03 dezembro, 2019

Papa: hoje a Igreja faz o elogio da pequenez

 
 
Somente num coração humilde o Espírito Santo pode germinar, disse o Papa Francisco ao celebrar a missa na Casa de Santa Marta. Francisco recordou que a revelação começa sempre na pequenez, não na soberba.
 
Adriana Masotti – Cidade do Vaticano

“A liturgia de hoje fala das coisas pequenas, podemos dizer que hoje é o dia do pequenino”: assim o Papa Francisco começou a homilia ao celebrar a missa na capela da Casa Santa Marta na manhã desta terça-feira (03/12).

A primeira leitura é extraída do livro do profeta Isaías, onde se anuncia: “Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor …”.

“A Palavra de Deus faz elogio do pequeno”, disse o Papa e faz uma promessa, a promessa de um broto que surgirá e o que é menor do que um broto?, questionou Francisco. E mesmo assim, “sobre ele repousará o espírito do Senhor”

A redenção, a revelação, a presença de Deus no mundo começa assim e  será sempre assim. A revelação de Deus faz-se na pequenez. Pequenez, ou seja, humildade, seja… tantas coisas, mas na pequenez. Os grandes apresentam-se poderosos, pensemos na tentação de Jesus no deserto, como Satanás se apresenta poderoso, dono de todo o mundo: “Eu dou tudo se tu...”. Ao contrário, as coisas de Deus começam a brotar, de uma semente, pequenas. E Jesus fala desta pequenez no Evangelho”. 

Fazer-se pequeno para que o Reino de Deus possa germinar

Jesus alegre-se e agradece ao Pai porque se revelou não aos poderosos, mas aos pequeninos, e recordou que no Natal “iremos todos ao presépio onde está a pequeneza de Deus”. E fez então uma advertência:

Numa comunidade cristã onde os fiéis, os sacerdotes, os bispos, não tomam esta estrada da pequenez, falta futuro, ruirá. Foi o que vimos nos grandes projetos da história: cristãos que procuravam, impoem-se com a força, a grandeza, as conquistas... Mas o Reino de Deus brota no pequeno, sempre no pequeno, a pequena semente, a semente de vida. Mas a semente sozinha não pode nada. E há outra realidade que ajuda e que dá a força: “Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor.” 
 
O Espírito não pode entrar num coração soberbo

“O Espírito escolhsempre o pequeno”, destacou ainda Francisco, porque não pode entrar no grande, no soberbo, no autossuficiente”. É no coração pequeno que acontece a revelação do Senhor.

O Papa falou dos estudiosos de teologia para destacar que os teólogos “não são aquelas pessoas que sabem tantas coisas de teologia”, se assim fosse, poderiam ser chamados de ‘enciclopedistas’ da teologia: “Sabem tudo; mas são incapazes de fazer teologia porque a teologia se faz de joelhos, fazendo-se pequenos”.

E, portanto, enfatizou novamente que "o verdadeiro pastor seja ele sacerdote, bispo, papa, cardeal, qualquer que seja, se ele não se tornar pequeno, não é um pastor", ao contrário, ele é um gerente de escritório. E isto aplica-se a todos. "Do que tem uma função que parece mais importante na Igreja, à pobre velhinha que faz as obras de caridade em segredo". O Papa Francisco esclareceu então uma dúvida que poderia surgir, isto é, que o caminho da pequenez conduz à pusilanimidade que é fechar-se em si mesmo, ao medo. E diz que, pelo contrário, "a pequenez é grande" é a capacidade de arriscar "porque não tem nada a perder". E explicou que é precisamente a pequenez que leva à magnanimidade, porque nos torna capazes de ir além de nós mesmos, sabendo que a grandeza é a dá Deus. E citou uma frase de São Tomás de Aquino, contida na sua Suma teológica, que explica como se deve comportar um cristão que se sente pequeno, diante dos desafios do mundo, para não viver como um covarde:

São Tomás diz assim, o resumo é o seguinte: "Não ter medo das coisas grandes - São Francisco Xavier hoje, nós o vimos - não ter medo, seguir em frente; mas levar em consideração as pequenas coisas, juntas, isto é divino". Um cristão parte sempre da pequenez. Se eu na minha oração me sinto pequeno, com as minhas limitações, meus pecados, como aquele publicano que rezou no fundo da igreja, envergonhado: "Tenha piedade de mim que sou pecador", irá para frente. Mas se acredita, ser um bom cristão, rezará como aquele fariseu que não saiu justificado: "Dou-te graças, Deus, porque sou grande". Não, agradeçamos a Deus porque somos pequenos.

A concretude das confissões das crianças

O Papa Francisco concluiu a sua homilia dizendo que gosta tanto de administrar o sacramento da confissão e, acima de tudo, gosta de confessar as crianças. As suas confissões, disse ele, são belas, porque contam os factos concretos: "Eu disse esta palavra", por exemplo, e a repetem para ti. Finalmente, o Papa comenta: "A concretude daquele que é pequeno. "Senhor, sou um pecador porque faço isto, isto, isto, isto... Esta é a minha miséria, a minha pequenez. Mas envia o teu Espírito para que eu não tenha medo das grandes coisas, não tenha medo de que faças grandes coisas na minha vida".

