27 dezembro, 2019

Com assassinato de cristãos, terroristas querem criar conflito entre cristãos e muçulmanos, diz arcebispo nigeriano


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Escola em Dpachi, Nigéria, após ataque do Boko Haram  (AFP or licensors)

Os milicianos do Estado Islâmico na Província da África Ocidental (Iswap) divulgaram um vídeo mostrando o bárbaro assassinato de 11 pessoas: são cristãos - dizem os terroristas - que foram assassinados em retaliação à morte dos dois importantes líderes da facção do Estado Islâmico na Síria. Mas ainda não há confirmação. Para o arcebispo de Abuja, a intenção é provocar conflito entre cristãos e muçulmanos. 

Cidade do Vaticano 

Um vídeo chocante de 56 segundos mostra o assassinato de 11 pessoas num local não identificado: eles seriam cristãos e o massacre teria ocorrido no dia de Natal. As imagens foram divulgadas por um grupo extremista nigeriano, pertencente ao chamado Estado Islâmico, na Província da África Ocidental (Iswap).

O uso do condicional é obrigatório, pois ainda não há confirmações externas, vindas de outras fontes. O objetivo das mortes – afirmam os terroristas - seria vingar a morte de alguns de seus líderes no Médio Oriente, incluindo Abu Bakr al-Baghdadi e o eu porta-voz, Abul Hasan Al Muhajir. 

Arcebispo Kaigama: o objetivo é criar tensão e divisão

"Eu acredito que este grupo islâmico tem a intenção de provocar uma grande tensão, conflitos, crises entre cristãos e muçulmanos", explica ao Vatican News o arcebispo de Abuja, Dom Ignatius Ayau Kaigama: "eles querem provocar uma guerra, mas eu acredito que existam muçulmanos que não estão envolvidos ou não querem participar nesses atos violentos. É um grupo de terroristas que faz isto, mas é muito fácil generalizar e dizer que são muçulmanos contra os cristãos. E isto para mim provoca mais tensão e violência."

Num vídeo, os reféns pediam ajuda

Segundo algumas reconstruções não confirmadas, as vítimas teriam sido capturadas durante as últimas semanas de ataques contra várias aldeias no norte da Nigéria. Há doze dias, o grupo divulgou um vídeo em que os reféns pediam ajuda às autoridades nigerianas e à Associação Cristã da Nigéria. Os terroristas tentaram abrir negociações com o governo - dizem fontes locais - mas a tentativa teria fracassado devido à recusa das autoridades em negociar.

30 mil mortos desde 2009

A Nigéria parece indefesa perante o terrorismo islâmico. Segundo as agências humanitárias, pelo menos 30 mil civis foram mortos e 30 milhões foram deslocados desde o início da ofensiva jihadista em 2009.

Muito embora o grupo extremista islâmico Boko Haram esteja a reivindicar grande parte dos atentados, o movimento dividiu-se em duas fações no país, em agosto de 2016, após operações do exército nigeriano. 

Buhari: inimigos da humanidade comum

O presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, muçulmano, exortou a população a não cair na armadilha de se dividir entre muçulmanos e cristãos por "assassinos de massa, sem consciência, sem Deus, que maculam o nome do Islã com as suas atrocidades". "estes agentes das trevas são inimigos da nossa comum humanidade e não pouparão nenhuma vítima, sejam muçulmanos ou cristãos", acrescentou o mandatário.

Ler também:

Nigéria: onze cristãos foram mortos pelo auto proclamado Estado Islâmico

VN

Nigéria: onze cristãos foram mortos pelo autoproclamado Estado Islâmico



O assassinato brutal foi documentado no vídeo de 56 segundos, publicado nesta quinta-feira (26/12). O vídeo foi gravado numa área externa não identificada. Não foram oferecidos detalhes sobre as vítimas, todas do sexo masculino, mas a organização terrorista afirma que foram “capturadas nas últimas semanas” no estado de Borno, nordeste da Nigéria. 

Cidade do Vaticano 

Onze cristãos foram mortos na Nigéria. É o que informa a Bbc News África, segundo a qual o auto proclamado Estado Islâmico (EI) publicou um vídeo que mostra o assassinato dos onze. A organização terrorista declarou que esta ação é uma vingança pelas mortes em outubro passado do seu líder e do seu porta-voz na Síria, respectivamente, Abu Bakr al-Baghdadi e Abul-Hasan Al-Muhajir.

Não foram oferecidos detalhes sobre as vítimas, todas de sexo masculino, mas a organização afirma que foram “capturadas nas últimas semanas” no estado de Borno, nordeste da Nigéria.

Condenação da Onu

O assassinato brutal foi documentado no vídeo de 56 segundos, produzido por Amaq, órgão de propaganda do auto proclamado EI, e publicado nesta quinta-feira (26/12). O vídeo foi gravado numa área externa não identificada.

Um prisioneiro é atingido fatalmente enquanto outros dez são jogados ao chão e decapitados. A ação foi duramente condenada pelo secretário geral da Onu, António Guterres, que expressou solidariedade ao governo e ao povo da Nigéria.

VN

Vencedores do logotipo e do hino da JMJ anunciados em fevereiro



O Comité Organizador Local (COL) da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2022 informou hoje que o anúncio dos vencedores do concurso para o hino e o logotipo vai acontecer em fevereiro de 2020. “Atendendo ao elevado número de candidaturas submetidas, o Comité Organizador Local (COL) da JMJ Lisboa 2022 informa que o anúncio dos vencedores dos concursos do hino e do logotipo será feito em fevereiro”, lê-se no comunicado enviado à Agência ECCLESIA.
O COL agradece “o empenho e a participação” dos candidatos, valorizando o acolhimento que teve o concurso para a “criação da música e do logo da próxima Jornada Mundial da Juventude”. Em 2022, a Jornada Mundial da Juventude vai decorrer em Lisboa e tem por tema “Maria levantou-se e partiu apressadamente”. Em outubro, o COL lançou o concurso para a imagem  gráfica (logotipo) e o hino Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em 2022. O concurso para o logotipo da JMJ 2022 foi  dirigido a candidatos de todo o mundo e o hino a compositores e autores portugueses. Na última semana, o Comité Organizador do Local (COL) da JMJ anunciou a realização de uma peregrinação de jovens a Roma para acolher os símbolos da Jornada Mundial da Juventude no dia 5 de abril de 2020, Domingo de Ramos.

