02 setembro, 2017

Cardeal Patriarca de Lisboa - Intervenção no encontro comemorativo dos 50 anos do Renovamento Carismático Católico



 O que esperam os Bispos e a Igreja do Renovamento Carismático Católico
 
Caríssimos irmãos e amigos do Renovamento Carismático Católico em celebração jubilar:
Neste feliz encontro convosco e querendo corresponder de algum modo ao que me foi pedido, começo por retomar algumas palavras do Papa Francisco no recente jubileu romano do Renovamento Carismático Católico.
Assim no seu discurso no Circo Máximo, a 3 de junho último: «Obrigado, Renovamento Carismático Católico, pelo que haveis dado à Igreja nestes 50 anos. A Igreja conta convosco, com a vossa fidelidade à Palavra, com a vossa disponibilidade para o serviço e com o vosso testemunho de vidas transformadas pelo Espírito Santo!» E no dia seguinte, na homilia da Missa de Pentecostes, na Praça de São Pedro: «Então a nossa oração ao Espírito Santo é pedir a graça de acolhermos a sua unidade, um olhar que, independentemente das preferências pessoais, abraça e ama a sua Igreja, a nossa Igreja; pedir a graça de nos preocuparmos com a unidade entre todos, de anular as murmurações que semeiam discórdia e as invejas que envenenam, porque ser homens e mulheres da Igreja significa ser homens e mulheres de comunhão; é pedir também um coração que sinta a Igreja como nossa Mãe e nossa casa: a casa acolhedora e aberta, onde se partilha a alegria multiforme do Espírito Santo» (in Pneuma 303, junho 2017, p. 13 e 15).
Não são palavras genéricas e de mera circunstância. Na verdade, podem e devem constituir um índice do que - não só o primeiro dos Bispos de todo o mundo, mas também nós os que, com ele, exercemos tal ministério em Portugal - podemos esperar do Renovamento Carismático Católico. E do que o RCC pode esperar de nós, em confirmação e estímulo.
Detalhemos então 6 pontos, no que disse o Papa Francisco:


1º) A Igreja conta com a fidelidade do RCC à Palavra de Deus. Não podia ser doutro modo, num movimento que se quer intensamente do Espírito Santo, pois a Palavra de Deus é precisamente o som do Espírito e o lugar da Vida. Garantiu-o o próprio Jesus Cristo, como certamente lembramos, esclarecendo alguns discípulos ainda duvidosos: «É o Espírito quem dá a vida; a carne não serve de nada: as palavras que vos disse – no chamado “discurso do Pão da vida” – são espírito e são vida» (Jo 6, 63).
Quem se queira discípulo de Cristo, não vive do que deseja ou conjetura só por si, com as limitações próprias da “carne” que começa por ser. Abre-se às infinitas dimensões divinas que a Palavra de Deus lhe oferece, se constantemente ouvida, relida e meditada. Cheia de Espírito, preenche-o de Vida.
Em toda a vida da Igreja e para quem atenda muito especialmente à ação do Espírito, tudo partirá da Palavra de Deus, reconhecidamente inspirada e inspiradora. Que não haja reunião ou encontro do RCC sem predominância da Palavra de Deus, não como complemento, mas como base de tudo o mais. É o lugar certo e certificador da ação do Espírito Santo.
Quando o RCC o faz entre nós, grupo a grupo, também os Bispos de Portugal lhe ficam reconhecidos; e ainda pelo influxo que tal terá certamente na comunidade em geral.


2º) A Igreja conta com a disponibilidade do RCC para o serviço. E conta com muita confiança e justificada esperança. Quanto mais Espírito em nós, maior é o serviço à Igreja e ao mundo.
Quem vive do Espírito serve os irmãos. Coincide desse modo com o próprio serviço de Deus, que sempre cria e recria espiritualmente as coisas. - Abrimos a Bíblia e quais são as primeiras palavras que lemos, no poema da criação? São estas: «No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo, e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas» (Gn 1, 1-2).
– Quando Deus incarna e nos refaz em Cristo, não é também pelo Espírito que tudo acontece, como aconteceu em Maria? Assim é de facto, nas próprias palavras do Anjo da Anunciação: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus» (Lc 1, 35).
– Quando começa o anúncio evangélico, Quem o motiva e expande? É ainda e sempre o Espírito, esclarece o próprio Jesus “Cristo” (= ungido pelo Espírito), apropriando palavras proféticas. Oiçamos o trecho de São Lucas, que é um magnífico prólogo à evangelização que queremos continuar: «Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos os elogiavam. Veio a Nazaré, onde tinha sido criado.
Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para a anunciar a Boa Nova aos pobres” […] Começou, então, a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc 4, 14 ss).
- Quando Jesus Cristo por todos morre e para todos ressuscita, alargando a sua obra na ação da Igreja, como pode e poderá acontecer tal coisa? Unicamente pelo Espírito, logo partilhado, escreve o quarto Evangelho: «Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, […] veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco! […] Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós”. Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem o retiverdes, ficarão retidos”» (Jo 20, 19 ss).
Cinquenta dias depois, o mesmo Espírito possibilitou-lhes o anúncio evangélico em todas as línguas, como desde então continua a acontecer: «Viram então aparecer umas línguas de fogo, que se foram dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem» (Act 2, 3-4).
Também para isso contam os Bispos de Portugal com o RCC. O serviço evangélico ao mundo, pela palavra dita e feita, tem de continuar a chegar a todos, na grande variedade de línguas, linguagens e culturas da sociedade que hoje somos. Como muito bem pretende a Nova Evangelização, tão oportunamente lançada por São João Paulo II: Nova no ardor, nova nos métodos, nova nas expressões.
Onde houver um membro do Renovamento Carismático Católico tem de evidenciar-se sempre e mais o anúncio forte e criativo do Evangelho da paz, da reconciliação e da vida. Esse mesmo que esperam os pobres de tantas e tão variadas pobrezas, começando pelas mais básicas e sem descurar as mais profundas. E é sempre e só pelo Espírito que a criação se sustenta e o mundo se renova.