VN

O Papa: dar dignidade e participação às pessoas com deficiências

 
O Papa com pessoas com deficiências 
 
Mensagem do Papa Francisco por ocasião do Dia Internacional das Pessoas com Deficiências. 
 
Jane Nogara - Cidade do Vaticano

O Papa Francisco enviou uma mensagem por ocasião do Dia Internacional das Pessoas com Deficiências comemorado nesta terça-feira, 3 de dezembro.

Francisco inicia a sua mensagem convidando a “renovar o nosso olhar de fé que vê em cada irmão ou irmã a presença do próprio Cristo”. 

Tornar o mundo mais humano

Embora tenham sido feitos grandes progressos no âmbito médico e assistencial, recorda o Papa, “ainda hoje se constata a presença da cultura do descarte e muitos deles sentem que existem sem pertencer e sem participar”. E para tutelar os direitos das pessoas com deficiências e as suas famílias devemos “tornar o mundo mais humano removendo tudo o que lhes impede de viver uma cidadania plena, e os obstáculos do preconceito, favorecendo a acessibilidade aos lugares e a qualidade de vida, considerando todas as dimensões do homem”. 

Ungir-lhes de dignidade

Francisco reitera que para cuidar das pessoas com deficiências temos que principalmente “caminhar juntos e ungir-lhes de dignidade para uma participação ativa na comunidade civil e eclesial".

Seguidamente o Papa recordou os “exilados ocultos”, que vivem nas nossas casas, famílias e sociedade. “Penso em pessoas de todas as idades, principalmente idosos, que por alguma deficiência, algumas vezes sentem-se um peso, uma ‘presença incómoda’". E mais uma vez o Pontífice exorta todos a “reconhecer a dignidade de cada um sabendo que para isso não depende a funcionalidade dos cinco sentidos”.
“ Precisamos de criar anticorpos contra uma cultura que considera vidas de série A e outras de série B: isto é pecado social!”
E pondera: “De facto fazer boas leis e derrubar as barreiras físicas é importante, mas não suficiente, se não for mudada a mentalidade, se não se supera a cultura que causa desigualdades, impedindo às pessoas com deficiência a participação ativa na vida diária”.

Conclui afirmando que “uma pessoa com deficiência, para se construir, precisa não apenas de existir, mas também pertencer a uma comunidade”.

VN

02 dezembro, 2019

Francisco aos jovens empresários franceses: educar o mundo do trabalho a um novo estilo


Papa Francisco com os jovens empresários franceses  (Vatican Media)

“Estou ciente de que, na vida quotidiana, não é fácil conciliar as exigências da fé e o ensinamento social da Igreja com as necessidades e os vínculos impostos pelas leis do mercado e da globalização", disse o Papa no seu discurso. 
Mariangela Jaguraba - Cidade do Vaticano
O Papa Francisco recebeu em audiência, nesta segunda-feira (02/12), um grupo de jovens empresários franceses que participa, em Roma, em três dias de encontros e reflexões sobre a vocação dos empresários cristãos à luz da Doutrina Social da Igreja.
O grupo é formado por trezentos empresários católicos franceses e está acompanhado pelo bispo de Fréjius-Tolone, dom Dominique Rey.
Estou ciente de que, na vida quotidiana, não é fácil conciliar as exigências da fé e o ensinamento social da Igreja com as necessidades e os vínculos impostos pelas leis do mercado e da globalização. Acredito que os valores do Evangelho que vocês vivem na direção das vossas empresas, bem como as várias relações que mantêm nas vossas atividades, são ocasiões para um testemunho cristão genuíno e insubstituível. 

Conflitos e decisões
O Papa espera que esta peregrinação, em Roma, possa iluminar o discernimento dos jovens empresários sobre as escolhas que deverão fazer. “Nunca foi fácil ser cristãos e ter grandes responsabilidades”, disse o pontífice, ressaltando o contexto complexo criado entre produtividade e justiça social, e evidenciando o conflito que um empresário cristão vive e deve enfrentar quotidianamente:
Os conflitos de consciência nas decisões quotidianas que vocês devem tomar, imagino que sejam numerosos: por um lado, a necessidade que vos é imposta, geralmente pela sobrevivência das empresas, das pessoas que trabalham nelas e as suas famílias, de conquistar mercados, aumentar a produtividade, reduzir atrasos, recorrer a truques publicitários, aumentar o consumo, e por outro lado, as exigências cada vez mais urgentes de justiça social para garantir a todos a possibilidade de terem um salário e viveem dignamente. Penso nas condições de trabalho, nos salários, nas ofertas de emprego e sua estabilidade, e na proteção do ambiente. 