Ecclesia

Papa aos Jovens de Taizé: “Sempre a caminho, jamais desarraigados"

 
Jovens de Taizé
 
O Papa Francisco enviou uma mensagem, assinada pelo cardeal Pietro Parolin, aos Jovens de Taizé reunidos em Wroclaw 
 
Cidade do Vaticano

Realiza-se, a partir de 28 de dezembro a 1 de janeiro, em Wrocław, na Polónia, o 42° Encontro Europeu, promovido pela Comunidade Ecumênica de Taizé.

Para a ocasião, a Comunidade de Taizé recebeu diversas Mensagens, entre as quais a do Papa Francisco, assinada pelo Cardeal Secretário de Estado, Pietro Parolin. 

Sempre a caminho, jamais desarraigados

Na sua Mensagem, Francisco diz acompanhar os jovens participantes com suas orações, encorajando-os a aprofundar, com os cristãos da Polónia, o tema escolhido para este encontro de Wrocław: “Sempre a caminho, jamais desrraigados”.

A Polónia, diz o Papa, é um país arraigado na fé. As suas raízes sustentaram o seu povo nas grandes provações, quando a esperança era abalada. Por isso, os jovens têm muito a aprender com os que permaneceram fiéis a Cristo, quando eram tentados a ceder. Os cristãos ousaram acreditar num futuro melhor.

Aqui, Francisco exortou os participantes no encontro a descobrirem juntos a importância de estarem profundamente arraigados na fé, que os convida e prepara a ir ao encontro dos outros, a responder aos novos desafios das nossas sociedades, em particular, os perigos que pairam sobre a nossa Casa comum. 

Não esperem pelo amanhã para colaborar

Juntos com os muitos jovens presentes, disse o Papa, os jovens podem descobrir a alegria de partir, como fez Abraão, mesmo sem saber para onde vão. Por isso, exortou os participantes a estarem sempre prontos para partir, para testemunhar o Evangelho e estarem plenamente disponíveis para os que encontram ao seu redor, sobretudo os mais pobres e infelizes. "Não esperem pelo amanhã para colaborar com a transformação do mundo com as energias, audácia e criatividade próprias. Chegou a hora de Deus, de serem fecundos”!

O Santo Padre concluiu a sua Mensagem, enviada pelo Cardeal Pietro Parolin, concedendo a todos os jovens e aos irmãos da Comunidade de Taizé, suas famílias e paróquias a sua Bênção Apostólica. Que a fé de Maria, que também partiu "à pressa", possa sustentar o impulso da sua confiança no seu Filho.

VN

26 dezembro, 2019

Angelus: como os mártires, viver e morrer com o nome de Jesus no coração e nos lábios



A festa do protomártir Estevão convida-nos a recordar todos os mártires de ontem e de hoje, a  sentir-mo-nos em comunhão com eles e a pedir-lhes a graça de viver e morrer com o nome de Jesus no coração e nos lábios”, disse o Papa no Angelus de 26 de dezembro.
 
Bianca Fraccalvieri – Cidade do Vaticano

No dia em que a Igreja celebra Santo Estevão, protomártir, o Papa Francisco rezou a oração do Angelus com milhares de fiéis na Praça São Pedro.

No clima de alegria do Natal, afirmou o Pontífice, pode parecer fora de lugar a memória do primeiro cristão assassinado pela sua fé em Jesus Cristo. Mas na verdade, explicou, esta festa está em sintonia com o verdadeiro significado do Natal.
“No martírio de Estevão, de facto, a violência é derrotada pelo amor, a morte pela vida: ele, no momento do testemunho supremo, contempla o céu e oferece o seu perdão aos seus perseguidores.”
A glória é feita de amor e doação
Este jovem servidor do Evangelho, prosseguiu Francisco, soube narrar Jesus com as palavras e, sobretudo, com a sua vida. Com Estevão, podemos aprender que a glória do Céu, dura para toda a vida e a vida eterna, não é feita de riquezas e poder, mas de amor e de doação de de nós mesmos.

“Para nós cristãos, o céu não está mais distante, separado da terra: em Jesus, o Céu desceu sobre a terra. E graças a Ele, com a força do Espírito Santo, podemos assumir tudo o que é humano e orientá-lo em direção ao Céu.”

O nosso primeiro testemunho, disse o Pontífice, deve ser propriamente o nosso modo de ser humanos, com um estilo de vida plasmado segundo Jesus: manso e corajoso, humilde e nobre e não-violento. 

Renovar as comunidades cristãs

Na sequência, o Papa recordou ainda que Estevão foi um dos primeiros sete diáconos da Igreja e o seu testemunho, que culminou no martírio, é fonte de inspiração para a renovação das comunidades cristãs:
“Estas são chamadas a tornarem-se sempre mais missionárias, todas propensas à evangelização, decididas a alcançar os homens e as mulheres nas periferias existenciais e geográficas, onde há mais sede de esperança e de salvação.”
Com o nome de Jesus nos lábios e no coração
 
As comunidades cristãs, afirmou ainda, não devem seguir a lógica mundana, a colocarem-se a si mesmas no centro, mas unicamente a glória de Deus e o bem das pessoas, especialmente dos pequeninos e dos pobres.
“A festa do protomártir Estevão convida-nos a recordar todos os mártires de ontem e de hoje - e hoje há muitos -, a nos sentirmos em comunhão com eles e a pedir-lhes a graça de viver e morrer com o nome de Jesus no coração e nos lábios.”
Que Maria, finalizou Francisco, nos ajude a viver este tempo de Natal fixando o olhar em Jesus, para nos tornarmos em cada dia mais semelhante a Ele.