3º) A Igreja conta também com os membros do RCC enquanto vidas transformadas pelo Espírito Santo.
Lembrava o Beato Paulo VI, num texto que permanece absolutamente fundamental para a evangelização, que «o homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas» (Evangelii Nuntiandi, nº 41). Sabemo-lo bem, quando estamos saturados de palavras que, sendo tantas vezes ocas, já só podem encontrar orelhas moucas…
O exemplo de Jesus é sempre convincente, porque nele tudo é dito e feito, sem discrepância alguma, plenamente no Espírito que com Deus Pai compartilha. Esse mesmo Espírito que nos doa também e produz um efeito que São Paulo assim detalha aos gálatas, como nos detalha agora a nós: «É este o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio» (Gl 5, 22-23).
Também isso os Bispos de Portugal esperam dos membros do RCC. Que sejam testemunhas constantes de virtudes imprescindíveis para a Igreja e para a sociedade em geral, quando não desistimos de crescer e efetivamente melhorar. Que a todos amem, com um amor real e prestável, experimentando a verdadeira alegria, pois «a felicidade está mais em dar do que em receber» (Act 20, 35). Que construam a paz, com paciência e bondade a toda a prova, no Espírito de Cristo, que dá a vida por todos, mesmo pelos inimigos. Que sejam fiéis, pois vivem dum Espírito que não deixa de os manter assim. Que vivam a bem-aventurança da mansidão - não num conformismo qualquer, mas naquele autodomínio que dá oportunidade aos outros para se admirarem e converterem também. Afinal será a mansidão a possuir a terra (cf. Mt 5, 5). Como Deus nos quer a nós e o seu Espírito ensina.


4º) A Igreja conta com o vosso olhar abarcante e amistoso sobre a totalidade dos crentes, independentemente das preferências pessoais.
É um ponto exigente, este, bem o sabemos. Por natureza e percurso pessoal, somos mais propensos a um certo modo de ver e sentir as coisas, como nos educaram ou como nos convenceram nalgum momento, em experiências e encontros que, por isso mesmo, chamamos “marcantes”.
Tão marcantes que podemos não aceitar facilmente outros modos de ver e sentir, nem estar disponíveis para os acolher e nos completarmos com eles, na totalidade da Igreja que pelo batismo somos todos.
Não é dificuldade nova, antes tão antiga como a própria Igreja. Sempre nos custou ascender das diferenças de sensibilidades e ideias à unidade maior da graça em que, não deixando de ser cada um, nos enriquecemos no todo.
Logo nas primeiras comunidades assim foi. É o caso paradigmático dos coríntios. Há pouco evangelizados por São Paulo, outros chegaram depois e não tardaram as divisões… Assim lhes escreve o apóstolo: «Fui informado pelos da casa de Cloé, que há discórdias entre vós. Refiro-me ao facto de cada um dizer: “Eu sou de Apolo”, ou “Eu sou de Cefas”, ou “Eu sou de Cristo”. Estará Cristo dividido?» (1 Cor 1, 11-13).
Um grande estudioso dos escritos paulinos explica-nos o que eram estas divisões. Permitam-me citá-lo, num trecho tão elucidativo como ainda oportuno: «O maior dano fora a cisão da comunidade em três fações. Apolo de Alexandria (Act 18, 24-28) tinha, rapidamente, encontrado o seu nicho, no mundo competitivo da Igreja de Corinto. A pregação de Paulo era minimalista: proclamava um Cristo crucificado como modelo de uma autêntica humanidade (1 Cor 2, 1-5) e não via necessidade de mais nenhum desenvolvimento teológico especulativo. Estava mais preocupado com a demonstração do poder transformante da graça, na sua vida e na dos outros (1 Cor 3,2). […] Sendo o ser humano como é, as aspirações intelectuais daqueles que se reuniam à volta de Apolo afastavam, certamente, outros, talvez os que tinham menos formação e que, como reação, insistiam na importância do radicalmente simples, inculcado pelo fundador da Igreja [Paulo]. O mais importante era, mantinham eles, o amor pelo próximo. Era inevitável a formação de um grupo de Apolo e outro de Paulo, logo que aquele surgiu em cena. Mas havia, aparentemente, um terceiro grupo, que Paulo identifica com Cefas (1 Cor 1, 12) […]. Assim, devemos considerar um grupo de judeus convertidos, que teria dificuldade em se integrar numa Igreja predominantemente gentílica» (Jerome Murphy-O’Connor, Paulo. Um homem inquieto, um apóstolo insuperável, Prior Velho, Paulinas, 2008, p. 213-214).
Em suma: Cristãos mais radicais, cristãos mais intelectuais e cristãos mais tradicionalistas, poderíamos dizer sem forçar muito o trecho, ontem como hoje. Face a isto, unamo-nos no essencial, também hoje como ontem, ainda nas palavras de Paulo: «Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num mesmo pensamento» (1 Cor 1, 10). É o que vos pedem agora os Bispos e a Igreja de Portugal, caros membros do Renovamento Carismático Católico. Sede, nos vossos grupos e na comunidade em geral, colaboradores do Espírito na união de todos, para além das legítimas diferenças de sensibilidade e opinião.