Critérios de discernimento
Segundo o Papa, são dois os critérios de discernimento para “viver estes conflitos com serenidade e a esperança”. O primeiro, encontra-se na Constituição Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, que diz em relação aos leigos engajados nas realidades temporais: “Cabe à sua consciência já devidamente formada, inscrever a lei divina na vida da cidade terrena.”
Outro critério útil encontra-se na sua Encíclica Laudato si, em que faz uma “avaliação da situação do mundo, de alguns sistemas que regulam as atividades económicas, com as suas consequências sobre as pessoas e o ambiente.
É uma avaliação que às vezes pode parecer severa, mas que provoca, creio, um grito de alarme por causa da deterioração da nossa Casa Comum e por causa da multiplicação da pobreza e da escravidão nas quais vivem hoje várias pessoas. Tudo está conetado.

Educar o mundo do trabalho a um novo estilo
“Diante desta realidade, certamente não têm uma resposta imediata e eficaz a ser dada aos desafios do mundo atual. Nisso, às vezes vocês podem se sentirem impotentes”, disse Francisco. “No entanto, vocês têm um papel essencial a desempenhar, porque, mesmo modestamente, em algumas mudanças concretas de hábitos e estilos, tanto nas relações com os vossos colaboradores diretos, ou melhor ainda na difusão de novas culturas empresariais, vocês podem agir para mudar as coisas concretamente, e aos poucos, educar o mundo do trabalho a um novo estilo”. 

Conversão ecológica e espiritual
Segundo o Papa, é preciso “fazer uma conversão” conforme “evidenciado no recente Sínodo para a Amazónia”. “A conversão é um processo que age profundamente: um processo talvez lento, aparentemente, sobretudo quando se trata de converter as mentalidades, mas que permite progressos reais, se praticado com convicção e determinação mediante ações concretas.”
Por fim, a “conversão ecológica não pode ser separada da conversão espiritual, que é a sua condição indispensável.” “A espiritualidade cristã propõe uma maneira alternativa de entender a qualidade de vida e incentiva a um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de alegrar profundamente sem se ser obcecado pelo consumo.”
O Papa convidou os jovens empresários a seguirem o “caminho da simplicidade e da sobriedade, pois a simplicidade ajuda-nos a parar e apreciar as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegar ao que temos e nem nos entristecer-mos com o que não possuímos”.

VN

01 dezembro, 2019

Homilia no Primeiro Domingo do Advento e ordenação de diácono


 Foto: Patriarcado de Lisboa

Entramos em Advento, vivamos definitivamente

1. Entramos em Advento, vivamos definitivamente Assim mesmo e para que nada se feche e definhe, como se ficasse em si próprio. Pedimos há pouco na oração coleta: «Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo».

Como sabemos, «o Tempo do Advento tem dupla caraterística: é tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus aos homens; simultaneamente é tempo em que, comemorando esta primeira vinda, o nosso espírito se dirige para a expetativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Por estes dois motivos, o Advento apresenta-se-nos com um tempo de piedosa e alegre expetativa» (EDREL, 669). Quando dizemos que vem, despertamos a atenção à sua presença ressuscitada, que se alarga a todo o mundo e se pode entrever em tantos sinais, tendo nós olhos que realmente vejam.    

Sim, Advento é mais do que preparar e lembrar a primeira vinda de Cristo, que celebraremos depois, no Tempo do Natal. É – para já e urgentemente - apressarmos em nós e à nossa volta o encontro definitivo com o Senhor que vem.

Não nos admire esta linguagem, que é primeiríssima no cristianismo. Assim na Carta de Tiago: «Aproximai-vos de Deus e Ele aproximar-se-á de vós» (Tg 4, 8). Assim na 2ª de Pedro: «… como deve ser santa a vossa vida e a vossa piedade, enquanto esperais e apressais a chegada do dia de Deus» (2 Pe 3, 11-12). Sim, irmãos, o cristão não teme o fim do mundo, porque sabe que esse fim acabará unicamente com o que em nós e à nossa volta não seja Cristo. Cristo, na imensidade do seu ser, onde toda a terra e todo o céu definitivamente se incluem, onde todo o bem finalmente acontece.

O cristão almeja este encontro, nunca o perde de vista, não o troca por nada, nem adia por motivo algum. Como na última frase do Apocalipse, como na resposta a cada consagração eucarística, a vida do cristão resume-se e realiza-se neste indispensável clamor: “Vinde, Senhor Jesus!”. E sabe também que o clamor é prático, no encontro com os outros, em quem o mesmo Cristo se apresenta, como quem pede e requer atenção, correspondência e serviço. Porque assim se começa a viver a única realidade definitiva, a caridade que nunca acabará (cf. 1 Co 13, 8).

