05 janeiro, 2015

Dom Toso: sobre a paz e os direitos, os líderes mundiais escutem o Papa Francisco



(RV) Decorreu de 3 a 5 de janeiro na Casa Frate Jacopa em Roma a tradicional "Escola de Paz" do início do ano. O evento foi aberto pelo relatório do arcebispo Dom Mario Toso, secretário do Conselho Pontifício Justiça e Paz, que incidiu na mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz deste ano centrada no tema "já não escravos, mas irmãos". Alessandro Gisotti pediu a Dom Toso, que recentemente publicou com a LEV o volume  "Riappropriarsi della Democrazia” (reapropriar-se da democracia), para comentar sobre a mensagem do Papa com um olhar para o ano que apenas começou:

R. Através das formas modernas de escravatura, o ser humano é esmagado, não lhe é reconhecida a dignidade transcendente e lhe é tirada a liberdade. E com isto é mantido vivo um vírus que, além de destruir o indivíduo, prejudica fatalmente a vida da sociedade, que é baseada na igualdade, reconhecimento recíproco, na comunhão e união moral entre as pessoas. Promove-se uma sociedade onde existe aquele que se comporta como senhor e aquele que é reduzido a mera coisa, mercadoria, meio. Uma coisa absurda sob o ponto de vista moral e civil. É necessário reagir rapidamente, diz o Papa, antes de tudo, por meio da superação de uma indiferença generalizada e uma mobilização coral para vencer uma das pragas que humilham as pessoas, especialmente os mais fracos e indefesos. Começando com o indivíduo, a sociedade civil e os Estados, a nível nacional e internacional. Ao lado de um urgente e convergente trabalho institucional de prevenção, de protecção das vítimas e de acção judiciária contra os responsáveis, precisamos de um vasto empenho articulado em três linhas principais: a assistência às vítimas; a reabilitação sob o perfil psicológico e formativo; a reintegração na sociedade de destino ou de origem. Um esforço decisivo para a acção de contraste, segundo o Papa Francisco, é dado pelas leis nacionais em matéria de migração, o emprego, as adopções, a deslocalização das empresas e a comercialização de produtos realizados mediante a exploração, que devem realmente ( e não apenas formalmente) respeitar a dignidade das pessoas.

Dito por outras palavras, pode-se dizer que o flagelo da escravatura moderna pode ser curada por meio Estado social  que hoje está sendo gradualmente desmanteladas sob os golpes de um neo-individualismo utilitarista que não reconhece a relacionalidade e a solidariedade. Pode ser prevenido através da universalização de uma democracia de alta intensidade, onde é feito possível para todos o acesso à educação, ao emprego, à segurança sanitária, à habitação, à alimentação, à terra. Assim,   pode ser vencido por meio da afirmação de um  Estado de direito que, como afirmou o Papa Francisco diante do Parlamento Europeu (25 de Novembro de 2014), se baseia na dignidade transcendente do homem e deve ser preservado daquele neo-individualismo libertário e daquele neo-utilitarismo hoje parecem miná-lo, pondo em jogo os próprios direitos, a segurança das normas e a certeza das penas.
    
"A paz é sempre possível", disse o Papa Francisco durante o Angelus do dia 1 de Janeiro. Mesmo no fim de 2014, vimos a viragem histórica entre os EUA e Cuba, favorecida pelo papel do Papa. É possível que também outros líderes políticos podem fazer uso daquilo que se tem chamado "efeito Francisco"?

R. Certamente. Além disso, infelizmente, também a guerra é sempre possível. O próprio Papa Francisco falou da existência de uma "Terceira Guerra Mundial em pedaços". Os equilíbrios entre  Estados e superpotências, alcançados com grandes esforços e anos de trabalho, se não forem devidamente apoiados e reforçados, podem desagregar-se. Basta pensar, sem ir muito longe, nas relações entre a Comunidade Europeia e a Rússia de Putin, no seu arrefecimento e sua deterioração em relação à questão da Crimeia e Ucrânia, às consequências económicas e políticas. E depois não devemos esquecer os arsenais de armas mortais que continuam a existir e que são atualizadas com terríveis instrumentos de morte da nova geração. Em última análise, não se pode parar no caminho da construção da paz, na remoção das possíveis causas da guerra. A melhor maneira de preveni-la é sempre a da educação, da boa política, o contraste eficaz em relação à deterioração do Estado de direito e da democracia, hoje inclinada para formas populistas, oligárquicas, assistencialistas. Não podemos aceitar formas democráticas que, finalmente, envolvem e beneficiam apenas um terço da população, enfraquecendo as classes médias e marginalizando os mais fracos, fomentando, assim, conflitos sociais

O ano de 2014 foi um ano infelizmente marcado por novas guerras, violência e por perseguições contra os cristãos e outras minorias, basta pensar no Iraque. Que contribuição acha que o Papa e a Igreja vão dar num mundo assim fragmentado?

R. A contribuição pode e deve ser diversificada. Existem, certamente, as palavras, os gestos do Pontífice. De especial importância o seu empenho em encontrar e falar com os diferentes líderes religiosos para estabelecer uma aliança contra todas as formas de fanatismo, fundamentalismo e do laicismo agressivos e excludentes, em defesa do direito à liberdade religiosa para todos. Há, depois, a ação dos vários Dicastérios da Cúria Romana, que são chamados a ajudar o papa e a Igreja neste sentido. Mas há também uma frente própria dos leigos que, com as suas associações e movimentos, devem lutar com mais coragem para os direitos das minorias, mas em geral, para os direitos de todos. Também neste campo, deve-se trabalhar no plano da prevenção, a defesa e promoção de um  Estado de direito não só fundado no consenso social, mas também, e primariamente, na lei moral natural, na busca comum da verdade, do bem e de Deus. Quando são desconsideradas estas premissas da liberdade religiosa é muito difícil poder derrotar aquele  espírito sectário e excludente que está na origem das perseguições, e, infelizmente, também é reforçado pelo individualismo libertário, cada vez mais penetrante e corrosivo.

