05 janeiro, 2019

Papa: Reis Magos representam as pessoas de todas as partes do mundo


 Papa Francisco na missa da Solenidade da Epifania em 2018  (Vatican Media)

A estrela que apareceu no céu acendeu ”no coração dos Reis Magos“ uma luz que os moveu em busca da grande Luz de Cristo”, disse o Papa Francisco na homilia da primeira missa celebrada na Solenidade da Epifania, em 2014.  

Cidade do Vaticano 

A luz da estrela, o caminho dos Reis magos e a oferta dos dons a Jesus que nos presenteia a sua vida. Estes são os temas sobre os quais o Papa Francisco se deteve nas homilias das missas celebradas na Solenidade da Epifania do Senhor, desde o início de seu pontificado. 

Reis Magos, guardiões da fé
 
“A estrela que apareceu no céu acendeu” no coração dos Reis Magos “uma luz que os moveu em busca da grande Luz de Cristo”, disse o Papa Francisco na homilia da primeira missa celebrada na Solenidade da Epifania, em 2014.

O Pontífice recordou que é “a esperteza santa”, a dos Reis Magos, que nos guia no caminho da fé, que “não nos faz cair nas armadilhas das trevas” e nos ensina “como nos defendermos das trevas que buscam envolver a nossa vida”.

“Neste tempo é muito importante guardar a fé. É preciso ir além da escuridão, além do encanto das sereias, além da mundanidade, além de muitas modernidades que existem hoje, e caminhar rumo a Belém, onde na simplicidade de uma casa da periferia, entre uma mãe e um pai cheios de amor e fé, resplandece o Sol que nasceu do alto, o Rei do universo”, disse o Papa. 

Abaixar-se a Deus
 
“A luz da estrela ilumina ainda hoje as pessoas que buscam a Deus”, sublinhou Francisco na homilia da missa celebrada em 6 de janeiro de 2015, lembrando que é a graça do Espírito Santo que faz com que os Reis Magos encontrem o verdadeiro Deus, que recusem o engano de Herodes, aceitando a pequenez da Criança que eles adoraram, oferecendo presentes preciosos. “O amor de Deus é grande, é poderoso e humilde, muito humilde”, disse o Pontífice. 

Acolhidos na casa do Senhor
 
“Os Reis Magos representam as pessoas de todas as partes do mundo que são acolhidas na casa de Deus”, destacou o Papa na homilia da missa celebrada em 2016. “Diante de Jesus não há mais divisão de raça, língua e cultura: naquele Menino a humanidade encontra a sua unidade”. Portanto, eis a tarefa da Igreja: despertar o desejo de Deus, encorajar a colocar-se a caminho, esquecendo os interesses cotidianos, seguindo a voz do Espírito Santo.

“A Igreja tem a tarefa de reconhecer e fazer emergir de maneira mais clara o desejo de Deus que cada um carrega dentro de si. Este é o serviço da Igreja, com a luz que ela reflete. Como os Reis Magos, muitas pessoas, mesmo nos nossos dias, vivem com o “coração inquieto” que continua a fazer perguntas sem encontrar respostas certas. É a inquietação do Espírito Santo que se move nos corações. Elas também estão a procurar a estrela que indica o caminho para Belém”, frisou o Papa. 

Um coração não anestesiado
 
Na missa da Epifania de 2017, Francisco explicou a saudade de Deus, “atitude que rompe o conformismo entediante” e “tira-nos dos recintos deterministas”. Os Reis Magos são o retrato do fiel, “refletem a imagem de todos os homens que nas suas vidas não deixaram anestesiar os seus corações”. Eles descobrem que “o olhar desse Rei desconhecido, mas desejado, não humilha, não escraviza e não aprisiona”.

“Descobrir que o olhar de Deus levanta, perdoa e cura. Descobrir que Deus quis nascer lá onde não esperávamos, onde talvez não o queremos ou onde nós o negamos muitas vezes. Descobrir que no olhar de Deus há lugaro seu poder chamam-se misericórdia”, sublinhou o Pontífice naquela ocasião. 

A estrela do Senhor é sempre presente
 
Manter os olhos no alto, entender que “o sucesso, dinheiro, carreira, honrarias e prazeres” despertam fortes emoções, mas são “meteoros: brilham por algum tempo, mas acabam logo”. Foi o que Papa enfatizou na homilia da missa celebrada no ano passado, destacando que “a estrela do Senhor nem sempre é deslumbrante, mas é sempre presente”, “na vida pega-nos pela mão”, “garante a paz e doa, como aos Reis Magos, uma grande alegria”.

VN

04 janeiro, 2019

Cardeal Parolin, aos operários vaticanos: a fé é um encontro

 
Secretário de Estado vaticano, cardeal Pietro Parolin 
 
Todo o Evangelho nada mais é do que uma série de encontros de Jesus com aqueles que cruzam os seus caminhos. Mas o Senhor continua hoje a encontrar os homens, porque ressuscitou e vive caminhando ao lado deles, e com os sentidos do coração é possível colher a sua presença, observou o purpurado.
 
Cidade do Vaticano

A vida do cristão deve tornar-se um dedo apontado para Jesus, ou seja, um testemunho claro que indique aos outros onde se encontra a salvação e o verdadeiro amor. Foi o que disse o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, celebrando esta sexta-feira (04/01), num galpão da zona industrial vaticana, a missa com os operários dos serviços técnicos, por ocasião da primeira sexta-feira do mês. 

Centro da fé cristã é o encontro com Jesus

Partindo do trecho do Evangelho segundo São João (1, 35-42) que fala do encontro do Batista com Jesus “o cordeiro de Deus”, o purpurado repropôs uma frase de Bento XVI: “O cristianismo antecedentemente a uma moral ou uma ética, é um evento de amor, é acolher a pessoa de Jesus”. Daí, a reafirmação de que o centro da fé cristã não é um conjunto de pensamentos, nem uma moral, mas um encontro.

Com efeito, todo o Evangelho nada mais é do que uma série de encontros de Jesus com aqueles que cruzam os seus caminhos. Mas o Senhor continua hoje a encontrar os homens, porque ressuscitou e vive caminhando ao lado deles, e com os sentidos do coração é possível colher a sua presença, observou o secretário de Estado.