2. As Leituras que ouvimos vieram neste sentido. Isaías, o profeta mais repleto de Advento no antigo Povo de Deus, entrevia-o como um encontro universal, assim descrito: «Sucederá, nos dias que hão de vir, que o monte do templo do Senhor se há de erguer no cimo das montanhas e se elevará no alto das colinas. Ali afluirão todas as nações…». Reunidas em torno de Deus, igualmente se encontrariam entre si: «Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão de preparar para a guerra». Concluindo com um convite ao seu próprio povo: «Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor».

Nas atuais circunstâncias, não devemos desejar outra coisa: reunião em torno do único e universal Criador de todos; mudança consequente das armas de guerra em instrumentos de paz; caminho decidido a esta luz. Começar a fazê-lo aonde estamos, das famílias às comunidades, entre vizinhos e colegas de escola ou trabalho, entre concidadãos e quem entretanto chegar, é o melhor Advento que podemos ter e, desde já, concretizar. Ativemos o Advento que nos realizará finalmente
Assim o cantámos no Salmo. E depois ouvimos São Paulo, que já conhecia a ressurreição de Cristo e nela entrevia a do mundo inteiro: «A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz».
Esta é a luz em que queremos ver. Mais do que que a sucessão dos dias e das noites, na rotina que os dilúvios interrompem, vale a alvorada da Páscoa de Cristo, que há dois mil anos nos aclarou a vida, na iluminação batismal que temos e no esplendor definitivo que trouxe. Apesar de tudo o que o encobre, até em nós próprios, sabemos bem que o primeiro Advento culminou em Páscoa, qual destino da criação inteira – no momento que só Deus conhece, mas que nós divisamos e apressamos em cada caridade que aconteça.

3. Viver como Jesus nos ensinou a viver, é o que importa agora. Ele é realmente a vida do mundo, a nova criação em expansão pascal. O Advento autêntico fará de nós sinais da vida ultimada, que assim o será com Cristo em Deus. Antes de mais na caridade, vivendo com os outros o Advento do Senhor que nos diz: «Sempre que fizerdes isto [o bem] a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (cf. Mt 25, 40). Também no matrimónio dos que “se casam no Senhor” (cf. 1 Co 7, 39), compartilhando do seu amor uno, indissolúvel e fecundo e encontrando-O assim mesmo, na entrega recíproca do casal e da família. Igualmente nos carismas da virgindade e do celibato – como acontecerá convosco, caros ordinandos -, anunciando de coração inteiro aquele horizonte final em que todos serão como anjos no Céu» (cf. Mt 22, 30). Sinais de Advento, vivido e testemunhado.

Como aconteceu com Cristo, nada se desvaloriza do que no tempo acontece e que Ele viveu também até aos trinta anos, em Nazaré da Galileia. Mas depois inaugurou em si próprio o tempo definitivo, não constituindo uma família mais, para ser familiar de todos. Tudo referindo absolutamente a Deus Pai e convertendo o crescimento humano em filiação divina, o trabalho em caridade e os laços habituais em família de Deus. Abriu-nos o último horizonte, em que as coisas boas se tornarão excelentes.

Foi assim que na terra começou há dois mil anos o Advento do Reino dos Céus. O Reino em que caberemos todos, na quantidade inteira do que somos e na qualidade infinda que só Deus permite. O Reino que a Igreja há de assinalar, como sua única razão de ser, para não cair na insignificância.

Perder qualquer uma destas dimensões, deixando de assinalar a última, seria truncar o Evangelho de Cristo e diluí-lo no que já existe e depois não basta. Creio mesmo que deixaria de ser propriamente cristão, pois em Cristo tudo assinala o fim que há de chegar, modo de dizer a finalidade certa das vidas de todos e de cada um. Na verdade, «só Deus basta» (Santa Teresa de Jesus) e «o mundo sufoca porque não adora» (São Pedro Julião Eymard). Pediremos ao Pai, na oração final desta Missa, que, durante a nossa vida da terra, nos ensine a amar os bens do Céu e a viver para os bens eternos.

Agradecemos a Deus o vosso carisma celibatário e a vossa vocação ministerial, caríssimos ordinandos, com oportunidade acrescida. Tomai um e outra como Advento de Cristo, que para vós aconteça e por vós se manifeste. Vivei em ação de graças, ensaiando já o que eternamente sereis - e definitivamente nós todos.

Santa Maria de Belém, 1 de dezembro de 2019
+ Manuel, cardeal-patriarca


Patriarcado de Lisboa

Papa: não importa como montar o presépio; o que conta é que fale à nossa vida



“Com esta Carta, quero apoiar a tradição bonita das nossas famílias a prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares.

Bianca Fraccalvieri – Cidade do Vaticano

“Admirável sinal” (Admirabile Signum) é o título da Carta Apostólica que o Papa Francisco dedica ao presépio para ressaltar o seu significado e valor.