O Papa anunciou que está para breve a publicação da sua Encíclica dedicada ao meio ambiente e ao desenvolvimento. O que podemos esperar deste documento, pensando nos muitos pronunciamentos do Papa Francesco sobre esta questão, mesmo recentemente?

R. Creio que um dos pontos principais será representado pela apresentação da actual questão ambiental como uma questão meramente antropológico e ética. Na solução de uma tal grande questão, inevitavelmente interligada com múltiplos outros problemas sociais e culturais, será decisivo um humanismo transcendente e relacional que apenas uma cultura aberta a Deus pode tornar possível. Um segundo aspecto que não será esquecido será certamente o da intrínseca conexão entre a questão da vida humana e a questão do meio ambiente, um aspecto  já  bem evidenciado pelo Papa Bento XVI na Caritas in Veritate. Não se pode pensar de resolver a questão ambiental sem uma ecologia humana. Não se pode esperar numa solução que salve o planeta do seu declínio inexorável quando se toma de assalto o Estado de direito e se procede a desmantelá-lo, começando pelo reconhecimento de um imaginário direito ao aborto, como aconteceu recentemente na França.

04 janeiro, 2015

O Papa Francisco anunciou hoje a nomeação de vinte novos cardeais, dos quais 15 eleitores



(RV) O Papa Francisco anunciou hoje a nomeação de vinte novos cardeais, dos quais 15 eleitores. Os novos cardeais serão criados a 14 de Fevereiro próximo; 15 de entres eles são eleitores e “manifestam - explicou o Papa – a inseparável ligação entre a Igreja de Roma e as Igrejas particulares presentes no mundo”. Cinco, recebem o título emérito e não são, portanto, eleitores, mas nomeados pelo Pontífice porque se distinguiram pela sua caridade pastoral ao serviço da Santa Sé e da Igreja.
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Os 15 novos cardeais eleitores, anunciados pelo Papa são: D. Domenique Mamberti, arcebispo titular de Sagona, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica; D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente (Patriarca de Lisboa); D. Berhaneyesus Demerew Souraphiel, C.M., arcebispo de Adis Abeba (Etiópia); D. John Atcherley Dwe, arcebispo de Wellington (Nova Zelândia); D. Edoardo Menichelli, arcebispo de Ancona (Itália); D. Pierre Nguyên Vã Nhon, arcebispo de Há Nói (Vietnam); D. Alberto Suarez Inda, arcebispo de Morelia (México); D. Charles Maung Bo S.D.B., arcebispo de Yaongon (Myanmar); D. Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij, arcebispo de Bankok (Tailândia); D. Francesco Montenegro, arcebispo de Montevideo (Uruguay); D. Ricardo Blázquez Pérez, arcebispo de Vallodolid (Espanha); D. José Luiz Lacunza Maestrojuán, O.A.R., bispo de David (Panamá); D. Arlindo Gomes Furtado; bispo de Santiago de Cabo Verde, (Arquipélago de Cabo Verde); D. Soane Patita Pain Mafi, bispo de Tonga (Ilhas Tonga).

A estes 15 cardeais eleitores, o Papa acrescentará 5 arcebispos e bispos eméritos que – disse – “se distinguiram pela sua caridade pastoral ao serviço da Santa Sé e da Igreja”. Trata-se de D. José de Jesus Pimiento Rodriguez, arcebispo emérito de Manizales, na Colômbia; D. Luigi De Magistris, arcebispo titular de Nova, pro-penitenciário maior emérito: D. Karl-Joseph Rauber, arcebispo titular de Giubaliziana, Núncio Apostólico; D. Luis Hector Villalba, arcebispo emérito de Tucumán, na Argentina; D. Júlio Duarte Langa, bispo emérito de Xai-Xai, em Moçambique.
“Eles representam muitos bispos que, com a mesma solicitude de pastores, deram testemunho de amor em Cristo e ao Povo de Deus tanto nas Igrejas particulares, como na Cúria Romana e no Serviço Diplomático da Santa Sé” – disse o Papa.
Os novos cardeais concelebram com o Papa uma Missa solene, domingo 15 de Fevereiro, enquanto que nos dias 12 e 13 – acrescentou o Papa – todos os cardeais se reunirão em Consistório “para reflectir sobre as orientações e as propostas de reforma da Cúria”.
Por fim, o Papa Francisco pediu para rezarem por ele e pelos novos cardeais, a fim de que “sejamos testemunhos do Evangelho no mundo e com a sua experiência pastoral apoiem” o serviço apostólico pontifício.
É claro – explica numa nota o P. Federico Lombardi, Director da Sala de Imprensa da Santa Sé – o critério que guiou o Papa na escolha destes novos cardeais, o da universalidade: com efeito, entre eleitores e eméritos, são 14 as nações de proveniência dos eleitores, seis não tinham um cardeal ou nunca o tinham tido, como Cabo Verde, Tonga e Myanmar, ou então se trata “de comunidades eclesiais pequenas ou em situações de minoria. A Diocese de Santiago de Cabo Verde, por exemplo, “é uma das mais antigas Dioceses Africanas”, enquanto que a de Morelia, no México, encontra-se “numa região perturbada pela violência”.
Apenas um novo Cardeal da Cúria Romana (D. Domenique Mamberti), porque – continua P. Lombardi – “evidentemente o Papa considera tarefas cardinalícias os de Prefeito das Congregações e de poucas outras instituições importantíssimas da Cúria, como neste caso, o Tribunal da Signatura”. Ao mesmo tempo “confirma-se que o Papa não se considera vinculado à tradição das “sede cardinalícias”, centradas por razões históricas nalguns Países, e que fazia com que o cardinalato fosse considerado quase “automaticamente” ligado a essas sedes”.
Em relação aos eméritos, o Director da Sala de Imprensa da Santa Sé sublinha que “a nomeação cardinalícia quer ser um reconhecimento dado simbolicamente a alguns, mas reconhecendo o mérito de todos”.
Por fim o P. Federico Lombardi faculta alguns dados estatísticos: “em relação aos 120 cardeais eleitores, havia 12 lugares “livres” no Colégio Cardinalício hoje ou já nos próximos meses. O Papa ultrapassou ligeiramente esse número, mantendo-se, todavia, muito próximo dele, de forma que esse dado é essencialmente respeitado”.
O novo Cardeal mais jovem é o arcebispo de Tonga, D. Mafi, (54 anos) e que se torna assim no membro mais jovem do Colégio Cardinalício; enquanto que o mais idoso é D. Pimiento Rodriguez (96 anos), arcebispo emérito de Manizales.
(DA com IP)