VN

25 dezembro, 2019

Homilia no Natal do Senhor (Missa do Dia)

 Fotos: Arlindo Homem / Patriarcado de Lisboa
Para que o Natal de Cristo continue no mundo

«Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo», assim ouvimos há pouco, na Carta aos Hebreus. E impressiona sempre o facto de, nas primeiras gerações cristãs, já se resumir o que a teologia tem de essencial para nos dizer e quase o Credo que nos define.
A palavra ativa é “falou”: Falou Deus pelos profetas, falou-nos Deus por seu Filho. Da criação à finalização deste mundo, tudo é criação divina, absolutamente dita e feita. E, assim como a primeira criação culminou no ser humano, a nova criação culmina na humanização do ser divino, para que toda a promessa se cumpra pelo único poder que a sustenta.
A esta luz, plenamente natalícia, podemos entender muita coisa. Podemos entender-nos sobretudo a nós, tanto no que sempre nos move, como no estarmos hoje aqui. Move-nos, como seres humanos, o desejo de mais e melhor, a esperança de que possa ser assim. Fere-nos o contrário, em nós e à nossa volta, na contradição repetida disso mesmo que almejamos. Dói-nos, por nós e pelos outros, o despiste do desejo, a frustração do projeto, o esvaimento da esperança.
O aparente retorno de factos e circunstâncias não nos apazigua a mente e o coração. Nem o conseguem o alheamento de si ou a dispensa de sentido. Porque a humanidade como um todo, e o melhor dela em cada um dos seus membros, algo avançou de facto, embora nem sempre como devia. Sobrou ao menos a experiência, ainda que as chamadas “lições da História” nunca tenham alunos bastantes.
Foi assim até há dois mil anos e continua a sê-lo em quem ainda não chegou ao Natal de Cristo. Num tempo que já não é cronológico, antes ultimado da parte de Deus, que em Cristo nos diz tudo quanto finalmente nos resolve. Lembro, de modo um tanto prosaico, a resposta que uma vez ouvi a alguém a quem perguntara porque continuava cristão e praticante. Respondeu-me simplesmente: «Porque com Cristo a conversa nunca mais acaba!»
Creio que podemos dizer todos o mesmo, os que aqui estamos a celebrar o Natal. Reconhecemos em Cristo, da glória do Presépio à glória da Cruz, a resposta divina a tudo quanto o mesmo Deus nos pôs no peito, no desejo profundo só assim preenchido, sem mais adiamento ou desvio.    
Pedro disse-o um dia, por todos nós, os de antes, durante ou depois: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus» (Jo 6, 68-69). Outro autor, pelo fim do século segundo, explica-nos o porquê de acontecer só então: «[Deus] preparava o tempo atual da justiça, a fim de que, tendo-nos convencido, naquele tempo [de iniquidade], de que pelas nossas próprias obras éramos indignos da vida, nos tornássemos dignos dela pela benignidade divina e, reconhecendo claramente a nossa impossibilidade de entrar pelas próprias forças no reino de Deus, pudéssemos ter acesso a ele mediante o poder de Deus» (Epístola a Diogneto, Ofício de Leitura, 18 de dezembro).    
Também Jesus o dissera: «Sem mim, nada podeis fazer» (Jo 15, 5). Isto mesmo e no coração de cada um, que Deus alargou a confins que só Ele pode alcançar. Ao seu modo singular e espantoso, na paradoxal pequenez do «eterno nascido de ainda agora», como um dos nossos clássicos se referia ao Menino do Presépio (Padre Manuel Bernardes).

Assim «o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade»: – Quão magnífico é contemplar hoje este mistério e que importante é dar-lhe a consequência!
Para o contemplarmos, aqui estamos hoje, como o guardaremos na memória agradecida e orante. Na oração quotidiana do Rosário, os mistérios gozosos reenviam-nos ao Presépio de Belém, como a tudo o mais da infância de Jesus. É uma contemplação inesgotável, que fazemos com os olhos e o coração da Mãe de Cristo e certamente acompanhados por José. Depois, sim, podemos partir, como os pastores e os magos, a testemunhar o que vimos. Para regressar sempre e partir melhor.
Para ser visível e audível, o Verbo fez-se carne e habitou entre nós. É iniludivelmente o facto cristão. Também isto aqui nos traz, por se tratar dum acontecimento concreto e preciso, hoje como então, em Cristo e nos seus, verdadeiramente seus.
O sentimento religioso é universal e configurou-se em várias tradições e cultos, como no cristianismo sociocultural também. Manifestando a condição humana, tanto no que a sua fragilidade requer como no que a sua transcendência vislumbra, é absolutamente respeitável e deve ser juridicamente garantido. Lamentamos que nem sempre seja assim e tanta gente sofra hoje em dia, cristãos e não cristãos, por falta de liberdade religiosa. Tristíssimas notícias nos dão conta disso em muitas partes do mundo, ostensivamente por vezes, disfarçadamente outras tantas.
Com Cristo, porém, não se trata meramente de ideia, sentimento, ou costume. Trata-se duma pessoa, dum facto concreto e situado, que ganhou dimensão universal a partir do que viveu, do que disse e do que fez - do presépio à cruz e da cruz à glória, porque a luz de Belém resplendeu na Páscoa.
Impregnou tão divinamente o seu presépio, que o alastrou a todos presépios do mundo, ou seja, aonde a vida nasce e requer o nosso envolvimento e cuidado – e da conceção à morte natural, convém repetir. Habitou e trabalhou em Nazaré da Galileia, mas fê-lo tão totalmente que conferiu à atividade humana uma dignidade imensa e irrecusável. Trilhou os caminhos do Israel da altura, assumindo e reforçando todo o bem que se realize, quando e onde for. Sofreu por todos nós aquela morte, para aí mesmo nos acompanhar na nossa, preenchendo-a com a ressurreição que nos ganhou. Celebrar coerentemente o Natal interroga-nos sobre o real cumprimento destes itens e empenha-nos a todos na sua efetivação.
Verbo encarnado, assim foi Jesus e de algum modo havemos de ser também nós. Não teve grande repercussão e alarido na altura, naquele vasto Império em que viveu. Mas foi tão absoluta a sua vida, traduzindo em humanidade a divindade, que alastrou depois, como alastra agora, irredutível na verdade, bondade e beleza que são inteiramente suas e se impõem por si, hoje como então.
Na sociocultura de hoje em dia, tão espessa como contraditória em si mesma, tão descrente de formas e de fórmulas, sejam estas quais forem, só nos resta o caminho estreito da coerência evangélica. Coerência que, por ser divinamente impulsionada, prolongará em nós a encarnação do Verbo. Como também ouvimos e convictamente agradecemos: «Àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus».