5º) Consequentemente – e sempre com o Papa Francisco -,  pedimos ao Espírito Santo a graça, especialmente para os membros do RCC, de se preocuparem com a unidade entre todos, de serem homens e mulheres de comunhão.
Graça sempre necessária e hoje particularmente requerida. Com efeito, vivemos tempos muito contraditórios a este respeito. Nunca como hoje tivemos tanta possibilidade de nos interessarmos positivamente uns pelos outros, na sociedade em geral e na Igreja que somos. Nunca dispusemos de tanta informação do que se passa e de tanto previsão do que se poderá passar. Nunca foi tão fácil intervir e “interagir” como agora se diz. E no entanto…
No entanto, acumulamos dissensões graves e negatividades pesadas. Porque tanto mediatismo nos transforma mais em espetadores do que em atores. Porque tanta tecnologia aumenta as possibilidades de nos entretermos individualmente e de nos afastarmos pessoalmente uns dos outros. Porque a realidade se torna assim mais virtual e menos consistente. Porque reduzimos a reação mediática ao “gosto” ou “não gosto” e ao comentário apressado que nos deseduca do diálogo que devíamos aprender e praticar, porque…
Os cristãos em geral e os membros do RCC muito em particular, devem ser os primeiros noutra linha de reação e ação. Precisamente aquela em que o Espírito de Cristo nos coloca. Os primeiros no acolhimento interpessoal, os primeiros na verdadeira escuta do outro, os primeiros na integração ou recuperação de quem quer que seja.
Na vida da Igreja, que é “templo do Espírito Santo”, esta é a maior urgência e o sinal mais autêntico. Não era por acaso que os antigos pagãos estranhavam o modo como os cristãos se amavam e persistiam no amor. Não num sentimentalismo vago e fugidio, que tanto aparece como desaparece, mas no cuidado de todos por todos, com particular incidência nos mais fracos e desprotegidos. Não seria sempre assim, infelizmente; mas foi suficientemente assim, para que os pagãos pudessem admirar-se e dizer: «Vejam como eles se amam!»
Não faltaram divisões e cismas, que tanto desfiguraram a Igreja, a “túnica inconsútil de Cristo”, como deve permanecer. Mas o padrão estava alcançado e mantém-se, como realidade a recuperar, sempre e em qualquer circunstância. É o da comunidade criada pelo Espírito, como aprendizagem do que havemos de ser com a unitrindade divina, um em todos e todos num só.
Recordemos o trecho de São Lucas nos Atos dos Apóstolos, livro certeiramente chamado o “Evangelho do Espírito”: «Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum… Como se tivessem um só coração e uma só alma… Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo…» (Act 2, 44 ss). Nas várias formas de concretizar este ideal, com tudo quanto a Doutrina Social da Igreja propõe em torno dos seus quatro princípios permanentes – dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade e solidariedade - importa cumpri-lo.
Antes de mais nas nossas comunidades e famílias, para sermos realmente o que Deus quer e o seu Espírito origina, alargando a obra de Cristo no mundo e para o mundo. Isso mesmo que o Concílio Vaticano II tão bem expressou, falando da natureza e da missão da Igreja «que, em Cristo, é como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (Lumen Gentium, nº 1). E nunca esquecendo a correção fraterna, que não ultrapassa etapas para recuperar o outro até ao limite do possível e começa pela advertência direta e interpessoal: «Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós…» (cf. Mt 18, 15 ss)
Caros membros do RCC. Permitam e queiram que os Bispos de Portugal contem convosco na primeira linha da construção da unidade e da comunhão na Igreja, e da Igreja para sociedade. Nisso mesmo assinalareis a obra do Espírito em vós e através de vós.


6º) Finalmente, pediu-vos o Papa Francisco - e pedimos nós com ele - que sintais a Igreja como Mãe e Casa de todos. Uma casa acolhedora e aberta, onde se partilha a alegria multiforme do Espírito Santo.
Sentir a Igreja como casa de todos requer um coração tão largo como o próprio coração de Deus, Pai comum, Redentor universal e Espírito de reconciliação e de paz.
Requer igualmente a oração constante e convicta de cada um de nós, para nada apreciarmos individualmente, ao gosto subjetivo ou imediato, mas sempre a partir de Deus e na lógica do Pai Nosso e das Bem-aventuranças, tão exigente como aberta. Assim nos foi demonstrado no percurso humano que Deus quis ter connosco em Jesus. Assim nos foi ganho e oferecido quando deu a sua vida por nós e para nós - e nesse momento «expirou», doando-nos o Espírito (cf. Jo 19, 39). Aquela Cruz começou então a alargar os braços que nos envolvem agora, como casa de todos. Senti-lo é dom de Deus, que pedimos especialmente para vós, no jubileu que celebrais. São Paulo disse-o claramente, atribuindo tal graça ao Espírito divino: «O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5).
- Contamos convosco, caros membros do RCC em Portugal, como connosco contareis também. Que a graça do Espírito vos faça sentir o que Deus sente e a vontade forte de fazer da Igreja a casa fraterna da multiforme alegria!

Fátima, 2 de setembro de 2017, Cinquentenário do Renovamento Carismático Católico

+ Manuel Clemente

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A vida é uma caminhada que se faz com os outros - Papa aos coreanos




(RV) Neste sábado 2 de Setembro, o Papa Francisco teve seis audiências sucessivas. Começou às 10 horas recebendo o Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos; depois foi a vez do Embaixador da Itália junto da Santa Sé, com a esposa, em visita de despedida; seguido, separadamente, de três Núncios Apostólicos, em Cuba, Equador, e Japão. Finalmente, os membro da “Conselho dos Líderes Religiosos da Korea”, vindos a Roma em peregrinação inter-religiosa acompanhados pelo bispo Kim Hee-Jong.

Nas palavras que lhes dirigiu, o Papa Francisco evocou a sua viagem a Seoul, em 2014, em que sublinhara que “a vida é um caminho, um caminho longo, mas um caminho que não se pode percorre sozinhos. É preciso fazê-lo com os irmãos na presença de Deus”.

Francisco indicou que sobretudo a partir do Concilio Vaticano II a Igreja não se cansa de caminhar pelas sendas, nem sempre fáceis, do dialogo e de promover o diálogo entre sequazes doutras religiões, exortando os seus filhos a reconhecerem os valores espirituais, morais e socioculturais que encontram nessas outras religiões. O diálogo inter-religioso feito de encontros, contactos e colaborações é, por conseguinte, uma tarefa preciosa e agradável a Deus, um desafio orientado para o bem comum e a paz.

Mas para que o diálogo seja frutuoso – disse o Papa – deve ser aberto e respeitoso ao mesmo tempo. O mundo nos exorta a colaborarmos entre nós e com todos e nos pede respostas e empenhos partilhados na defesa da vida, no combate à fome e à pobreza, na recusa da violência, a corrupção, a injustiça, e assim por diante.

Temos, portanto, disse-lhes o Papa um caminho muito longo a percorrer com humildade e constância para semear esperança e ajudar o homem a ser mais humano.

Este encontro nos confirma nesta caminhada – rematou Francisco – agradecendo a Deus pelo dom de ter podido visitar a Coreia do Sul e de conservar belas recordações dessa visita.

