04 dezembro, 2016

Papa: preparar o Natal abandonando os ídolos do mundo


(RV) Domingo, 4 de dezembro, Angelus com o Papa Francisco na Praça de S. Pedro: o Santo Padre referiu-se ao Evangelho deste II Domingo do Advento e ao convite de S. João Batista: “Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo!”.

É com “estas mesmas palavras que Jesus dará início à sua missão na Galileia” – disse Francisco – e esse será o anúncio que os discípulos deverão levar na sua primeira experiência missionária. O evangelista Mateus quer, assim, apresentar João como aquele que prepara o caminho a Cristo que vem, e os discípulos como continuadores da pregação de Jesus. Trata-se do mesmo alegre anúncio: o reino de Deus está no meio de vós! – declarou.

O Santo Padre afirmou ainda que o reino dos céus não é apenas algo que diz respeito à vida eterna, que devemos apenas esperar no futuro, mas é algo que se aproximou e, de certo modo, “está já presente”. Esta é a “bela notícia que Jesus nos trás”.

Contudo, para fazermos parte deste reino existe uma condição a ser cumprida: mudar a nossa vida, ou seja, “convertermo-nos” – disse Francisco:

“ A condição para entrar a fazer parte deste reino é cumprir uma mudança na nossa vida, isto é convertermo-nos. Trata-se de deixar as estradas cómodas mas enganadoras dos ídolos deste mundo: o sucesso a todo o custo, o poder em detrimento dos mais débeis, a sede de riquezas, o prazer a qualquer preço. E de abrir, ao invés, o caminho ao Senhor que vem: Ele não tira a nossa liberdade, mas dá-nos a verdadeira felicidade. Com o nascimento de Jesus em Belém, é o próprio Deus que habita no meio de nós para nos libertar do egoísmo, do pecado e da corrupção.”

O Natal é, segundo o Papa, um dia de grande alegria também exterior, mas é, sobretudo, um acontecimento religioso para o qual é necessária uma preparação espiritual. Neste tempo de Advento, deixemo-nos guiar pela exortação de João Batista: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” – disse o Papa que convidou os fiéis a examinarem a sua consciência e a celebrarem o “Sacramento da Penitência”.

O Santo Padre afirmou que “a salvação de Deus é obra de um amor maior que o nosso pecado; apenas o amor de Deus pode apagar o pecado e libertar do mal”.

Após a oração do Angelus o Papa Francisco saudou os fiéis presentes na praça, em particular, os grupos vindos de Espanha e da Croácia.

O Santo Padre fez ainda uma referência à Solenidade da Imaculada Conceição da próxima quinta-feira, dia 8:

“Vemo-nos na quinta-feira para a Festa de Maria Imaculada. Nestes dias rezemos unidos pedindo a sua materna intercessão para a conversão dos corações e o dom da paz.”
O Papa Francisco a todos desejou um bom domingo e bom almoço.

(RS)

03 dezembro, 2016

Uma economia inclusiva e atenta à pessoa humana - Papa aos empresários

 

(RV) O Papa Francisco recebeu neste sábado, em audiência, na Sala Clementina, cerca de 400 empresários que participam no encontro promovido por “Time-Life” e que reuniu para além de empresários, líderes internacionais do mundo académico, religioso, sindical e de organizações sem fins lucrativos para reflectir sobre as exigências de um sistema económico global capaz de fazer crescer a economia, mas também de garantir a équa distribuição das vantagens que dela derivam.

O Papa dirigiu-lhes palavras de apreço pelo tema escolhido para esse Fórum: “O desafio do século XXI: criar um novo pacto Social”. Um tema que Francisco considera oportuno por ter em vista a necessidade urgente de modelos económicos mais inclusivos e justos.

É importante que tenhais feito uma consistente troca de ideias e informações sobre isso - disse-lhe o Papa – afirmando que o que é actualmente preciso “não é um novo acordo social em abstracto, mas sim ideias concretas e uma acção eficaz que beneficie todos e comece a responder às prementes questões dos nossos dias”.

O Papa agradeceu-lhes pelo esforço que estão a fazer por “promover a centralidade e a dignidade da pessoa humana no seio das instituições e dos modelos económicos, e por chamarem a atenção sobre a chaga dos pobres e dos refugiados, que são muitas vezes esquecidos pela sociedade”

“Quando ignoramos o grito de tantos nossos irmãos e irmãs de todas as partes do mundo, não só negamos os seus direitos e os valores que receberam de Deus, como também recusamos a sua sageza e impedimos-lhes de oferecer ao mundo o seu talento, as suas tradições e as suas culturas. Estes comportamentos aumentam os sofrimentos dos pobres e dos marginalizados, e nós mesmos nos tornamos mais pobres, não só materialmente, mas também moral e espiritualmente”

O Pontífice indicou depois alguns factores que inquietam o mundo de hoje, como a crescente desigualdade entre os povos, guerras, pobreza, migrações, dizendo que as pessoas querem fazer ouvir a sua própria voz, exprimir os suas preocupações e medos e dar o seu contributo a nível local e global. Querem também beneficiar dos recursos do terra, muitas vezes acessíveis a poucos. Se isto, por um lado cria conflitos, por outro mostra como estamos a viver momentos de esperança em soluções justas.

