10 outubro, 2020

Papa: Dante, o profeta da esperança, continua a fazer ressoar o fascínio de Deus

 
Delegação da Arquidiocese de Ravenna-Cervia na Sala Clementina  (Vatican Media)
 
“A mesma cruz, por ocasião deste sétimo centenário, volta a brilhar no lugar que conserva os restos mortais do Poeta. Que este possa ser um convite à esperança, àquela esperança da qual Dante foi profeta. A esperança é, pois, que as celebrações, deste centenário da morte do grande poeta, possa estimular-nos a reler a sua Comédia”.

Manoel Tavares - Vatican News

O Santo Padre recebeu em audiência na manhã deste sábado, 10, na Sala Clementina, uma delegação de 50 pessoas da Arquidiocese de Ravenna-Cervia, norte da Itália, por ocasião do Ano dedicado a Dante Alighieri. O Papa agradeceu aos presentes por partilharem com ele a alegria de inaugurar as celebrações do 7º centenário da morte de Dante Alighieri.

Para ele, disse Francisco, Ravenna é a cidade do seu "último refúgio" - o primeiro foi Verona -. Com efeito, em Ravenna, o poeta passou os seus últimos anos e concluiu a sua obra: segundo a tradição, ali ele compôs os cantos finais do Paraíso. Portanto, em Ravenna, Dante terminou a sua vida terrena e concluiu aquele exílio, que tanto marcou a sua existência e inspirou os seus escritos.

O poeta Mário Luzi, recordou o Papa, destacou o valor do seu transtorno e da descoberta superior que a experiência do exílio reservou a Dante. Isto leva-nos a pensar na passagem bíblica: o exílio do povo de Israel na Babilónia, que constitui, por assim dizer, uma das "matrizes" da revelação bíblica. Da mesma forma, para Dante, o exílio foi tão significativo, que se tornou uma chave importante para interpretar, não apenas a sua vida, mas a "viagem", de cada homem e mulher, na história e também além da história.

A morte de Dante em Ravenna ocorreu - como escreve Boccaccio - "no dia em que a Igreja celebrava a Exaltação da Santa Cruz". Por isso, o pensamento do Papa dirigiu-se àquela cruz de ouro, que o Poeta viu, certamente, na pequena cúpula azul-marinho, constelada por centenas de estrelas, no Mausoléu de Gala Placidia ou àquela imagem de Cristo, brilhante e lampejante, - para usar a imagem do Canto do Paraíso - na ábside da Basílica de Santo Apolinário “in Classe”.

A mesma cruz, por ocasião deste sétimo centenário, volta a brilhar no lugar que conserva os restos mortais do Poeta"

Em 1965, por ocasião do sétimo centenário do nascimento de Dante - recordou Francisco - São Paulo VI doou a Ravenna uma cruz de ouro para ser colocada sobre o seu túmulo, que permaneceu, até então - como ele dizia – “privada de um sinal de religião e esperança”. E o Papa ponderou:

“A mesma cruz, por ocasião deste sétimo centenário, volta a brilhar no lugar que conserva os restos mortais do Poeta. Que este possa ser um convite à esperança, àquela esperança da qual Dante foi profeta. A esperança é, pois, que as celebrações deste centenário da morte do grande poeta, possam estimular-nos a reler a sua Comédia”.

Cientes da nossa condição de exilados, exortou, deixemo-nos arrastar por este caminho de conversão. De facto, Dante convida-nos, mais uma vez, a redescobrir o sentido, perdido ou obscurecido, da nossa existência humana.

Poderia parecer, explicou o Papa que, às vezes, estes sete séculos causaram certa distância intransponível entre nós, homens e mulheres da era pós-moderna e secularizada, uma distância também do poeta, que foi um expoente extraordinário em uma época áurea da civilização europeia.

No entanto, observou, algo nos diz que não é bem assim. Os adolescentes, por exemplo – até aos de hoje -, se tiverem a oportunidade de se aproximarem da poesia de Dante, de maneira acessível, poderão encontrar, inevitavelmente, toda a distância do autor e do seu mundo, mas, também, uma ressonância surpreendente.

Isto, porém, poderá acontecer somente se a alegoria deixar espaço ao símbolo, o humano parecer mais evidente e nu, a paixão civil vibrar de modo mais intenso, e, enfim, quando o fascínio da verdade, da beleza e do bem, e, sobretudo, de Deus, demonstrar a sua poderosa atração.

O Santo Padre concluiu o seu discurso aos presentes na Sala Clementina, tomando como exemplo este evento dantesco, que ultrapassa os séculos. E, citando as palavras de São Paulo VI, exortou:

“Poderemos contar com a riqueza da experiência de Dante, para atravessar os tantos bosques obscuros da nossa terra e realizar, felizmente, a nossa peregrinação na história, a fim de chegarmos à meta sonhada e desejada por cada homem: ‘o amor, que move o sol e as outras estrelas”.

Ao términar o seu pronunciamento, o Papa Francisco prometeu, à delegação de Ravenna-Cervia, que, na conclusão das celebrações deste centenário, oferecerá uma reflexão mais ampla sobre este importante evento.

Audiência na sala Clementina

VN

 

09 outubro, 2020

Por mais mulheres em cargos de decisão na Igreja: a intenção do Papa para outubro

 
 

No “O Vídeo do Papa” de outubro, mês missionário, o Papa Francisco faz um apelo à promoção de uma maior integração dos fiéis leigos, especialmente das mulheres, nas instâncias de responsabilidade da Igreja.

Vatican News 

“Rezemos para que, como virtude do batismo, os fiéis leigos, em especial as mulheres, participem mais nas instâncias de responsabilidade da Igreja, sem cair em clericalismos que anulam o carisma laical.”

Por esta intenção, o Papa Francisco pede que rezemos neste mês de outubro, mês missionário.

O Santo Padre destaca o papel dos leigos e leigas, a quem ele considera verdadeiros protagonistas do anúncio do Evangelho, e pede que, especialmente as mulheres participem de cargos de decisão.

Como durante todo o mês, a intenção é acompanhada de um vídeo preparado pela Rede Mundial de Oração do Papa. Nesta ocasião, o vídeo foi produzido em colaboração com o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida e conta com a participação de altas funcionárias do Vaticano e jornalistas do Vatican News.

Ampliar os espaços de presença feminina relevante na Igreja

“Ninguém foi batizado como padre ou bispo. Todos nós fomos batizados como leigos”, recorda o Papa no vídeo, afirmando que ”leigos e leigas são protagonistas da Igreja”.

E nesta presença laical, afirma Francisco, “deve-se sublinhar o feminino, pois as mulheres costumam a ser deixadas de lado”.

“Devemos promover a integração das mulheres em lugares onde são tomadas decisões importantes”, defende o Pontífice. 

