11 janeiro, 2017

Papa: a esperança jamais desilude


(RV)  O Papa Francisco realizou na manhã desta quarta-feira, dia 11 de Janeiro, às 9,45 horas de Roma, a habitual audiência geral na Aula Paulo VI, repleta de fiéis e peregrinos vindos de todas as partes da Itália e do mundo para assistir a catequese do Papa. Tema da reflexão catequética do Papa hoje é a esperança que nos advém do Advento e do Natal: um período do ano litúrgico, disse o Papa, que desperta no povo de Deus o desejo da esperança. A esperança, sublinhou Francisco, é uma necessidade primária do homem: ter espença no futuro, acreditar na vida, enfim,  “pensar positivo”.

Mas é importante que essa esperança seja radicada em algo que  nos possa ajudar a viver e a dar um sentido à nossa existência. É por isso que a Sagrada Escritura nos adverte contra as falsas esperanças que o mundo nos apresenta, revelando a sua inutilidade e insensatez. E o faz de diversos modos, mas sobretudo denunciando a falsidade dos ídolos nos quais o homem está continuamente tentado de depositar a sua confiança, transformando-os em objectos da sua esperança.  

Certo que a fé, observa o Papa, é confiar no Senhor. Entretanto chegam sempre os momentos em que, enfrentando dificuldades objectivas da vida, o homem experimenta a fragilidade da sua esperança e sente então a necessidade de adquirir outras formas de certezas, de segurança tangíveis, concretas. É neste preciso momento que somos tentados a procurar consolações também efémeras, que parecem preencher o vazio da solidão que experimentamos. Mas sobretudo, pensamos poder encontrar a certeza na segurança que nos pode garantir o dinheiro, nas alianças que estabelecemos com os potentes do mundo, na mundanidade, nas falsas ideologias.

 Ora, sublinhou o Santo Padre, os profetas, os salmos da Sagrada Escritura, recordam-nos que todas essas certezas são apenas falsos ídolos. E não se trata apenas de imagens feitas de metal ou de barro, mas também imagens construídas na nossa mente, quando confiamos em realidades limitadas que transformamos em absolutos ou quando reduzimos Deus aos nossos esquemas e ideias de divindade: um deus à nossa medida, que possa servir as nossas exigências e intervir magicamente para mudar a realidade e torná-la como a queremos nós. Neste caso o homem, feito à imagem de Deus, fabrica um deus à sua própria imagem e uma imagem mal conseguida, pois não ouve, não age e sobretudo não pode falar.

À esperança no Senhor da vida, que, com a sua Palavra, criou o mundo e conduz a nossa existência, contrapomos a confiança em imagens mudas. As ideologias com a sua pretensão de absoluto, as riquezas, o poder e o sucesso, com a sua ilusão de eternidade e omnipotência, valores como a beleza física e a saúde vistos como ídolos aos quais tudo se sacrifica: tudo isso são realidades que confundem a mente e o coração e, em vez de favorecer a vida, conduzem à morte.

Ora, a mensagem do Salmo, disse Francisco, é muito clara: se colocamos a nossa esperança em tais ídolos, ficamos como eles: imagens vazias, com mãos que não apalpam, pés que não caminham, bocas que não podem falar. Não temos nada para dizer, tornamo-nos incapazes de ajudar, melhorar a vida, sorrir, dar-se.

Eis a estupenda realidade da esperança: confiando no Senhor, depositando a nossa esperança no Senhor, tornamo-nos como Ele,  a sua bênção nos transforma em filhos que partilham a sua vida. A esperança em Deus nos faz entrar, por assim dizer, nos raios de acção da sua recordação, da sua memória que nos abençoa e nos salva. E então pode brotar o aleluia, o louvor ao Deus vivo e verdadeiro, que para nós nasceu da Virgem Maria, morreu na cruz e ressuscitou na glória.

Como em todas as audiências gerais das quartas-feiras, também hoje não faltou a saudação especial do Papa aos numerosos fiéis e peregrinos de língua oficial portuguesa, presentes na Aula Paulo VI: “Amados peregrinos de língua portuguesa, cordiais saudações para todos vós, de modo especial para os membros do Grupo de Cavaquinhos de Passos de Silgueiros. Sobre os vossos passos, invoco a graça do encontro com Deus: Jesus Cristo é a Tenda divina no meio de nós. Ide até Ele, vivei na sua amizade e tereis a vida eterna. Sobre vós e vossas famílias desça a Bênção de Deus!

10 janeiro, 2017

UM VAZIO CHEIO DE AMOR!

 
 
 
 
Há dias que começam assim!
Uma sensação de vazio interior, um frio insensível, um sentimento de abandono.

Elevo os olhos ao Céu, levanto as mãos para Deus, faço uma oração envergonhada, e digo baixinho, como se quisesse que Ele me ouvisse, mas não percebesse a minha dúvida sobre a Sua presença: Bom dia, meu Deus. Estás aí?

Tudo fica na mesma, o vazio continua, o sentimento de abandono parece instalar-se, mas um calor sensível toca o meu coração e ouço no meu interior: Claro que estou! Não estou Eu sempre aqui, contigo? Bom dia meu filho!

Abandono-me, rendo-me!
Que me interessa o vazio interior, se o Amor está presente!


Monte Real, 10 de Janeiro

Papa Francisco: Jesus tem autoridade porque próximo das pessoas




(RV) Jesus tinha autoridade porque servia as pessoas, estava próximo das pessoas e era coerente, ao contrário dos doutores da lei que se sentiam príncipes. Estas três características da autoridade de Jesus foram destacadas pelo Papa na reflexão matutina da terça-feira (10/01), na Casa Santa Marta.

O Pontífice sublinhou que os doutores da lei ensinavam com autoridade “clericalística”, afastados das pessoas, não viviam aquilo que pregavam.

A autoridade de Jesus e aquela dos fariseus são os dois eixos em torno dos quais orbita a homilia do Papa. Um é uma autoridade real, o outro formal. No Evangelho do dia se fala do estupor das pessoas porque Jesus ensinava “como alguém que tem autoridade” e não como os escribas: eram as autoridades do povo, destaca Francisco, mas aquilo que ensinavam não entrava no coração, enquanto em Jesus havia uma autoridade real: não era “um sedutor”, ensinava a Lei “até o último detalhe”, ensinava a Verdade com autoridade.