(DA)

01 setembro, 2017

Dia da Criação. De Francesco e Bartolomeu apelo à responsabilidade

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(RV) "A dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente ligadas ao cuidado de toda a criação": é o que escrevem o Papa Francisco e o Patriarca Ecuménico Bartolomeu numa mensagem conjunta para o Dia Mundial de Oração pela Criação, que se celebra neste dia 1 de setembro. É um apelo forte, dirigido particularmente aos que ocupam lugares de relevo, a uma responsabilidade partilhada perante a actual crise ecológica.

No princípio – lê-se na mensagem - Deus designou o homem a cuidar do ambiente natural, confiou-lhe a terra como um dom e uma herança da qual todos partilhamos a responsabilidade "até quando, no fim, todas as coisas no céu e na terra serão restabelecidas em Cristo". E a dignidade do ser humano e o seu desenvolvimento estão profundamente ligados ao cuidado da Criação.

Mas o mundo apresenta hoje uma "situação muito diferente", é a amarga constatação de Francisco e Bartolomeu. A "tendência a quebrar os delicados e equilibrados ecossistemas do mundo, o desejo insaciável de manipular e controlar os recursos limitados do planeta, a ganância em obter do mercado lucros ilimitados" ofuscam a nossa vocação de sermos colaboradores de Deus". Já não nos relacionamos com a natureza para apoiá-la" - lê-se ainda na mensagem – mas nos comportamos como patrões da mesma", considerando-a já não como “dom partilhado”, mas como "uma posse privada”.

E assim, tanto o ambiente humano como o natural, se estão a deteriorar e quem mais paga as consequências são as pessoas mais vulneráveis. "O impacto das mudanças climáticas – escrevem o Papa e o Patriarca – atinge em primeiro lugar os que vivem pobremente em cada ângulo do globo". E continuam: "O apelo e o desafio urgentes para cuidarmos da criação são um convite a toda a humanidade para lutar por um desenvolvimento sustentável e integral”.

Juntos, os dois líderes religiosos convidam "todas as pessoas de boa vontade a dedicar, neste 1° de setembro, um tempo de oração pelo ambiente", a agradecer a Deus pelo magnífico dom da criação e a empenhar-se a cuidá-lo e preservá-lo para o bem das gerações futuras". Juntamente com a oração, também é necessário "mudar a maneira como nos relacionamos com o mundo", abraçando estilos de vida simples e solidários.

Mas um apelo urgente à responsabilidade vai "aos que ocupam uma posição de relevo no âmbito social, económico, político e cultural”, para que "escutem o grito da terra" e "as necessidades dos marginalizados", mas acima de tudo "apoiem o consenso global", para que sejam sanadas as feridas causadas à criação. Perante o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas em curso - conclui a mensagem - é indispensável, de facto, "uma resposta concertada e colectiva" que dê "prioridade à solidariedade e ao serviço”. (BS)

Carta aos diocesanos de Lisboa - 2017/2018


“Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé”

Carta aos diocesanos de Lisboa, no início do ano pastoral


Caríssimos diocesanos    

1. De novo vos escrevo, no início do ano pastoral. Pode ser útil, entre o muito que há a fazer, quando a vida como que recomeça no espaço social e eclesial. Reabrem-se as escolas, retomam-se os ritmos, preparam-se imediatamente as catequeses e outras atividades paroquiais. Com votos amigos de bom ano pastoral 2017-2018, procuro apenas relembrar o principal da nossa vida conjugada, como Igreja que somos no Patriarcado de Lisboa.
Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, inspiração básica do nosso Sínodo Diocesano, o Papa Francisco escreve o seguinte: «Toda a evangelização está fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada. A Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não evangeliza se não se deixa continuamente evangelizar. É indispensável que a Palavra de Deus “se torne cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial”» (EG, nº 174) – esta última frase é citação da exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, nº 1, do Papa Bento XVI, documento que não deixaremos de reler ao longo do ano.  
Como lembro na introdução ao Programa e Calendário Diocesano, o número 38 da Constituição Sinodal de Lisboa - nosso objetivo específico de 2017-2018 - enuncia-se assim: “Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé”. Detalho depois alguns pontos desse número. Acrescentam-se “Sugestões Programáticas”, apuradas em várias instâncias diocesanas e sistematizadas pelo Secretariado da Ação Pastoral e o Secretariado do Sínodo Diocesano. São relativas 1) à centralidade, 2) ao conhecimento e 3) à transmissão da Palavra. Cumpre agora a cada comunidade concretizá-las do modo mais adequado.
O Domingo 29 de outubro será no Patriarcado de Lisboa o “Domingo da Palavra”, seguindo a indicação do Papa Francisco: «Seria conveniente que cada comunidade pudesse, num Domingo do Ano Litúrgico, renovar o compromisso em prol da difusão, conhecimento e aprofundamento da Sagrada Escritura. […] Não há de faltar a criatividade para enriquecer o momento com iniciativas que estimulem os crentes a ser instrumentos vivos de transmissão da Palavra» (Misericordia et Misera, nº 7). Cada comunidade encontrará certamente o melhor modo de acentuar então o lugar imprescindível da Palavra de Deus para o brotar constante da fé que nos salva.
Tudo isto importa para prosseguirmos em Sínodo, concretizando-o agora nas comunidades e, através delas, na sociedade que têm a missão de fermentar com o Evangelho recebido e transmitido. Sem esquecer que, além do objetivo específico para este ano pastoral, temos de atender ao objetivo transversal do triénio 2017-2020: “Fazer da Igreja uma rede de relações fraternas” (Constituição Sinodal de Lisboa, nº 60). O que requer maior reconhecimento mútuo de carismas, ministérios e serviços, com mais corresponsabilidade institucional e prática a todos os níveis da nossa vida eclesial.