O celebrante exortou os presentes a pensar, quando se deu para cada um o primeiro encontro com Jesus: com a constatação de que muitas vezes essa experiência se verifica no ambiente familiar.
 
Toda a Igreja deve apontar sempre para Jesus
 
O purpurado reevocou também as palavras do Papa Francisco sobre a conversão do apóstolo Paulo no caminho de Jerusalém para Damasco: a sua transformação não foi uma mudança moral, mas uma experiência transformadora que o levou a uma nova missão.

Retornando o trecho evangélico proposto pela liturgia, o cardeal Parolin identificou algumas características do encontro entre João Batista e Jesus: o precursor é verdadeiramente um dedo apontado para Cristo. Então a pergunta deveria ser: quem é hoje que indica Jesus, a não ser a própria Igreja? Todas as estruturas, os aparatos e a organização, também dentro do Vaticano, têm a finalidade de ser um dedo apontado para Jesus.

E a Igreja, nas suas múltiplas realidades, por vezes inclusive contraditórias, deve ser sempre e em todo caso um dedo apontado para o Senhor, para não correr o risco de se colocar no centro esquecendo a sua verdadeira missão.

Do Evangelho deduz-se que o encontro nasce de uma necessidade presente em cada pessoa. Nota-se uma espécie de expetativa. Essa experiência nasce de uma pobreza que o homem carrega consigo e que é essencialmente pobreza de amor, afirmou o purpurado.
 
Ser testemunhas de Cristo em todos os ambientes
 
As pessoas podem decepcionar, mas Jesus com o seu amor jamais dececiona. Ele conhece as profundas expetativas do coração humano. Nasce daí o encontro no qual cada um coloca nas mãos do Senhor a própria pobreza e a necessidade de amor. Somente sentindo-se amado o homem é capaz de tornar-se testemunha, ou seja, indicar Jesus aos outros, ajudando-os a fazer a mesma experiência.

O cardeal concluiu convidando todos a serem testemunhas de Cristo no ambiente familiar, entre os amigos, no lugar de trabalho, onde quer que seja, a fim de que também outros possam tornar-se, por sua vez, testemunhas de seu amor.
 
Concelebrantes
 
A missa foi concelebrada por Mons. Robert Murphy, da Secretaria de Estado; pelo diretor dos Serviços técnicos do Governatorato, Pe. Rafael García de la Serrana Villalobos; e pelo pároco de Sant’Ana no Vaticano, o agostiniano Pe. Bruno Silvestrini, o qual ao terminar o rito agradeceu ao purpurado, recordando que pouco a pouco no ambiente de trabalho da zona industrial vaticana se vai consolidando a amizade que torna toda a comunidade uma verdadeira família.

(L’Osservatore Romano) - RV

03 janeiro, 2019

Papa aos bispos dos EUA sobre a crise de abuso: oração e discernimento


Papa Francisco recebe bispos dos Estados Unidos (ANSA)

O Papa Francisco escreve aos Bispos dos Estados Unidos no seu retiro espiritual. No contexto dos escândalos de abuso, pede "conversão" e "comunhão fraterna", em oposição a soluções meramente administrativas. 

Cidade do Vaticano 

O Papa Francisco enviou uma carta aos Bispos da Conferência Episcopal dos Estados Unidos reunidos desde a última quarta-feira (02/01) no seminário de Mundelein, na Arquidiocese de Chicago, para um retiro espiritual. Será uma semana de oração como pediu o Papa Francisco no convite dirigido a toda a Conferência episcopal do país, no contexto do escândalo dos abusos que atingiu a Igreja nos EUA.

Na sua carta o Santo Padre escreve que no último dia 13 de setembro, durante o encontro que teve com a Presidência da Conferência Episcopal, propôs “que fizéssemos juntos os Exercícios Espirituais: um tempo de retiro, oração e discernimento como elo necessário e fundamental no caminho para enfrentar e responder evangelicamente à crise de credibilidade que vocês atravessam como Igreja. Vemos isto no Evangelho, o Senhor nos momentos importantes da sua missão retirava-se e passava a noite inteira em oração, convidando os seus discípulos a fazer o mesmo”. “Sabemos – continua o Papa - que a importância dos eventos não resiste a qualquer resposta ou atitude; pelo contrário, exige de nós pastores a capacidade e sobretudo a sabedoria de gerar uma palavra, fruto de escuta sincera, orante e comunitária da Palavra de Deus e da dor do nosso povo. Uma palavra gerada na oração do pastor que, como Moisés, luta e intercede pelo seu povo”.

No encontro, - escreve o Papa Francisco – “expressei ao cardeal DiNardo e aos bispos presentes o meu desejo de acompanhá-los pessoalmente por alguns dias, nestes Exercícios Espirituais, o que foi acolhido com alegria e esperança. Como sucessor de Pedro, gostaria de unir-me a vós e convosco implorar ao Senhor que envie o seu Espírito capaz de "renovar todas as coisas" e mostrar os caminhos de vida que, como Igreja, somos chamados a seguir para o bem de todas as pessoas que nos foram confiadas. Apesar dos esforços realizados, devido a problemas logísticos, não poderei acompanhá-los pessoalmente. Esta carta – sublinha o Santo Padre - quer compensar, de alguma forma, a viagem não realizada. Também me alegra que vocês tenham aceite a oferta para que seja o pregador da Casa Pontifícia a guiar os Exercícios Espirituais com a sua sábia experiência espiritual.

Com estas linhas, desejo estar mais perto de vós e como irmão refletir e partilhar alguns aspetos que considero importantes, e também estimulá-los na oração e nos passos que vocês dão na luta contra a "cultura do abuso" e na maneira de enfrentar a crise de credibilidade.

“Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos” (Mc 10, 43-44). Estas palavras, com as quais Jesus encerra a discussão e ressalta a indignação que nasce entre os discípulos quando ouvem Tiago e João a pedir para sentarem-se à direita e à esquerda do Mestre, servirão como guia nesta reflexão que desejo realizar convosco.

Francisco evidencia na sua carta que o Evangelho não tem medo de revelar e destacar certas tensões, contradições e reações que existem na vida da primeira comunidade de discípulos; pelo contrário, parece fazê-lo ex-professo: busca pelos primeiros lugares, ciúmes, invejas, arranjamentos e acomodações. Assim também como todas as intrigas e complôs que, às vezes secretamente e outras publicamente, se organizavam em torno da mensagem e da pessoa de Jesus pelas autoridades políticas, religiosas e dos mercadores da época. Conflitos que aumentavam à medida que se aproximava a Hora de Jesus no seu dom de si mesmo na cruz, quando o príncipe deste mundo, o pecado e a corrupção pareciam ter a última palavra contaminando tudo de amargura, desconfiança e murmúrio.