O Papa desce aos pormenores e reflecte sobre as três características que diferenciam a autoridade de Jesus daquela dos doutores da Lei. Enquanto Jesus “ensinava com humildade”, e diz aos seus discípulos que “o maior seja como aquele que serve: faça-se menor”, os fariseus se sentiam príncipes:

“Jesus servia as pessoas, explicava as coisas para que as pessoas entendessem bem: estava ao serviço das pessoas. Havia um comportamento de servidor, e isto Lhe dava autoridade. Ao invés, os doutores da lei que as pessoas ... sim, escutavam, respeitavam mas não reconheciam que tivessem autoridade sobre eles, estes tinham uma psicologia de príncipes: ‘Somos os mestres, os príncipes, e nós ensinamos vocês. Não serviço: nós mandamos, vocês obedecem”. E Jesus nunca se fez passar por um príncipe: era sempre servidor de todos e isto é o que Lhe dava autoridade”.

É o estar próximo das pessoas, na verdade, que confere autoridade. A proximidade é a segunda característica que diferencia a autoridade de Jesus daquela dos fariseus. “Jesus não era alérgico às pessoas: tocava os leprosos, os doentes, não lhe dava repugnância”, explica Francisco, enquanto os fariseus desprezavam “as pobres pessoas, ignorantes”, eles gostavam de passear pelas praças, bem vestidos:

“Eram distantes das pessoas, não eram próximos; Jesus era muito próximo das pessoas, e isso dava autoridade. Os distantes, aqueles doutores, tinham uma psicologia clericalística: ensinavam com uma autoridade clericalística, isto é, o clericalismo. Eu gosto tanto quando leio a proximidade às pessoas que tinha o Beato Paulo VI; no número 48 da “Evangelii Nuntiandi” se vê o coração do pastor próximo: ali está a autoridade daquele Papa, a proximidade”.

Mas há um terceiro ponto que diferencia a autoridade dos escribas daquela de Jesus, e é a coerência, Jesus “vivia o que pregava”: “havia como uma unidade, uma harmonia entre aquilo que pensava, sentia e fazia”.” Enquanto quem se sente príncipe tem “uma atitude clericalística”, isto é hipócrita, diz uma coisa e faz outra:

“Ao invés, essas pessoas não eram coerentes e sua personalidade era dividida a ponto que Jesus aconselhava seus discípulos: “Fazei o que eles dizem, mas não o que fazem”: diziam uma coisa e faziam outra. Incoerência. Eram incoerentes. E o adjectivo que Jesus usa muitas vezes é hipócrita. E dá para entender que quem se sente príncipe, que tem uma atitude clericalística, que é uma hipócrita, não tem autoridade! Dirá verdades, mas sem autoridade. Jesus, ao invés, que é humilde, que está ao serviço, que está próximo, que não despreza as pessoas e que é coerente, tem autoridade. E esta é a autoridade que o povo de Deus sente”.

Concluindo, para explicar plenamente isto, o Papa recorda a parábola do Bom Samaritano. Diante do homem abandonado meio morto na estrada pelos brigantes, passa o sacerdote e vai embora porque tem sangue e pensa que se o tivesse tocado se tornaria impuro; passa o levita, diz o Papa, e “creio pensasse” que se tivesse se envolvido, depois deveria testemunhar no tribunal” e tinha tantas coisas para fazer. E também ele vai embora. No final, vem o samaritano, um pecador que, ao invés, sente piedade. Mas tem outro personagem, o hospedeiro, nota o Papa, que fica impressionado não com o ataque dos brigantes, porque era uma coisa que acontecia naquela estrada, não pelo comportamento do sacerdote e do levita, porque os conhecia, mas pelo comportamento do samaritano. O estupor do hospedeiro diante do samaritano: “Mas ele é louco”, “não é hebreu, é um pecador”, podia pensar. Francisco então liga este episódio com o estupor das pessoas do Evangelho de hoje diante da autoridade de Jesus: “uma autoridade humilde, de serviço”, “uma autoridade próxima das pessoas” e “coerente”.

(bs/rbf)

Papa convida cristãos a responder juntos aos desafios da humanidade



(RV) “Por todos os cristãos, para que, fiéis ao ensinamento do Senhor, se empenhem com a oração e a caridade fraterna no restabelecimento da plena comunhão eclesial, colaborando para responder aos desafios atuais da humanidade”, é a exortação do Papa Francisco contida na vídeo-mensagem com a intenção de oração do mês de janeiro.

“No mundo actual – afirma o Papa na vídeo-mensagem proposta pelo Apostolado da Oração – muitos cristãos de diversas Igrejas trabalham juntos ao serviço da humanidade necessitada, pela defesa da vida humana e da sua dignidade, da criação e contra as injustiças. Este desejo de caminhar juntos, de colaborar no serviço e na solidariedade em favor dos mais vulneráveis e daqueles que sofrem, é motivo de alegria para todos. Une a tua voz à minha para rezar para que todos contribuam com a oração e a caridade fraterna para restabelecer a plena comunhão eclesial ao serviço dos desafios da humanidade”.



No Angelus deste domingo (08/01), o Santo Padre fez um convite para todos “se unirem à Rede Mundial de Oração do Papa, que difunde, também pelas redes sociais, as intenções de oração que proponho a cada mês, a toda a Igreja. Assim se leva em frente o apostolado da oração e se faz crescer a comunhão”.

O Apostolado da Oração é a Rede Mundial de Oração do Papa ao serviço da missão da Igreja. O seu objectivo é rezar e viver os desafios da humanidade que preocupam o Santo Padre, expressas nas suas intenções mensais.

O objectivo desta rede é ser apóstolos na vida quotidiana, por meio de um caminho espiritual chamado “caminho do coração”, que transforma o nosso modo de ser ao serviço da missão de Cristo.

Foi fundado em 1844, está presente em mais de 100 países e é composto por mais de 35 milhões de pessoas, compreendendo o ramo dos jovens, o Movimento Eucarístico Juvenil. (BS/JE)

09 janeiro, 2017

Papa: conhecer, adorar e seguir Jesus, único Salvador




(RV) Tem início, depois do Natal, um novo tempo litúrgico: o Tempo Comum, mas “Jesus é sempre o centro da vida cristã, a primeira e a última Palavra do Pai, o Senhor do Universo, o Salvador do mundo. Não há outro, é único”, disse o Papa Francisco na missa matutina, desta segunda-feira (09/01), na Casa Santa Marta.

Conhecer

“Este é o centro da nossa vida: Jesus Cristo. Jesus Cristo que se manifesta, se mostra e nós somos convidados a conhecê-lo, a reconhecê-lo na vida, nas várias circunstâncias da vida, reconhecer Jesus, conhecer Jesus. Olha, Padre, eu conheço a vida daquele santo, daquela santa, ou também as aparições aqui e acolá. Isso é bom, os santos são os santos, são grandes! As aparições nem todas são verdadeiras! Os santos são importantes, mas o centro é Jesus Cristo: sem Jesus Cristo não existem os santos! Uma pergunta: O centro da minha vida é Jesus Cristo? Como é a minha relação com Jesus Cristo”?