É precisamente assim, só assim, que o Natal de Cristo continuará no mundo.               


Sé de Lisboa, 25 de dezembro de 2019

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Patriarcado de Lisboa

Mensagem Urbi et Orbi: "Que o Emmanuel seja luz para toda a humanidade ferida"

 
 
Síria, Líbano, Iêmen, Iraque, Venezuela e nações do continente americano, Ucrânia, República Democrática do Congo, Burkina Faso, Mali, Níger e Nigéria. Regiões da humanidade onde há dor e sofrimento provocados pelas trevas nos corações humanos, nas relações pessoais, familiares, sociais, nos conflitos económicos, geopolíticos e ecológicos, receberam a atenção do Santo Padre na sua mensagem Urbi et Orbi neste dia de Natal: "Mas a luz de Cristo é maior", reiterou.
 
Cidade do Vaticano

A Mensagem e a Bênção Urbi et Orbi do Santo Padre:

«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9,1).

Queridos irmãos e irmãs, feliz Natal!

Nesta noite, do ventre da mãe Igreja, nasceu de novo o Filho de Deus feito homem. O seu nome é Jesus, que significa Deus salva. O Pai, Amor eterno e infinito, enviou-O ao mundo, não para condenar o mundo, mas para o salvar (cf. Jo 3, 17). O Pai no-Lo deu, com imensa misericórdia; deu-O para todos; deu-O para sempre. E Ele nasceu como uma chamazinha acesa na escuridão e no frio da noite.

Aquele Menino, nascido da Virgem Maria, é a Palavra de Deus que Se fez carne; a Palavra que guiou o coração e os passos de Abraão rumo à terra prometida, e continua a atrair aqueles que confiam nas promessas de Deus; a Palavra que guiou os judeus no caminho desde a escravidão à liberdade, e continua a chamar os escravos de todos os tempos, incluindo os de hoje, para saírem das suas prisões. É Palavra mais luminosa do que o sol, encarnada num pequenino filho de homem, Jesus, luz do mundo.

Por isso, o profeta exclama: «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9,1). É verdade que há trevas nos corações humanos, mas é maior a luz de Cristo; há trevas nas relações pessoais, familiares, sociais, mas é maior a luz de Cristo; há trevas nos conflitos económicos, geopolíticos e ecológicos, mas é maior a luz de Cristo.

Que Jesus Cristo seja luz para tantas crianças que padecem pela guerra e pelos conflitos no Médio Oriente e em vários países do mundo; seja conforto para o amado povo sírio, ainda sem fim à vista das hostilidades que dilaceraram o país nesta década; sacuda as consciências dos homens de boa vontade; inspire os governantes e a comunidade internacional, para encontrar soluções que garantam a segurança e a convivência pacífica dos povos da Região e ponham termo aos seus sofrimentos; seja sustentáculo para o povo libanês, para poder sair da crise atual e redescobrir a sua vocação de ser mensagem de liberdade e coexistência harmoniosa para todos.

Que o Senhor Jesus seja luz para a Terra Santa, onde Ele nasceu, Salvador do homem, e onde continua a expetativa de tantos que, apesar de cansados mas sem se perder de ânimo, aguardam dias de paz, segurança e prosperidade; seja consolação para o Iraque, atravessado por tensões sociais, e para o Iémen, provado por uma grave crise humanitária.
Que o Menino pequerrucho de Belém seja esperança para todo o continente americano, onde várias nações estão a atravessar um período de convulsões sociais e políticas; revigore o querido povo venezuelano, longamente provado por tensões políticas e sociais, e não lhe deixe faltar a ajuda de que precisa; abençoe os esforços de quantos se empenham em favorecer a justiça e a reconciliação e trabalham para superar as várias crises e as inúmeras formas de pobreza que ofendem a dignidade de cada pessoa.

Que o Redentor do mundo seja luz para a querida Ucrânia, que aspira por soluções concretas para uma paz duradoura.

Que o Senhor recém-nascido seja luz para os povos de África, onde perduram situações sociais e políticas que, frequentemente, obrigam as pessoas a emigrar, privando-as duma casa e duma família; haja paz para a população que vive nas regiões orientais da República Democrática do Congo, martirizada por conflitos persistentes; seja conforto para quantos padecem por causa das violências, calamidades naturais ou emergências sanitárias; dê consolação a todos os perseguidos por causa da sua fé religiosa, especialmente os missionários e os fiéis sequestrados, e para quantos são vítimas de ataques de grupos extremistas, sobretudo no Burkina Faso, Mali, Níger e Nigéria.

Que o Filho de Deus, descido do Céu à terra, seja defesa e amparo para todos aqueles que, por causa destas e outras injustiças, devem emigrar na esperança duma vida segura. É a injustiça que os obriga a atravessar desertos e mares, transformados em cemitérios; é a injustiça que os obriga a suportar abusos indescritíveis, escravidões de todo o género e torturas em campos de detenção desumanos; é a injustiça que os repele de lugares onde poderiam ter a esperança duma vida digna e lhes faz encontrar muros de indiferença.