Comentando esta intenção, o Diretor Internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, padre Frédéric Fornos SJ, destaca que desde 2013 – ano da eleição de Francisco – “muito foi feito, mas muito mais deve ser feito”. 

O jesuíta cita uma frase do Papa Francisco, da Exortação apostólica “Evangelii gaudium”: “As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente” (EG 104). 

Noutro documento, “Querida Amazónia”, o Pontífice escreve que muitas mulheres, impelidas pelo Espírito Santo, mantêm a Igreja de pé em muitas partes do mundo, com admirável dedicação e fervorosa fé. É fundamental que participem cada vez mais nas suas instâncias de decisão. Isto exige uma mudança profunda de mentalidade, exige a nossa conversão, que implica oração.

VN

08 outubro, 2020

O Papa a Moneyval: impedir aos mercadores especular no templo da humanidade


Num discurso dirigido aos especialistas do Comité do Conselho da Europa, que vieram ao Vaticano para a avaliação periódica das medidas contra a lavagem de dinheiro e o financiamento ao terrorismo, o Papa Francisco lembrou a necessidade de umas finanças limpas que estejam a serviço do homem, em particular, dos mais fracos

Raimundo de Lima - Vatican News

“A adoração ao antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem uma finalidade verdadeiramente humana.”

Foi o que disse o Papa ao receber em audiência na manhã desta quinta-feira (08/10), no Vaticano, o Comité de especialistas do Conselho da Europa (Moneyval). Trata-se um grupo de especialistas “para a avaliação das medidas contra a lavagem de dinheiro e o financiamento ao terrorismo”.

Repensar a nossa relação com o dinheiro

Após dar as boas-vindas aos presentes e agradecer ao presidente da Autoridade de Informação Financeira pelas palavras que lhe foram dirigidas, o Pontífice ressaltou considerar o trabalho que eles realizam em relação a este dúplice objetivo, “estreitamente unido com a tutela da vida, com a convivência pacífica do género humano sobre a terra e com umas finanças que não oprima os mais fracos e necessitados”.

Francisco disse considerar necessário repensar a nossa relação com o dinheiro. Em certos casos – enfatizou –, parece que se tenha aceitade o predomínio do dinheiro sobre o homem.

“Às vezes, para acumular riqueza, não se presta atenção à sua origem, às atividades lícitas ou não que a originaram e à lógica de exploração que pode subjugá-la. Assim, acontece que em alguns âmbitos toca-se em dinheiro e suja-se as mãos de sangue, do sangue dos irmãos. Ou mesmo, pode acontecer que recursos financeiros sejam destinados a semear o terror, para afirmar a hegemonia do mais forte, do mais prepotente, de quem, sem escrúpulo,s sacrifica a vida do irmão para afirmar o próprio poder.”

Que os pobres não sejam obrigados a deixar os seus países

O Santo Padre lembrou que São Paulo VI propôs (na Populorum progressio, 51) que, com o dinheiro utilizado nas armas e noutras despesas militares, se constituísse um Fundo mundial para ajudar os mais carentes.

“Retomei tal proposta na Encíclica Fratetlli tutti, pedindo que, ao contrário de se investir no medo, na ameaça nuclear, química ou biológica, se usem esses recursos “para finalmente eliminar a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres, de modo que os seus habitantes não recorram a soluções violentas ou enganadoras e não sejam obrigados a deixar os seus países para procurar uma vida mais digna” (n.262), enfatizou o Papa.

O Magistério social da Igreja, continuou  Francisco, ressaltou o erro do “dogma” neoliberal segundo o qual a ordem económica e a ordem moral são tão díspares e estranhas uma da outra que a primeira não dependeria de forma alguma da segunda.

Reagir à idolatria do dinheiro

À luz dos tempos atuais, prosseguiu, constata-se que “a adoração ao antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem uma finalidade verdadeiramente humana. De facto, a especulação financeira com o lucro fácil como finalidade fundamental continua a fazer destruição”.

Continuando a sua reflexão, o Pontífice ressaltou que “quando a economia perde o seu rosto humano, não se serve do dinheiro, mas serve ao dinheiro. Esta é uma forma de idolatria contra a qual somos chamados a reagir, repropondo a ordem racional das coisas que reconduz ao bem comum, segundo o qual “o dinheiro deve servir e não governar!”

Transparência na gestão dos recursos

Francisco concluiu destacando que em aplicação a tais princípios, o Ordenamento Vaticano empreendeu, também recentemente, algumas medidas sobre transparência na gestão de dinheiro e para combater a lavagem de dinheiro e o financiamento ao terrorismo.

No primeiro dia de junho passado, destacou, foi promulgado um Motu Proprio para uma gestão mais eficaz dos recursos e para favorecer a transparência, o controle e a concorrência nos procedimentos de licitação de contratos públicos. A 19 de agosto, uma ordem do presidente do Governatorato submeteu as Organizações de voluntariado e as Pessoas Jurídicas do Estado da Cidade do Vaticano à obrigação de relatar atividades suspeitas à Autoridade de Informação Financeira.

Desejando bom trabalho e renovando a sua gratidão pelo serviço que realizam, Francisco disse ainda aos presentes que as realidades sobre as quais eles são vigilantes colocam-se para a proteção de uma “finança limpa”, no âmbito da qual é impedido aos “mercadores” especular naquele templo sagrado que é a humanidade, segundo o desígnio de amor do Criador.

VN

07 outubro, 2020

IDFC propõe curso ‘À Descoberta da Bíblia’

 


O Patriarcado de Lisboa, através do IDFC – Instituto Diocesano da Formação Cristã, propõe o curso ‘À Descoberta da Bíblia’, em regime e-Learning (ou seja, apenas online), organizado em parceria com a Editora Paulinas, e que visa “proporcionar uma formação elementar de base sobre a Sagrada Escritura”. “Ao longo do curso poderá encontrar resposta a perguntas como: quem escreveu a Bíblia? Por que razão este livro é tão importante para a humanidade? Quais os livros que a compõem e quando foram escritos? Como descobrir em que época determinado texto bíblico foi escrito?”, refere um comunicado, apontado o dia 12 de outubro para início da formação.

Patriarcado de Lisboa

O Papa: precisamos de cristãos corajosos que saibam dizer “isto não deve ser feito”


Na Audiência Geral realizada na Sala Paulo VI, Francisco retoma as catequeses sobre a oração após o ciclo dedicado ao cuidado da criação no mundo ferido pela pandemia de coronavírus. “A oração não é um fechar-se com o Senhor para maquilhar a alma. A oração é um confronto com Deus e um deixar-se enviar para servir os irmãos”, disse o Pontífice.

Mariangela Jaguraba - Vatican News

“A oração de Elias” foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (07/10), realizada na Sala Paulo VI, dev da chuva que começou a cair cedo na Cidade Eterna.