Não há futuro sem paz – no Angelus o Papa pediu gestos de paz na vida quotidiana

Para acesso a gravação sonora, clique aqui

(RV) Domingo, 4 de janeiro do Ano Novo de 2015. Angelus na Praça de S. Pedro onde uma enorme multidão acolheu o Papa Francisco. O Santo Padre referiu-se, desde logo, ao valor da paz celebrado no dia 1 de janeiro:

“ …começamos há poucos dias o novo ano em nome da Mãe de Deus, celebrando a Jornada Mundial da Paz sobre o tema: “Já não escravos, mas irmãos”. O meu desejo é que se supere a exploração do homem pelo homem. Esta exploração é uma praga social que mortifica as relações interpessoais e impede uma vida de comunhão marcada pelo respeito, justiça e caridade. Cada homem e cada povo têm fome e sede de paz! Portanto, é necessário e urgente construir a paz!”

Certamente a paz não é apenas a ausência de guerra, mas uma condição geral na qual a pessoa humana está em harmonia consigo própria, com a natureza e com os outros – observou o Papa que reafirmou ainda que “não há futuro sem propósitos e projetos de paz! Não há futuro sem paz!”

O Santo Padre citou ainda S. Lucas quando a paz é anunciada como dom especial de Deus no nascimento do Redentor: “Paz na terra aos homens de Deus ama”. O dom da paz deve ser implorado incessantemente na oração e cada um de nós na sua vida quotidiana deve cumprir gestos de paz – continuou o Papa Francisco:

“Cada um de nós pode cumprir gestos de fraternidade para com o próximo, especialmente daqueles que passam por tensões familiares ou problemas de vário tipo. Estes pequenos gestos têm tanto valor: podem ser sementes que dão esperança, podem abrir caminhos e perspetivas de paz.”

Após a recitação do Angelus o Papa Francisco saudou os fieis presentes e referindo-se ao Consistório do próximo mês de fevereiro, que decorrerá no dia 14, apresentou a todos a lista dos novos 20 cardeais, dos quais 15 são eleitores. De língua portuguesa são 3 os novos cardeais sendo 2 eleitores:

- D. Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa;

- D. Arlindo Furtado, bispo de Santiago de Cabo Verde;

- D. Júlio Duarte Langa, bispos emérito de Xai-Xai em Moçambique que por razões de idade não será cardeal eleitor.

Dos novos cardeais eleitores de língua portuguesa de referir alguns dados biográficos:

D. Manuel Clemente é natural de Torres Vedras em Portugal e tem 66 anos e foi ordenado sacerdote em 1979 em Lisboa. Foi reitor do Seminário e Docente da Faculdade de Teologia. Ordenado bispo no ano 2000, foi bispo-auxiliar de Lisboa e mais tarde bispo titular da diocese do Porto. A 18 de maio de 2013 foi nomeado Patriarca de Lisboa.

D. Arlindo Furtado, é bispo de Santiago de Cabo Verde e será o primeiro Cardeal deste país. Nasceu em Santa Catarina e tem 65 anos. Estudou em Roma sendo licenciado em Sagrada Escritura. Foi ordenado sacerdote em 1976. Foi Vigário Paroquial, Chanceler, professor e Economo diocesano. Foi o primeiro bispo da diocese do Mindelo desde 2003 tendo sido nomeado pelo Papa Bento XVI e 2009 bispo da diocese de Santiago de Cabo Verde.

O Consistório para a criação de novos cardeais será no dia 14 de fevereiro. (RS)

01 janeiro, 2015

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus – Dia Mundial da Paz 2015