Que o Emmanuel seja luz para toda a humanidade ferida. Enterneça o nosso coração frequentemente endurecido e egoísta e nos torne instrumentos do seu amor. Através dos nossos pobres rostos, dê o seu sorriso às crianças de todo o mundo: às crianças abandonadas e a quantas sofreram violências. Através das nossas frágeis mãos, vista os pobres que não têm nada para se cobrir, dê o pão aos famintos, cuide dos enfermos. Pela nossa frágil companhia, esteja próximo das pessoas idosas e de quantas vivem sozinhas, dos migrantes e dos marginalizados. Neste dia de festa, dê a todos a sua ternura e ilumine as trevas deste mundo.


VN

Homilia no Natal do Senhor (Missa da Noite)

A luz divina nos transfigure agora

Por vezes, o mais recorrente não é o mais apercebido. Pode acontecer também com o Natal, enquanto época do ano, habitual apenas. É habitual o calendário, mas não devemos estar habituados nós, antes disponíveis e atentos à novidade que traz. Se assim não fosse, também não seria divino, de Deus que nos surpreende sempre. É esta a sua marca autêntica.
Surpresa significa diferença. Deixar-se surpreender é o princípio da conversão. Como luz que subitamente desponta, para contrastar o dia antecipado com a noite onde estávamos. Importa muito aceitar tal contraste, irredutível.
Celebra Natal quem teve Advento. O roxo litúrgico dá lugar ao branco, como a conversão à festa. Doutro modo não poderia ser. Não vale muito termos as ruas artificialmente iluminadas, se não tivermos a alma luminosa. Nem valem montras atrativas de mil coisas, se não tivermos ganho a única qualidade que importa. Não valem os presentes só por si, sem nos tornarmos nós presentes aos outros: atentos, prestáveis e realmente próximos.
Nenhuma luz de fora nos dará o Natal de Cristo. Pode até distrair-nos do essencial, da conversão à luz divina que desponta nas boas consciências. Na consciência de quem se reconhece e diz como aquele cego do Evangelho: «Senhor, fazei que eu veja!» Para O seguir depois e sempre.
Anoiteçamos nós, para que tudo amanheça. Não é mero acaso estarmos aqui de noite, quase à antiga hora do “cantar do galo”. A Liturgia do Advento, com os seus hinos, toca-nos sempre e muito, em especial neste ponto, da luz ansiada. Sucedem-se os versos, quase decorados, que sempre nos despertam: «Não demoreis, ó Salvador do mundo / Erguei-vos, ó divina claridade / Ó Sol do novo dia, Luz, Verdade / Vencei da noite o sono tão profundo». Ou ainda estes: «Uma voz que vem de longe / Faz estremecer a noite / Prometendo a madrugada / Que anuncia a luz de Cristo». E igualmente: «Vós que sois luz infinita / Vinde já ao nosso mundo /Iluminar a cegueira / Para vermos o caminho». Ouvimos há pouco ao Profeta: «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar». Quando pela primeira vez o disse, dirigia-se a um reino perdido, para reavê-lo. Mas agora refere-nos a nós, se nos deixarmos irromper das trevas que tivermos. Das trevas em que muito infelizmente podemos permanecer. Ou distrair, tomando por luz um qualquer fogo-fátuo. Não faltam, infelizmente, esses clarões rápidos e vazios.
Quando a Liturgia não descura o ato penitencial, íntimo, sincero e verdadeiro, coloca-nos no ponto certo, em penitência ativa. Reconhecemo-nos trevas e buscamos luz. Nesse mesmo ponto acertamos com Deus, que aí mesmo nos espera e ilumina.
Realiza-se a profecia e vislumbra-se o Natal. Ganham realismo as palavras que também ouvimos, como grandeza que nasce pequena, quando à nossa humilhação corresponde a humildade de Deus: «Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz”».

Assim aconteceu no Natal de Cristo: «Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz…» (Lc 2, 1 ss). Reparemos que era noite, quando o Anjo os envolveu em luz. Ficaram naturalmente assustados, por serem sobrenaturalmente surpreendidos.
Trata-se da mesma sucessão, litúrgica também, como há pouco passámos do ato penitencial à exultação do Glória, que ainda nos ecoa por dentro, como foi sobre o presépio de Belém. E eles foram, os pastores, como nós havemos de ir agora, convertidos das trevas à luz, da noite escura ao amanhecer do dia. Sempre e só assim, numa cadência realmente natalícia.  
Pois se trata disso mesmo, como ouvimos ao Apóstolo: «Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos para vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e piedade aguardando a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo».
A presença de Cristo, ressuscitado agora, é um “Natal” permanente a que devemos acorrer, sem adiar a conversão. – Porque havíamos de retardar em nós a glória que se manifesta n’Ele? – Porque havíamos de demorar aos outros o reflexo da luz de Cristo, como tantos no-la refletem também – os que realmente são «como astros no mundo», no expressivo dizer de São Paulo (cf. Fl 2, 15).
Sim, há muito Natal neste mundo, em muitas vidas que dissipam trevas com a luz de Cristo. Somemo-nos nós, incidindo luminosamente nas famílias, nas comunidades, nos vários setores da vida social em que o Evangelho connosco se fará vida.
Porque as trevas persistem, impedindo-nos de ver os outros e a Deus nos outros, por vezes bem próximos e a reclamar atenção e auxílio – como o Menino do Presépio requeria para si. Trevas não faltam, quando também nos ensombram notícias de perseguição aos cristãos e a minorias, quase genocídio por vezes, perante tanta indiferença e contradição com direitos consignados e boas intenções propaladas. Trevas não faltam, quando a própria natureza se contamina e ofusca – ela que, em si mesma, proclama a glória de Deus e o seu poder criador. Trevas não faltam… Reconheçamo-las então. Deixemos que a luz divina nos ilumine em cheio e nos transfigure a nós. Há muita gente à espera dessa luz, do Natal que lhe devemos. Rezemos ainda mais convictamente nas próximas Laudes estes versículos do Benedictus: «… graças ao coração misericordioso do nosso Deus / Que das alturas nos visita como sol nascente / Para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte / E dirigir os nossos passos no caminho da paz».    
O Natal está divinamente garantido, como luz que rebrilha. Dissipemos as nuvens que em nós o ofusquem. - Desejemos aos outros o “feliz Natal” que lhes daremos!