O Pontífice retomou as catequeses sobre o tema da oração, interrompidas para dar espaço ao ciclo de catequeses dedicado ao cuidado da criação. “Conheçamos um dos personagens mais fascinantes de toda a Sagrada Escritura: o profeta Elias", disse o Papa. "Ele vai além dos limites do seu tempo e podemos ver a sua presença também em alguns episódios do Evangelho. Ele aparece ao lado de Jesus, junto com Moisés, no momento da Transfiguração. O próprio Jesus refere-se à sua figura para dar crédito ao testemunho de João Batista”, sublinhou Francisco.

Elias, incapaz de compromissos mesquinhos

O Papa frisou que “a Escritura apresenta Elias como um homem de fé cristalina: no seu próprio nome, que poderia significar “Javé é Deus”, está incluído o segredo da sua missão. Ele será assim para o resto de sua vida: um homem integérrimo, incapaz de compromissos mesquinhos. O seu símbolo é o fogo, a imagem do poder purificador de Deus. Será o primeiro a ser posto à prova e permanecerá fiel. Ele é o exemplo de todas as pessoas de fé que passam por tentações e sofrimentos, mas não deixam de viver à altura do ideal para o qual nasceram”.

A oração é a linfa que alimenta constantemente a sua existência. Por esta razão, é um dos personagens mais queridos à tradição monástica, de tal forma que alguns o elegeram padre espiritual da vida consagrada a Deus. Elias é o homem de Deus, que se levanta como defensor da primazia do Altíssimo. No entanto, também ele é obrigado a enfrentar as próprias fragilidades. É difícil dizer quais as experiências lhe foram mais úteis: se a derrota dos falsos profetas no Monte Carmelo, ou a perplexidade em que constata que ele «não é melhor do que os seus pais».

A oração é deixar-se conduzir por Deus

Segundo Francisco, na alma de quem reza, o sentido da própria debilidade é mais precioso do que momentos de exaltação, quando parece que a vida é uma cavalgada de vitórias e sucessos”, e acrescentou:

Na oração acontece sempre isso. Momentos de oração que nos puxam para cima, nos enche de entusiasmo, e momentos de oração de dor, aridez e provações. A oração é assim: deixar-se conduzir por Deus e deixar-se também golpear, pelas situações ruins e até mesmo pelas tentações. Esta realidade que a oração é assim se encontra em muitas outras vocações bíblicas, também no Novo Testamento; pensemos, por exemplo, em São Pedro e São Paulo, a vida deles era assim: momentos de exultação e momentos de abaixamento, de sofrimentos.

“Elias é o homem de vida contemplativa e, ao mesmo tempo, de vida ativa, preocupado com os acontecimentos do seu tempo, capaz de se lançar contra o rei e a rainha, depois de eles mandaram matar Nabot para tomar posse da sua vinha”, disse ainda o Pontífice.  

Precisamos do espírito de Elias

Quanto precisamos de fiéis, de cristãos zelosos que agem diante de pessoas que têm responsabilidade gerencial com a coragem de Elias, para dizer: “Isto não deve ser feito! Isto é um assassinato”! Precisamos do espírito de Elias.

Elias mostra-mos, deste modo, “que não deve haver dicotomia na vida de quem reza, não há diferença: se está perante o Senhor e se vai ao encontro dos irmãos para os quais Ele envia". 

“A oração não é um fechar-se com o senhor para maquilhar a alma. Não, isto não é oração. Isto é fingir de rezar. A oração é um confronto com Deus e um deixar-se enviar para servir os irmãos. A prova da oração é o amor concreto pelo próximo.”

"E vice-versa: os fiéis agem no mundo depois de, primeiro, terem silenciado e rezado; caso contrário, a sua ação é impulsiva, desprovida de discernimento, é uma corrida ofegante sem meta. Quando os fiéis fazem assim, cometem muitas injustiças, porque não foram primeiro diante do Senhor para rezar, discernir o que devem fazer”.

Regressar a Deus com a oração

O Papa disse ainda que “as páginas da Bíblia sugerem que também a fé de Elias progrediu: ele cresceu na oração, refinou-a pouco a pouco. Para ele, o rosto de Deus tornou-se mais nítido ao longo do caminho, até atingir o seu ápice naquela experiência extraordinária, quando Deus se manifestou a Elias no monte. Ele manifesta-se não na tempestade impetuosa, não no tremor de terra nem no fogo devorador, mas no «murmúrio de uma brisa suave». Ou melhor, uma tradução que reflete bem essa experiência: num fio de silêncio sonoro. É assim que Deus se manifesta a Elias”.

É com este sinal humilde que Deus comunica com Elias, que naquele momento é um profeta fugitivo que perdeu a paz. Deus vai ao encontro de um homem cansado, de um homem que pensava ter falhado em todas as frentes, e com aquela brisa suave, com aquele fio de silêncio sonoro, traz de volta a calma e a paz ao seu coração.

“Esta é a vicissitude de Elias, mas parece escrita para todos nós”, disse ainda Francisco. “Em certas noites podemo-nos sentir inúteis e solitários. É então que a oração virá e baterá à porta do nosso coração. Todos nós podemos tocar uma orla do manto de Elias. E mesmo que tivéssemos feito algo de errado, ou se nos sentíssemos ameaçados e apavorados, regressando a Deus com a oração, voltarão também como que por milagre a serenidade e a paz. Isto é o que nos ensina o exemplo de Elias”, concluiu o Papa.

VN

05 outubro, 2020

O Papa: não ao lucro que torna o ser humano escravo

A gestão dos negócios exige a todos uma conduta leal e clara que não ceda à corrupção
 
Ao receber os diretores e funcionários da Caixa de Depósitos e Empréstimos, Francisco reiterou que “o pensamento cristão não é contrário, por princípio, à perspetiva do lucro, mas opõe-se ao lucro a qualquer custo, ao lucro que esquece o ser humano, que o torna escravo, que o reduz a uma coisa entre as coisas”.

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco recebeu em audiência, nesta segunda-feira (05/10), na Sala Paulo VI, no Vaticano, os diretores e funcionários da Caixa de Depósitos e Empréstimos, instituição financeira italiana, por ocasião dos seus cento e setenta anos de fundação.

Fundada como Caixa Piemontesa, mudou o seu nome mais tarde para Caixa de Depósitos e Empréstimos “e desde então a sua tarefa foi redesenhada em relação à evolução e necessidades do país, necessitando de constantes investimentos, modernização, apoio às entidades locais, apoio à formação profissional e produtividade”, disse o Pontífice.