Como profetizou o idoso Simeão,  - continua o Papa Francisco na sua carta - os momentos difíceis e cruciais têm a capacidade colocar à luz os pensamentos íntimos, as tensões e as contradições que habitam pessoal e comunitariamente nos discípulos. Ninguém pode ser considerado isento disso; somos convidados como comunidade a vigiar para que, nesses momentos, as nossas decisões, opções, ações e intenções não sejam viciadas (ou menos viciadas possível) por estes conflitos e tensões internas, e sejam, acima de tudo, uma resposta ao Senhor que é vida para o mundo. Nos momentos de maior turbamento, é importante prestar atenção e discernir para ter um coração livre de compromissos e de aparentes certezas para ouvir o que mais agrada ao Senhor na missão que nos foi confiada. Muitas ações podem ser úteis, boas e necessárias e até podem parecer corretas, mas não todas têm "sabor" de Evangelho. Se vocês permitem dizer de modo coloquial: é preciso fazer atenção para que "o remédio não se torne pior do que a doença". E isso requer de nós sabedoria, oração, muita escuta e comunhão fraterna.

Na continuação da carta o Papa Francisco destaca os dois pontos: 1 “Entre vós não deve ser assim”. 2 “Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos”.

O Papa destaca que nos últimos tempos, a Igreja nos Estados Unidos foi abalada por muitos escândalos que afetam a sua credibilidade no sentido mais profundo. Tempos tempestuosos na vida de tantas vítimas que sofreram na sua carne o abuso de poder, de consciência e sexual por parte de ministros ordenados, consagrados, consagradas e fiéis leigos; tempos tempestuosos e de cruz para essas famílias e todo o povo de Deus.

A credibilidade da Igreja tem sido fortemente questionada e debilitada por esses pecados e crimes, mas especialmente pelo desejo de dissimulá-los e escondê-los, o que gerou um maior sentimento de insegurança, de desconfiança e de falta de proteção nos fiéis. A atitude de ocultação, como sabemos, longe de ajudar a resolver os conflitos, permitiu-lhes perpetuar-se e ferir mais profundamente o entrelaçamento de relações a que hoje somos chamados a curar e recompor.

Estamos conscientes – continua Francisco - de que os pecados e os crimes cometidos e todas as suas repercussões a nível eclesial, social e cultural criaram uma marca e uma ferida profunda no coração do povo fiel. Encheram-no de perplexidade, desconcerto e confusão; e isso serve muitas vezes como uma desculpa para continuamente desacreditar e questionar a vida doada de tantos cristãos que "mostram o imenso amor pela humanidade inspirada no Deus feito homem" (Evangelii gaudium, n ° 76). Sempre que a palavra do Evangelho atrapalha ou se torna desconfortável, não são poucas as vozes que pretendem silenciá-la, sinalizando o pecado e as incongruências dos membros da Igreja e, mais ainda, dos seus pastores.

A luta contra a cultura do abuso,  - escreve ainda o Santo Padre - a ferida na credibilidade, bem como o desconcerto, a confusão e descrédito na missão exigem, e exigem de nós, uma nova e decisiva atitude para resolver o conflito. "Vocês sabem que aqueles que se consideram governantes - nos diria Jesus - dominam as nações como se fossem os patrões, e os poderosos fazem sentir a sua própria autoridade. Isso não deve acontecer entre vós". A ferida na credibilidade requer uma abordagem particular, porque não se resolve por decretos voluntários ou simplesmente estabelecendo novas comissões ou melhorando os organogramas de trabalho como se fôssemos chefes de uma agência de recursos humanos. Uma similar visão acaba reduzindo a missão do pastor da Igreja a uma mera tarefa administrativa/organizacional no "empreendimento da evangelização. “Sejamos claros, muitas dessas coisas são necessárias, mas insuficientes, porque não conseguem assumir e enfrentar a realidade na sua complexidade e correm o risco de acabar reduzindo tudo as problemas organizacionais”.

A ferida na credibilidade toca a nível neurológico os nossos modos de nos relacionarmos, escreve o Pontífice. “Podemos constatar que existe um tecido vital que foi danificado e, como artesãos, somos chamados a reconstruir. Isso implica a capacidade - ou não - de termos como comunidade de construir vínculos e espaços saudáveis e maduros, capazes de respeitar a integridade e a intimidade de cada pessoa. Implica a capacidade de convocar para despertar e infundir confiança na construção de um projeto comum, amplo, humilde, seguro, sóbrio e transparente. E isso requer não apenas uma nova organização, mas também a conversão da nossa mente (metanoia), de nossa maneira de rezar, de administrar o poder e o dinheiro, de viver a autoridade e também de como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo”.

Uma nova época eclesial precisa basicamente de pastores mestres de discernimento na passagem de Deus para a história de seu povo e não de simples administradores, pois as ideias debatem-se, mas as situações vitais são discernidas. Portanto, no meio da desolação e da confusão que as nossas comunidades vivem, o nosso dever é - em primeiro lugar - encontrar um espírito comum capaz de nos ajudar no discernimento, não para obter a tranquilidade fruto de um equilíbrio humano ou de um voto democrático que faça "vencer" uns sobre os outros, isso não!

Mas um modo colegialmente paternal de assumir a situação atual que proteja - acima de tudo - do desespero e da orfandade espiritual o povo que nos foi confiado. Isso nos permitirá mergulhar melhor na realidade, tentando entendê-la e ouvi-la de dentro, sem permanecer prisioneiros.

Sabemos – sublinha o Papa - que os momentos de dificuldade e de provação geralmente ameaçam a nossa comunhão fraterna, mas também sabemos que podem ser transformados em momentos de graça que fortalecem a nossa dedicação a Cristo e a tornam crível. Essa atitude pede-nos a decisão de abandonar como modus operandi o descrédito e a deslegitimação, a vitimização e a reprovação no modo de se relacionar e, ao contrário, dar espaço à brisa suave que só o Evangelho nos pode oferecer.