“Existem três tarefas”, afirmou o Papa, “que atestam que Jesus é o centro da nossa vida”: a primeira é conhecê-lo para reconhecê-lo. Em seu tempo, muitos não o reconheceram: “os doutores da lei, os sumos sacerdotes, os escribas, os saduceus e alguns fariseus”. Aliás, “o perseguiram, o mataram”. É preciso se perguntar: “Interessa-me conhecer Jesus? Ou me interessam mais as novelas, as bisbilhotices, as ambições, o saber da vida dos outros?” “A oração e o Espírito Santo me levam a conhecer Jesus”, explicou o Papa Francisco. O Evangelho também. Ele deve ser levado sempre comigo para que eu possa ler uma passagem todos os dias: “É a única maneira para conhecer Jesus”. Depois, “o Espírito Santo faz o trabalho. Esta é a semente. Quem faz germinar e crescer a semente é o Espírito santo”.

Adorar

A segunda tarefa é adorar Jesus. Não somente lhe pedir coisas e agradecê-lo. O Papa pensou em duas maneiras para adorar Jesus: “a oração de adoração em silêncio” e “tirar de nosso coração as outras coisas que adoramos, que nos interessam mais. Ter somente Deus. As outras coisas servem se sou capaz de adorar a Deus”:

“Há uma pequena oração que nós rezamos: o Glória. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, mas muitas vezes a proferimos como papagaios. Esta oração é adoração! Glória! Adoro o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Adorar, com pequenas orações, com o silêncio diante da grandeza de Deus, adorar Jesus e dizer: Tu és meu amigo, és o princípio e o fim e contigo quero permanecer por toda a vida, toda a eternidade. És único. Expulsar as coisas que me impedem de adorar Jesus.”

Seguir

“A terceira tarefa”, sublinhou o Papa, “é a do Evangelho de hoje em que Jesus chama os primeiros discípulos para segui-lo. Significa colocar Jesus no centro da nossa vida:

“A vida cristã é simples, muito simples, mas precisamos da graça do Espírito Santo para que desperte em nós o desejo de conhecer Jesus, adorar Jesus e segui-Lo. Por isso, pedimos ao Senhor no início da oração da Colecta para saber o que devemos fazer, para ter a força de fazer o que devemos. Para ser cristãos todos os dias não são necessárias coisas estranhas, difíceis, coisas supérfluas, não. É simples: Que na simplicidade de todos os dias o Senhor nos dê a graça de conhecer Jesus, adorar e seguir Jesus.”  (BS/MJ)

Papa Francisco: Discurso ao Corpo Diplomático - Texto integral




(RV) O Papa Francisco recebeu em audiência, na manhã desta segunda-feira (09/01), na Sala Regia do Vaticano, os membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé para a tradicional troca de melhores votos para o Ano Novo. A seguir, texto integral do discurso:

Excelências, queridos Embaixadores, Senhoras e Senhores!

Dou-vos as boas vindas e agradeço a vossa presença tão numerosa e atenta neste encontro tradicional que nos permite trocar entre nós votos de que o ano, há pouco iniciado, seja um tempo de alegria, prosperidade e paz para todos. Expresso-os ao Decano do Corpo Diplomático, Sua Excelência o Senhor Armindo Fernandes do Espírito Santo Vieira, Embaixador de Angola, com um sentimento de especial gratidão pelas deferentes palavras de saudação que me dirigiu em nome de todo o Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, que recentemente se viu ampliado na sequência do estabelecimento de relações diplomáticas com a República Islâmica da Mauritânia, ocorrido há um mês. Desejo igualmente exprimir a minha gratidão aos numerosos Embaixadores residentes na Urbe, tendo o seu número aumentado durante o último ano, e também aos Embaixadores não residentes, que hoje, com a sua presença, pretendem sublinhar os vínculos de amizade que unem os seus povos à Santa Sé. Ao mesmo tempo, gostaria de deixar uma palavra de condolências ao Embaixador da Malásia, recordando o seu antecessor, Dato’ Mohd Zulkephli Bin Mohd Noor, falecido em fevereiro passado.

Ao longo do ano passado, as relações entre os vossos países e a Santa Sé puderam aprofundar-se ainda mais com as gratas visitas de numerosos chefes de Estado e de governo, muitas delas em concomitância com os vários eventos que constelaram o Jubileu extraordinário da Misericórdia, recentemente concluído. Vários foram também os Acordos bilaterais assinados ou ratificados, quer de carácter geral, visando reconhecer o estatuto jurídico da Igreja, com a República Democrática do Congo, República da África Central, Benim e com Timor-Leste, quer de caráter mais específico como o Avenant assinado com a França, ou a Convenção em matéria fiscal com a República Italiana, que entrou recentemente em vigor, e ainda o Memorando de Acordo entre a Secretaria de Estado e o Governo dos Emiratos Árabes Unidos. Além disso, na perspetiva do empenho da Santa Sé por respeitar as obrigações assumidas pelos acordos subscritos, foi também dada plena implementação ao Comprehensive Agreement com o Estado da Palestina, que entrou em vigor há um ano.

Queridos Embaixadores!

Há um século, encontrava-se o mundo no auge do primeiro conflito mundial; um massacre inútil,[1] no qual novas técnicas de combate semeavam morte e causavam sofrimentos enormes à população civil indefesa. Em 1917, o conflito mudou profundamente de aspeto, adquirindo uma fisionomia cada vez mais global, ao mesmo tempo que assomavam ao horizonte aqueles regimes totalitários que haveriam de ser, durante longo tempo, causa de dilacerantes divisões. Cem anos depois, pode-se dizer que muitas partes do mundo beneficiaram de longos períodos de paz, que propiciaram oportunidades de desenvolvimento económico e formas de bem-estar sem precedentes. Se, para muitos, a paz aparece hoje de certo modo como um bem indiscutido, quase um direito adquirido a que já não se presta grande atenção, entretanto para outros é apenas uma miragem distante. Milhões de pessoas vivem ainda no meio de conflitos insensatos. Mesmo em lugares outrora considerados seguros, nota-se uma sensação geral de medo. Com frequência somos surpreendidos por imagens de morte, pela dor de inocentes que imploram ajuda e consolação, pelo luto de quem chora uma pessoa querida por causa do ódio e da violência, surpreendidos pelo drama dos deslocados que fogem da guerra ou dos migrantes que morrem tragicamente.

