo, e ressuscitado em cada irmão que
se levanta”. Mas a da fraternidade é uma mensagem que pode ser acolhida,
compreendida e partilhada também por homens e mulheres fiéis de outras
religiões, bem como por muitos homens e mulheres que não crêem.
A nova encíclica apresenta-se como uma soma do magistério social de
Francisco, e reúne de forma sistemática as ideias oferecidas por
pronunciamentos, discursos e intervenções dos primeiros sete anos de
pontificado. Uma origem e inspiração é certamente representada pelo
“Documento sobre a Fraternidade humana para a paz mundial e a
convivência”, assinado a 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, junto com
o Grão imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib. Desta declaração comum,
pedra angular do diálogo entre as religiões, o Papa repropõe o seu apelo
para que o diálogo seja adotado como caminho, a colaboração comum como
conduta e o conhecimento recíproco como método e critério.
No entanto, seria redutivo relegar a nova encíclica apenas ao âmbito
do diálogo inter-religioso. A mensagem de “Fratelli tutti” diz respeito a
cada um de nós. Também contém páginas iluminadoras sobre o compromisso
social e político. Pode parecer paradoxal que seja o Bispo de Roma, voz
no deserto, a relançar hoje o projeto de uma boa política. Uma política
capaz de retomar o seu papel, que por muito tempo foi confiada à finança
e à fábula dos mercados que produziriam bem-estar para todos sem
necessidade de serem governados. Há um capítulo inteiro dedicado à ação
política vivida como um serviço e testemunho de caridade, que se
alimenta de grandes ideais e projeta o amanhã, pensando não no pequeno
ganho eleitoral mas no bem comum e especialmente no futuro das novas
gerações. Mais uma vez, num tempo em que muitos países se fecham, o Papa
formula o convite a não perder a confiança nos organismos
internacionais, embora necessitando de reformas para que não sejam
apenas os mais fortes a contar.
Entre as páginas mais fortes da encíclica estão as dedicadas à
condenação da guerra e à rejeição da pena de morte. Na esteira da Pacem
in Terris do Papa João XXIII, partindo de um olhar realista sobre os
resultados catastróficos que tantos conflitos nas últimas décadas
causaram nas vidas de milhões de pessoas inocentes, Francisco recorda
que hoje é muito difícil manter os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar de uma possível “guerra justa”. Como o uso da
pena de morte que é injustificado e inadmissível e deve ser abolida em
todo o mundo.
É verdade, como o Papa assinala, “no mundo atual os sentimentos de
pertença à mesma humanidade estão a enfraquecer enquanto o sonho de
construir juntos a justiça e a paz parece uma utopia de outros tempos”.
Mas é preciso voltar a sonhar e, sobretudo, realizar esse sonho juntos,
antes que seja tarde demais.
Apresentação do livro "La Tunica e la Tonaca" de autoria do padre Enzo Fortunato
(ANSA)
Na manhã de
quinta-feira, o cardeal Pietro Parolin tinha-se encontrado no Vaticano com o seu
homólogo estadunidense Mike Pompeo, um encontro de 45 minutos, num
“clima de respeito” e “cordial”, durante no qual foi possível apresentar
as respectivas posições sobre a China e falar sobre alguns dos conflitos
que estão a ensanguentar o mundo.
Vatican News
Ao pronunciar-se na apresentação do livro "A túnica e a batina" do
padre Enzo Fortunato na noite de quinta-feira, dia 1, o cardeal Pietro
Parolin reiterou a cordialidade do encontro realizado pela manhã com o secretário de Estado estadunidense, Mike Pompeo.
No que diz respeito às relações entre a Santa Sé e a República
Popular da China, o purpurado sublinhou como Pompeo expressou com
um "raciocínio articulado" as razões das suas manifestações nos últimos
dias e como houve "compreensão" sobre como a Santa Sé "aborda estes
problemas".