Não nos esqueçamos que "a falta de um reconhecimento sincero, sofrido e orante dos nossos limites é o que impede a graça de agir melhor em nós, pois não se deixa espaço para provocar esse possível bem que se integra num caminho sincero e real de crescimento".

Todos os esforços- enfatiza o Papa Francisco - que faremos para romper o círculo vicioso de repreensão, deslegitimação e descrédito, evitando o murmúrio e a calúnia, em vista a um caminho de aceitação orante e vergonhosa dos nossos limites e pecados e estimulando o diálogo, o confronto e o discernimento, tudo isso nos permitirá encontrar caminhos evangélicos que despertem e promovam a reconciliação e a credibilidade que nosso povo e a missão exigem de nós. Faremos isso se conseguirmos deixar de projetar nos outros as nossas confusões e insatisfações, que são obstáculos à unidade e se nos atrevermos a ajoelhar diante do Senhor, deixando-nos interrogar pelas suas feridas, através das quais poderemos ver as feridas do mundo. 

2. “Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos”.
 
Francisco destaca na sua longa carta que “o Povo fiel de Deus e a missão da Igreja já sofreram e sofrem muito, por causa dos abusos de poder, consciência, sexuais e da má administração, para acrescentar-lhes o sofrimento de encontrar um episcopado desunido, concentrado em desprestigiar-se mais do que em encontrar formas de reconciliação. Essa realidade impele-nos a olhar para o essencial, a despojarmo-nos de tudo que não ajuda a tornar o Evangelho de Jesus Cristo transparente”.

Hoje nos é pedido uma nova presença no mundo conforme a Cruz de Cristo, que se cristalize no serviço aos homens e mulheres do nosso tempo. Lembro-me das palavras de São Paulo VI no início de seu pontificado: "Devemos tornar-nos irmãos de homens no ato mesmo que queiramos ser os seus pastores, pais e mestres. O clima de diálogo é a amizade. Ou melhor, o serviço. Tudo isto devemos recordar, estudar e praticar de acordo com o exemplo e preceito que Cristo nos deixou”.

Esta atitude não reivindica para si os primeiros lugares nem mesmo o sucesso e aplauso para nossos atos, mas pede, a nós pastores, a opção fundamental de querer ser semente que germinará quando e onde o Senhor quiser.

Trata-se de uma opção que nos salva de cair na armadilha de medir o valor de nossos esforços com os critérios de funcionalidade e eficiência que governam o mundo dos negócios; antes, o caminho é abrir-nos à eficácia e ao poder transformador do Reino de Deus que, como um grão de mostarda - a menor e mais insignificante de todas as sementes - é capaz de se transformar num arbusto que serve para proteger. Não podemos  permitir, no meio da tempestade, perder a fé na força silenciosa, diária e operante do Espírito Santo nos corações dos homens e da história.

Credibilidade nasce da confiança, e a confiança vem do serviço sincero e cotidiano, humilde e gratuito para todos, mas especialmente para os prediletos do Senhor. Um serviço que não pretende ser de marketing ou estratégico para recuperar o lugar perdido ou o vão reconhecimento no tecido social, mas - como eu quis salientar na última Exortação Apostólica Gaudete et exsultate - porque pertence "à própria substância do Evangelho de Jesus".

Que altíssima tarefa temos nas nossas mãos, irmãos; não podemos calá-la e anestesiá-la por causa de nossas limitações e defeitos! Lembro-me das sábias palavras de Madre Teresa de Calcutá, que podemos repetir pessoalmente e em comunidade: "Sim, tenho muitas fraquezas humanas, muitas misérias humanas. [...] Mas Ele se abaixa e faz uso de nós, de ti e de mim, para ser o seu amor e a sua compaixão no mundo, apesar dos nossos pecados, apesar das nossas misérias e das nossas falhas. Ele depende de nós para amar o mundo e mostrar o quanto ele o ama. Se nos ocupamos muito de nós mesmos, não haverá tempo para os outros"(Madre Teresa de Calcutá).

Caros irmãos, o Senhor sabia muito bem que, na hora da cruz, a falta de unidade, a divisão e a dispersão, bem como as estratégias para se livrar daquela hora, teriam sido as maiores tentações que os seus discípulos teriam vivido; atitudes desfigurariam e dificultado a missão. Por isso Ele mesmo pediu ao Pai que cuidasse deles para que naqueles momentos fossem uma só coisa e ninguém se perdesse. Confiantes e imersos na oração de Jesus ao Pai, queremos aprender com Ele e, com determinada deliberação, começar este tempo de oração, silêncio e reflexão, de diálogo e de comunhão, de escuta e discernimento, para deixar que Ele forje o coração à sua imagem e ajude a descobrir a sua vontade.

Neste caminho não prosseguimos sozinhos, Maria acompanhou e apoiou desde o início a comunidade dos discípulos; com a sua presença materna, ajudou a garantir que a comunidade não se "perdesse" ao longo dos caminhos dos fechamentos individualistas e a pretensão de salvar-se si mesma. Ela protegeu a comunidade dos discípulos da orfandade espiritual que leva à auto-referencialidade e com a sua fé permitiu que ela perseverasse no incompreensível, esperando que chegasse a luz de Deus. Pedimos a ela que nos mantenha unidos e perseverantes, como no dia de Pentecostes, para que o Espírito seja derramado nos nossos corações e nos ajude em todos os momentos e lugares a dar testemunho de sua ressurreição.

VN

Papa aprova nova resposta sobre casos de histerectomia

 
 O Pontífice aprovou a resposta que completa publicação de 1993  (AFP or licensors)
 
A nota, divulgada nesta quinta-feira (3) pela Congregação para a Doutrina da Fé, trata de uma nova resposta que completa aquelas já publicadas no ano de 1993 sobre a licitude da histerectomia (retirada do útero) em certos casos. 
 
Andressa Collet – Cidade do Vaticano

O Papa Francisco, em audiência concedida ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Luis Francisco Ladaria Ferrer, aprovou e ordenou a publicação de resposta a uma dúvida sobre a licitude da histerectomia em casos específicos. A nota, divulgada nesta quinta-feira (3), é datada de 10 de dezembro de 2018.