Por isso, gostaria de dedicar o encontro de hoje ao tema da segurança e da paz, pois considero que, no clima de geral apreensão pelo presente e de incerteza e angústia pelo futuro em que estamos mergulhados, é importante dirigir uma palavra de esperança, que indique também perspetivas de caminho.

Apenas alguns dias atrás, celebramos o quinquagésimo Dia Mundial da Paz, instituído pelo meu Predecessor, o Beato Paulo VI, «como auspiciosa promessa – na abertura do calendário que mede e descreve o caminho da vida humana no tempo – de que seja a paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o desenrolar da história futura».[2] Para os cristãos, a paz é um dom do Senhor, aclamada e cantada pelos anjos no momento do nascimento de Cristo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2, 14). A paz é um bem positivo, «fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana»[3] e «não [a mera] ausência de guerra».[4] Não «se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas»[5], mas exige o compromisso das pessoas de boa vontade «sempre anelantes por uma mais perfeita justiça».[6]

Nesta perspetiva, é minha viva convicção que cada expressão religiosa é chamada a promover a paz. Pude experimentá-lo, de maneira significativa, durante a Jornada Mundial de Oração pela Paz, realizada em Assis no passado mês de setembro, durante a qual se encontraram os representantes das diferentes religiões para «dar voz em conjunto a quantos sofrem, a quantos se encontram sem voz e sem escuta»,[7] bem como no decurso da minha visita ao Templo Maior de Roma ou à Mesquita de Baku.

Sabemos que não têm faltado violências por motivação religiosa, a começar precisamente pela Europa, onde históricas divisões entre os cristãos já perduram há demasiado tempo. Na minha viagem recente à Suécia, pretendi lembrar a necessidade urgente de curar as feridas do passado e caminhar juntos para objetivos comuns. Na base deste caminho, não pode haver senão o diálogo autêntico entre as diferentes confissões religiosas. É um diálogo possível e necessário, como procurei testemunhar no encontro realizado em Cuba com o Patriarca Cirilo de Moscovo, bem como no decurso das viagens apostólicas à Arménia, Geórgia e Azerbaijão, onde notei a justa aspiração daquelas populações por resolver os conflitos que, há anos, prejudicam a concórdia e a paz.

Ao mesmo tempo, convém não esquecer as múltiplas obras, religiosamente inspiradas, que concorrem – por vezes mesmo com o sacrifício dos mártires – para a edificação do bem comum, através da educação e da assistência sanitária, especialmente nas regiões mais desfavorecidas e nos cenários de conflito. Tais obras contribuem para a paz e dão testemunho de como se pode, concretamente, viver e trabalhar juntos, mesmo pertencendo a povos, culturas e tradições diferentes, desde que se coloque, no centro das próprias atividades, a dignidade da pessoa humana.

Estamos cientes, porém, de que ainda hoje, infelizmente, a experiência religiosa, em vez de abrir aos outros, pode às vezes ser usada como pretexto de fechamentos, marginalizações e violências. Refiro-me particularmente ao terrorismo de matriz fundamentalista, que ceifou também no ano passado numerosas vítimas em todo o mundo: no Afeganistão, Bangladesh, Bélgica, Burkina Faso, Egito, França, Alemanha, Jordânia, Iraque, Nigéria, Paquistão, Estados Unidos da América, Tunísia e Turquia. São gestos vis, que usam as crianças para matar, como na Nigéria; tomam de mira quem reza, como na catedral copta do Cairo, quem viaja ou trabalha como em Bruxelas, quem passeia pelas ruas da cidade, como em Nice e Berlim, ou simplesmente quem festeja a chegada do Ano Novo, como em Istambul.

Trata-se duma loucura homicida que, na tentativa de afirmar uma vontade de predomínio e poder, abusa do nome de Deus para semear morte. Por isso, faço apelo a todas as autoridades religiosas para que se mantenham unidas em reiterar vigorosamente que nunca se pode matar em nome de Deus. O terrorismo fundamentalista é fruto duma grave miséria espiritual, que muitas vezes aparece associada também com notável pobreza social. E isto poderá ser plenamente vencido apenas com a colaboração conjunta dos líderes religiosos e dos líderes políticos. Aos primeiros, cabe a tarefa de transmitir aqueles valores religiosos que não admitem contraposição entre o temor de Deus e o amor ao próximo. Aos líderes políticos, compete garantir, no espaço público, o direito à liberdade religiosa, reconhecendo a contribuição positiva e construtiva que a mesma exerce na edificação da sociedade civil, onde não podem ser sentidas como contraditórias a pertença social, sancionada pelo princípio de cidadania, e a dimensão espiritual da vida. Além disso compete a quem governa a responsabilidade de evitar a formação daquelas condições que se tornam terreno fértil para a propagação dos fundamentalismos. Isto requer adequadas políticas sociais tendentes a combater a pobreza, que não podem prescindir duma sincera valorização da família, como lugar privilegiado da maturação humana, e de investimentos conspícuos nos setores educativo e cultural.
A este respeito, vejo com interesse a iniciativa do Conselho da Europa sobre a dimensão religiosa do diálogo intercultural, que no ano passado se debruçou sobre o papel da educação na prevenção da radicalização que conduz ao terrorismo e ao extremismo violento. Trata-se duma oportunidade para aprofundar a contribuição do fenómeno religioso e o papel da educação para uma verdadeira pacificação do tecido social, necessária para a convivência numa sociedade multicultural.

Neste sentido, desejo expressar a convicção de que cada autoridade política não se deve limitar a garantir a segurança dos seus cidadãos – conceito que facilmente se pode identificar com um simples «viver tranquilos» – mas sinta-se chamada também a fazer-se verdadeira promotora e obreira de paz. A paz é uma «virtude ativa», que requer o empenho e a cooperação de cada indivíduo e do corpo social no seu todo. Como observava o Concílio Vaticano II, «a paz nunca se alcança duma vez por sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada»,[8] tutelando o bem das pessoas, respeitando a sua dignidade. A sua edificação requer, antes de mais nada, que se renuncie à violência na reivindicação dos próprios direitos.[9] Foi precisamente a este princípio que quis dedicar a Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2017, intitulada: «A não-violência: o estilo duma política para a paz», para lembrar, antes de mais nada, que a não-violência é um estilo político, baseado na primazia do direito e da dignidade de toda a pessoa.