“Todos nós procuramoos a liberdade religiosa - reiterou o purpurado -
todos procuramos uma vida normal para a Igreja, mas onde nos diferenciamos
é no método, em como atingir esses objetivos”.
Ao mesmo tempo - acrescentou - reivindicamos de nossa parte uma
escolha pensada, uma escolha refletida, uma escolha rezada, uma escolha
feita pelo Papa e, portanto, a liberdade de poder continuar a seguir em
frente nesta escolha”.
Por fim, sobre o acordo provisório entre a Santa Sé e a China
Popular, o cardeal Parolin fez votos de que funcione "melhor em relação ao
que foi feito até agora e que se possa proceder com a nomeação de
bispos para todas as dioceses vagas na China".
O Acordo Provisório assinado em 22 de setembro de 2018 entre a Santa
Sé e a República Popular da China, relativo à nomeação de bispos, entrou
em vigor um mês após a assinatura e expirará em 22 de outubro próximo.
Assinado em Pequim, previa uma duração de dois anos ad experimentum,
antes de qualquer confirmação definitiva ou outra decisão. O cardeal
secretário de Estado, Pietro Parolin, explicou recentemente que a
intenção é propor uma prorrogação às autoridades chinesas, continuando a
adotar o Acordo de forma provisória, “como foi feito nestes dois
primeiros anos, a fim de verificar ainda mais a sua utilidade para a
Igreja na China”. Apesar da lentidão e das dificuldades, agravadas nos
últimos dez meses pela pandemia, Parolin disse: “Parece-me que foi
marcada uma direção que vale a pena continuar, depois veremos”.
“Muitas vezes
comportamo-nos como proprietários e esquecemos que somos os guardiões da
natureza”. É o apelo do cardeal prefeito da Congregação para a
Evangelização dos Povos em uma mensagem sobre o mês dedicado à
sensibilização da tutela da Criação
Alessandro De Carolis – Vatican News
"Recordo muito bem e com alegria e gratidão a celebração do Tempo da
Criação nas minhas dioceses, a diocese de Imus e a arquidiocese de
Manila". O Cardeal Luis Antonio Tagle recorre ao passado mais recente e
para os anos de seu ministério nas Filipinas para lembrar as
celebrações do período que para os cristãos significa encontrar Deus na
beleza da criação.
Guardiões, não proprietários
Num vídeo gravado antes da positividade à Covid-19, o Prefeito da
Congregação para a Evangelização dos Povos e presidente da Caritas
Internationalis relança o convite para se unir à "Igreja universal na
celebração do tempo da Criação", de 1º de setembro a 4 de outubro, a
festa de São Francisco.
"É um tempo litúrgico - explica - para celebrar na oração e
especialmente na Eucaristia a bondade da Criação, sinais da generosidade
e do amor de Deus". É também um convite para redescobrir a nossa vocação
como guardiões da Criação. Muitas vezes tornamo-nos proprietários, comportamo-nos como proprietários e esquecemos que somos guardiões".
Uma só voz
É um tempo para os cristãos celebrarem "a uma só voz", mas não é um
tempo somente para os cristãos. "É uma celebração", diz o Cardeal Tagle,
"com uma clara mensagem social e ecológica" porque, afirma claramente,
"a maneira como lidamos com a Criação demonstra a nossa atitude em relação
à vida e aos seres humanos". E assim, conclui, vamos vivê-lo
"celebrando a interconexão na família da Criação e na família humana,
especialmente com os pobres".
"Um pequeno vírus
continua a causar feridas profundas e desmascara as nossas
vulnerabilidades físicas, sociais e espirituais. Mostrou a grande
desigualdade que reina no mundo: desigualdade de oportunidades, de bens,
de acesso aos cuidados médicos, de tecnologia, educação, milhões de
crianças não podem ir à escola, e assim por diante", disse Francisco na
Audiência Geral.
Mariangela Jaguraba - Vatican News
“Curar o mundo. Preparar o futuro junto com Jesus que salva e cura.”