O texto é dirigido a todo o povo de Deus, sobretudo ao núcleo familiar, como uma forma de valorizar a transmissão da fé entre avós, pais, filhos e netos.
“ Com esta Carta, quero apoiar a tradição bonita das nossas famílias prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças… ”
Para Francisco, tra-se de um “exercício de imaginação criativa” e faz votos de que esta prática “nunca desapareça”. E “onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar”. 

Assim nasce a tradição

Dividido em 10 pontos, o texto recorda a origem do presépio com São Francisco de Assis, a sua obra de evangelização, as figuras e o simbolismo que o compõem.

A palavra presépio vem do latim praesepium, que significa “manjedoura”. As Fontes Franciscanas narram de forma detalhada o que aconteceu na cidade de Greccio, que fica no Vale de Rieti, a menos de 100 km de Roma.

Quinze dias antes do Natal, Francisco chamou João, um homem daquela terra, para lhe pedir que o ajudasse a concretizar um desejo: “Quero representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incómodos que Ele padeceu”.

E assim foi: no dia 25 de dezembro de 1223, chegaram a Greccio muitos frades, e também homens e mulheres das casas da região, trazendo flores e tochas para iluminar aquela noite santa num lugar designado. Francisco, ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro.

“Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério”, escreve o Papa.
“ Com a simplicidade daquele sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização. ”
Segundo o Pontífice, armar o Presépio nas nossas casas ajuda a reviver a história que aconteceu em Belém. Imaginando as cenas, estimulam-se os afetos e nos sentimos envolvidos na história da salvação. 

Despojamento

“O Presépio é um convite a «sentir», a «tocar» a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento.”

Francisco comenta também o simbolismo presente nas várias partes que compõem o presépio: a escuridão da noite, a paisagem e os personagens.

As ruínas e os pobres ali representados recordam que eles são os privilegiados deste mistério. A mensagem que surge do presépio é clara: “não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade”. “Jesus nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial.”

Nascendo no presépio, escreve o Papa, Deus dá início à única verdadeira revolução: a revolução do amor e da ternura, através da “força meiga” de um menino.

“Do Presépio, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado.”

Deste modo, o presépio torna-se para os fiéis um convite a tornarem-se discípulos de Cristo, a refletir sobre a responsabilidade de evangelizar e serem portadores da Boa Nova com ações concretas de misericórdia.

Por outras palavras, não é importante como armar o presépio: “O que conta é que fale à nossa vida”, recorda o Papa. E Francisco concluiu:
“ Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de transmissão da fé. (…) E educa para sentir que nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso «obrigado» a Deus, que tudo quis partilhar connosco para nunca nos deixar sozinhos. ”

Leia também, na íntegra:

"Admirável sinal. Carta Apostólica do Papa, sobre o Presépio"


 VN


Admirável sinal: Carta Apostólica do Papa sobre o presépio

 
 O Papa divulga a Carta Apostólica no primeiro domingo do Advento  (AFP or licensors)
 
Leia na íntegra a nova Carta Apostólica do Papa Francisco: "Admirabile signum":
 
CARTA APOSTÓLICA

ADMIRABILE SIGNUM

DO SANTO PADRE FRANCISCO

SOBRE O SIGNIFICADO E VALOR DO PRESÉPIO

1.        O SINAL ADMIRÁVEL do Presépio, muito amado pelo povo cristão, não cessa de suscitar maravilha e enlevo. Representar o acontecimento da natividade de Jesus equivale a anunciar, com simplicidade e alegria, o mistério da encarnação do Filho de Deus. De facto, o Presépio é como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura. Ao mesmo tempo que contemplamos a representação do Natal, somos convidados a colocar-nos espiritualmente a caminho, atraídos pela humildade d’Aquele que Se fez homem a fim de Se encontrar com todo o homem, e a descobrirmos que nos ama tanto, que Se uniu a nós para podermos, também nós, unir-nos a Ele.

Com esta Carta, quero apoiar a tradição bonita das nossas famílias prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças… Trata-se verdadeiramente dum exercício de imaginação criativa, que recorre aos mais variados materiais para produzir, em miniatura, obras-primas de beleza. Aprende-se em criança, quando o pai e a mãe, juntamente com os avós, transmitem este gracioso costume, que encerra uma rica espiritualidade popular. Almejo que esta prática nunca desapareça; mais, espero que a mesma, onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar.

2.        A origem do Presépio fica-se a dever, antes de mais nada, a alguns pormenores do nascimento de Jesus em Belém, referidos no Evangelho. O evangelista Lucas limita-se a dizer que, tendo-se completado os dias de Maria dar à luz, «teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (2, 7). Jesus é colocado numa manjedoura, que, em latim, se diz praesepium, donde vem a nossa palavra presépio.

Ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para Aquele que Se há de revelar como «o pão vivo, o que desceu do céu» (Jo 6, 51). Uma simbologia, que já Santo Agostinho, a par doutros Padres da Igreja, tinha entrevisto quando escreveu: «Deitado numa manjedoura, torna-Se nosso alimento».[1] Na realidade, o Presépio inclui vários mistérios da vida de Jesus, fazendo-os aparecer familiares à nossa vida diária.