Edificar a paz exige também «eliminar as causas das discórdias entre os homens, que são as que alimentam as guerras»,[10] a começar pelas injustiças. Com efeito, existe uma ligação íntima entre justiça e paz.[11] «Mas – observava São João Paulo II – como a justiça humana é sempre frágil e imperfeita, porque exposta como tal às limitações e aos egoísmos pessoais e de grupo, ela deve ser exercida e de certa maneira completada com o perdão que cura as feridas e restabelece em profundidade as relações humanas transtornadas. (...) O perdão não se opõe de modo algum à justiça, (…) mas visa sobretudo aquela plenitude de justiça, que gera a tranquilidade da ordem, a qual (...) consiste na cura em profundidade das feridas que sangram nos corações. Para tal cura, ambos, justiça e perdão, são essenciais».[12] Estas palavras, mais atuais hoje do que nunca, contaram com a disponibilidade de alguns chefes de Estado ou de governo para acolher o meu convite a realizar um ato de clemência para com os reclusos. A eles, bem como a todas as pessoas que trabalham para criar condições de vida dignas para os encarcerados e favorecer a sua inserção na sociedade, desejo expressar o meu particular apreço e gratidão.

Estou convencido que o Jubileu extraordinário da Misericórdia constituiu, para muitos, uma ocasião particularmente favorável para descobrirem também «a grande e positiva incidência da misericórdia como valor social».[13] Deste modo, cada um pode contribuir para dar vida a «uma cultura de misericórdia, com base na redescoberta do encontro com os outros: uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos».[14] Só assim será possível construir sociedades abertas e acolhedoras para com os estrangeiros e, ao mesmo tempo, seguras e em paz no seu interior. Isto é ainda mais necessário nos dias de hoje em que continuam, ininterruptos, enormes fluxos migratórios em diferentes partes do mundo. Penso de modo particular nos numerosos deslocados e refugiados nalgumas áreas da África, no sudeste asiático e em todos aqueles que fogem das zonas de conflito no Médio Oriente.

No ano passado, a comunidade internacional enfrentou o problema em dois encontros importantes, convocados pelas Nações Unidas: a primeira Cimeira Mundial da Ajuda Humanitária e a Cimeira sobre os Amplos Movimentos de Refugiados e Migrantes. É preciso um empenho comum em favor de migrantes, deslocados e refugiados, que permita proporcionar-lhes um acolhimento digno. Isto implica saber conjugar o direito de cada ser humano a «transferir-se para outras comunidades políticas e nelas domiciliar-se»[15] e, ao mesmo tempo, garantir a possibilidade duma integração dos migrantes nos tecidos sociais onde se inserem, sem que estes sintam ameaçada a sua segurança, a própria identidade cultural e os seus próprios equilíbrios político-sociais. Por outro lado, os próprios migrantes não devem esquecer que têm o dever de respeitar as leis, a cultura e as tradições dos países onde são acolhidos.

Uma abordagem prudente por parte das autoridades públicas não envolve a implementação de políticas de fechamento aos migrantes, mas implica avaliar, com sabedoria e clarividência, até que ponto o seu país é capaz, sem lesar o bem comum dos cidadãos, de oferecer uma vida decente aos migrantes, especialmente àqueles que têm real necessidade de proteção. Sobretudo não se pode reduzir a dramática crise atual a uma simples contagem numérica. Os migrantes são pessoas com nomes, histórias, famílias, e não poderá jamais haver verdadeira paz enquanto existir um único ser humano que é violado na sua identidade pessoal e reduzido a mero número estatístico ou a um objeto de interesse económico.

O problema migratório é uma questão que não pode deixar indiferentes alguns países, enquanto outros suportam o peso humanitário, muitas vezes com esforços consideráveis e sérias dificuldades, para enfrentar uma emergência que parece não ter fim. Todos deveriam sentir-se construtores concorrendo para o bem comum internacional, inclusive através de gestos concretos de humanidade que constituem fatores essenciais daquela paz e daquele progresso que nações inteiras e milhões de pessoas estão ainda à espera. Por isso, agradeço a tantos países que acolhem generosamente aqueles que precisam, a começar por vários Estados europeus, especialmente Itália, Alemanha, Grécia e Suécia.

Permanecerá gravada para sempre na minha memória a viagem que fiz à Ilha de Lesbos, juntamente com os meus irmãos Patriarca Bartolomeu e Arcebispo Ieronymos, onde vi e constatei a situação dramática dos campos de refugiados, mas também a humanidade e o espírito de serviço de muitas pessoas empenhadas na sua assistência. E não devemos esquecer também a hospitalidade oferecida por outros países europeus e do Médio Oriente, como Líbano, Jordânia, Turquia, e ainda o empenho de diferentes países da África e da Ásia. Também durante a minha viagem ao México, onde pude experimentar a alegria do povo mexicano, senti-me solidário com os milhares de migrantes da América Central, que suportam terríveis injustiças e perigos na tentativa de poder ter um futuro melhor, vítimas de extorsão e objeto daquele comércio perverso – horrível forma de escravatura moderna – que é o tráfico das pessoas.

Inimiga da paz é uma tal «visão redutora» do homem, que abre o caminho à difusão da iniquidade, das desigualdades sociais, da corrupção. Precisamente contra este último fenómeno, a Santa Sé assumiu novos compromissos, depositando formalmente, em 19 de setembro passado, o instrumento de adesão à Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 31 de outubro de 2003.

Na Encíclica Populorum Progressio, cujo cinquentenário tem lugar este ano, o Beato Paulo VI lembrava que tais desigualdades provocam discórdias. «O caminho da paz passa pelo desenvolvimento»,[16] que as autoridades públicas têm a responsabilidade de encorajar e favorecer, criando as condições para uma distribuição mais equitativa dos recursos e estimulando as oportunidades de emprego, especialmente para os mais jovens. No mundo, há ainda demasiadas pessoas, especialmente crianças, que sofrem por pobrezas endémicas e vivem em condições de insegurança alimentar – antes, de fome –, enquanto os recursos naturais se veem objeto da exploração gananciosa de poucos e enormes quantidades de alimento são desperdiçadas todos os dias.

As crianças e os jovens são o futuro: para eles se trabalha e constrói. Não podem ser, egoisticamente, negligenciados e esquecidos. Por esta razão, como lembrei recentemente numa carta enviada a todos os Bispos, considero prioritária a defesa das crianças, cuja inocência é frequentemente espezinhada sob o peso da exploração, do trabalho clandestino e escravo, da prostituição ou dos abusos dos adultos, dos bandidos e dos mercadores de morte.[17]

Durante a minha viagem à Polónia, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, pude encontrar milhares de jovens, cheios de entusiasmo e alegria de viver. Mas, em muitos outros, tenho visto a tristeza e o sofrimento. Penso nos adolescentes que sofrem as consequências do conflito atroz na Síria, privados das alegrias da infância e da juventude: desde a possibilidade de brincar livremente até à oportunidade de ir à escola. Eles e todo o querido povo da Síria estão constantemente presentes no meu pensamento, ao mesmo tempo que apelo à comunidade internacional para que se esforce com diligência por dar vida a uma negociação séria que ponha termo definitivamente ao conflito, causador de um verdadeiro e próprio desastre humanitário. Cada uma das partes em causa deve considerar como prioritário o respeito pelo direito humanitário internacional, garantindo a proteção dos civis e a assistência humanitária necessária à população. O desejo comum é que a trégua recentemente assinada possa ser um sinal de esperança para todo o povo sírio, que dela tem profunda necessidade.