Este foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral, desta
quarta-feira (30/09), realizada no Pátio São Dâmaso, dedicada ao tema
da pandemia de coronavírus.
O Pontífice recordou que “nas últimas semanas, à luz do Evangelho,
refletimos juntos sobre como curar o mundo que sofre de um mal-estar que
a pandemia realçou e acentuou”. “O mal-estar já existia. A pandemia o
acentuou e aumentou.Percorremos os caminhos da dignidade, da solidariedade e da subsidiariedade, caminhos indispensáveis para promover a dignidade humana e o bem comum”, sublinhou Francisco.
Na qualidade de discípulos de Jesus, começamos a seguir os seus
passos optando pelos pobres, repensando o uso dos bens e cuidando da
Casa comum. No meio da pandemia que nos aflige, ancoramo-nos nos
princípios da Doutrina Social da Igreja, deixando-nos guiar pela fé,
esperança e caridade. Aqui encontramos uma ajuda sólida para ser agentes
de transformação que sonham alto, não se detêm nas mesquinharias que
dividem e magoam, mas encorajam a gerar um mundo novo e melhor.
Gritos que exigem de nós outro rumo
O Papa frisou que gostaria que este percurso continuasse quando
terminar suas catequeses sobre o tema da pandemia, que possamos
continuar caminhando juntos, «mantendo o nosso olhar fixo em Jesus», que
salva e cura o mundo.
O Evangelho nos mostra que “Jesus curou doentes de todos os tipos,
restituiu a visão aos cegos, a palavra aos mudos, a audição aos surdos. Quando
curava doenças e enfermidades físicas, curava também o espírito,
perdoando os pecados, porque Jesus perdoa sempre, assim como as “dores
sociais”, incluindo os marginalizados. Jesus, que renova e
reconcilia cada criatura, nos concede os dons necessários para amar e
curar como Ele sabia fazer, para cuidar de todos sem distinção de raça,
língua ou nação”.
Segundo Francisco, “para que isto aconteça realmente, temos
necessidade de contemplar e apreciar a beleza de cada ser humano e de
cada criatura. Fomos concebidos no coração de Deus. «Cada um de nós é o
fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós
é amado, cada um é necessário». Além disso, toda criatura tem algo a
dizer-nos sobre Deus Criador. Reconhecer esta verdade e dar graças pelos
laços íntimos da nossa comunhão universal com todas as pessoas e todas
as criaturas ativa «um cuidado generoso e cheio de ternura». Ajuda-nos
também a reconhecer Cristo presente nos nossos irmãos e irmãs pobres e
sofredores, a encontrá-los e a ouvir o seu grito e o grito da terra que
lhe faz eco”. A seguir, acrescentou:
Mobilizados interiormente por estes gritos que exigem de nós outro
rumo, exigem mudanças, poderemos contribuir para a cura das relações
com os nossos dons e capacidades. Poderemos regenerar a sociedade e não
voltar à chamada “normalidade”, que é uma normalidade doente, que estava
doente antes da pandemia. A pandemia a acentuou. Agora voltamos à
normalidade. Não, isso não é bom. Esta normalidade era doente de
injustiça, desigualdade e degradação ambiental.
Um pequeno vírus continua causando feridas profundas
O Papa observou que “a normalidade a que somos chamados é a do Reino
de Deus, onde «os cegos veem, os coxos caminham, os leprosos são limpos,
os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos
pobres...». Ninguém se faça de bobo olhando para o outro lado!Na
normalidade do Reino de Deus o pão chega a todos e sobeja, a
organização social baseia-se em contribuir, partilhar e distribuir, não
em possuir, excluir e acumular. Estes dois gestos, não? Este é o
gesto que faz ir adiante uma sociedade, uma família, um bairro, uma
cidade, todos: dar-se, dar, que não é dar esmola, não: é dar do coração.