2. “Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé”, constitui, de facto, um belo programa. Entendendo também que esta “Palavra” é eminentemente pessoal – na pessoa de Cristo, Verbo encarnado, e na comunhão que gera entre as pessoas que somos e aqueles a quem chegarmos.
Assim o afirma o Catecismo da Igreja Católica em dois trechos esclarecedores: «A fé cristã não é uma “religião do Livro”. O Cristianismo é a religião da “Palavra” de Deus, não duma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo» (nº 108). E mais adiante: «A fé […] não é um ato isolado. Ninguém pode acreditar sozinho, tal como ninguém pode viver só. […] Foi de outrem que o crente recebeu a fé; a outrem a deve transmitir. O nosso amor a Jesus e aos homens impele-nos a falar aos outros da nossa fé» (nº 166).
Temos fé num Deus que nos “fala” na criação e Se diz plenamente na vida de Jesus, onde confluem toda a tradição bíblica e toda a indagação humana. Como escreve Bento XVI: «A Palavra eterna, que se exprime na criação e comunica na história da salvação, tornou-se em Cristo um homem, “nascido de mulher” (Gl 4, 4). Aqui, a Palavra não se exprime num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua história, única e singular, é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade» (Verbum Domini, nº 11).
Creio ser este o ponto central do nosso programa a cumprir. Importa que uma “ecologia integral”, como o Papa Francisco nos propôs na encíclica Laudato si’, nos faça entender e salvaguardar a criação, como primeira Palavra dum Deus que nos ama e por isso mesmo nos cria e sustenta. E que nas nossas comunidades tudo conflua para Cristo, acolhendo e meditando as Escrituras, nele cumpridas e por nós transmitidas na variedade das línguas e situações deste mundo. Toda a catequese, como o próprio vocábulo significa, há de ser “eco” da Palavra que Deus absolutamente profere em Cristo. Todos os encontros comunitários hão de partir dela, para a concretizar no dia-a-dia pessoal, familiar, eclesial e sociocultural.


3. Também a Liturgia há de ser entendida como escuta e cumprimento sacramental da Palavra. É de novo Bento XVI a lembrá-lo, na exortação apostólica pós-sinodal sobre a Palavra de Deus: «Considerando a Igreja como “casa da Palavra”, deve-se, antes de tudo, dar atenção à Liturgia sagrada. Esta constitui, efetivamente, o âmbito privilegiado onde Deus fala no momento presente da nossa vida: fala hoje ao seu povo, que escuta e responde. Cada ação litúrgica está, por sua natureza, impregnada da Sagrada Escritura» (Verbum Domini, nº 52).
Neste sentido, só podemos estar agradecidos ao movimento litúrgico que, com o Concílio Vaticano II, nos restituiu uma Liturgia mais próxima da antiga tradição e isenta de motivos posteriores que a tinham tornado menos clara e expressiva. Como bem sintetiza um dos principais colaboradores do Beato Paulo VI na reforma litúrgica providencialmente empreendida: «No que respeita à Eucaristia, começou por reorganizar-se o quadro da sua celebração. Reencontrou-se dessa forma a disposição dos lugares que fora a da basílica antiga […]: a cadeira da presidência para o bispo ou o presbítero, rodeada pelos bancos dos concelebrantes e dos ministros, o ambão da Palavra de Deus, o altar do sacrifício, que é simultaneamente a mesa do Senhor, disposto de maneira a permitir ao sacerdote celebrar voltado para o povo, favorecendo o diálogo entre o celebrante e a assembleia. O Concílio restaurou a concelebração, que manifesta bem a unidade do sacerdócio, quando ela tinha praticamente desaparecido no Ocidente há mais de mil anos. […] A inovação mais marcante foi o regresso ao uso das línguas vivas, que fora o da Igreja primitiva. […] A Palavra de Deus reencontrou o lugar que ocupava no tempo dos Padres da Igreja. A assembleia dos crentes ouve ler novamente a Lei ou o Profeta, o Salmo, o Apóstolo e o Evangelho. […] A oração eucarística é novamente dita em voz alta, de modo que ninguém assiste mais à Missa sem ouvir da boca do sacerdote o relato da instituição da Eucaristia e sem ter respondido pela sua aclamação à ordem do Senhor: Fazei isto em memória de Mim. […] Na comunhão, cada batizado pode receber o Corpo de Cristo na mão, depois de ter proclamado o seu Amen, como no tempo de Agostinho e de Cirilo em Jerusalém. Também se pode, em certos dias, beber do cálice do Senhor: Bebei todos dele, dissera Jesus aos seus apóstolos. A Eucaristia da Igreja nunca foi mais do que hoje uma reiteração fiel da Ceia de Jesus» (Pierre Jounel, A Missa ontem e hoje, Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, 2016, p. 44-45).
A citação é um pouco longa, mas creio ser oportuno fazê-la, para nos inteirarmos, porventura mais e melhor, da importância da Liturgia – e da Eucaristia em especial – como lugar por excelência da transmissão da Palavra, comunitariamente ouvida, sacramentalmente concretizada e mais de acordo com os primeiros elos da autêntica tradição eclesial.    