“Já não escravos, mas irmãos”, assim intitula o Papa Francisco a sua mensagem para este Dia Mundial da Paz. É uma sequência necessária, pois só seremos irmãos quando deixarmos de ser “escravos”, no sentido mais interior do termo. Os irmãos de sangue, tendo a mesma origem natural, têm também a mesma condição. Os irmãos que seremos todos, como Deus sempre quer, acontecem por opção mental e determinação prática de não sujeitar ninguém às nossas ambições, mas de provermos realmente à sua dignidade, garantindo reciprocamente a nossa.
Certamente que nos indignamos, face a tanta sobrevivência de escravaturas várias. Escravatura pessoal, que impede muitos de serem realmente livres, com vida e projeto próprios. Escravatura coletiva, quando há grupos e povos impedidos de decidirem autonomamente o seu destino, sob o peso insuportável de servidões sociais e culturais, financeiras e económicas, impostas e contínuas. Escravaturas múltiplas e chocantes, como as que o Papa elenca na sua mensagem, e afetam a dignidade humana do modo mais humilhante e intolerável.
Sim, repetidas notícias abrem-nos os olhos e tocam-nos as consciências, face às mais abomináveis servidões, que contradizem em absoluto o caminho que os direitos humanos e as respetivas declarações internacionais vão, apesar de tudo, fazendo.
Sabemos também – e damos graças a Deus por isso – como pessoas e grupos, instituições sociais e religiosas, se mobilizam de facto para resistir a servidões impostas e superá-las realmente. Com eles estamos e cada vez mais queremos estar, em apoio concreto de estímulo e cooperação ativa. Especialmente quando indigências graves e seduções traiçoeiras podem levar alguns e algumas a cair em redes de exploração e tráfico. Bom e urgente é, sem dúvida nem demora, corresponder ao apelo do Papa Francisco e reforçar todas as frentes dos direitos humanos, para o seu cabal respeito, longe ou perto.

Sabemos igualmente que o problema tem de ser resolvido no íntimo de cada um, no que profundamente deseja e ambiciona, no que realmente quer ou não quer. Assim como a liberdade espiritual nos faz libertadores dos outros, também os cativeiros de espírito nos tornam opressores dos demais, reduzidos que ficam a joguetes das nossas paixões, ou obstáculos a anular para as satisfazer. O realismo da experiência humana e a ilustração das páginas bíblicas não nos deixam qualquer dúvida a este respeito: quem é livre, liberta; quem é escravo de si mesmo torna-se opressor dos outros.
Chegados a este ponto e verificação, também concluiremos que o problema é basicamente pedagógico. Pedagógico, de educação pessoal e da sociedade inteira. Cultural também, pois se trata de valores e valorizações, do que sentimos e sabemos como mais importante, para nós e para os outros, para todos e para cada um. A liberdade joga-se antes de mais na capacidade que adquirimos ou não para cumprirmos um destino verdadeiramente humano - e humanizador de nós próprios e dos outros.
Trata-se de crescermos como “pessoas”, ou seja, como seres em relação, que só reciprocamente se realizam, na medida em que o bem dos outros se torna na tarefa de cada um, experimentando nisso mesmo que a felicidade é sempre um plural, e tanto mais verdadeira quanto mais alargada. Trata-se de percebermos, à luz evangélica dos talentos distribuídos, que só pondo a render para o todo as qualidades que detemos elas se tornam realmente nossas, pois todas têm natureza e destinação social.  
Das leituras que escutámos, ressoam-nos especialmente algumas frases. Como esta, de São Paulo aos Gálatas: «Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: “Abbá! Pai!”. Assim, já não és escravo, mas filho». São Paulo experimentava-o e dizia-o, porque de Cristo recebia uma humanidade restaurada e transformada em autêntica filiação divina, oferecida a todos por igual. Isso mesmo o levava a anular qualquer discriminação de raça ou cultura e a anunciar a Boa Nova duma fraternidade realmente universal.
Sabemos como a escravatura demorou a debelar nos códigos. Também reconhecemos positivamente o facto de, em muitas famílias e comunidades, tocadas pelo Espírito de Cristo, se terem gerado práticas mais solidárias e fraternas. Práticas, que exigidas nos primeiros textos cristãos e tão coincidentes com aspirações universais, acabaram por encontrar guarida nos textos nacionais e internacionais mais recentes. E, se estranhamos como demorou tanto tempo, mais devemos estranhar como tantas servidões persistem ainda agora, mais flagrantes ou encapotadas.
Persistem servidões, de facto, quando se negam ou retardam vidas autenticamente livres, por falta de reconhecimento prático do direito a nascer, a ser devidamente educado, a trabalhar e ser justamente remunerado, a constituir família com tudo o que esta requer, ao acompanhamento capaz na doença ou na velhice. Quando faltam tais requisitos, no todo ou em parte, faltam também as condições básicas para vidas realmente livres; e persistem pobrezas, misérias e servidões de todo o tipo.
Sim, caríssimos irmãos e irmãs, podemos e devemos “dar a volta” à realidade existente – ou “convertê-la”, como cristãmente se diz. Alguns o fazem já, e muitos mais se juntariam, sendo estimulados e apoiados por quem tem obrigação e encargo de o fazer, nacional e internacionalmente, no plano político e financeiro. Mas, no que nos toca a nós, como seguidores de Cristo e ouvintes atentos do Papa Francisco, redobra-se o compromisso para tudo fazer rumo à libertação integral de cada homem e mulher, nossos irmãos. Neste bom combate, a nossa linha só pode ser a da frente, como parte ativa da solução e com tantas pessoas e instituições de boa vontade comprovada.