A dúvida faz referência a casos extremos sobre a retirada do útero recentemente submetidos à Congregação para a Doutrina da Fé e que constituem uma situação diferente da questão pela qual foi dada resposta negativa em 31 de julho de 1993. De facto, naquela oportunidade, foram publicadas as Respostas às dúvidas propostas sobre o ‘isolamento uterino’.

Segundo a nota divulgada agora, a publicação da década de 90 permanece válida ao considerar “moralmente lícita a retirada do útero (histerectomia) quando o mesmo constitui um grave perigo atual para a vida ou a saúde da mãe” e ilícita “enquanto modalidade de esterilização direta a retirada do útero e o laqueamento das trompas (isolamento uterino), quando feitas com o propósito de tornar impossível uma eventual gravidez que possa comportar algum risco para a mãe”. 

Novos casos de histerectomia submetidos à Santa Sé

A nota da Congregação explica que, nos últimos anos, “alguns casos bem circunstanciados referentes à histerectomia foram submetidos à Santa Sé” sobre situações em que a procriação não é possível. A nova dúvida com a sua resposta, então, completam aquelas já publicadas no ano de 1993.

Dúvida: É lícito retirar o útero (histerectomia) quando o mesmo se encontra irreversivelmente num estado tal de não poder ser mais idóneo à procriação, tendo os médicos especialistas chegado à cinclusão de que uma eventual gravidez levará a um aborto espontâneo antes da viabilidade fetal?

Resposta: Sim, porque não se trata de esterilização. 

Casos de histerectomia moralmente lícitos

O diferencial da atual questão “é a certeza alcançada pelos médicos especialistas” de que, em caso de gravidez, ela seria interrompida espontaneamente antes que o feto chegasse ao estado de viabilidade. Do ponto de vista moral, enfatiza a nota, “deve-se exigir que seja alcançado o grau máximo de certeza possível pela medicina” nessa questão. A nota esclarece ainda que “não se trata de dificuldade ou de riscos de maior ou menor importância, mas da impossibilidade de procriar de um casal”.

Além disso, “a resposta à dúvida não diz que a decisão de praticar a histerectomia é sempre a melhor”, mas que é moralmente lícita apenas sob as condições mencionadas sem, portanto, “excluir outras opções (por exemplo, recorrer a períodos inférteis ou  à abstinência total)”. Cabe aos cônjuges, acrescenta a nota, em diálogo com os médicos e com o diretor espiritual, “escolher o caminho a seguir, aplicando ao próprio caso e às circunstâncias os critérios graduais normais da intervenção médica”. 

A esterilização ilícita que rejeita a prole

No caso contemplado na publicação da nova resposta, os órgãos reprodutivos “não são capazes de realizar a sua função procriadora natural”, o que significa que dar à luz um feto vivo não é biologicamente possível. Portanto, “se está diante não somente de um funcionamento imperfeito ou arriscado dos órgãos reprodutivos, mas de uma situação na qual o propósito natural de dar à luz a uma prole viva não é possível”. Diferente do objeto próprio da esterilização que “é o impedimento da função dos órgãos reprodutivos, enquanto a malícia da esterilização consiste na rejeição da prole: é um ato contra o bonum prolis”, esclarece a nota.

A intervenção médica, na atual questão, “não pode ser julgada como antiprocriativa”. A nota sublinha, assim, que “retirar um sistema reprodutivo incapaz de levar adiante uma gravidez não pode ser qualificado como esterilização direta, que é e permanece intrinsecamente ilícita como fim e meio”.

VN

02 janeiro, 2019

Papa: é um escândalo ir à igreja e odiar os outros

 
 
A oração feita em silêncio, do fundo do coração, e que gera mudanças na vida, e não aquela que desperdiça palavras. Na Audiência Geral desta quarta-feira, o Papa Francisco deu continuidade ao seu ciclo de catequeses sobre a oração do Pai Nosso. 
 
Jackson Erpen – Cidade Vaticano

Na primeira Audiência Geral do ano de 2019, o Papa deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre o Pai Nosso, iniciado a 5 de dezembro, inspirando-se  nesta quarta-feira na passagem de Mateus 6, 5-6.

O Evangelho de Mateus – explicou Francisco aos 7 mil presentes na Sala Paulo VI – coloca o texto do “Pai Nosso” num ponto estratégico, no centro do Sermão da Montanha (Mt 6, 9-13). Reunidos em volta de Jesus no alto da colina, uma “assembleia heterogénea” formada pelos discípulos mais íntimos e por uma grande multidão de rostos anónimos é a primeira a receber a entrega do Pai Nosso. 

O Evangelho é revolucionário

Neste “longo ensinamento” chamado “Sermão da Montanha”, de facto, Jesus condensa os aspetos fundamentais de sua mensagem:

Jesus coroa de felicidade uma série de categorias de pessoas que em seu tempo - mas também no nosso! – não eram muito consideradas. Bem-aventurados os pobres, os mansos, os misericordiosos, os humildes de coração ... Esta é a revolução do Evangelho. Onde está o Evangelho há uma revolução. O Evangelho não deixa quieto, impulsiona-nos, é revolucionário".

"Todas as pessoas capazes de amar, os pacíficos que até então ficaram à margem da história, são, ao contrário, construtores do Reino de Deus”. É como se Jesus  - explica o Papa - estivesse a dizer: “em frente, vós que trazeis no coração o mistério de um Deus que revelou a sua omnipotência no amor e no perdão!”

Desta porta de entrada, que inverte os valores da história, brota a novidade do Evangelho:

A lei não deve ser abolida, mas precisa de uma nova interpretação, que a leve de volta ao seu significado original. Se uma pessoa tem um bom coração, predisposto a amar, então compreende que cada palavra de Deus deve ser encarnada até às suas últimas consequências. O amor não tem limites: pode-se amar o próprio cônjuge, o próprio amigo e até mesmo o próprio inimigo com uma perspetiva completamente nova”.

Este é “o grande segredo que está na base de todo o Sermão da Montanha: sejam filhos de vosso Pai que está nos céus”, disse o Pontífice, chamando a atenção para o facto de que num primeiro momento, estes capítulos do Evangelho de Mateus podem parecer um discurso moral, evocar uma ética tão exigente ao ponto de parecer impraticável. Mas pelo contrário, “descobrimos que são sobretudo um discurso teológico:

“O cristão não é alguém que se esforça para ser melhor do  que os outros: ele sabe que é pecador como todos. O cristão é simplesmente o homem que pára diante da nova Sarça Ardente, da revelação de um Deus que não traz o enigma de um nome impronunciável, mas que pede aos seus filhos que o invoquem com o nome de "Pai", para se deixarem  renovar pelo seu poder e refletir um raio da sua bondade por este mundo tão sedento de bem, tão à espera de boas notícias”. 