4. Continuando a receção da Constituição Sinodal de Lisboa, dedicaremos depois e especialmente 2018-2019 à vivência litúrgica, como “lugar de encontro” com Deus e com os outros a partir de Deus (cf. CSL, nº 47). E 2019-2010 a “sair com Cristo ao encontro de todas as periferias” (cf. CSL, nº 53).
Entretanto, sobre este último ponto, retomo duas considerações pontifícias sobre a Palavra de Deus e a sua projeção social e evangelizadora. Primeiro, quando Bento XVI escreve e transcreve: «O amor ao próximo, radicado no amor de Deus, deve ser o nosso compromisso constante como indivíduos e como comunidade eclesial local e universal. Diz Santo Agostinho: “É fundamental compreender que a plenitude da Lei, bem como de todas as Escrituras divinas, é o amor […]. Por isso, quem julga ter compreendido as Escrituras, ou pelo menos uma parte qualquer delas, mas não se empenha a construir, através da sua inteligência, este duplo amor de Deus e do próximo, demonstra que ainda as não compreendeu”» (Verbum Domini, nº 103). Na verdade, compreender a Palavra é um exercício de inteligência prática, só cumprido no amor concreto a Deus e ao próximo – e de Deus no próximo. Assim mesmo Jesus Cristo o “disse e fez”.Depois, sobre a “nova evangelização”, que hoje tem necessariamente de complementar a tradicional “missio ad gentes”: «O nosso deve ser cada vez mais o tempo de uma nova escuta da Palavra de Deus e de uma nova evangelização. É que descobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida cristã faz-nos encontrar o sentido mais profundo daquilo que João Paulo II incansavelmente lembrou: continuar a missio ad gentes e empreender com todas as forças a nova evangelização, sobretudo naquelas nações onde o Evangelho foi esquecido ou é vítima da indiferença da maioria por causa de um difundido secularismo» (Verbum Domini, nº 122). É bem evidente que no Patriarcado de Lisboa há lugar e urgência, tanto para o fomento da vida cristã nas comunidades constituídas, como para o anúncio mais criativo do Evangelho a quem o esqueceu e para o primeiro anúncio a quem nunca o ouviu.
Na sua exortação programática, base do nosso caminho sinodal em Lisboa, o Papa Francisco estimula-nos a um renovado anúncio evangélico que nos renovará também a nós, como Igreja em missão. Com palavras que nos entusiasmarão decerto, neste começo de ano pastoral, especialmente dedicado à Palavra de Deus – de Deus para nós e de nós para todos: «Um anúncio renovado proporciona aos crentes, mesmo tíbios ou não praticantes, uma nova alegria na fé e uma fecundidade evangelizadora. Na realidade, o seu centro e a sua essência são sempre o mesmo Deus que manifestou o seu amor imenso em Cristo morto e ressuscitado. Ele torna os seus fiéis sempre novos; ainda que sejam idosos, renovam as suas forças […]. Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual. Na realidade, toda a ação evangelizadora autêntica é sempre “nova”» (Evangelii Gaudium, nº 11).      

Caríssimos diocesanos: Além de saudar-vos com muita estima, pretendo com esta carta ativar, ainda mais, a receção da Constituição Sinodal de Lisboa, no ano pastoral que iniciamos. Repito que não se trata de fazer necessariamente “mais coisas”. Trata-se sobretudo de prosseguirmos biblicamente inspirados e criativamente conjugados na caminhada que o Espírito impele para a evangelização do mundo, constante “programa” da Igreja. – Nossa Senhora, que inteiramente acolheu, incarnou e ofereceu o Verbo de Deus, nos ensinará a fazê-lo agora!

Convosco, em oração e companhia,

† Manuel, Cardeal-Patriarca

Lisboa, 1 de setembro de 2017   

Carta aos diocesanos de Lisboa - 2017/2018

“Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé”

Carta aos diocesanos de Lisboa, no início do ano pastoral


Caríssimos diocesanos    

1. De novo vos escrevo, no início do ano pastoral. Pode ser útil, entre o muito que há a fazer, quando a vida como que recomeça no espaço social e eclesial. Reabrem-se as escolas, retomam-se os ritmos, preparam-se imediatamente as catequeses e outras atividades paroquiais. Com votos amigos de bom ano pastoral 2017-2018, procuro apenas relembrar o principal da nossa vida conjugada, como Igreja que somos no Patriarcado de Lisboa.
Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, inspiração básica do nosso Sínodo Diocesano, o Papa Francisco escreve o seguinte: «Toda a evangelização está fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada. A Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não evangeliza se não se deixa continuamente evangelizar. É indispensável que a Palavra de Deus “se torne cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial”» (EG, nº 174) – esta última frase é citação da exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, nº 1, do Papa Bento XVI, documento que não deixaremos de reler ao longo do ano.  
Como lembro na introdução ao Programa e Calendário Diocesano, o número 38 da Constituição Sinodal de Lisboa - nosso objetivo específico de 2017-2018 - enuncia-se assim: “Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé”. Detalho depois alguns pontos desse número. Acrescentam-se “Sugestões Programáticas”, apuradas em várias instâncias diocesanas e sistematizadas pelo Secretariado da Ação Pastoral e o Secretariado do Sínodo Diocesano. São relativas 1) à centralidade, 2) ao conhecimento e 3) à transmissão da Palavra. Cumpre agora a cada comunidade concretizá-las do modo mais adequado.
O Domingo 29 de outubro será no Patriarcado de Lisboa o “Domingo da Palavra”, seguindo a indicação do Papa Francisco: «Seria conveniente que cada comunidade pudesse, num Domingo do Ano Litúrgico, renovar o compromisso em prol da difusão, conhecimento e aprofundamento da Sagrada Escritura. […] Não há de faltar a criatividade para enriquecer o momento com iniciativas que estimulem os crentes a ser instrumentos vivos de transmissão da Palavra» (Misericordia et Misera, nº 7). Cada comunidade encontrará certamente o melhor modo de acentuar então o lugar imprescindível da Palavra de Deus para o brotar constante da fé que nos salva.
Tudo isto importa para prosseguirmos em Sínodo, concretizando-o agora nas comunidades e, através delas, na sociedade que têm a missão de fermentar com o Evangelho recebido e transmitido. Sem esquecer que, além do objetivo específico para este ano pastoral, temos de atender ao objetivo transversal do triénio 2017-2020: “Fazer da Igreja uma rede de relações fraternas” (Constituição Sinodal de Lisboa, nº 60). O que requer maior reconhecimento mútuo de carismas, ministérios e serviços, com mais corresponsabilidade institucional e prática a todos os níveis da nossa vida eclesial.