Pedagogia então, e desde pequenos, no lar de cada um, aprendendo a respeitar, a ajudar e a repartir. Pedagogia, nas comunidades, em catequese autêntica, que insista nas duas dimensões essenciais duma vida “cristã” propriamente dita: filiação divina, repassada de oração e louvor; e experiência fraterna, ganha e sempre ativada por ações solidárias. Será o melhor contributo das famílias e das comunidades para a libertação da sociedade em redor.
E assim também retomaremos o que os pastores viram e o Evangelho contou: «Os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino». Muito mais do que um belo quadro, o evangelista sublinha-nos o primeiríssimo modo de Deus se dar a conhecer ao mundo: numa família, em que nasceu e cresceu, como acontecia em Jesus. E daquela família ganhou Ele o modo humano e humanizador de formar depois a grande família dos filhos de Deus, a todos destinada.
Família humilde de Belém, família refugiada no Egito, família de trabalho em Nazaré, família de parentes e vizinhos, família de casa e de templo. Conhecem-se os nomes de alguns, porque realmente tinham nome e não se esfumavam no todo impessoal. E tudo é pedagogia, da Sagrada Família ao povo do Evangelho, uns pelos outros e uns com os outros, sempre e só assim.
Concluamos que a liberdade, própria e alheia, é fruto da vida agradecida e partilhada. Concluamos que os direitos se sentem como “humanos”, quando os aprendemos na humanidade comum. Por isso nascemos em família e assim crescemos em sociedade e Igreja. Como fermento que leveda a massa da humanidade inteira.
E com tudo isto estamos a dizer “Deus”, tal como se revelou na vida de Jesus. Na vida que Jesus quer prosseguir connosco. - Por isso mesmo iniciamos com 2015 mais um “ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo”!


Igreja de Nossa Senhora do Amparo, Benfica, 1 de janeiro de 2015
+ Manuel Clemente
Patriarcado de Lisboa

Papa Francisco: Cristo e a sua Mãe, Cristo e a Igreja são inseparáveis


 (RV) Neste 1º dia de 2015, o Papa Francisco presidiu na Basílica de São Pedro a Missa por ocasião da Solenidade da Mãe de Deus e do Dia Mundial da Paz. Na sua homilia, o Papa recordou que “nenhuma criatura viu brilhar sobre si a face de Deus como Maria, que deu uma face humana ao Verbo eterno, para que todos nós O pudéssemos contemplar”. O Papa reiterou que “assim como Cristo e sua Mãe são inseparáveis”, “igualmente são inseparáveis Cristo e a Igreja”.

O Papa Francisco observou que entre Cristo e sua Mãe existe uma relação estreitíssima, como entre cada filho e sua mãe: “ A carne de Cristo, disse ele, foi tecida no ventre de Maria”. Maria, escolhida para ser a Mãe do Redentor, compartilhou intimamente toda a sua missão, até o calvário:

“Maria está assim tão unida a Jesus, porque recebeu d’Ele o conhecimento do coração, o conhecimento da fé, alimentada pela experiência materna e pela união íntima com o seu Filho. A Virgem Santa é a mulher de fé, que deu lugar a Deus no seu coração, nos seus projetos; é a crente capaz de individuar no dom do Filho a chegada daquela «plenitude do tempo» (Gl 4, 4) na qual Deus, escolhendo o caminho humilde da existência humana, entrou pessoalmente no sulco da história da salvação. Por isso, não se pode compreender Jesus sem a sua Mãe”.

Igualmente inseparáveis são Cristo e a Igreja – disse o Papa – observando que não se pode compreender a salvação realizada por Jesus sem considerar a maternidade da Igreja:
“Separar Jesus da Igreja seria querer introduzir uma «dicotomia absurda», como escreveu o Beato Paulo VI. Não é possível «amar a Cristo, mas sem amar a Igreja, ouvir Cristo mas não a Igreja, ser de Cristo mas fora da Igreja». Na verdade, é precisamente a Igreja, a grande família de Deus, que nos traz Cristo. A nossa fé não é uma doutrina abstracta nem uma filosofia, mas a relação vital e plena com uma pessoa: Jesus Cristo, o Filho unigénito de Deus que Se fez homem, morreu e ressuscitou para nos salvar e que está vivo no meio de nós. Onde podemos encontrá-Lo? Encontramo-Lo na Igreja. É a Igreja que diz hoje: «Eis o Cordeiro de Deus»; é a Igreja que O anuncia; é na Igreja que Jesus continua a realizar os seus gestos de graça que são os sacramentos”.

A acção e missão da Igreja, observou o Santo Padre, exprimem a sua maternidade:

“Na verdade, ela é como uma mãe que guarda Jesus com ternura, e O dá a todos com alegria e generosidade. Nenhuma manifestação de Cristo, nem sequer a mais mística, pode jamais ser separada da carne e do sangue da Igreja, da realidade histórica concreta do Corpo de Cristo. Sem a Igreja, Jesus Cristo acaba por ficar reduzido a uma ideia, a uma moral, a um sentimento. Sem a Igreja, a nossa relação com Cristo ficaria à mercê da nossa imaginação, das nossas interpretações, dos nossos humores”.

Maria, disse o Papa, é “aquela que abre a estrada da maternidade da Igreja e sempre sustenta a sua missão materna destinada a todos os homens. O seu testemunho discreto e materno caminha com a Igreja desde as origens. Ela, Mãe de Deus, é também Mãe da Igreja e, por intermédio dela, é Mãe de todos os homens e de todos os povos”.

Ao concluir, o Pontífice recordou o Dia Mundial da Paz, celebrado no 1º dia do ano, pedindo que “o Senhor dê paz a estes nossos dias: paz nos corações, paz nas famílias, paz entre as nações”. Ao recordar que o tema deste ano «Já não escravos, mas irmãos», Francisco disse:

“Todos somos chamados a ser livres, todos chamados a ser filhos; e cada um chamado, segundo as próprias responsabilidades, a lutar contra as formas modernas de escravidão. Nós todos, de cada nação, cultura e religião, unamos as nossas forças. Que nos guie e sustente Aquele que, para nos tornar irmãos a todos, Se fez nosso servo”. (JE/BS)

O Papa durante o Angelus: a paz é sempre possível, a oração é a sua raiz


(RV) Na sua reflexão para a oração mariana do Angelus neste primeiro dia do ano, e ainda na atmosfera festosa do Natal, o Papa Francisco começou por dizer que a Igreja nos convida a fixar o nosso olhar de fé e amor na Mãe de Jesus, a humilde mulher de Nazaré na qual "o Verbo se fez carne e habitou entre nós", reiterando que, por isso, é impossível separar a contemplação de Jesus e a contemplação de Maria, que lhe deu o seu amor e a sua carne humana.