Passemos agora à origem do Presépio, tal como nós o entendemos. A mente leva-nos a Gréccio, na Valada de Rieti; aqui se deteve São Francisco, provavelmente quando vinha de Roma onde recebera, do Papa Honório III, a aprovação da sua Regra em 29 de novembro de 1223. Aquelas grutas, depois da sua viagem à Terra Santa, faziam-lhe lembrar de modo particular a paisagem de Belém. E é possível que, em Roma, o «Poverello» de Assis tenha ficado encantado com os mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, que representam a natividade de Jesus e se encontram perto do lugar onde, segundo uma antiga tradição, se conservam precisamente as tábuas da manjedoura.

As Fontes Franciscanas narram, de forma detalhada, o que aconteceu em Gréccio. Quinze dias antes do Natal, Francisco chamou João, um homem daquela terra, para lhe pedir que o ajudasse a concretizar um desejo: «Quero representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incómodos que Ele padeceu pela falta das coisas necessárias a um recém-nascido, tendo sido reclinado na palha duma manjedoura, entre o boi e o burro».[2] Mal acabara de o ouvir, o fiel amigo foi preparar, no lugar designado, tudo o que era necessário segundo o desejo do Santo. No dia 25 de dezembro, chegaram a Gréccio muitos frades, vindos de vários lados, e também homens e mulheres das casas da região, trazendo flores e tochas para iluminar aquela noite santa. Francisco, ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. À vista da representação do Natal, as pessoas lá reunidas manifestaram uma alegria indescritível, como nunca tinham sentido antes. Depois o sacerdote celebrou solenemente a Eucaristia sobre a manjedoura, mostrando também deste modo a ligação que existe entre a Encarnação do Filho de Deus e a Eucaristia. Em Gréccio, naquela ocasião, não havia figuras: o Presépio foi formado e vivido pelos que estavam presentes.[3]

Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério.
O primeiro biógrafo de São Francisco, Tomás de Celano, lembra que naquela noite, à simples e comovente representação se veio juntar o dom duma visão maravilhosa: um dos presentes viu que jazia na manjedoura o próprio Menino Jesus. Daquele Presépio do Natal de 1223, «todos voltaram para suas casas cheios de inefável alegria»[4].

3.        Com a simplicidade daquele sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização. O seu ensinamento penetrou no coração dos cristãos, permanecendo até aos nossos dias como uma forma genuína de repropor, com simplicidade, a beleza da nossa fé. Aliás, o próprio lugar onde se realizou o primeiro Presépio sugere e suscita estes sentimentos. Gréccio torna-se um refúgio para a alma que se esconde na rocha, deixando-se envolver pelo silêncio.

Por que motivo suscita o Presépio tanto enlevo e nos comove? Antes de mais nada, porque manifesta a ternura de Deus. Ele, o Criador do universo, abaixa-Se até à nossa pequenez. O dom da vida, sempre misterioso para nós, fascina-nos ainda mais ao vermos que Aquele que nasceu de Maria é a fonte e o sustento de toda a vida. Em Jesus, o Pai deu-nos um irmão, que vem procurar-nos quando estamos desorientados e perdemos o rumo, e um amigo fiel, que está sempre ao nosso lado; deu-nos o seu Filho, que nos perdoa e levanta do pecado.

Armar o Presépio em nossas casas ajuda-nos a reviver a história sucedida em Belém. Naturalmente os Evangelhos continuam a ser a fonte, que nos permite conhecer e meditar aquele Acontecimento; mas, a sua representação no Presépio ajuda a imaginar as várias cenas, estimula os afetos, convida a sentir-nos envolvidos na história da salvação, contemporâneos daquele evento que se torna vivo e atual nos mais variados contextos históricos e culturais.

De modo particular, desde a sua origem franciscana, o Presépio é um convite a «sentir», a «tocar» a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento, que parte da manjedoura de Belém e leva até à Cruz, e um apelo ainda a encontrá-Lo e servi-Lo, com misericórdia, nos irmãos e irmãs mais necessitados (cf. Mt 25, 31-46).

4.        Gostava agora de repassar os vários sinais do Presépio para apreendermos o significado que encerram. Em primeiro lugar, representamos o céu estrelado na escuridão e no silêncio da noite. Fazemo-lo não apenas para ser fiéis às narrações do Evangelho, mas também pelo significado que possui. Pensemos nas vezes sem conta que a noite envolve a nossa vida. Pois bem, mesmo em tais momentos, Deus não nos deixa sozinhos, mas faz-Se presente para dar resposta às questões decisivas sobre o sentido da nossa existência: Quem sou eu? Donde venho? Por que nasci neste tempo? Por que amo? Por que sofro? Por que hei de morrer? Foi para dar uma resposta a estas questões que Deus Se fez homem. A sua proximidade traz luz onde há escuridão, e ilumina a quantos atravessam as trevas do sofrimento (cf. Lc 1, 79).