E não o gesto que puxa para trás com egoísmo, a ânsia de possuir e
todas essas coisas. A forma cristã de fazer isto não é uma forma
mecânica: é uma forma humana.Não poderemos sair da crise,
evidenciada pela pandemia, mecanicamente: com novos aparelhos... que são
muito importantes! “Eh, Padre, há inteligência artificial...”: é
importante, nos faz ir adiante. Não tenha medo dessas coisas, mas
sabendo que nem mesmo os meios mais sofisticados podem fazer uma coisa:
eles podem fazer muitas coisas, mas não podem fazer uma coisa: a
ternura. E a ternura é o sinal da presença de Jesus, o aproximar-se
ao próximo para fazer com que vá adiante, para curar, ajudar,
sacrificar-se pelo outro. Não se esqueçam disso”.
Um pequeno vírus continua causando feridas profundas e desmascara
as nossas vulnerabilidades físicas, sociais e espirituais. Mostrou a
grande desigualdade que reina no mundo: desigualdade de oportunidades,
de bens, de acesso aos cuidados médicos, de tecnologia, educação,
milhões de crianças não podem ir à escola, e assim por diante. Estas
injustiças não são naturais nem inevitáveis. São obra do homem, provêm
de um modelo de crescimento desligado dos valores mais profundos. O
desperdício de alimento. O desperdício do alimento que sobra. Com esse
desperdício é possível dar de comer a todos! E isto fez com que muitas
pessoas perdessem a esperança e aumentou a incerteza e a angústia.
“É por isso que, para sairmos da pandemia, temos que encontrar a
cura não só para o coronavírus, mas também para os grandes vírus humanos
e socioeconômicos. E certamente não podemos esperar que o modelo
econômico subjacente ao desenvolvimento injusto e insustentável resolva
os nossos problemas. Não o fez e não o fará, porque não pode fazê-lo,
embora certos falsos profetas continuam prometendo o “efeito dominó” que
nunca chega.”
Vocês já ouviram falar do teorema do copo: o importante é que o
copo se encha e depois transborda sobre os pobres e outros, e eles
recebem as riquezas. Mas existe um fenômeno: o copo começa a encher e
quando está quase cheio, o copo cresce e cresce e nunca transborda,
nunca. Fiquem atentos!
Trabalhar para gerar boas políticas
Segundo o Pontífice, “temos que trabalhar urgentemente para gerar
boas políticas, para conceber sistemas de organização social que
recompensem a participação, o cuidado e a generosidade, e não a
indiferença, a exploração e os interesses particulares. Temos de ir
adiante com ternura. Uma sociedade solidária e equitativa é uma
sociedade mais saudável. Uma sociedade participativa, onde os
“últimos” são considerados como os “primeiros”, fortalece a comunhão.
Uma sociedade onde a diversidade é respeitada é muito mais resistente a
qualquer tipo de vírus”.
O Papa concluiu sua catequese, convidando a colocar “este caminho de
cura sob a proteção da Virgem Maria, Nossa Senhora da Saúde. Ela, que
carregou Jesus no seu ventre, nos ajude a ser confiantes. Animados pelo
Espírito Santo, podemos trabalhar juntos para o Reino de Deus que Cristo
inaugurou neste mundo, vindo entre nós. Um reino de luz no meio das
trevas, de justiça no meio de tantos ultrajes, de alegria no meio de
tanta dor, de cura e salvação no meio da doença e da morte. Deus nos
conceda “viralizar” o amor e globalizar a esperança à luz da fé”.
Nas pegadas de São Jerônimo
Após a catequese, o Pontífice lembrou que hoje assinou a Carta
Apostólica «Sacrae Scripturae affectus», no 16º centenário da morte de
São Jerônimo. “Que o exemplo deste grande doutor e Padre da Igreja, que
colocou a Bíblia no centro de sua vida, desperte em todos um amor
renovado pela Sagrada Escritura e o desejo de viver em diálogo pessoal
com a Palavra de Deus”.