Estas linhas de desenvolvimento ainda hoje exigem um compromisso generoso de vós. Pensemos nos desafios produzidos nos campos social e económico pela grave pandemia ainda em andamento. Pensemos nos fenómenos com repercussões significativas, tais como o declínio de algumas formas de produção, que necessitam de renovação ou transformação radical. Pensemos nas mudanças que ocorreram na maneira de comprar e vender os bens, com o risco de concentrar trocas e comércios nas mãos de poucas realidades de dimensão global. E isto em detrimento das peculiaridades dos territórios e das competências profissionais locais, tão típicas da realidade italiana e europeia.

Não ao lucro que esquece o ser humano

O Papa ressaltou que “a Doutrina Social da Igreja concorda com uma visão na qual mais investidores esperam uma remuneração justa dos recursos coletados, para depois canalizá-los para o financiamento de iniciativas destinadas à promoção social e coletiva".

“O pensamento cristão não é contrário, por princípio, à perspectiva do lucro, mas opõe-se ao lucro a qualquer custo, ao lucro que esquece o ser humano, que o torna escravo, que o reduz a uma coisa entre as coisas, a uma variável de um processo que ele não pode de forma alguma controlar ou ao qual não pode de forma alguma se opor.”

A seguir, Francisco acrescentou:

A gestão de negócios exige sempre, de todos, uma conduta leal e clara que não ceda à corrupção. No exercício das responsabilidades é necessário saber distinguir o bem do mal. De facto, mesmo no campo da economia e das finanças, a intenção correta, a transparência e a busca de bons resultados são compatíveis e não devem ser separadas. É uma questão de identificar e percorrer com coragem linhas de ação que respeitem e promovam a pessoa humana e a sociedade.

O Papa concluiu, dizendo que uma instituição como a Caixa de Depósitos e Empréstimos “pode testemunhar concretamente uma sensibilidade solidária, favorecendo o relançamento da economia real como força motriz do desenvolvimento das pessoas, das famílias e de toda a sociedade. Desta forma também é possível acompanhar o progresso gradual de uma nação e servir o bem comum, com o esforço para multiplicar e tornar mais acessível a todos, os bens deste mundo”.

VN

04 outubro, 2020

PASSEIO PELA MEMÓRIA

 

E de repente um passeio pela memória!

Tenho 71 anos e não sei se na sociedade em que vivo sou um velho, um idoso, ou alguém já descartável, como quem já não tem nada para dar.

Não me sinto assim, antes pelo contrário, mas esta sociedade quase me obriga a sentir assim.

 

Nunca se falou tanto em liberdade como agora e nunca me pareceu haver tanta falta de liberdade como agora!

A liberdade de pensamento é coertada pelo “politicamente correcto”, a liberdade do que trabalha é-lhe negada pela pressão do trabalho, a liberdade do ser é abstraída pela “necessidade” do parecer.

 

Ah, no meu tempo!!!

Não, porque o tempo é o tempo, e já não volta, por isso é preciso aproveitar o tempo.

 

Tive uma infância feliz, cheia de amor, de pais fantásticos e de nove irmãos, todos diferentes, mas todos iguais no amor.

E deles foram nascendo sobrinhas e sobrinhos e deles, sobrinhas e sobrinhos netos e qualquer dia sobrinhos trinetos, que francamente já não sei se já tenho.

Quatro filhos, quatro netos, para já, e uma vida cheia.

 

Erros, asneiras, comportamentos indevidos, provocando a vida, provocando Deus e no fim, (deste período, claro), um Deus que me diz estou aqui e sempre aqui estive.

Uma guerra, (que me marcou sem dúvida), e um regressar que ainda talvez não se tenha feito completo, pois ainda percorro muitas vezes, pela noite, as picadas da Guiné.

Claro que a família que me rodeava e rodeia afastam de mim os maiores fantasmas, mas ficam aqueles em que me sinto incapaz ou inútil de ajudar, que tendo sido meus camaradas de armas continuam a sofrer na pele quase todos os dias o abandono a que foram e são votados.

 

Não vás ao hospital, porque lá se estão borrifando para ti.

Já não tens idade para ser curado, tens apenas idade para morrer!

Drástico, não é, mas tão real!

 

Se julgam que estou deprimido, estão muito enganados, porque a minha esperança está em Deus, e Deus não abandona ninguém!

Aliás, para o coração de Deus, eu sou uma criança, sem idade, sem passado e sem futuro, porque tudo isso a Ele pertence, porque lho entrego nas Suas mãos.

E Ele perdoa o que é para perdoar, e ama incondicionalmente o meu ser e o meu fraco amor.

 

Esquerda, direita, um, dois, parece que estamos na tropa, mas o que verdadeiramente interessa é querer o bem dos outros e hoje em dia a política parece querer apenas o “bem” dos que a utilizam para os seus fins.

 

De derrotismo em mim não há nada, mas sim determinação de não me calar, sobretudo para testemunhar que só em Deus encontrei e todos encontraremos a verdadeira liberdade, o verdadeiro amor.

 

E apetece-me terminar como José Régio no seu “Cântico Negro”: «E o mais que faço não vale nada.»

 

Porque se testemunhar Jesus em mim, como Ele próprio afirmou, também Ele testemunhará junto do Pai, com o Espírito Santo, que eu Lhe pertenço, pela inteira liberdade que Deus me deu.

 

Marinha Grande, 4 de Outubro de 2020

Joaquim Mexia Alves

 

Publicada “Fratelli tutti”, a Encíclica social do Papa Francisco

 
Papa Francisco (Vatican Media)
 
Fraternidade e amizade social são os caminhos indicados pelo Pontífice para construir um mundo melhor, mais justo e pacífico, com o compromisso de todos: pessoas e instituições. Reafirmado com vigor o não à guerra e à globalização da indiferença.

Vatican News

Quais são os grandes ideais mas também os caminhos concretos para aqueles que querem construir um mundo mais justo e fraterno nas suas relações quotidianas, na vida social, na política e nas instituições? Esta é a pergunta à qual pretende responder, principalmente, “Fratelli tutti”: o Papa define-a como uma "Encíclica Social" (6) que toma o seu título das "Admoestações" de São Francisco de Assis, que usava estas palavras "para se dirigir a todos os irmãos e irmãs e lhes propor uma forma de vida com sabor do Evangelho" (1). A Encíclica tem como objetivo promover uma aspiração mundial à fraternidade e à amizade social. No pano de fundo, há a pandemia da Covid-19 que - revela Francisco - "irrompeu de forma inesperada quando eu estava a escrever esta carta". Mas a emergência sanitária global mostrou que "ninguém se salva sozinho" e que chegou realmente o momento de "sonhar como uma única humanidade", na qual somos "todos irmãos". (7-8).