Isto requer também que se trabalhe por erradicar o perverso comércio das armas e a insistência constante de se produzir e disseminar armamentos cada vez mais sofisticados. Notável preocupação despertam as experiências realizadas na península coreana, que desestabilizam a região inteira e põem questões preocupantes a toda a comunidade internacional sobre o risco duma nova corrida às armas nucleares. Permanecem muito atuais ainda as palavras de São João XXIII, na Pacem in terris, quando afirma que «a reta razão e o sentido da dignidade humana terminantemente exigem que se pare com esta corrida ao poderio militar; que o material de guerra, instalado em várias nações, se vá reduzindo duma parte e doutra, simultaneamente; que sejam banidas as armas atómicas».[18]

Também no que diz respeito aos armamentos convencionais, é preciso salientar que a facilidade com que, não raro, se pode aceder ao mercado das armas, mesmo de pequeno calibre, além de agravar a situação nas diferentes áreas de conflito, produz uma sensação generalizada de insegurança e medo, tanto mais perigosa por se atravessar tempos de incerteza social e mudanças epocais como o atual.

Inimiga da paz é a ideologia que se vale dos problemas sociais para fomentar o desprezo e o ódio e que vê o outro como um inimigo a aniquilar. Infelizmente assomam, de contínuo, no horizonte da humanidade novas formas ideológicas. Mascarando-se como portadoras de bem para o povo, o que realmente deixam atrás de si é pobreza, divisões, tensões sociais, sofrimento e, por vezes, também morte. Ao invés, a paz conquista-se com a solidariedade. A partir dela germina a vontade de diálogo e a colaboração, que encontra na diplomacia um instrumento fundamental. É na perspetiva da misericórdia e da solidariedade que se coloca o empenho convicto da Santa Sé e da Igreja Católica por afastar os conflitos ou acompanhar processos de paz, reconciliação e busca de soluções negociadas para os mesmos. Anima ver que algumas tentativas empreendidas encontram a boa vontade de muitas pessoas que, de variadas partes, trabalham ativa e eficazmente pela paz. Penso nos esforços feitos no último biénio para reaproximar Cuba e os Estados Unidos. Penso também no esforço empreendido com tenacidade, mesmo por entre dificuldades, para acabar com anos de conflito na Colômbia.

Tal abordagem visa favorecer a confiança mútua, sustentar caminhos de diálogo e sublinhar a necessidade de gestos corajosos, que são muito urgentes também na vizinha Venezuela, onde as consequências da crise política, social e económica gravam há muito sobre a população civil; ou noutras partes da Terra, a começar pelo Médio Oriente, não só para pôr fim ao conflito sírio, mas também para favorecer sociedades plenamente reconciliadas no Iraque e no Iémen. Além disso a Santa Sé renova o seu premente apelo para que se retome o diálogo entre israelitas e palestinenses, a fim de se chegar a uma solução estável e duradoura que garanta a coexistência pacífica de dois Estados dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Nenhum conflito pode tornar-se um hábito, do qual pareça quase impossível separar-se. Israelitas e palestinenses têm necessidade de paz. Todo o Médio Oriente tem urgente necessidade de paz!

Igualmente espero a plena implementação dos acordos que visam restabelecer a paz na Líbia, onde é muito urgente curar as divisões destes anos. Do mesmo modo encorajo todos os esforços a nível local e internacional para restaurar a convivência civil no Sudão e no Sudão do Sul, na República da África Central, martirizados por persistentes confrontos armados, massacres e devastações, bem como noutras nações do Continente marcadas por tensões e instabilidade política e social. Em particular, faço votos de que o recente acordo assinado na República Democrática do Congo contribua para fazer com que todos aqueles que têm responsabilidades políticas se esforcem diligentemente por favorecer a reconciliação e o diálogo entre todas as componentes da sociedade civil. O meu pensamento detém-se ainda no Myanmar, esperando que se favoreça uma coexistência pacífica e, com a ajuda da comunidade internacional, não se deixe de prestar assistência a quantos têm grave e urgente necessidade dela.

Também na Europa, onde não faltam as tensões, a abertura ao diálogo é o único caminho para garantir a segurança e o progresso do Continente. Acolho, pois, com favor as iniciativas tendentes a favorecer o processo de reunificação de Chipre, que hoje mesmo vê um retoma das negociações, enquanto espero que, na Ucrânia, se continue com determinação na busca de soluções viáveis para a plena realização dos compromissos assumidos pelas Partes e sobretudo se dê rápida resposta à situação humanitária, que continua a ser ainda grave.

A Europa inteira está a atravessar um momento decisivo da sua história, em que é chamada a reencontrar a sua identidade. Isto exige a redescoberta das suas raízes, a fim de poder moldar o seu próprio futuro. Face aos impulsos desagregadores, é muito urgente atualizar «a ideia de Europa» para dar à luz um novo humanismo baseado na capacidade de integrar, dialogar e gerar,[19] que fez grande o chamado Velho Continente. O processo de unificação europeia, que começou depois do segundo conflito mundial, foi e continua a ser uma ocasião única de estabilidade, paz e solidariedade entre os povos. Nesta sede, não posso deixar de reiterar o interesse e a preocupação da Santa Sé pela Europa e o seu futuro, na certeza de que os valores, nos quais teve origem e está baseado este projeto – que chega este ano ao sexagésimo aniversário –, são comuns a todo o Continente e estendem-se para além das próprias fronteiras da União Europeia.

Excelências, Senhoras e Senhores!

Mas edificar a paz significa também empenhar-se ativamente no cuidado da criação. O Acordo de Paris sobre o clima, que entrou recentemente em vigor, é um sinal importante do compromisso comum para deixar a quem vier depois de nós um mundo belo e habitável. Espero que o esforço empreendido nos últimos anos para enfrentar as alterações climáticas encontre uma cooperação cada vez mais ampla de todos, já que a Terra é a nossa casa comum e é preciso considerar que as opções de cada um têm repercussões na vida de todos.