Coerência cristã

E Jesus – explica o Papa – introduz o ensinamento da oração do “Pai Nosso” distanciando dois grupos de seu tempo, começando pelos hipócritas”, que rezam nas praças  e sinagogas para serem vistos. “Há pessoas – disse o Francisco - que são capazes de tecer orações ateias, sem Deus: fazem isso para serem admiradas pelos homens”, completando:

“E quantas vezes nós vemos o escândalo daquelas pessoas que vão à igreja, estão lá todo o dia, ou vão todos os dias, e depois vivem odiando os outros e falando mal das pessoas. Isto é um escândalo. Será melhor não ir à igreja. Viva assim como ateu. Mas se vais à igreja, vive como filho, como irmão e dá um verdadeiro testemunho. Não um contratestemunho”.

A oração cristã, pelo contrário, não tem outro testemunho crível  senão a própria consciência, onde se entrelaça intensamente um diálogo contínuo com o Pai. 

Rezar com o coração

Jesus então, continuou Francisco – “toma distância das orações dos pagãos” - que acreditavam ser ouvidos pela força das palavras. O Papa recorda a cena do Monte Carmelo, onde diferentemente dos sacerdotes de Baal que gritavam, dançavam, pediam tantas coisas, é ao Profeta Elias, que fica calado, que o Senhor se revela:

Os pagãos pensam que falando, falando falando, se reza. Também eu penso, em relação aos tantos cristãos que acreditam que rezar – desculpem-me – é falar a Deus como um papagaio. Não! Rezar faz-se do coração, de dentro”.

O Pai Nosso – reitera o Santo Padre - “poderia ser também uma oração silenciosa: basta no fundo colocar-mo-nos sob o olhar de Deus, recordar-mo-nos do seu amor de Pai, e isto é suficiente para ser-mos ouvidos”. 

Deus não precisa de sacrifícios para conquistar o seu favor

“Que bonito pensar que o nosso Deus não precisa de sacrifícios para conquistar o seu favor! Ele não precisa de nada, o nosso Deus: na oração pede somente que tenhamos aberto um canal de comunicação com ele, para nos descobrirmos sempre como seus amados filhos”, disse o Papa ao concluir.

Após o resumo da catequese nas diversas línguas, um grupo circense cubano fez uma apresentação com danças e malabarismos, envolvendo o Papa Francisco em algumas brincadeiras. 



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Dia Mundial da Paz em Aveiras de Cima: “Estar na raiz da paz"

Foto: TVI




No primeiro dia do ano 2019, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz, D. Manuel Clemente lembrou os cristãos perseguidos que, por todo o mundo, celebram esta data em condições “muito difíceis”. “Há, nesta altura, irmãs e irmãos nossos que estão a celebrar a mesma solenidade em circunstâncias muito difíceis, de guerra, de perseguição.  Sacerdotes que foram mortos, religiosos, leigos.... e, no entanto, eles estão a celebrar esta solenidade, com a esperança de que as coisas melhorem. Porquê? Qual é a motivação profunda que os leva a continuar a celebrar, mesmo quando à sua volta tudo são escombros e perigos? É porque eles estão na raiz da paz. Eles sabem que este Menino que Maria nos ofereceu continua com Eles, cresceu, deu a vida por nós, na cruz tornou-se a salvação de todos e é exatamente nas circunstâncias mais difíceis que esses irmãos nossos mais O sentem com eles e mais se sentem em paz”, apontou o Cardeal-Patriarca, na igreja paroquial de Aveiras de Cima.
Na comemoração do 52º Dia Mundial da Paz, criado em 1967, pelo Papa Paulo VI, D. Manuel Clemente também refletiu sobre a mensagem do Papa Francisco para este dia, lembrando o seu pedido para “renovar a nossa vontade de melhorar as coisas, até com mais participação cívica e política”. “Estejamos atentos, sejamos ativos, do lado de Deus, estejamos com Cristo, façamos paz!”, apelou o Cardeal-Patriarca, enumerando três ideias para aplicação deste apelo. Em primeiro lugar, é necessário “estar em paz por dentro”. “Temos até que ter paciência connosco para depois ter paciência com os outros”, definiu. Depois, prestar uma atenção especial a quem se “abeira” ou chega ao encontro de cada um, e “nem sempre chega como gostaríamos”. “A paz também tem que se alargar nessa relação positiva que temos com cada um. Cada um traz a sua mensagem. Se formos acolhedores, acabaremos por ganhar com essa diferença que nos trazem e que nos alarga o coração”, preveniu. Por fim, D. Manuel Clemente, convidou os fiéis a olharem, a partir da mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, para a criação. “A humanidade não está em grande paz com o mundo que a sustenta”, alertou, apontando o exemplo de São Francisco de Assis, que deve ser seguido por muitos. “Com tantos homens e mulheres que vivem assim como Jesus Cristo, a natureza torna-se o que ela quer ser”, concluiu.

Patriarcado de Lisboa

01 janeiro, 2019

Papa no Angelus: Jesus, fonte de graça, misericórdia e paz

 
 Papa no Angelus do primeiro de janeiro de 2019  (ANSA)
 
Francisco recordou que São Paulo VI quis que no primeiro dia de janeiro fosse celebrado o Dia Mundial da Paz, que hoje perfaz o 52º dia sobre o tema: “A boa política está ao serviço da paz”. 
 
Mariangela Jaguraba - Cidade do Vaticano

O Papa Francisco conduziu, nesta terça-feira (1º/01), Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a primeira oração mariana do Angelus de 2019.

Francisco iniciou a sua alocução desejando a todos um bom dia e um Feliz Ano Novo!

Oito dias após o Natal, a Igreja celebra a Santa Mãe de Deus. “Como os pastores de Belém, permaneçamos com o olhar fixo em Maria e no Menino que ela tem nos braços. Dessa forma, mostrando-nos Jesus, o Salvador do mundo, ela, a mãe, abençoa-nos. Abençoa o caminho de cada homem e mulher neste ano que inicia, e que será bom na medida em que cada um acolher a bondade de Deus que Jesus veio trazer ao mundo”, disse o Pontífice. 