No primeiro de oito capítulos, intitulado "As sombras de um mundo fechado", o documento debruça-se sobre as muitas distorções da época contemporânea: a manipulação e a deformação de conceitos como democracia, liberdade, justiça; o egoísmo e a falta de interesse pelo bem comum; a prevalência de uma lógica de mercado baseada no lucro e na cultura do descarte; o desemprego, o racismo, a pobreza; a desigualdade de direitos e as suas aberrações como a escravatura, o tráfico de pessoas, as mulheres subjugadas e depois forçadas a abortar, o tráfico de órgãos (10-24). Estes são problemas globais que requerem ações globais, sublinha o Papa, apontando o dedo também contra uma "cultura de muros" que favorece a proliferação de máfias, alimentadas pelo medo e pela solidão (27-28).

A muitas sombras, porém, a Encíclica responde com um exemplo luminoso, o do bom samaritano, a quem é dedicado o segundo capítulo, "Um estranho no caminho". Nele, o Papa assinala que, numa sociedade doente que vira as costas à dor e é "analfabeta" no cuidado dos mais frágeis e vulneráveis (64-65), somos todos chamados a estar próximos uns dos outros (81), superando preconceitos e interesses pessoais. De facto, todos nós somos corresponsáveis na construção de uma sociedade que saiba incluir, integrar e levantar aqueles que sofrem (77). O amor constrói pontes e nós "somos feitos para o amor" (88), acrescenta o Papa, exortando em particular os cristãos a reconhecerem Cristo no rosto de cada pessoa excluída (85). O princípio da capacidade de amar segundo "uma dimensão universal" (83) é também retomado no terceiro capítulo, "Pensar e gerar um mundo aberto": nele, Francisco exorta cada um de nós a "sair de si mesmo" para encontrar nos outros "um acrescentamento de ser" (88), abrindo-nos ao próximo segundo o dinamismo da caridade que nos faz tender para a "comunhão universal" (95). Afinal – recorda a Encíclica - a estatura espiritual da vida humana é medida pelo amor que nos leva a procurar o melhor para a vida do outro (92-93). O sentido da solidariedade e da fraternidade nasce nas famílias que devem ser protegidas e respeitadas na sua "missão educativa primária e imprescindível" (114).

O direito a viver com dignidade não pode ser negado a ninguém, afirma ainda o Papa, e uma vez que os direitos são sem fronteiras, ninguém pode ser excluído, independentemente do local onde nasceu (121). Deste ponto de vista, o Papa lembra também que é preciso pensar numa "ética das relações internacionais" (126), porque cada país é também do estrangeiro e os bens do território não podem ser negados àqueles que têm necessidade e vêm de outro lugar. O direito natural à propriedade privada será, portanto, secundário em relação ao princípio do destino universal dos bens criados (120). A Encíclica também coloca uma ênfase específica na questão da dívida externa: embora se mantenha o princípio de que toda a dívida legitimamente contraída deve ser paga, espera-se, no entanto, que isto não comprometa o crescimento e a subsistência dos países mais pobres (126).

Ao tema das migrações é, ao invés, dedicado em parte o segundo e todo o quarto capítulo, "Um coração aberto ao mundo inteiro": com as suas "vidas dilaceradas" (37), em fuga das guerras, perseguições, catástrofes naturais, traficantes sem escrúpulos, arrancados das suas comunidades de origem, os migrantes devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Nos países destinatários, o justo equilíbrio será entre a proteção dos direitos dos cidadãos e a garantia de acolhimento e assistência aos migrantes (38-40). Especificamente, o Papa aponta algumas "respostas indispensáveis" especialmente para aqueles que fogem de "graves crises humanitárias": incrementar e simplificar a concessão de vistos; abrir corredores humanitários; oferecer alojamento, segurança e serviços essenciais; oferecer possibilidade de trabalho e formação; favorecer a reunificação familiar; proteger os menores; garantir a liberdade religiosa. O que é necessário acima de tudo" - lê-se no documento -, é uma legislação (go­vernance) global para as migrações que inicie projetos a longo prazo, indo além das emergências individuais, em nome de um desenvolvimento solidário de todos os povos (129-132).

O tema do quinto capítulo é "A política melhor", ou seja, a que representa uma das formas mais preciosas da caridade porque está ao serviço do bem comum (180) e conhece a importância do povo, entendido como uma categoria aberta, disponível ao confronto e ao diálogo (160). Este é o popularismo indicado por Francisco, que se contrapõe ao "populismo" que ignora a legitimidade da noção de "povo", atraindo consensos a fim de instrumentalizar ao serviço do seu projeto pessoal (159). Mas a melhor política é também a que protege o trabalho, "uma dimensão indispensável da vida social" e procura assegurar que cada um tenha a possibilidade de desenvolver as suas próprias capacidades (162). A verdadeira estratégia contra a pobreza, afirma a Encíclica, não visa simplesmente conter os necessitados, mas a promovê-los na perspetiva da solidariedade e da subsidiariedade (187). A tarefa da política, além disto, é encontrar uma solução para tudo o que atenta contra os direitos humanos fundamentais, tais como a exclusão social; tráfico de órgãos, e tecidos humanos, armas e drogas; exploração sexual; trabalho escravo; terrorismo e crime organizado. Foi forte o apelo do Papa para eliminar definitivamente o tráfico de seres humanos, "vergonha para a humanidade", e a fome, porque é "criminosa" porque a alimentação é "um direito inalienável" (188-189).

A política da qual há necessidade, sublinha ainda Francisco, é aquela centrada na dignidade humana e que não está sujeita às finanças porque "o mercado por si só, não resolve tudo": os "estragos" provocados pela especulação financeira mostraram-no (168). Assumem, portanto, particular relevância os movimentos populares: verdadeiros "torrentes de energia moral", devem ser envolvidos na sociedade, de uma forma coordenada. Desta forma - afirma o Papa -, pode-se passar de uma política "para" os pobres para uma política "com" e "dos" pobres (169). Outro desejo presente na Encíclica diz respeito à reforma da ONU: perante o predomínio da dimensão económica, de facto, a tarefa das Nações Unidas será dar uma real concretização ao conceito de "família de nações", trabalhando para o bem comum, a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos humanos. Recorrendo incansavelmente à "negociação, aos mediadores e à arbitragem" - afirma o documento pontifício - a ONU deve promover a força da lei sobre a lei da força (173-175).