Sé de Lisboa, 25 de dezembro de 2019
+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Patriarcado de Lisboa

24 dezembro, 2019

Mensagem de Natal do Cardeal-Patriarca de Lisboa D. Manuel Clemente - 2019



[Transcrição das palavras proferidas na mensagem que foi emitida na TV e na Rádio]

Muito boa noite a todos, os que me aceitam durante alguns minutos em suas casas, nesta consoada de Natal de 2019, para partilhar convosco algo que está, certamente, no coração de todos, com mais ou menos clareza: um dia bonito, uma noite muito especial, as famílias reúnem-se, os amigos reencontram-se, oferecem-se presentes, as ruas, em muitos lados, estão iluminadas... Tanta festa que faz com que este dia, e sempre seja assim, seja realmente especial.
Corre o risco de nos despistar um pouco, com tanta realidade exterior, com tanta luz de fora, daquilo que é o seu essencial: porque é que existe Natal? Natal significa “nascimento”. E não é um nascimento qualquer, é o nascimento de Cristo, há dois milénios, em Belém de Judá, e é esse o acontecimento que nós, realmente, estamos a celebrar, para sermos autênticos e para termos todo o fruto e proveito para as nossas vidas, das nossas famílias e da nossa sociedade inteira.

O Papa Francisco ofereceu-nos um presente, no princípio deste mês de dezembro, que foi uma carta sobre o Presépio [1]. É um documento muito original – porque não é vulgar, em documentos pontifícios, esta acentuação –, mas muito sugestivo naquilo que nos diz. Ele diz que nós devemos retomar esta tradição do Presépio. A palavra “Presépio”, como nós sabemos, é uma palavra latina e que traduz a palavra “manjedoura”, porque quando Jesus nasceu foi numa manjedoura, também. O Papa Francisco relembra que esta tradição de fazer Presépios, retomando aquele contorno em que Jesus nasceu, remonta há 800 anos atrás, quando São Francisco de Assis o quis fazer numa gruta de Greccio, em Itália, retomando – tanto quanto pôde – o essencial daquilo que tinha acontecido em Belém: a gruta, os animais, aquela pobreza em que Jesus apareceu. E, a partir daí, esta tradição dos presépios foi-se desenvolvendo, um pouco por todo o lado. O Papa não refere Portugal, mas nós podemos referir porque todos temos estas imagens bem presentes, dos nossos grandes barristas e autores de presépios do século XVIII, que, à volta da gruta de Belém, à volta do Menino, da sua Mãe, do seu Pai adotivo, dos pastores, vão reunindo muitas outras personagens que representam um pouco toda a vida, desde as coisas mais comuns, os alimentos que se procuram, o gado que se guarda, as várias profissões e ofícios...
O Papa relembra que, à volta do Presépio, toda a vida pode e deve encontrar-se nas suas mais diversas manifestações. Depois, o Papa particulariza e diz que a natureza está presente, naquela noite iluminada, naqueles pastores que vêm com os seus gados, com tudo aquilo que vai contornando os nossos presépios... É a natureza! E a natureza precisa de se reencontrar, como nós sabemos, com toda esta premência ecológica. O Papa recorda também aqueles que vêm ao Presépio. Antes de mais, os pastores: gente simples que vivia do essencial e que também, nesse sentido, nos tem uma lição a dar para vivermos aquilo que realmente importa, embora importe a todos. Depois, vai relembrando as outras personagens: a Sagrada Família, o próprio Jesus, Maria, José. Maria que acolhe aquele Menino e que O mostra – e isto é uma realidade que, para nós, cristãos, é muito presente, como está nos Evangelhos –, e que acompanha o percurso do seu Filho e a todos encaminha em direção a Ele. Depois, recorda José e o seu papel de guardião daquilo que acontecia com Maria e com o Menino, não só em Belém, mas ao longo da sua vida, do seu crescimento em Nazaré da Galileia. E também os Magos, gente que vem de longe, gente que procura, gente que encontra, finalmente, e quando encontra, oferece, oferece aquilo que trazia porque encontrou o mais importante: Jesus.
Todas estas realidades – diz o Papa – nos devem levar a entrar também no Presépio, para que esses sentimentos que essas personagens representavam, sejam também os nossos sentimentos, no acolhimento de um Deus que nasce na maior das simplicidades, identificando-se com tudo quanto é simples e frágil e que aí mesmo nos espera, com todos aqueles que guardam esta realidade, como Maria, como José, com todos aqueles que acorrem ao essencial, como os pastores, com todos aqueles que procuram, de longe, e finalmente encontram.

Esta é que é a realidade do Natal, porque Natal quer dizer “nascimento”, nascimento de Deus no mundo como na tradição cristã se apresenta e que, hoje, é tão importante apresentar assim. Ou seja, na fragilidade das coisas, na ocorrência normal das vidas, mas tudo concentrado em torno do essencial.
Quando se fala em presentes, o mais importante é que cada um de nós também se torne presente onde precisamos de estar. Porque, por vezes, oferecem-se presentes de fora para, de alguma maneira, colmatar – mas sem o conseguir – a falta de presença real junto dos outros e daquelas realidades que nos esperam. Que a lição do Presépio seja a nossa verdade e, na alegria desta noite, seja também a reconstrução do mundo.

Um Santo e Feliz Natal para todos!

Patriarcado de Lisboa

Homilia do Papa Francisco na Noite de Natal


Papa Francisco na Missa na Noite de Natal 

"Querido irmão, querida irmã, se as tuas mãos te parecem vazias, se vês o teu coração pobre de amor, esta é a tua noite. Manifestou-se a graça de Deus, para resplandecer na tua vida. Acolhe-a e brilhará em ti a luz do Natal
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HOMILIA DO SANTO PADRE

NA EUCARISTIA

DA NOITE DE NATAL

(Basílica de São Pedro, 24 de dezembro de 2019)

«Habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles» (Is 9, 1). Esta profecia da Primeira Leitura realizou-se no Evangelho: de facto, enquanto os pastores velavam de noite nas suas terras, «a glória do Senhor refulgiu em volta deles» (Lc 2, 9). Na noite da terra, apareceu uma luz vinda do Céu. Que significa esta luz que se manifestou na escuridão? No-lo sugere o apóstolo Paulo quando diz: «Manifestou-se a graça de Deus». Nesta noite, a graça de Deus, «portadora de salvação para todos os homens» (Tt 2, 11), envolveu o mundo.