Bênção de Deus 

“De facto, é a bênção de Deus que dá substância a todas as felicitações que são trocadas nestes dias. Hoje, a liturgia relata a antiga bênção com a qual os sacerdotes israelitas abençoavam o povo. Diz assim: «Que o Senhor te abençoe e te guarde. Que o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te seja benigno! Que o Senhor mostre para ti a sua face e te conceda a paz», disse o Papa citando o Livro dos Números. “Esta é uma bênção antiquíssima”, sublinhou.

O sacerdote repetia por três vezes o nome de Deus, “Senhor”, estendendo a mão em direção ao povo reunido. Na Bíblia, o nome representa a própria realidade que é invocada, e assim, “colocar o nome do Senhor sobre uma pessoa, uma família, uma comunidade significa oferecer-lhes a força benéfica que jorra Dele”.

Nesta mesma fórmula, por duas vezes se menciona o “rosto” do Senhor. O sacerdote reza para que Deus o “faça resplandecer” e o “dirige” rumo ao seu povo, concedendo-lhe misericórdia e paz. 

Maria mostra-nos o Salvador

“Sabemos que segundo as Escrituras, o rosto de Deus é inacessível ao homem: ninguém pode ver Deus e permanecer em vida. Isto manifesta a transcendência de Deus, a grandeza infinita da sua glória. Mas, a glória de Deus é Amor, e mesmo permanecendo inacessível, como um Sol que não pode ser olhado, irradia a sua graça sobre toda criatura, de modo especial sobre os homens e mulheres, nos quais mais se reflete.”

«Quando chegou a plenitude do tempo», Deus revelou-se no rosto de um homem, Jesus, que «nasceu de uma mulher». Voltamos ao ícone da festa de hoje, do qual partimos: o ícone da Santa Mãe de Deus que nos mostra o Filho, Jesus Cristo, Salvador do Mundo. Ele é a bênção para cada pessoa e para toda família humana. Ele, Jesus, é fonte de graça, misericórdia e paz.” 

Dia Mundial da Paz

Francisco recordou que São Paulo VI quis que no primeiro dia de janeiro fosse celebrado o Dia Mundial da Paz, que hoje perfaz o 52º dia sobre o tema: “A boa política está a serviço da paz”.

“Não pensemos que a política seja reservada somente aos governantes: todos somos responsáveis pela vida da cidade, do bem comum, e a política é boa na medida em que cada um faz a sua parte ao serviço da paz. Que a Santa Mãe de Deus nos ajude nesse compromisso cotidiano.”

A seguir, Francisco pediu aos fiéis e peregrinos na Praça de São Pedro para que saudassem Maria, repetindo três vezes juntos “Santa Mãe de Deus”.

Após a oração mariana do Angelus, o Papa recordou que no dia de Natal proferiu uma mensagem de fraternidade a Roma e ao mundo, renovando-a, nesta terça-feira, como desejo de paz e prosperidade. “Rezemos todos os dias pela paz”, disse o Pontífice.

Francisco agradeceu ao presidente da República Italiana, Sergio Mattarella, pelas felicitações de Ano Novo a ele dirigidas: “Que o Senhor abençoe sempre o seu alto e precioso serviço ao povo italiano”, disse. 

Iniciativas pela paz

A seguir, saudou os romanos e peregrinos que foram numerosos na Praça de São Pedro. Saudou também os participantes da marcha “Paz em todas as terras”, organizada pela Comunidade de Santo Egídio, e os de outros muitos eventos do dia.

“Manifesto o meu apreço e minha proximidade às várias iniciativas de oração e compromisso com a paz que se realizam neste dia, em várias partes do mundo, promovidas pelas comunidades eclesiais”, disse o Papa, recordando a que foi efetuadfa, na segunda-feira (31/12) à  noite, em Matera, sul da Itália.

Francisco concluiu, pedindo a intercessão da Virgem Maria “para que o Senhor nos conceda ser artesãos da paz, que começa em casa, na família. Artesãos da paz todos os dias no Ano Novo”.


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Papa Francisco: Maria é remédio para a solidão e a desagregação

 
 
"Nossa Senhora introduz na Igreja a atmosfera de casa, duma casa habitada pelo Deus da novidade", disse o Papa na sua homilia.
 
Mariangela Jaguraba - Cidade do Vaticano

O Papa Francisco celebrou a missa, nesta terça-feira (1º/01), Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, na Basílica de São Pedro.

O Pontífice iniciou a sua homilia partindo do capítulo 2, versículo 18 do Evangelho de Lucas: «Todos os que ouviam os pastores, ficaram maravilhados com aquilo que contavam».

“Maravilhar-nos: a isto somos chamados hoje, na conclusão da Oitava de Natal, com o olhar ainda fixo no Menino que nasceu para nós, pobre de tudo e rico de amor. Maravilha: é a atitude que devemos ter no começo do ano, porque a vida é um dom que nos possibilita começar sempre de novo.”

Segundo o Papa, “hoje é também o dia para nos maravilharmos diante da Mãe de Deus: Deus é um bebé nos braços duma mulher, que alimenta o seu Criador. A imagem que temos à nossa frente mostra a Mãe e o Menino tão unidos que parecem um só”. 

Mãe que gera a maravilha da fé

“Tal é o mistério de hoje, que suscita uma maravilha infinita: Deus uniu-se à humanidade para sempre. Deus e o homem sempre juntos: eis a boa notícia no início do ano. Deus não é um senhor distante que habita solitário nos céus, mas o Amor encarnado, nascido como nós duma mãe para ser irmão de cada um. Está nos joelhos da sua mãe, que é também nossa mãe, e de lá derrama uma nova ternura sobre a humanidade. Nós compreendemos melhor o amor divino, que é paterno e materno, como o de uma mãe que não cessa de crer nos filhos e nunca os abandona. O Deus-connosco ama-nos independentemente dos nossos erros, dos nossos pecados, do modo como fazemos caminhar o mundo. Deus crê na humanidade, da qual sobressai, como primeira e incomparável, a sua Mãe.”