Do sexto capítulo, "Diálogo e amizade social", emerge também o conceito de vida como "a arte do encontro" com todos, também com as periferias do mundo e com os povos originais, porque "de todos se pode aprender alguma coisa, nin­guém é inútil, ninguém é supérfluo" (215). Particular, então, a referência do Papa ao "milagre da amabilidade", uma atitude a ser recuperada porque é "uma estrela na escuridão" e uma "libertação da crueldade, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros, da urgência distraída" que prevalecem em época contemporânea (222-224). Reflete sobre o valor e a promoção da paz, o sétimo capítulo, intitulado "Percursos dum novo encontro", no qual o Papa sublinha que a paz é "proativa" e visa formar uma sociedade baseada no serviço aos outros e na busca da reconciliação e do desenvolvimento mútuo. A paz é uma "arte" em que cada um deve desempenhar o seu papel e cuja tarefa nunca termina (227-232). Ligado à paz está o perdão: devemos amar todos sem exceção - lê-se na Encíclica -, mas amar um opressor significa ajudá-lo a mudar e não permitir que continue a oprimir o seu próximo (241-242). Perdão não significa impunidade, mas justiça e memória, porque perdoar não significa esquecer, mas renunciar à força destrutiva do mal e da vingança. Nunca esquecer "horrores" como a Shoah, os bombardeamentos atómicos em Hiroshima e Nagasaki, perseguições e massacres étnicos - exorta o Papa - devem ser sempre recordados, novamente, para não nos anestesiarmos e mantermos viva a chama da consciência coletiva. E também é importante fazer memória do bem. (246-252).

Parte do sétimo capítulo detém-se, então, sobre a guerra: "uma ameaça constante", que representa a "negação de todos os direitos", "o fracasso da política e da humanidade", "a vergonhosa rendição às forças do mal". Além disto, devido às armas nucleares, químicas e biológicas que afetam muitos civis inocentes, hoje já não podemos pensar, como no passado, numa possível "guerra justa", mas temos de reafirmar fortemente "Nunca mais a guerra!" A eliminação total das armas nucleares é "um imperativo moral e humanitário"; em vez disto - sugere o Papa - com o dinheiro do armamento deveria ser criado um Fundo Mundial para acabar de vez com a fome (255-262). Francisco expressa uma posição igualmente clara sobre a pena de morte: é inadmissível e deve ser abolida em todo o mundo. "O homicida não perde a sua dignidade pessoal - escreve o Papa – e o próprio Deus constitui-Se seu garante" (263-269). Ao mesmo tempo, a necessidade de respeitar "a sacralidade da vida" (283) é reafirmada onde "partes da humanidade parecem sacrificáveis", tais como os nascituros, os pobres, os deficientes, os idosos (18).

No oitavo e último capítulo, o Pontífice detém.se sobre "Religiões ao serviço da fraternidade no mundo" e reitera que o terrorismo não se deve à religião, mas a interpretações erradas de textos religiosos, bem como a políticas de fome, pobreza, injustiça e opressão (282-283). Um caminho de paz entre a religiões é, portanto, possível; por isso, é necessário garantir a liberdade religiosa, direito humano fundamental para todos os crentes (279). Uma reflexão, em particular, a Encíclica  faz sobre o papel da Igreja: ela não relega a sua missão à esfera privada e, embora não fazendo política, não renuncia à dimensão política da existência, à atenção ao bem comum e à preocupação pelo desenvolvimento humano integral, segundo os princípios evangélicos (276-278).

Enfim, Francisco cita o "Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum", assinado por ele mesmo em 4 de fevereiro de 2019 em Abu Dhabi, junto com o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib: desta pedra miliar do diálogo inter-religioso, o Pontífice retoma o apelo para que, em nome da fraternidade humana, o diálogo seja adotado como caminho, a colaboração comum como conduta, e o conhecimento mútuo como método e critério (285).

Vatican News Service – IP - SP

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Para aceder à Carta Ensíclica FRATELLI TUTTI (versão integral):

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html

 

Olhar os outros como irmãos e irmãs para salvar a nós e o mundo


A mensagem da nova encíclica social do Papa Francisco: ninguém se salva sozinho. A proposta de uma sociedade fraterna para não ser dominada por guerra, ódio, violência, indiferença e novos muros.

ANDREA TORNIELLI

Estamos circundados pelas “sombras de um mundo fechado”, mas há quem não se rende ao avanço da escuridão e continua a sonhar, a ter esperança, a sujar as mãos, comprometendo-se a criar fraternidade e amizade social. A terceira Guerra mundial em pedaços já começou, a lógica do mercado baseada no lucro parece estar a vencer a boa política, a cultura do desperdício parece prevalecer, o grito dos povos da fome não é ouvido, mas há quem indique um caminho concreto para construir um mundo diferente e mais humano.

À cinco anos atrás o Papa Francisco publicou a Encíclica Laudato si’, evidenciando as conexões existentes entre crise ambiental, crise social, guerras, migrações e pobreza. Indicou um objetivo a ser alcançado: o de um sistema económico e social mais justo e respeitador da criação, que tenha no centro o homem como guardião da Mãe Terra e não o dinheiro elevado a uma divindade absoluta. Hoje, com a nova encíclica social “Fratelli tutti”, o Sucessor de Pedro mostra o caminho concreto para alcançar esse objetivo: reconhecer-mo-nos como irmãos e irmãs, irmãos porque filhos, guardiões uns dos outros, todos no mesmo barco, como a pandemia tornou ainda mais evidente. O caminho para não nos render-mos à tentação do homo homini lupus, dos novos muros, do isolamento, é olhar para o ícone evangélico do Bom Samaritano, tão atual e fora de esquemas.

O caminho indicado pelo Papa Francisco baseia-se na mensagem de Jesus que faz cair toda estranheza. O cristão é de facto chamado a “reconhecer Cristo em cada ser humano, a vê-lo crucificado na angústia dos abandonados e esquecidos deste mundo, e ressuscitado em cada irmão que se levanta”. Mas a da fraternidade é uma mensagem que pode ser acolhida, compreendida e partilhada também por homens e mulheres fiéis de outras religiões, bem como por muitos homens e mulheres que não crêem.

A nova encíclica apresenta-se como uma soma do magistério social de Francisco, e reúne de forma sistemática as ideias oferecidas por pronunciamentos, discursos e intervenções dos primeiros sete anos de pontificado. Uma origem e inspiração é certamente representada pelo “Documento sobre a Fraternidade  humana para a paz mundial e a convivência”, assinado a 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, junto com o Grão imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib. Desta declaração comum, pedra angular do diálogo entre as religiões, o Papa repropõe o seu apelo para que o diálogo seja adotado como caminho, a colaboração comum como conduta e o conhecimento recíproco como método e critério.

No entanto, seria redutivo relegar a nova encíclica apenas ao âmbito do diálogo inter-religioso. A mensagem de “Fratelli tutti” diz respeito a cada um de nós. Também contém páginas iluminadoras sobre o compromisso social e político. Pode parecer paradoxal que seja o Bispo de Roma, voz no deserto, a relançar hoje o projeto de uma boa política. Uma política capaz de retomar o seu papel, que por muito tempo foi confiada à finança e à fábula dos mercados que produziriam bem-estar para todos sem necessidade de serem governados. Há um capítulo inteiro dedicado à ação política vivida como um serviço e testemunho de caridade, que se alimenta de grandes ideais e projeta o amanhã, pensando não no pequeno ganho eleitoral mas no bem comum e especialmente no futuro das novas gerações. Mais uma vez, num tempo em que muitos países se fecham, o Papa formula o convite a não perder a confiança nos organismos internacionais, embora necessitando de reformas para que não sejam apenas os mais fortes a contar.