Mas, que é esta graça? É o amor divino, o amor que transforma a vida, renova a história, liberta do mal, infunde paz e alegria. Nesta noite, foi-nos mostrado o amor de Deus: é Jesus. Em Jesus, o Altíssimo fez-Se pequenino, para ser amado por nós. Em Jesus, Deus fez-Se Menino, para Se deixar abraçar por nós. Mas podemos ainda perguntar-nos: Porque é que São Paulo chama «graça» à vinda de Deus ao mundo? Para nos dizer que é completamente gratuita. Enquanto aqui, na terra, tudo parece seguir a lógica do dar para receber, Deus chega de graça. O seu amor ultrapassa qualquer possibilidade de negócio: nada fizemos para o merecer, e nunca poderemos retribuí-lo.

Manifestou-se a graça de Deus. Nesta noite, damo-nos conta de que, não sendo nós capazes da altura d’Ele, por amor nosso desceu à nossa pequenez; vivendo preocupados apenas com os nossos interesses, veio Ele habitar entre nós. O Natal lembra-nos que Deus continua a amar todo o homem, mesmo o pior. Hoje diz a mim, a ti, a cada um de nós: «Amo-te e sempre te amarei; és precioso aos meus olhos». Deus não te ama, porque pensas certo e te comportas bem; ama-te… e basta! O seu amor é incondicional, não depende de ti. Podes ter ideias erradas, podes tê-las combinado de todas as cores, mas o Senhor não desiste de te querer bem. Quantas vezes pensamos que Deus é bom, se formos bons; e castiga-nos, se formos maus; mas não é assim! Nos nossos pecados, continua a amar-nos. O seu amor não muda, não é melindroso; é fiel, é paciente. Eis o dom que encontramos no Natal: com maravilha, descobrimos que no Senhor está toda a gratuidade possível, toda a ternura possível. A sua glória não nos encandeia, nem a sua presença nos assusta. Nasce pobre de tudo, para nos conquistar com a riqueza do seu amor.

Manifestou-se a graça de Deus. Graça é sinónimo de beleza. Nesta noite, na beleza do amor de Deus redescobrimos também a nossa beleza, porque somos os amados de Deus. No bem e no mal, na saúde e na doença, felizes ou tristes, sempre aparecemos lindos a seus olhos: não pelo que fazemos, mas pelo que somos. Em nós, há uma beleza indelével, intangível; uma beleza incancelável, que é o núcleo do nosso ser. Deus no-lo recorda hoje, tomando amorosamente a nossa humanidade e assumindo-a, «desposando-a» para sempre.

A «grande alegria», anunciada aos pastores nesta noite, é verdadeiramente «para todo o povo». Naqueles pastores, que santos não eram certamente, estamos também nós, com as nossas fragilidades e fraquezas. Deus, tal como chamou a eles, chama a nós também, porque nos ama. E, nas noites da vida, diz-nos como a eles: «Não temais» (Lc 2, 10). Coragem, não percais a confiança nem a esperança; não penseis que amar seja tempo perdido! Nesta noite, o amor venceu o medo, manifestou-se uma nova esperança; a luz gentil de Deus venceu as trevas da arrogância humana. Humanidade, Deus ama-te e, por ti, fez-Se homem; já não estás sozinha.

Amados irmãos e irmãs, que fazer perante esta graça? Uma coisa só: acolher o dom. Antes que ir à procura de Deus, deixemo-nos procurar por Ele. Não partamos das nossas capacidades, mas da sua graça, porque é Ele, Jesus, o Salvador. Fixemos o olhar no Menino e deixemo-nos envolver pela sua ternura. As desculpas para não nos deixarmos amar por Ele, desapareceram: aquilo que está torto na vida, aquilo que não funciona na Igreja, aquilo que corre mal no mundo não poderá mais servir-nos de justificação. Passou a segundo plano, pois frente ao amor louco de Jesus, a um amor todo ele mansidão e proximidade, não há desculpas. E, assim, a questão no Natal é esta: «Deixo-me amar por Deus? Abandono-me ao seu amor que vem salvar-me?»

Um dom tão grande merece tanta gratidão! Acolher a graça é saber agradecer. Frequentemente, porém, as nossas vidas transcorrem alheias à gratidão. Hoje é o dia justo para nos aproximarmos do sacrário, do presépio, da manjedoura, e dizermos obrigado. Acolhamos o dom que é Jesus, para depois nos tornarmos dom como Jesus. Tornar-se dom é dar sentido à vida, sendo este o melhor modo para mudar o mundo: nós mudamos, a Igreja muda, a história muda, quando começamos a querer mudar, não os outros, mas a nós mesmos, fazendo da nossa vida um dom.

Assim no-lo mostra Jesus nesta noite: não mudou a História forçando alguém ou à força de palavras, mas com o dom da sua vida. Não esperou que nos tornássemos bons para nos amar, mas deu-Se gratuitamente a nós. Por nossa vez, não esperemos que o próximo se torne bom para lhe fazermos bem, que a Igreja seja perfeita para a amarmos, que os outros tenham consideração por nós para os servirmos. Comecemos nós. Isto é acolher o dom da graça. E a santidade consiste precisamente em preservar esta gratuticidade.