2. “Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé”, constitui, de facto, um belo programa. Entendendo também que esta “Palavra” é eminentemente pessoal – na pessoa de Cristo, Verbo encarnado, e na comunhão que gera entre as pessoas que somos e aqueles a quem chegarmos.
Assim o afirma o Catecismo da Igreja Católica em dois trechos esclarecedores: «A fé cristã não é uma “religião do Livro”. O Cristianismo é a religião da “Palavra” de Deus, não duma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo» (nº 108). E mais adiante: «A fé […] não é um ato isolado. Ninguém pode acreditar sozinho, tal como ninguém pode viver só. […] Foi de outrem que o crente recebeu a fé; a outrem a deve transmitir. O nosso amor a Jesus e aos homens impele-nos a falar aos outros da nossa fé» (nº 166).
Temos fé num Deus que nos “fala” na criação e Se diz plenamente na vida de Jesus, onde confluem toda a tradição bíblica e toda a indagação humana. Como escreve Bento XVI: «A Palavra eterna, que se exprime na criação e comunica na história da salvação, tornou-se em Cristo um homem, “nascido de mulher” (Gl 4, 4). Aqui, a Palavra não se exprime num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua história, única e singular, é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade» (Verbum Domini, nº 11).
Creio ser este o ponto central do nosso programa a cumprir. Importa que uma “ecologia integral”, como o Papa Francisco nos propôs na encíclica Laudato si’, nos faça entender e salvaguardar a criação, como primeira Palavra dum Deus que nos ama e por isso mesmo nos cria e sustenta. E que nas nossas comunidades tudo conflua para Cristo, acolhendo e meditando as Escrituras, nele cumpridas e por nós transmitidas na variedade das línguas e situações deste mundo. Toda a catequese, como o próprio vocábulo significa, há de ser “eco” da Palavra que Deus absolutamente profere em Cristo. Todos os encontros comunitários hão de partir dela, para a concretizar no dia-a-dia pessoal, familiar, eclesial e sociocultural.


3. Também a Liturgia há de ser entendida como escuta e cumprimento sacramental da Palavra. É de novo Bento XVI a lembrá-lo, na exortação apostólica pós-sinodal sobre a Palavra de Deus: «Considerando a Igreja como “casa da Palavra”, deve-se, antes de tudo, dar atenção à Liturgia sagrada. Esta constitui, efetivamente, o âmbito privilegiado onde Deus fala no momento presente da nossa vida: fala hoje ao seu povo, que escuta e responde. Cada ação litúrgica está, por sua natureza, impregnada da Sagrada Escritura» (Verbum Domini, nº 52).
Neste sentido, só podemos estar agradecidos ao movimento litúrgico que, com o Concílio Vaticano II, nos restituiu uma Liturgia mais próxima da antiga tradição e isenta de motivos posteriores que a tinham tornado menos clara e expressiva. Como bem sintetiza um dos principais colaboradores do Beato Paulo VI na reforma litúrgica providencialmente empreendida: «No que respeita à Eucaristia, começou por reorganizar-se o quadro da sua celebração. Reencontrou-se dessa forma a disposição dos lugares que fora a da basílica antiga […]: a cadeira da presidência para o bispo ou o presbítero, rodeada pelos bancos dos concelebrantes e dos ministros, o ambão da Palavra de Deus, o altar do sacrifício, que é simultaneamente a mesa do Senhor, disposto de maneira a permitir ao sacerdote celebrar voltado para o povo, favorecendo o diálogo entre o celebrante e a assembleia. O Concílio restaurou a concelebração, que manifesta bem a unidade do sacerdócio, quando ela tinha praticamente desaparecido no Ocidente há mais de mil anos. […] A inovação mais marcante foi o regresso ao uso das línguas vivas, que fora o da Igreja primitiva. […] A Palavra de Deus reencontrou o lugar que ocupava no tempo dos Padres da Igreja. A assembleia dos crentes ouve ler novamente a Lei ou o Profeta, o Salmo, o Apóstolo e o Evangelho. […] A oração eucarística é novamente dita em voz alta, de modo que ninguém assiste mais à Missa sem ouvir da boca do sacerdote o relato da instituição da Eucaristia e sem ter respondido pela sua aclamação à ordem do Senhor: Fazei isto em memória de Mim. […] Na comunhão, cada batizado pode receber o Corpo de Cristo na mão, depois de ter proclamado o seu Amen, como no tempo de Agostinho e de Cirilo em Jerusalém. Também se pode, em certos dias, beber do cálice do Senhor: Bebei todos dele, dissera Jesus aos seus apóstolos. A Eucaristia da Igreja nunca foi mais do que hoje uma reiteração fiel da Ceia de Jesus» (Pierre Jounel, A Missa ontem e hoje, Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, 2016, p. 44-45).
A citação é um pouco longa, mas creio ser oportuno fazê-la, para nos inteirarmos, porventura mais e melhor, da importância da Liturgia – e da Eucaristia em especial – como lugar por excelência da transmissão da Palavra, comunitariamente ouvida, sacramentalmente concretizada e mais de acordo com os primeiros elos da autêntica tradição eclesial.    


4. Continuando a receção da Constituição Sinodal de Lisboa, dedicaremos depois e especialmente 2018-2019 à vivência litúrgica, como “lugar de encontro” com Deus e com os outros a partir de Deus (cf. CSL, nº 47). E 2019-2010 a “sair com Cristo ao encontro de todas as periferias” (cf. CSL, nº 53).
Entretanto, sobre este último ponto, retomo duas considerações pontifícias sobre a Palavra de Deus e a sua projeção social e evangelizadora. Primeiro, quando Bento XVI escreve e transcreve: «O amor ao próximo, radicado no amor de Deus, deve ser o nosso compromisso constante como indivíduos e como comunidade eclesial local e universal. Diz Santo Agostinho: “É fundamental compreender que a plenitude da Lei, bem como de todas as Escrituras divinas, é o amor […]. Por isso, quem julga ter compreendido as Escrituras, ou pelo menos uma parte qualquer delas, mas não se empenha a construir, através da sua inteligência, este duplo amor de Deus e do próximo, demonstra que ainda as não compreendeu”» (Verbum Domini, nº 103). Na verdade, compreender a Palavra é um exercício de inteligência prática, só cumprido no amor concreto a Deus e ao próximo – e de Deus no próximo. Assim mesmo Jesus Cristo o “disse e fez”.Depois, sobre a “nova evangelização”, que hoje tem necessariamente de complementar a tradicional “missio ad gentes”: «O nosso deve ser cada vez mais o tempo de uma nova escuta da Palavra de Deus e de uma nova evangelização. É que descobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida cristã faz-nos encontrar o sentido mais profundo daquilo que João Paulo II incansavelmente lembrou: continuar a missio ad gentes e empreender com todas as forças a nova evangelização, sobretudo naquelas nações onde o Evangelho foi esquecido ou é vítima da indiferença da maioria por causa de um difundido secularismo» (Verbum Domini, nº 122). É bem evidente que no Patriarcado de Lisboa há lugar e urgência, tanto para o fomento da vida cristã nas comunidades constituídas, como para o anúncio mais criativo do Evangelho a quem o esqueceu e para o primeiro anúncio a quem nunca o ouviu.
Na sua exortação programática, base do nosso caminho sinodal em Lisboa, o Papa Francisco estimula-nos a um renovado anúncio evangélico que nos renovará também a nós, como Igreja em missão. Com palavras que nos entusiasmarão decerto, neste começo de ano pastoral, especialmente dedicado à Palavra de Deus – de Deus para nós e de nós para todos: «Um anúncio renovado proporciona aos crentes, mesmo tíbios ou não praticantes, uma nova alegria na fé e uma fecundidade evangelizadora. Na realidade, o seu centro e a sua essência são sempre o mesmo Deus que manifestou o seu amor imenso em Cristo morto e ressuscitado. Ele torna os seus fiéis sempre novos; ainda que sejam idosos, renovam as suas forças […]. Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual. Na realidade, toda a ação evangelizadora autêntica é sempre “nova”» (Evangelii Gaudium, nº 11).      