Escutamos hoje, prosseguiu o Papa, as palavras de S. Paulo: "Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher" e aquele "nascido de uma mulher", nos diz de maneira essencial e por isso ainda mais forte sobre a verdadeira humanidade do Filho de Deus, ou seja, que o "nosso Salvador foi verdadeiramente homem e disso veio a salvação de toda a humanidade". E acrescentou:

Mas São Paulo também acrescenta: "nascido sob a lei". Com esta expressão ele sublinha que Cristo assumiu a condição humana libertando-a da mentalidade legalista fechada. A lei, de facto, sem a graça, torna-se um jugo insuportável e, em vez de fazer-nos bem nos faz mal. Eis, pois, a finalidade pela qual Deus envia o seu Filho ao mundo para se tornar homem: uma finalidade de libertação, ou melhor, de regeneração. Libertação, "para resgatar os que estavam sob a lei"; e o resgate veio com a morte de Cristo na cruz. Mas, sobretudo de regeneração "para que recebêssemos a adopção de filhos".

De facto, explica o Papa, incorporados os homens tornam-se verdadeiramente filhos de Deus, e esta maravilhosa passagem tem lugar em nós pelo Baptismo que nos transforma em membros vivos em Cristo e nos incorpora na sua Igreja, tendo ainda reiterado que Que agora, no início de um novo ano, nos faz lembrar o dia do nosso Baptismo para redescobrirmos o presente recebido neste sacramento que nos regenerou para uma vida nova, isto é, a vida divina. E tudo isto acontece através da Mãe Igreja, que tem como modelo a Mãe Maria e, graças ao baptismo, fomos introduzidos na comunhão com Deus, e não já estamos à mercê do mal e do pecado, mas recebemos o amor, a ternura, a misericórdia do Pai celeste. E prosseguiu ainda o Santo Padre:

Essa proximidade de Deus à nossa existência  dá-nos a verdadeira paz, o dom divino que queremos implorar especialmente hoje, Dia Mundial da Paz. "Não mais escravos, mas irmãos": eis a Mensagem deste Dia. Uma mensagem que afecta a todos nós. Todos nós somos chamados a combater todas as formas de escravidão e a construir a fraternidade. Todos, cada qual segundo a sua responsabilidade.

E a todos o Papa convidou a apresentar a Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, os bons propósitos, pedindo para que ela estenda sobre nós e sobre todos os dias do novo ano o manto da sua protecção maternal. E convidou aos fiéis presentes a invocar a Maria com o título:

Santa Mãe de Deus!

Depois do Angelus o Papa dirigiu aos milhares de fiéis reunidos na Praça de S. Pedro e aos peregrinos provenientes de Roma e de vários Países do mundo uma cordial saudação com os melhores votos de um feliz e sereno ano novo. E a propósito do Dia Mundial da Paz, acrescentou:

Neste momento estamos ligados com Rovereto, região do Trentino, onde se encontra o grande sino chamado "Maria Dolens", realizado em homenagem aos caídos de todas as guerras e benzido pelo Beato Paulo VI em 1965. Em breve ouviremos o toque daquele sino. Que ele seja a esperança de que nunca mais haja guerras, mas sempre desejo e empenho de paz e fraternidade entre os povos.

             (Toque do sino em ligação com con Rovereto, através do CTV)

E o Papa concluiu com os votos de um bom ano para todos, um ano de paz no abraço de ternura do Senhor e com a protecção materna de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.
 
Bom almoço e … arrivederci

Mensagem do Santo Padre para a celebração do XLVII DIA MUNDIAL DA PAZ




O Papa durante o Te Deum: defender os pobres e não defender-se dos pobres



(RV) No último dia do ano de 2014 o Papa Francisco presidiu na Basílica de São Pedro as primeiras Vésperas da Solenidade da Virgem Maria Mãe de Deus, com o canto do Te Deum e a Bênção do Santíssimo Sacramento. Um momento para “agradecer e pedir perdão”, disse o Papa na sua densa reflexão. Ao final da celebração, o Pontífice dirigiu-se ao Presépio montado na Praça São Pedro, onde deteve-se em oração diante do Menino Jesus na manjedoura, enquanto a banda da Guarda Suíça entoava o “Noite Feliz”. Mesmo com a temperatura de 2°C, Francisco saudou longamente os presentes, eufóricos com a oportunidade de estarem próximos do Papa.
 
Eis a reflexão do santo Padre na íntegra:

“Queridos irmãos e irmãs,

A Palavra de Deus nos introduz hoje, de modo especial, no significado do tempo, no entender que o tempo não é uma realidade estranha a Deus, simplesmente porque Ele quis revelar-se e salvar-nos na história. O significado de tempo, a temporalidade, é a atmosfera da epifania de Deus, ou seja, da manifestação de Deus e de seu amor concreto. De facto, o tempo é o mensageiro de Deus, como dizia São Pedro Fabro.

A liturgia de hoje nos recorda a frase do apóstolo João: “Filhinhos, já chegou a última hora” (1 Jo 2,18), e a de São Paulo que nos fala da “plenitude dos tempos” (Gal 4,4). Assim, o dia de hoje nos manifesta como o tempo foi – por assim dizer –“tocado” por Cristo, o Filho de Deus e de Maria, e dele recebeu significados novos e surpreendentes: tornou-se o “tempo salvífico”, isto é, o tempo definitivo de salvação e de graça.