Merecem também uma referência as paisagens que fazem parte do Presépio; muitas vezes aparecem representadas as ruínas de casas e palácios antigos que, nalguns casos, substituem a gruta de Belém tornando-se a habitação da Sagrada Família. Parece que estas ruínas se inspiram na Legenda Áurea, do dominicano Jacopo de Varazze (século XIII), onde se refere a crença pagã segundo a qual o templo da Paz, em Roma, iria desabar quando desse à luz uma Virgem. Aquelas ruínas são sinal visível sobretudo da humanidade decaída, de tudo aquilo que cai em ruína, que se corrompe e definha. Este cenário diz que Jesus é a novidade no meio dum mundo velho, e veio para curar e reconstruir, para reconduzir a nossa vida e o mundo ao seu esplendor originário.

5.        Uma grande emoção se deveria apoderar de nós, ao colocarmos no Presépio as montanhas, os riachos, as ovelhas e os pastores! Pois assim lembramos, como preanunciaram os profetas, que toda a criação participa na festa da vinda do Messias. Os anjos e a estrela-cometa são o sinal de que também nós somos chamados a pôr-nos a caminho para ir até à gruta adorar o Senhor.

«Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer» (Lc 2, 15): assim falam os pastores, depois do anúncio que os anjos lhes fizeram. É um ensinamento muito belo, que nos é dado na simplicidade da descrição. Ao contrário de tanta gente ocupada a fazer muitas outras coisas, os pastores tornam-se as primeiras testemunhas do essencial, isto é, da salvação que nos é oferecida. São os mais humildes e os mais pobres que sabem acolher o acontecimento da Encarnação. A Deus, que vem ao nosso encontro no Menino Jesus, os pastores respondem, pondo-se a caminho rumo a Ele, para um encontro de amor e de grata admiração. É precisamente este encontro entre Deus e os seus filhos, graças a Jesus, que dá vida à nossa religião e constitui a sua beleza singular, que transparece de modo particular no Presépio.

6.        Nos nossos Presépios, costumamos colocar muitas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, as de mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração. Também estas figuras estão próximas do Menino Jesus de pleno direito, sem que ninguém possa expulsá-las ou afastá-las dum berço de tal modo improvisado que os pobres, ao seu redor, não destoam absolutamente. Antes, os pobres são os privilegiados deste mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de Deus no meio de nós.

No Presépio, os pobres e os simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus, «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29), nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial. Do Presépio surge, clara, a mensagem de que não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade. Como pano de fundo, aparece o palácio de Herodes, fechado, surdo ao jubiloso anúncio. Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura. Do Presépio, com meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado.

Muitas vezes, as crianças (mas os adultos também!) gostam de acrescentar, no Presépio, outras figuras que parecem não ter qualquer relação com as narrações do Evangelho. Contudo esta imaginação pretende expressar que, neste mundo novo inaugurado por Jesus, há espaço para tudo o que é humano e para toda a criatura. Do pastor ao ferreiro, do padeiro aos músicos, das mulheres com a bilha de água ao ombro às crianças que brincam… tudo isso representa a santidade do dia a dia, a alegria de realizar de modo extraordinário as coisas de todos os dias, quando Jesus partilha connosco a sua vida divina.

7.        A pouco e pouco, o Presépio leva-nos à gruta, onde encontramos as figuras de Maria e de José. Maria é uma mãe que contempla o seu Menino e O mostra a quantos vêm visitá-Lo. A sua figura faz pensar no grande mistério que envolveu esta jovem, quando Deus bateu à porta do seu coração imaculado. Ao anúncio do anjo que Lhe pedia para Se tornar a mãe de Deus, Maria responde com obediência plena e total. As suas palavras – «eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38) – são, para todos nós, o testemunho do modo como abandonar-se, na fé, à vontade de Deus. Com aquele «sim», Maria tornava-Se mãe do Filho de Deus, sem perder – antes, graças a Ele, consagrando – a sua virgindade. N’Ela, vemos a Mãe de Deus que não guarda o seu Filho só para Si mesma, mas pede a todos que obedeçam à palavra d’Ele e a ponham em prática (cf. Jo 2, 5).

Ao lado de Maria, em atitude de quem protege o Menino e sua mãe, está São José. Geralmente, é representado com o bordão na mão e, por vezes, também segurando um lampião. São José desempenha um papel muito importante na vida de Jesus e Maria. É o guardião que nunca se cansa de proteger a sua família. Quando Deus o avisar da ameaça de Herodes, não hesitará a pôr-se em viagem emigrando para o Egito (cf. Mt 2, 13-15). E depois, passado o perigo, reconduzirá a família para Nazaré, onde será o primeiro educador de Jesus, na sua infância e adolescência. José trazia no coração o grande mistério que envolvia Maria, sua esposa, e Jesus; homem justo que era, sempre se entregou à vontade de Deus e pô-la em prática.