Entre as páginas mais fortes da encíclica estão as dedicadas à condenação da guerra e à rejeição da pena de morte. Na esteira da Pacem in Terris do Papa João XXIII, partindo de um olhar realista sobre os resultados catastróficos que tantos conflitos nas últimas décadas causaram nas vidas de milhões de pessoas inocentes, Francisco recorda que hoje é muito difícil manter os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar de uma possível “guerra justa”. Como o uso da pena de morte que é injustificado e inadmissível e deve ser abolida em todo o mundo.

É verdade, como o Papa assinala, “no mundo atual os sentimentos de pertença à mesma humanidade estão a enfraquecer enquanto o sonho de construir juntos a justiça e a paz parece uma utopia de outros tempos”. Mas é preciso voltar a sonhar e, sobretudo, realizar esse sonho juntos, antes que seja tarde demais.

VN

02 outubro, 2020

Parolin: acordo com a China, uma escolha pensada, refletida e rezada

 
Apresentação do livro "La Tunica e la Tonaca" de autoria do padre Enzo Fortunato  (ANSA)
 
Na manhã de quinta-feira, o cardeal Pietro Parolin tinha-se encontrado no Vaticano com o seu homólogo estadunidense Mike Pompeo, um encontro de 45 minutos, num “clima de respeito” e “cordial”, durante no qual foi possível apresentar as respectivas posições sobre a China e falar sobre alguns dos conflitos que estão a ensanguentar o mundo.

Vatican News

Ao pronunciar-se na apresentação do livro "A túnica e a batina" do padre Enzo Fortunato na noite de quinta-feira, dia 1, o cardeal Pietro Parolin reiterou a cordialidade do encontro realizado pela manhã com o secretário de Estado estadunidense, Mike Pompeo.

No que diz respeito às relações entre a Santa Sé e a República Popular da China, o purpurado sublinhou como Pompeo expressou com um "raciocínio articulado" as razões das suas manifestações nos últimos dias e como houve "compreensão" sobre como a Santa Sé "aborda estes problemas".

“Todos nós procuramoos a liberdade religiosa - reiterou o purpurado - todos procuramos uma vida normal para a Igreja, mas onde nos diferenciamos é no método, em como atingir esses objetivos”.

Ao mesmo tempo - acrescentou - reivindicamos de nossa parte uma escolha pensada, uma escolha refletida, uma escolha rezada, uma escolha feita pelo Papa e, portanto, a liberdade de poder continuar a seguir em frente nesta escolha”.

Por fim, sobre o acordo provisório entre a Santa Sé e a China Popular, o cardeal Parolin fez votos de que funcione "melhor em relação ao que foi feito até agora e que se possa proceder  com a nomeação de bispos para todas as dioceses vagas na China". 

O Acordo Provisório assinado em 22 de setembro de 2018 entre a Santa Sé e a República Popular da China, relativo à nomeação de bispos, entrou em vigor um mês após a assinatura e expirará em 22 de outubro próximo. Assinado em Pequim, previa uma duração de dois anos ad experimentum, antes de qualquer confirmação definitiva ou outra decisão. O cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, explicou recentemente que a intenção é propor uma prorrogação às autoridades chinesas, continuando a adotar o Acordo de forma provisória, “como foi feito nestes dois primeiros anos, a fim de verificar ainda mais a sua utilidade para a Igreja na China”. Apesar da lentidão e das dificuldades, agravadas nos últimos dez meses pela pandemia, Parolin disse: “Parece-me que foi marcada uma direção que vale a pena continuar, depois veremos”.

VN

Cardeal Tagle: não somos os proprietários, mas os guardiões da natureza

 
(ANSA)
 
“Muitas vezes comportamo-nos como proprietários e esquecemos que somos os guardiões da natureza”. É o apelo do cardeal prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos em uma mensagem sobre o mês dedicado à sensibilização da tutela da Criação

Alessandro De Carolis – Vatican News

"Recordo muito bem e com alegria e gratidão a celebração do Tempo da Criação nas minhas dioceses, a diocese de Imus e a arquidiocese de Manila". O Cardeal Luis Antonio Tagle recorre ao passado mais recente e para os anos de seu ministério nas Filipinas para lembrar as celebrações do período que para os cristãos significa encontrar Deus na beleza da criação.

Guardiões, não proprietários

Num vídeo gravado antes da positividade à Covid-19, o Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos e presidente da Caritas Internationalis relança o convite para se unir à "Igreja universal na celebração do tempo da Criação", de 1º de setembro a 4 de outubro, a festa de São Francisco.

"É um tempo litúrgico - explica - para celebrar na oração e especialmente na Eucaristia a bondade da Criação, sinais da generosidade e do amor de Deus". É também um convite para redescobrir a nossa vocação como guardiões da Criação. Muitas vezes tornamo-nos proprietários, comportamo-nos como proprietários e esquecemos que somos guardiões".

Uma só voz

É um tempo para os cristãos celebrarem "a uma só voz", mas não é um tempo somente para os cristãos. "É uma celebração", diz o Cardeal Tagle, "com uma clara mensagem social e ecológica" porque, afirma claramente, "a maneira como lidamos com a Criação demonstra a nossa atitude em relação à vida e aos seres humanos". E assim, conclui, vamos vivê-lo "celebrando a interconexão na família da Criação e na família humana, especialmente com os pobres".

VN

30 setembro, 2020

Papa: encontrar a cura também para os grandes vírus humanos e socioeconômicos

 

"Um pequeno vírus continua a causar feridas profundas e desmascara as nossas vulnerabilidades físicas, sociais e espirituais. Mostrou a grande desigualdade que reina no mundo: desigualdade de oportunidades, de bens, de acesso aos cuidados médicos, de tecnologia, educação, milhões de crianças não podem ir à escola, e assim por diante", disse Francisco na Audiência Geral.

Mariangela Jaguraba - Vatican News

“Curar o mundo. Preparar o futuro junto com Jesus que salva e cura.” Este foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral, desta quarta-feira (30/09), realizada no Pátio São Dâmaso, dedicada ao tema da pandemia de coronavírus.

O Pontífice recordou que “nas últimas semanas, à luz do Evangelho, refletimos juntos sobre como curar o mundo que sofre de um mal-estar que a pandemia realçou e acentuou”. “O mal-estar já existia. A pandemia o acentuou e aumentou. Percorremos os caminhos da dignidade, da solidariedade e da subsidiariedade, caminhos indispensáveis para promover a dignidade humana e o bem comum”, sublinhou Francisco.