E tudo isto nos leva a pensar no fim do caminho da vida, no fim do nosso caminho. Houve um início e haverá um fim, “um tempo para nascer e um tempo para morrer” (Ecle 3,2). Com esta verdade, tão simples e fundamental e tão negligenciada e esquecida, a santa mãe Igreja nos ensina a concluir o ano e também os nossos dias com um exame de consciência, através do qual repassamos o que aconteceu; agradecemos ao Senhor por todo bem que recebemos e que pudemos realizar e, ao mesmo tempo, repensamos as nossas faltas e os nossos pecados. Agradecer e pedir perdão.

É o que fazemos também hoje ao fim de um ano. Louvamos o Senhor com o hino Te Deum e ao mesmo tempo lhe pedimos perdão. A atitude de agradecer nos predispõe à humildade, em reconhecer e acolher os dons do Senhor.

O apóstolo Paulo resume, na Leitura destas Primeiras Vésperas, o motivo fundamental do nosso dar graças a Deus: Ele nos fez seus filhos, nos adoptou como filhos. Este dom imerecido nos enche de uma gratidão plena de estupor! Alguém poderia dizer: “Mas nós já não somos todos filhos de Deus, pelo simples facto de sermos homens?”. Certamente, porque Deus é Pai de cada pessoa que vem ao mundo. Mas sem esquecer que fomos afastados dele por causa do pecado original que nos separou do nosso Pai: a nossa relação filial é profundamente ferida. Por isto Deus mandou o seu Filho para nos resgatar, com o preço do seu sangue. E se existe um resgate, é porque existe uma escravidão. Nós éramos filhos, mas nos tornamos escravos, seguindo a voz do Maligno. Nenhum outro nos resgata desta escravidão substancial se não Jesus, que assumiu a nossa carne da Virgem Maria e morreu na Cruz para nos libertar da escravidão do pecado e nos restituir a condição filial perdida.

A liturgia de hoje recorda também que, “no princípio (antes do tempo) existia o Verbo ... e o Verbo se fez homem” e por isto afirma Santo Irineu: “Este é o motivo pelo qual o Verbo se fez homem, e o Filho de Deus, Filho do homem: porque o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a filiação divina, torna-se filho de Deus”.

Contemporaneamente o próprio dom pelo qual agradecemos, é também motivo de exame de consciência, de revisão da vida pessoal e comunitária, de nos perguntarmos: como é o nosso modo de viver? Vivemos como filhos ou como escravos? Vivemos como pessoas baptizadas em Cristo, ungidas pelo Espírito, resgatadas, livres? Ou vivemos segundo a lógica mundana, corrupta, fazendo aquilo que o diabo nos faz acreditar que seja de nosso interesse? Existe sempre no nosso caminho existencial uma tendência em resistir à libertação; temos medo da liberdade e paradoxalmente, preferimos mais ou menos conscientemente a escravidão. A liberdade nos assusta porque nos coloca diante do tempo e diante da nossa responsabilidade de vivê-lo bem. A escravidão reduz o tempo em “momentos” e assim nos sentimos mais seguros, isto é, nos faz viver momentos desligados do seu passado e do nosso futuro. Por outras palavras, a escravidão nos impede de viver plenamente e realmente o presente, porque o esvazia do passado e o fecha diante do futuro, da eternidade. A escravidão nos faz acreditar que não podemos sonhar, voar, esperar.

Um grande artista italiano dizia há alguns dias, que para o Senhor foi mais fácil tirar os israelitas do Egipto do que o Egipto do coração dos israelitas. Foram, “sim, libertados “materialmente” da escravidão, mas durante a marcha no deserto com as várias dificuldades e com a fome começaram então a sentir saudades do Egipto quando “comiam cebolas e alho” (cfr Nm 11,5); se esqueciam porém que as comiam na mesa da escravidão. No nosso coração se aninha a saudade da escravidão, porque aparentemente traz mais segurança, mais que a liberdade, que é muito mais arriscada. Como nos agrada estarmos engaiolados por tantos fogos de artifício, aparentemente belos mas que na realidade duram somente poucos instantes!

Deste exame de consciência depende também, para nós cristãos, a qualidade do nosso agir, do nosso viver, da nossa presença na cidade, do nosso serviço pelo bem comum, da nossa participação nas instituições públicas e eclesiais.

Por tal motivo, e sendo também Bispo de Roma, gostaria de deter-me sobre o nosso viver em Roma, que representa um grande dom, porque significa habitar na cidade eterna, significa para um cristão sobretudo fazer parte da Igreja fundada no testemunho e no martírio dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. E portanto também por isto agradecemos ao Senhor. Mas ao mesmo tempo representa uma grande responsabilidade. E Jesus disse: “ A quem muito foi dado, muito será pedido” (Lc 12,48). Assim perguntemo-nos: nesta cidade, nesta Comunidade eclesial, somos livres ou somos escravos, somos sal e luz? Somos fermento? Ou somos apagados, insípidos, hostis, desconfiados, irrelevantes, cansados?

Sem dúvida, os graves acontecimentos de corrupção, surgidos recentemente, pedem uma séria e consciente conversão dos corações para um renascimento espiritual e moral, como também para um renovado compromisso para construir uma cidade mais justa e solidária, onde os pobres, os fracos e os marginalizados estejam no centro da nossas preocupação e do nosso agir quotidiano. É necessário um grande e quotidiano comportamento de liberdade cristã para ter a coragem de proclamar na nossa cidade, que é necessário defender os pobres e não defender-se dos pobres, que é necessário servir os mais fracos, e não servir-se dos mais fracos!