Conta uma graciosa história que, no nascimento de Jesus, os pastores acorriam à gruta com vários dons. Cada um levava o que tinha, ora os frutos do seu trabalho, ora algo precioso. Mas, enquanto todos se prodigalizavam com generosidade, havia um pastor que não tinha nada. Era muito pobre, não tinha nada para oferecer. E enquanto todos se emulavam na apresentação dos seus dons, ele mantinha-se aparte, com vergonha. A dada altura, São José e Nossa Senhora sentiram dificuldade para receber todos os dons, especialmente Maria que devia segurar nos braços o Menino. Então, vendo com as mãos vazias aquele pastor, pediu-lhe que se aproximasse e colocou-lhe Jesus nas mãos. Ao acolhê-Lo, aquele pastor deu-se conta de ter recebido aquilo que não merecia: ter nas mãos o maior dom da História. Olhou para as suas mãos, aquelas mãos que lhe pareciam sempre vazias: tornaram-se o berço de Deus. Sentiu-se amado e, superando a vergonha, começou a mostrar aos outros Jesus, porque não podia guardar para si o dom dos dons.

Querido irmão, querida irmã, se as tuas mãos te parecem vazias, se vês o teu coração pobre de amor, esta é a tua noite. Manifestou-se a graça de Deus, para resplandecer na tua vida. Acolhe-a e brilhará em ti a luz do Natal.

VN

23 dezembro, 2019

Um Pontificado em caminho pelas estradas do mundo

 
 Papa Francisco no Japão  (Vatican Media)
 
O Papa Francisco realizou sete viagens apostólicas internacionais em onze países. Um “Pontificado itinerante” que centraliza as periferias geográficas e existenciais
 
Alessandro Gis

“Vou confidenciar-vos: eu não gosto de viajar”. São as palavras aparentemente surpreendentes que o Papa pronunciava em 8 de junho passado ao encontrar um grupo de jovens no Vaticano durante a iniciativa “O Trem das Crianças”. Na realidade, sabe-se que quando era arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio raramente se afastava da sua diocese. Fazia poucas viagens internacionais, na maioria na América Latina ou em Roma para os Sínodos ou Consistórios. Porém Francisco manteve sempre vivo o espírito de viajante, espírito missionário, que desde jovem sonhava em ir ao Japão nas pegadas de São Francisco Xavier.

Desejo que, de um modo imprevisível para o jovem jesuíta argentino, Bergoglio pôde realizar este ano como Papa ao visitar a Terra do Sol Nascente. Na verdade, dentro da sua diocese, a imensa Buenos Aires, o futuro Pontífice nunca ficava parado. Ia para todos os cantos da cidade, utilizando quase sempre meios de transporte público. “Algo normal” para o bispo e mais tarde cardeal argentino, mas que depois da sua eleição a Pontífice, causou grande sensação quando foram divulgadas algumas fotos do novo Papa no metro e autocarros da capital argentina.

Portanto, um bispo “caminhador”, “callejero”, no meio do povo e que preferia usar o seu tempo nas Villas Miserias, nas “periferias existenciais” da metrópole, do que no centro da cidade. Portanto um bispo que viaja sempre na sua diocese. E assim, quando se tornou Papa, Francisco imediatamente sentiu que agora a sua diocese era o mundo e que devia coloca-se de novo a caminho, com o mesmo espírito que o tinha animado até então, mas em um espaço bem maior.

De resto, na mesma audiência aos jovens do “Trem das crianças”, Francisco falava a respeito de viagens: “Para mim aconteceu o que acontece às crianças mimadas: não gostam da sopa? Dois pratos! Não gostam de viagens? Vais viajar muito… na verdade durante as viagens encontramos muita gente,  gente boa e aprende-se muito”. Nesta resposta, tão simples e direta encontra-se o valor das viagens do Papa Francisco: encontrar as pessoas, conhecer os contextos. De algum modo, como observou recentemente o Washington Post  num artigo de Chico Harlan, para o Papa, as viagens apostólicas servem para “reformar a Igreja” colocando no centro as periferias das quais extrair “linfa” para encaminhar novos processos de evangelização.

Um pontificado “itinerante”, “sinodal”, como foi visto neste ano de 2019, ano recorde para as viagens apostólicas internacionais. Francisco fez 7 viagens, visitando 11 países em 4 continentes. Precisamos voltar a 1982 e a São João Paulo II para alcançar o mesmo número de visitas do Sucessor de Pedro fora das fronteiras italianas. Por outro lado, é significativo que este ano tão cheio de viagens internacionais coincida com o centenário da Maximum Illud de Bento XV sobre a atividade missionária no mundo. Com as suas viagens, Francisco sublinha exatamente a dimensão missionária do discípulo do Senhor, chamado a ser “em saída” para anunciar a Boa Nova em todo o mundo, porque nenhuma terra é longe e nenhum povo é alheio à Palavra de Deus.

“Revendo” as sete viagens deste ano pode-se encontrar os grandes pontos da ação pastoral de Francisco: os jovens, na viagem ao Panamá para a JMJ; o diálogo inter-religioso, nas viagens aos Emirados Árabes e Marrocos; o diálogo ecuménico, nas visitas à Bulgária e Macedónia do Norte e depois na Roménia. E a defesa do meio ambiente e atenção pelos pobres nas viagens a Moçambique, Madagascar e Maurício; enfim, a paz e a promoção dos direitos das mulheres e das crianças como pontos chave da viagem asiática em duas etapas: Tailândia e Japão.

Foi na saudação aos jornalistas durante o voo para a Tailândia, que o Papa observou: “Faz muito bem a todos serem informados e também conhecer as culturas que estão longe do Ocidente”. De facto, com as suas viagens, Francisco leva luz para os cantos mais ocultos do mundo, onde a mídia jamais iria, mas que graças à sua presença tornam-se “visíveis” à comunidade internacional, chamada ocupar-se dos povos e terras que normalmente são esquecidas. A “cultura do encontro” abre-se também graças às suas viagens. Viagens que duram bem mais do que o momento no qual o papa sobe no avião e volta a Roma. Não apenas para as pessoas, mas também para ele que, numa entrevista, confidenciou levar no coração as pessoas encontradas nas viagens, rezar “por elas, pelas situações dolorosas e difíceis”, “para que se reduzam as desigualdades que vi”.

VN