8.        O coração do Presépio começa a palpitar, quando colocamos lá, no Natal, a figura do Menino Jesus. Assim Se nos apresenta Deus, num menino, para fazer-Se acolher nos nossos braços. Naquela fraqueza e fragilidade, esconde o seu poder que tudo cria e transforma. Parece impossível, mas é assim: em Jesus, Deus foi criança e, nesta condição, quis revelar a grandeza do seu amor, que se manifesta num sorriso e nas suas mãos estendidas para quem quer que seja.

O nascimento duma criança suscita alegria e encanto, porque nos coloca perante o grande mistério da vida. Quando vemos brilhar os olhos dos jovens esposos diante do seu filho recém-nascido, compreendemos os sentimentos de Maria e José que, olhando o Menino Jesus, entreviam a presença de Deus na sua vida.

«De facto, a vida manifestou-se» (1 Jo 1, 2): assim o apóstolo João resume o mistério da Encarnação. O Presépio faz-nos ver, faz-nos tocar este acontecimento único e extraordinário que mudou o curso da história e a partir do qual também se contam os anos, antes e depois do nascimento de Cristo.

O modo de agir de Deus quase cria vertigens, pois parece impossível que Ele renuncie à sua glória para Se fazer homem como nós. Que surpresa ver Deus adotar os nossos próprios comportamentos: dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças. Como sempre, Deus gera perplexidade, é imprevisível, aparece continuamente fora dos nossos esquemas. Assim o Presépio, ao mesmo tempo que nos mostra Deus tal como entrou no mundo, desafia-nos a imaginar a nossa vida inserida na de Deus; convida a tornar-nos seus discípulos, se quisermos alcançar o sentido último da vida.

9.        Quando se aproxima a festa da Epifania, colocam-se no Presépio as três figuras dos Reis Magos. Tendo observado a estrela, aqueles sábios e ricos senhores do Oriente puseram-se a caminho rumo a Belém para conhecer Jesus e oferecer-Lhe de presente ouro, incenso e mirra. Estes presentes têm também um significado alegórico: o ouro honra a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade; a mirra, a sua humanidade sagrada que experimentará a morte e a sepultura.

Ao fixarmos esta cena no Presépio, somos chamados a refletir sobre a responsabilidade que cada cristão tem de ser evangelizador. Cada um de nós torna-se portador da Boa-Nova para as pessoas que encontra, testemunhando a alegria de ter conhecido Jesus e o seu amor; e fá-lo com ações concretas de misericórdia.

Os Magos ensinam que se pode partir de muito longe para chegar a Cristo: são homens ricos, estrangeiros sábios, sedentos de infinito, que saem para uma viagem longa e perigosa e que os leva até Belém (cf. Mt 2, 1-12). À vista do Menino Rei, invade-os uma grande alegria. Não se deixam escandalizar pela pobreza do ambiente; não hesitam em pôr-se de joelhos e adorá-Lo. Diante d’Ele compreendem que Deus, tal como regula com soberana sabedoria o curso dos astros, assim também guia o curso da história, derrubando os poderosos e exaltando os humildes. E de certeza, quando regressaram ao seu país, falaram deste encontro surpreendente com o Messias, inaugurando a viagem do Evangelho entre os gentios.

10.      Diante do Presépio, a mente corre de bom grado aos tempos em que se era criança e se esperava, com impaciência, o tempo para começar a construí-lo. Estas recordações induzem-nos a tomar consciência sempre de novo do grande dom que nos foi feito, transmitindo-nos a fé; e ao mesmo tempo, fazem-nos sentir o dever e a alegria de comunicar a mesma experiência aos filhos e netos. Não é importante a forma como se arma o Presépio; pode ser sempre igual ou modificá-la cada ano. O que conta, é que fale à nossa vida. Por todo o lado e na forma que for, o Presépio narra o amor de Deus, o Deus que Se fez menino para nos dizer quão próximo está de cada ser humano, independentemente da condição em que este se encontre.

Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de transmissão da fé. A partir da infância e, depois, em cada idade da vida, educa-nos para contemplar Jesus, sentir o amor de Deus por nós, sentir e acreditar que Deus está connosco e nós estamos com Ele, todos filhos e irmãos graças àquele Menino Filho de Deus e da Virgem Maria. E educa para sentir que nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso «obrigado» a Deus, que tudo quis partilhar connosco para nunca nos deixar sozinhos.

Dado em Gréccio, no Santuário do Presépio, a 1 de dezembro de 2019, sétimo do meu pontificado.

[Franciscus]

[1] Santo Agostinho, Sermão 189, 4.
[2] Fontes Franciscanas, 468.
[3] Cf. Tomás de Celano, Vita Prima, 85: Fontes Franciscanas, 469.
[4] Ibid., 86: o. c., 470.
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