O ensinamento de um simples diácono romano nos pode ajudar. Quando pediram a São Lourenço para levar e mostrar os tesouros da Igreja, levou simplesmente alguns pobres. Quando numa cidade os pobres e os fracos são cuidados, socorridos e promovidos na sociedade, eles se revelam o tesouro da Igreja e um tesouro na sociedade. Ao contrário, quando uma sociedade ignora os pobres, os persegue, os criminaliza, os obriga a “mafiarem-se”, esta sociedade se empobrece até a miséria, perde a liberdade e prefere “o alho e as cebolas” da escravidão, da escravidão do seu egoísmo, da escravidão da sua cobardia e esta sociedade cessa de ser cristã.

Queridos irmãos e irmãs, concluir o ano é voltar a afirmar que existe uma “última hora” e que existe a “plenitude do tempo”. Ao concluir este ano, ao agradecer e ao pedir perdão, nos fará bem pedir a graça de poder caminhar em liberdade para poder assim reparar os tantos danos feitos e poder defendermo-nos das saudades da escravidão, de não “nostalgiar” a escravidão.

A Virgem Santa, que é justamente o coração do tempo de Deus, quando o Verbo – que era no princípio – se fez um de nós no tempo; Ela que deu ao mundo o Salvador, nos ajude a acolhê-lo com coração aberto, para sermos e vivermos realmente livres como filhos de Deus”. (BS/JE)

Papa Francisco: grande mentira fazer crer que existem vidas indignas de ser vividas


(RV) É uma grande mentira fazer crer que certas vidas não são dignas de ser vividas: é o que escreve o Santo Padre na Mensagem para o Dia Mundial do Doente, a ser celebrado aos 11 de fevereiro de 2015 com o tema “Sapientia cordis”. “Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo”, extraído do Livro de Job (29, 15).

“O tempo gasto junto do doente é um tempo santo. É louvor a Deus” – afirma o Papa Francisco –, “que nos configura à imagem do seu Filho”, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate da multidão” (Mt 20,28).

Abordando o tema em questão na perspectiva da sabedoria do coração, o Papa Francisco fala do “valor do acompanhamento”, muitas vezes silencioso, que nos leva a dedicar tempo aos enfermos que, “graças à nossa proximidade e ao nosso afecto, se sentem mais amados e confortados”.

Pelo contrário – exclama o Pontífice – “que grande mentira se esconde por trás de certas expressões que insistem muito sobre a ‘qualidade da vida’ para fazer crer que as vidas gravemente afectadas pela doença não mereceriam ser vividas!”

Às vezes – observa o Papa Francisco – o nosso mundo esquece o valor especial que tem o tempo gasto à cabeceira do doente, porque, obcecados pela rapidez, pelo frenesim do fazer e do produzir, “esquece-se a dimensão da gratuidade, do prestar cuidados, do encarregar-se do outro”. No fundo, pondera o Papa, “por trás desta atitude, há muitas vezes uma fé morna”, que esqueceu a palavra do Senhor que diz: “a Mim mesmo o fizeste” (Mt 25, 40).

Por isso, o Papa Francisco recorda mais uma vez “a absoluta prioridade da ‘saída de si próprio para o irmão’, como um dos dois mandamentos principais que fundamentam toda norma moral e como o sinal mais claro para discernir sobre o caminho de crescimento espiritual em resposta à doação absolutamente gratuita de Deus” (Evangelii Gaudium, 179).
A caridade precisa de tempo, prossegue a Mensagem. “Tempo para cuidar dos doentes e tempo para os visitar. Tempo para estar junto deles”. Mas é preciso não tornar-se como os amigos de Job, que “escondiam dentro de si um juízo negativo acerca dele”: pensavam que a sua infelicidade fosse o castigo de Deus por alguma culpa dele.

Pelo contrário, continua o Papa, “a verdadeira caridade é partilha que não julga, que não tem a pretensão de converter o outro; está livre daquela falsa humildade que, fundamentalmente, busca aprovação e se compraz com o bem realizado”.

A experiência do sofrimento – escreve o Papa – “só encontra a sua resposta autêntica na Cruz de Jesus, acto supremo de solidariedade de Deus para connosco, totalmente gratuito, totalmente misericordioso. E esta resposta de amor ao drama do sofrimento humano, especialmente do sofrimento inocente, permanece para sempre gravada no corpo de Cristo ressuscitado, naquelas suas chagas gloriosas que são escândalo para a fé, mas também verificação da fé” (cf. Homilia na canonização de João XXIII e João Paulo II, 27 de abril de 2014).

Então – prossegue o Santo Padre – “também as pessoas imersas no mistério do sofrimento e da dor, se acolhido na fé, podem tornar-se testemunhas vivas duma fé que permite abraçar o próprio sofrimento, ainda que o homem não seja capaz, pela própria inteligência, de o compreender até ao fundo”.

O Papa Francisco recorda, portanto, os muitos cristãos que também hoje testemunham, não com palavras, mas com a sua vida radicada numa fé genuína, ser ‘olhos para o cego’ e ‘pés para o coxo’! Pessoas que estão próximas dos doentes que precisam de uma assistência contínua, de uma ajuda para lavar-se, para vestir-se, para alimentar-se.

Esse serviço, especialmente quando se prolonga no tempo, pode tornar-se cansativo e enfadonho. É relativamente fácil servir por alguns dias, mas é difícil cuidar de uma pessoa durante meses ou até mesmo durante anos, inclusive quando esta não é mais capaz de agradecer. Todavia – afirma o Papa Francisco –, é um “grande caminho de santificação”. (RL/BS)