“No início do ano, pedimos-Lhe a graça de nos maravilharmos perante o Deus das surpresas”, disse ainda Francisco. “Renovamos a maravilha das origens, quando nasceu em nós a fé. A Mãe de Deus ajuda-nos: a Theotokos, que gerou o Senhor, gera-nos para o Senhor. É mãe e gera sempre de novo, nos filhos, a maravilha da fé. A vida, sem nos maravilharmos, torna-se cinzenta, rotineira; e de igual modo a fé. Também a Igreja precisa renovar a sua maravilha por ser casa do Deus vivo, Esposa do Senhor, Mãe que gera filhos; caso contrário, corre o risco de assemelhar-se a um lindo museu do passado. Mas, Nossa Senhora introduz na Igreja a atmosfera de casa, duma casa habitada pelo Deus da novidade. Acolhamos maravilhados o mistério da Mãe de Deus, como os habitantes de Éfeso no tempo do Concílio lá realizado! Como eles, aclamemos a «Santa Mãe de Deus»! Deixemo-nos olhar, deixemo-nos abraçar, deixemo-nos tomar pela mão… por Ela.” 

Deixemo-nos olhar

“Deixemo-nos olhar”, frisou ainda o Papa, “sobretudo nos momentos de necessidade, quando nos encontramos presos nos nós mais intrincados da vida, justamente olhamos para Nossa Senhora. Mas é lindo, primeiramente, deixar-mo-nos olhar por Nossa Senhora. Quando nos olha, Ela não vê pecadores, mas filhos. Diz-se que os olhos são o espelho da alma; os olhos da Cheia de Graça espelham a beleza de Deus, refletem sobre nós o paraíso. Jesus disse que os olhos são «a lâmpada do corpo» (Mt 6, 22): os olhos de Nossa Senhora sabem iluminar toda a escuridão, reacendem por todo o lado a nossa mãe».”

Segundo o Pontífice, “este olhar materno, que infunde confiança, ajuda a crescer na fé. A fé é um vínculo com Deus que envolve a pessoa inteira, mas, para ser guardado, precisa da Mãe de Deus. O seu olhar materno ajuda a vermo-nos como filhos amados no povo fiel de Deus e a amar-mo-nos entre nós, independentemente dos limites e opções de cada um.”

“Nossa Senhora enraíza-nos na Igreja, onde a unidade conta mais do ue a diversidade, e exorta-nos a cuidarmos uns dos outros. O olhar de Maria lembra que, para a fé, é essencial a ternura, que impede a apatia. Quando há lugar na fé para a Mãe de Deus, nunca se perde o centro: o Senhor. Com efeito, Maria nunca aponta para Si mesma, mas para Jesus e os irmãos, porque Maria é mãe.”

“Olhar da Mãe, olhar das mães. Um mundo que olha para o futuro, privado de olhar materno, é míope. Aumentará talvez os lucros, mas jamais será capaz de ver, nos homens, filhos. Haverá ganhos, mas não serão para todos. Habitaremos na mesma casa, mas não como irmãos. A família humana fundamenta-se nas mães. Um mundo, onde a ternura materna acaba desclassificada a mero sentimento, poderá ser rico de coisas, mas não rico de amanhã. A Mãe de Deus, ensina-nos o seu olhar sobre a vida e volta o seu olhar para nós, para as nossas misérias.” “Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, disse o Papa, citando um trecho da oração da Salve Rainha. 

Deixemo-nos abraçar

“Deixem-mo-nos abraçar”, sublinhou ainda Francisco. “Depois do olhar, entra em cena o coração, no qual Maria, diz o Evangelho de hoje, «conservava todas estas coisas, meditando-as» (Lc 2, 19). Por outras palavras, Nossa Senhora tinha tudo no coração, abraçava tudo, eventos favoráveis e contrários. E em tudo meditava, isto é, levava a Deus. Eis o seu segredo. Da mesma forma, tem no coração a vida de cada um de nós: deseja abraçar todas as nossas situações e apresentá-las a Deus.”

“Na vida fragmentada de hoje, onde nos arriscamos a perder o fio à meada, é essencial o abraço da Mãe. Há tanta dispersão e solidão por aí! O mundo está todo conetado, mas parece cada vez mais desunido. Precisamos de nos confiar à Mãe. Na Sagrada Escritura, Ela abraça muitas situações concretas e está presente onde há necessidade: vai encontrar a prima Isabel, socorre os esposos de Caná, encoraja os discípulos no Cenáculo... Maria é remédio para a solidão e a desagregação. É a Mãe da consolação, a Mãe que “consola”: está com quem se sente só. Ela sabe que, para consolar, não bastam as palavras; é necessária a presença. E Maria está presente como mãe. Permitamos-lhe que abrace a nossa vida. Na Salve Rainha, chamamos Maria de «vida nossa»: parece exagerado, porque a vida é Cristo (cf. Jo 14, 6), mas Maria está tão unida a Ele e tão perto de nós que não há nada melhor do que colocar a vida nas suas mãos e reconhecê-la «vida, doçura e esperança nossa». 

Deixemo-nos tomar pela mão

Por fim, “deixemo-nos tomar pela mão”, disse o Papa. “As mães tomam pela mão os filhos e os introduz amorosamente na vida. Mas hoje, quantos filhos, seguindo por conta própria, perdem a direção, crêem-se fortes e extraviam-se, livres e tornam-se escravos! Quantos, esquecidos do carinho materno, vivem zangados e indiferentes a tudo! Quantos, infelizmente, reagem a tudo e a todos com veneno e maldade! Mostram-se maus, às vezes, até parece um sinal de força; mas é só fraqueza! Precisamos aprender com as mães que o heroísmo está em doar-se, a força para ter piedade, e a sabedoria na mansidão.”

“Deus não prescindiu da Mãe: por esta razão nós precisamos dela”. Ele doou-nos a sua Mãe “e não num momento qualquer, mas quando estava pregado na cruz: «Eis a tua mãe» (Jo 19, 27), disse Ele ao discípulo, a cada discípulo. Nossa Senhora não é opcional: deve ser acolhida na vida. É a Rainha da paz, que vence o mal e guia pelos caminhos do bem, que devolve a unidade entre os filhos, que educa para a compaixão.”

Francisco concluiu, pedindo a Maria para que nos tome pela mão, nos ajude a superar “as curvas mais fechadas da história”, a “descobrir os laços que nos unem”, a nos reunirmos “sob o seu manto,  na ternura do amor verdadeiro, onde se reconstitui a família humana”.


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