Contudo é evidente também que existem fenómenos que excedem as possibilidades da ação humana. Refiro-me aos numerosos terremotos que atingiram algumas regiões do mundo. Penso, antes de tudo, naqueles que ocorreram no Equador, Itália e Indonésia, que provocaram numerosas vítimas, e muitas pessoas vivem ainda em condições extremamente precárias. Pude visitar pessoalmente algumas áreas atingidas pelo terremoto no centro da Itália, onde, ao constatar as feridas que o sismo causou a uma terra rica de arte e cultura, pude compartilhar a amargura de tantas pessoas, juntamente com a sua coragem e determinação em reconstruir tudo o que foi destruído. Espero que a solidariedade que uniu o querido povo italiano nas horas sucessivas ao terremoto, continue a animar a nação inteira, sobretudo neste momento delicado da sua história. A Santa Sé e a Itália estão particularmente ligadas por óbvias razões históricas, culturais e geográficas. Esta ligação apareceu claramente no ano jubilar e agradeço a todas as autoridades italianas pela ajuda prestada na organização deste evento, inclusive para garantir a segurança dos peregrinos que vieram de todo o mundo.

Queridos Embaixadores!

A paz é um dom, um desafio e um compromisso. Um dom porque brota do próprio coração de Deus; um desafio porque é um bem que nunca é um dado adquirido mas deve ser continuamente conquistado; um compromisso, porque requer, na sua busca e construção, o trabalho apaixonado de todas as pessoas de boa vontade. Por isso só há verdadeira paz a partir duma visão do homem que saiba promover o seu desenvolvimento integral, tendo em conta a sua dignidade transcendente, já que «o desenvolvimento – como recordava o Beato Paulo VI – é o novo nome da paz».[20] Assim os meus votos para o ano há pouco iniciado são estes: que possam aumentar entre os nossos países e seus respetivos povos as ocasiões para trabalhar juntos e construir uma paz autêntica. Por seu lado a Santa Sé, particularmente a Secretaria de Estado, estará sempre disponível para colaborar com todos os que se esforçam por pôr termo aos conflitos em curso e para dar apoio e esperança às populações que sofrem.

Na liturgia, pronunciamos a saudação «a paz esteja convosco». Com esta frase, penhor de abundantes bênçãos divinas, renovo a cada um de vós, ilustres membros do Corpo Diplomático, às vossas famílias, aos países que aqui representais, os meus votos mais sinceros para este novo ano.

Obrigado!

(Vaticano, 9 de janeiro de 2017)


[1] Bento XV, Carta aos Chefes dos Povos Beligerantes, 1 de agosto de 1917: AAS IX (1917), 421.
[2] Paulo VI, Mensagem para a celebração do I Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 1968).
[3] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et spes (GS), 7 de dezembro de 1965, 78.
[4] Ibidem.
[5] Ibidem.
[6] Ibidem.
[7] Francisco, Discurso na Jornada Mundial de Oração pela Paz, Assis, 20 de setembro de 2016.
[8] GS, 78.
[9] Cf. ibidem.
[10] Ibid., 83.
[11] Cf. Salmo 85/84, 11; Isaías 32, 17.
[12] João Paulo II, Mensagem para a Celebração do XXXV Dia Mundial da Paz («Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão»), 1 de janeiro de 2002, 3.
[13] Francisco, Carta apostólica Misericordia et misera, 20 de novembro de 2016, 18.
[14] Ibid., 20.
[15] João XXIII, Carta encíclica Pacem in terris, 11 de abril de 1963, 12.
[16] Paulo VI, Carta Encíclica Populorum progressio, 26 de março de 1967, 83.
[17] Cf. Carta aos Bispos na Festa dos Santos Inocentes, 28 de dezembro de 2016.
[18] João XXIII, Carta Encíclica Pacem in terris, 60.
[19] Cf. Francisco, Discurso por ocasião da atribuição do Prémio Carlos Magno, 6 de maio de 2016.
[20] Paulo VI, Populorum progressio, 87.

08 janeiro, 2017

Jornada Vicarial - "O sonho missionário de chegar a todos"


Vigararia de Alenquer

Acesso ao texto integral
da Constituição Sinodal de Lisboa

Constitucao Sinodal Lisboa (2)
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Informação originada posteriormente, pelo Jornal "Voz da Verdade":

A Constituição Sinodal de Lisboa foi a base de trabalho da Jornada Vicarial da Vigararia de Alenquer, no passado Domingo, 8 de janeiro. Em Arruda dos Vinhos, ouviu-se a partilha de três membros da Assembleia Sinodal, constatando-se o entusiasmo por “uma Igreja em caminho”, com um “destino à vista” e lançada “no caminho da evangelização”.

Passado precisamente um mês da publicação da Constituição Sinodal de Lisboa, a Vigararia de Alenquer reuniu-se para a habitual Jornada Vicarial, desta vez em Arruda dos Vinhos, e trabalhou alguns dos pontos apresentados no documento pós-sinodal que foi apresentado, no passado dia 8 de dezembro, no Mosteiro dos Jerónimos. A “dimensão celebrativa” foi um dos temas explorados nesta Jornada Vicarial. No Auditório Municipal de Arruda dos Vinhos, o padre Vítor Gonçalves, pároco de São Domingos, em Lisboa, destacou, a partir do documento pós-sinodal, a “dimensão celebrativa”, provavelmente “a mais visível do que estamos habituados a ver, na vida da Igreja (o culto, a liturgia, celebrações...)”. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, este sacerdote referiu ainda que, “quando se celebra, tem de se celebrar algo: celebrar a vida, celebrar a vida de Deus connosco, a vida de nós uns com os outros. Isso importa bem preparar, realizar e depois, saborear”, descreveu o padre Vítor, que participou no Sínodo Diocesano, há mais de um mês, no Turcifal. “A minha insistência foi em aspetos muito concretos da beleza que é importante pôr em tudo o que fazemos, da espiritualidade que isso deve transmitir, da importância de ser tudo muito dialogado, em equipa, e não ficar ninguém sozinho a fazer todas as coisas. Aquilo que pode ser feito por muitos, não deve ser feito por poucos”, frisou o sacerdote, apontando para a “inclusão na comunidade”. “Não pode haver super-especialistas... todos podemos contribuir com algo. É isso que torna rica a ação de Cristo, porque a ação de Cristo não nos demite da ação de cada um de nós”, salientou o padre Vítor Gonçalves.
Para este sacerdote, de 51 anos, a receção da Constituição Sinodal de Lisboa “começa agora a ser feita, após o tempo de Natal”.  “Esta jornada foi um bom ensaio porque pôs as pessoas a trabalhar e a procurar concretizar, em diferentes dinâmicas, a renovação que a constituição sinodal também nos convoca”, salientou.