Caríssimos diocesanos: Além de saudar-vos com muita estima, pretendo com esta carta ativar, ainda mais, a receção da Constituição Sinodal de Lisboa, no ano pastoral que iniciamos. Repito que não se trata de fazer necessariamente “mais coisas”. Trata-se sobretudo de prosseguirmos biblicamente inspirados e criativamente conjugados na caminhada que o Espírito impele para a evangelização do mundo, constante “programa” da Igreja. – Nossa Senhora, que inteiramente acolheu, incarnou e ofereceu o Verbo de Deus, nos ensinará a fazê-lo agora!

Convosco, em oração e companhia,

† Manuel, Cardeal-Patriarca

Lisboa, 1 de setembro de 2017  

Papa: fecundo momento de diálogo entre católicos e judeus



RV) “No nosso caminho comum, graças à benevolência do Altíssimo, estamos atravessando um fecundo momento de diálogo”.


Com estas palavras  o Papa Francisco iniciou o seu pronunciamento aos Representantes da Conferência dos Rabinos Europeus, do Conselho Rabínico da América e da Comissão do Grão Rabinato de Israel em diálogo com a Comissão para as Relações religiosas com o Judaísmo da Santa Sé, recebidos em audiência na manhã desta quinta-feira na Sala dos Papas, no Vaticano.

O Pontífice recebeu da delegação o documento “Entre Jerusalém e Roma” – elaborado pela Comissão – “um texto – observou - que  tributa particulares reconhecimentos à Declaração Nostra Aetate, que no seu quarto capítulo constitui para nós a “carta magna” do diálogo com o mundo judaico”.

Nostra Aetate – recordou o Papa – esclarece que o início da fé cristã encontra-se já,  segundo o mistério divino da salvação, nos Patriarcas, em Moisés e nos Profetas e que, sendo grande o patrimônio espiritual que temos em comum, deve ser promovida entre nós o mútuo conhecimento e estima, sobretudo por meio dos estudos bíblicos e colóquios fraternos”.

“No decorrer dos últimos anos pudemos nos aproximar, dialogando de modo eficaz e frutuoso; aprofundamos o nosso conhecimento recíproco e intensificamos os nossos vínculos de amizade”.

O Pontífice observa que o documento “Entre Jerusalém e Roma” não esconde as diferenças teológicas das respectivas tradições de fé, mas exprime o firme desejo de colaborar “de forma mais estreita hoje e no futuro”:

“O vosso documento dirige-se aos católicos chamando-os de “parceiros, estreitos aliados, amigos e irmãos na busca comum de um mundo melhor que possa desfrutar da paz, justiça social e segurança”.

Francisco ressalta ainda que o documento reconhece que católicos e judeus compartilham crenças comuns e que as religiões devem utilizar o comportamento moral e educação religiosa – não a guerra, a coerção ou a pressão social – para exercer a própria capacidade de influenciar e de inspirar”. É tão importante isto!”, exclama o Papa.

Ao concluir, o Santo Padre expressa seu melhores votos por ocasião do Ano Novo judaico - que será celebrado dentro de poucas semanas – com o “Shanah towah!” e invoca “com os presentes e sobre todos nós”,  “a bênção do Altíssimo sobre o caminho comum de amizade e de confiança que nos espera”, pedindo que “o Altíssimo conceda a nós e ao mundo inteiro a sua paz. Shalom alechem!”.

Papa: a memória da vocação reaviva a esperança



(RV) “A memória da vocação reaviva a esperança”. Com este tema de sua catequese, o Papa Francisco voltou a realizar a Audiência Geral na Praça São Pedro, que esta quarta-feira teve a presença de sacerdotes do Colégio Pio Brasileiro e da equipe da Chapecoense, que na noite de sexta-feira disputará um amistoso no Estádio Olímpico contra o Roma.


"Recordar-se de Jesus, do fogo de amor com o qual um dia concebemos a nossa vida como um projeto de bem e reavivar com esta chama a nossa esperança" é "uma dinâmica fundamental da vida cristã".

O Papa Francisco concentrou sua catequese da Audiência Geral desta quarta-feira – que voltou a ser realizada na Praça São Pedro -na relação entre memória e esperança, com particular referência à memória da vocação.

E para ilustrar isto, usou como exemplo o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, uma experiência que ficou de tal forma impressa em suas memórias, que João já idoso chegou até mesmo a precisar a hora: "Eram cerca de 4 horas da tarde".

Após a frase pronunciada às margens do Jordão por João Batista "Eis o Cordeiro de Deus", Jesus ganha dois novos jovens seguidores, a quem pergunta: "Que procurais?".
"Jesus - observou o Papa - aparece nos Evangelhos como um especialista de coração humano. Naquele momento, havia encontrado dois jovens que estavam buscando, com uma saudável inquietude":

"Com efeito, que juventude é uma juventude satisfeita, sem uma busca de sentido? Os jovens que não buscam nada não são jovens, estão aposentados, envelheceram antes do tempo. É triste ver jovens aposentados. E Jesus, em todo o Evangelho, em todos os encontros que lhe acontecem ao longo do caminho, aparece como um "incendiário" dos corações".