Na qualidade de discípulos de Jesus, começamos a seguir os seus passos optando pelos pobres, repensando o uso dos bens e cuidando da Casa comum. No meio da pandemia que nos aflige, ancoramo-nos nos princípios da Doutrina Social da Igreja, deixando-nos guiar pela fé, esperança e caridade. Aqui encontramos uma ajuda sólida para ser agentes de transformação que sonham alto, não se detêm nas mesquinharias que dividem e magoam, mas encorajam a gerar um mundo novo e melhor.

Gritos que exigem de nós outro rumo

O Papa frisou que gostaria que este percurso continuasse quando terminar suas catequeses sobre o tema da pandemia, que possamos continuar caminhando juntos, «mantendo o nosso olhar fixo em Jesus», que salva e cura o mundo.

O Evangelho nos mostra que “Jesus curou doentes de todos os tipos, restituiu a visão aos cegos, a palavra aos mudos, a audição aos surdos. Quando curava doenças e enfermidades físicas, curava também o espírito, perdoando os pecados, porque Jesus perdoa sempre, assim como as “dores sociais”, incluindo os marginalizados. Jesus, que renova e reconcilia cada criatura, nos concede os dons necessários para amar e curar como Ele sabia fazer, para cuidar de todos sem distinção de raça, língua ou nação”.

Segundo Francisco, “para que isto aconteça realmente, temos necessidade de contemplar e apreciar a beleza de cada ser humano e de cada criatura. Fomos concebidos no coração de Deus. «Cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário». Além disso, toda criatura tem algo a dizer-nos sobre Deus Criador. Reconhecer esta verdade e dar graças pelos laços íntimos da nossa comunhão universal com todas as pessoas e todas as criaturas ativa «um cuidado generoso e cheio de ternura». Ajuda-nos também a reconhecer Cristo presente nos nossos irmãos e irmãs pobres e sofredores, a encontrá-los e a ouvir o seu grito e o grito  da terra que lhe faz eco”. A seguir, acrescentou:

Mobilizados interiormente por estes gritos que exigem de nós outro rumo, exigem mudanças, poderemos contribuir para a cura das relações com os nossos dons e capacidades. Poderemos regenerar a sociedade e não voltar à chamada “normalidade”, que é uma normalidade doente, que estava doente antes da pandemia. A pandemia a acentuou. Agora voltamos à normalidade. Não, isso não é bom. Esta normalidade era doente de injustiça, desigualdade e degradação ambiental.

Um pequeno vírus continua causando feridas profundas

O Papa observou que “a normalidade a que somos chamados é a do Reino de Deus, onde «os cegos veem, os coxos caminham, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres...». Ninguém se faça de bobo olhando para o outro lado! Na normalidade do Reino de Deus o pão chega a todos e sobeja, a organização social baseia-se em contribuir, partilhar e distribuir, não em possuir, excluir e acumular. Estes dois gestos, não? Este é o gesto que faz ir adiante uma sociedade, uma família, um bairro, uma cidade, todos: dar-se, dar, que não é dar esmola, não: é dar do coração. E não o gesto que puxa para trás com egoísmo, a ânsia de possuir e todas essas coisas. A forma cristã de fazer isto não é uma forma mecânica: é uma forma humana. Não poderemos sair da crise, evidenciada pela pandemia, mecanicamente: com novos aparelhos... que são muito importantes! “Eh, Padre, há inteligência artificial...”: é importante, nos faz ir adiante. Não tenha medo dessas coisas, mas sabendo que nem mesmo os meios mais sofisticados podem fazer uma coisa: eles podem fazer muitas coisas, mas não podem fazer uma coisa: a ternura. E a ternura é o sinal da presença de Jesus, o aproximar-se ao próximo para fazer com que vá adiante, para curar, ajudar, sacrificar-se pelo outro. Não se esqueçam disso”.

Um pequeno vírus continua causando feridas profundas e desmascara as nossas vulnerabilidades físicas, sociais e espirituais. Mostrou a grande desigualdade que reina no mundo: desigualdade de oportunidades, de bens, de acesso aos cuidados médicos, de tecnologia, educação, milhões de crianças não podem ir à escola, e assim por diante. Estas injustiças não são naturais nem inevitáveis. São obra do homem, provêm de um modelo de crescimento desligado dos valores mais profundos. O desperdício de alimento. O desperdício do alimento que sobra. Com esse desperdício é possível dar de comer a todos! E isto fez com que muitas pessoas perdessem a esperança e aumentou a incerteza e a angústia.

“É por isso que, para sairmos da pandemia, temos que encontrar a cura não só para o coronavírus, mas também para os grandes vírus humanos e socioeconômicos. E certamente não podemos esperar que o modelo econômico subjacente ao desenvolvimento injusto e insustentável resolva os nossos problemas. Não o fez e não o fará, porque não pode fazê-lo, embora certos falsos profetas continuam prometendo o “efeito dominó” que nunca chega.”

Vocês já ouviram falar do teorema do copo: o importante é que o copo se encha e depois transborda sobre os pobres e outros, e eles recebem as riquezas. Mas existe um fenômeno: o copo começa a encher e quando está quase cheio, o copo cresce e cresce e nunca transborda, nunca. Fiquem atentos!

Trabalhar para gerar boas políticas

Segundo o Pontífice, “temos que trabalhar urgentemente para gerar boas políticas, para conceber sistemas de organização social que recompensem a participação, o cuidado e a generosidade, e não a indiferença, a exploração e os interesses particulares. Temos de ir adiante com ternura. Uma sociedade solidária e equitativa é uma sociedade mais saudável. Uma sociedade participativa, onde os “últimos” são considerados como os “primeiros”, fortalece a comunhão. Uma sociedade onde a diversidade é respeitada é muito mais resistente a qualquer tipo de vírus”.

O Papa concluiu sua catequese, convidando a colocar “este caminho de cura sob a proteção da Virgem Maria, Nossa Senhora da Saúde. Ela, que carregou Jesus no seu ventre, nos ajude a ser confiantes. Animados pelo Espírito Santo, podemos trabalhar juntos para o Reino de Deus que Cristo inaugurou neste mundo, vindo entre nós. Um reino de luz no meio das trevas, de justiça no meio de tantos ultrajes, de alegria no meio de tanta dor, de cura e salvação no meio da doença e da morte. Deus nos conceda “viralizar” o amor e globalizar a esperança à luz da fé”.

Nas pegadas de São Jerônimo

Após a catequese, o Pontífice lembrou que hoje assinou a Carta Apostólica «Sacrae Scripturae affectus», no 16º centenário da morte de São Jerônimo. “Que o exemplo deste grande doutor e Padre da Igreja, que colocou a Bíblia no centro de sua vida, desperte em todos um amor renovado pela Sagrada Escritura e o desejo de viver em diálogo pessoal com a Palavra de Deus”.

VN