Destino à vista
Numa das zonas comuns do Externato João Alberto Faria, em Arruda dos Vinhos, a psicóloga Maria José Vilaça partilhou com dezenas de participantes o entusiasmo com “as concretizações” que se esperam alcançar, “nos projetos pastorais e nas comunidades”, após a publicação da Constituição Sinodal de Lisboa e regista o desejo de “respostas feitas”. “O que senti, nas conversas que fui tendo, foi o que senti hoje, neste debate sobre a dimensão profética: as pessoas a quererem confrontar-se com respostas feitas. Ficam, por isso, um pouco desiludidas por serem só linhas orientadoras, mas depois também percebem que isto é uma forma de respeitar a nossa liberdade. Isso é a essência da Igreja. É este o nosso caminho”, assegura. A presidente da Associação dos Psicólogos Católicos revela ao Jornal VOZ DA VERDADE ter encontrado, nesta Jornada Vicarial, “muita gente interessada, atenta e a perguntar muita coisa sobre o estado atual do relativismo, a secularização, a ideologia de género e o estado da família em Portugal”.
Para além do interesse das pessoas, nos exemplos de evangelização que já existem, tais como a ‘Missão País’, os grupos ‘Cristo na empresa’ (ACEGE - Associação Cristã de Empresários e Gestores), a partir das quais se “pode começar a pensar fazer coisas parecidas”, Maria José Vilaça aponta a “personalização da catequese” como um dos aspetos que pode surgir com o documento pós-sinodal. “Fugir do esquema da escolarização e encarar a catequese de uma forma personalizada, segundo o ritmo de amadurecimento de cada pessoa, independentemente da idade” é um dos pontos projetados por esta psicóloga. “O que sai destes encontros é a alegria de um caminho que está para fazer, em união. Temos um destino à vista e temos companhia!”, releva.

Igreja em caminho
“Não podemos calar o que vimos e ouvimos” assim justifica João Pedro Tavares a sua presença num dos debates sobre a Constituição Sinodal de Lisboa. Para o presidente da ACEGE, a participação na Assembleia Sinodal trouxe várias manifestações. “Vejo as pessoas a virem ter comigo e fazerem-me perguntas sobre como é que correu. ‘O que te marcou?’, ‘O que te surpreendeu?’ Há uma expectativa elevada. Sinto a Igreja à espera de sinais”, aponta ao Jornal VOZ DA VERDADE. No espaço onde habitualmente funciona a biblioteca do Externado João Adelino Faria, este gestor partilhou, a partir da Constituição Sinodal, diferentes formas de manifestação do “cuidado e serviço, amor ao próximo e a construção comunitária”. “Somos um povo de discípulos em missão. Temos que ter uma grande consciência de que somos batizados. Temos que nos afirmar porque somos batizados. Não ‘fui’ batizado, ‘sou’ batizado... É ‘presente’ e manifesta-se para o futuro”, realça. A partir da relação de “amor com Deus, amor e serviço ao próximo, sentimo-nos acompanhados por um Deus que é trinitário e que, por isso, é comunitário”, sublinha. “Não há outra maneira de viver enquanto cristão, se não for neste contexto comunitário. Foi o que tentei partilhar e, depois, como isso se aplica ao mundo do trabalho e das organizações”, explica João Pedro Tavares.
Desta intervenção, e também através da participação noutros fóruns de trabalho sobre a Constituição Sinodal, João Pedro Tavares revela que encontra “pessoas atentas, disponíveis, pessoas em paz, em busca da paz, em busca de formas diferentes de estar na sociedade e de olhar para o mundo”. Através da análise do documento, “com maior detalhe, como está a ser feito na ACEGE”, João Pedro encontra diferentes recetividades: “Houve pessoas que ficaram muito sensíveis à parte da missão, outras à do anúncio, à da família, ao tema dos deficientes. Há uma reação muito positiva! Temos uma Igreja em caminho, com uma expectativa muito elevada de que há um caminho que será mesmo feito e uma transformação por fazer”, conclui.
  • Leia a reportagem completa na edição do dia 15 de janeiro do Jornal VOZ DA VERDADE, disponível nas paróquias ou em sua casa.

  • Disponível a Constituição Sinodal de Lisboa

A Constituição Sinodal de Lisboa encontra-se disponível gratuitamente, em formato pdf, através do site do Patriarcado de Lisboa, e em formato papel, com um custo de 1,5€, na Livraria Nova Terra, no Patriarcado de Lisboa.
O documento, assinado por D. Manuel Clemente, foi apresentado à diocese, no passado dia 8 de dezembro, no Mosteiro dos Jerónimos, e resulta da Assembleia Sinodal que decorreu entre 30 de novembro e 4 de dezembro de 2016, no Turcifal. 


Fonte: Patriarcado de Lisboa 

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Jornada Vicarial - Rep. Fotogr.
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Papa pede que não sejamos indiferentes perante quem tem frio




(RV) Depois da oração mariana do Ângelus, o Papa recordou as 28 crianças que acabava de baptizar (e um jovem catecúmeno que baptizou sábado à tarde), e pediu orações para elas e para a suas famílias, orações que estendeu também a outros pais:

“E gostaria de estender a minha oração a todos os pais que neste período estão a preparar-se para o Baptismo dos seus filhos, ou acabam de o celebrar. Invoco o Espírito Santo sobre eles e as suas crianças, a fim de que este Sacramento, tão simples e ao mesmo tempo tão importante, seja vivido com e com alegria.

Francisco convidou também a “unir-se  à Rede Mundial da oração do Papa”, que difunde, através das redes sociais, as intenções de oração que o Pontífice propõe mensalmente a toda a Igreja. Deste modo – disse – “se leva avante o apostolado de oração e se faz crescer a comunhão” .

O Papa convidou também a não ficar indiferentes perante os sem-abrigo que, de modo particular, nestes dias de frio intenso, precisam da nossa ajuda:

Nestes  dias de tanto frio, penso e vos convido a pensar em todas as pessoas que vivem na rua, atingidas pela frio e, muitas vezes, pela indiferença. Infelizmente, alguns não sobreviveram. Rezemos por elas e peçamos ao Senhor para nos aquecer o coração a fim de os podermos ajudar.”

Por fim, saudando de modo particular um grupo de jovens de Cagliari (ilha da Sardenha) que estão a preparar-se para o Crisma, aproveitou para sublinhar que o Sacramento da Confirmação ou Crisma não é apenas um ponto de chegada, mas também e sobretudo de partida na vida cristã. “Avante com a alegria do Evangelho”, rematou.

E pedindo, como sempre orações para ele, despediu-se desejando bom domingo e bom almoço.

(DA)