Para o Papa esse Fórum é um sinal de esperança, porque demonstra que esses empresários reconhecem os problemas e a necessidade de agir. Mas, recordou que essa estratégia de renovação e esperança requer uma conversão institucional e pessoal, uma mudança de coração que ponha no centro as profundas expressões da humanidade, das culturas, convicções religiosas e tradições humanas.

“Esta renovação fundamental não deve ter que ver simplesmente com a economia de mercado, com números que devem dar certo, com o desenvolvimento de matérias primas e o melhoramento das infra-estruturas. Não, aquilo de que estamos a falar é o bem comum da humanidade, o direito de cada pessoa de aceder aos recursos deste mundo e de ter as mesmas oportunidades de realizar as próprias potencialidades, potencialidades que, em última análise, se baseiam na dignidade de filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança”

O nosso grande desafio – continuou o Papa – é responder aos níveis globais de injustiça, promovendo o sentido de responsabilidade local, pessoal. E a pergunta a pôr-se  - disse - é como melhor nos encorajarmos uns aos outros e as nossas respectivas comunidades a responder aos sofrimentos e às necessidade que vemos perto e longe de nós?

Renovação, purificação, reforço de sólidos modelos económicos dependem da nossa conversão pessoal e generosidade pessoal em relação aos necessitados, rematou o Papa.

Ele encorajou os participantes no Fórum a procurar vias cada vez mais criativas para transformar as instituições e as estruturas económicas por forma a responderem às necessidades de hoje e estejam ao serviço da pessoa humana, especialmente os mais necessitados. E o Papa disse-lhe que reza a fim de que possam incluir nos seus esforços aqueles a que procuram ajudar, ouvindo-os, dando-lhes voz e aprendendo das suas experiências e necessidades.

(DA)

02 dezembro, 2016

Muitos mártires entre os próximos 24 Beatos, Card. Massaja é Venerável




(RV) A Igreja poderá em breve venerar 24 novos Beatos, muitos religiosos, alguns leigos e quase todos mártires. Entre eles está a figura do Padre Stanley Francisco Rother, o primeiro mártir católico nascido nos Estados Unidos e ordenado na Oklahoma City, mas foi numa cidadezinha de Guatemala onde ele realizou sua missão, trazendo a Palavra de Deus aos índios Tzutuhil, descendentes dos Maya: aprendeu a sua língua tribal e nela traduziu o Novo Testamento e o rito da Missa. A sua obra em apoio dos mais pobres e contra a sua exploração não passou despercebida: os anos setenta na América Central e do Sul foram de ditaduras militares e esquadrões da morte, pela mão dos quais também o Padre Stanley caiu, aos 28 de julho de 1981, depois de ter sofrido pela morte de 20 seus paroquianos. Quando a notícia da sua morte foi dada a conhecer, os índios chegaram aos milhares para rezar na Paróquia de Santiago Atitlan e obtiveram que o coração do seu Sacerdote permanecesse enterrado para sempre com eles.

Muitos outros mártires serão beatificados, como o Padre Vincenzo Queralt Lloret, Sacerdote da Congregação da Missão, que viveu em Barcelona durante os anos da guerra civil espanhola e da perseguição da Igreja. Descoberto a evangelizar apesar da proibição, foi morto por ódio à fé. O mesmo destino tiveram seis Sacerdotes da sua própria Congregação, cinco Sacerdotes diocesanos, duas Religiosas Filhas da Caridade e sete Leigos da Associação  Filhos de Maria da Medalha Milagrosa.

Outros novos beatos e mártires cujos decretos de seus milagres e virtudes heróicas Francisco autorizou promulgar são os seguintes:

- O milagre atribuído à intercessão do Venerável Servo de Deus João Schiavo, sacerdote professo da Congregação de São José; nascido aos 8 de julho de 1903 e morto a 27 de janeiro de 1967;

- O martírio do Servo de DeusTeófilo Matulionis, Arcebispo-Bispo de Kaišiadorys (Lituânia); nascido a 22 de junho de 1873 e morto por ódio à Fé a 20 de agosto de 1962;

- As virtudes heróicas do Servo de Deus Guilherme Massaja, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, Cardeal da Santa Igreja Romana; nascido a 8 de junho de 1809 e morto a 6 de agosto de 1889;

- As virtudes heróicas do Servo de Deus Nunzio Russo, Sacerdote diocesano, Fundador da Congregação das Filhas da Cruz; nascido a 30 de outubro de 1841 e morto a 22 de novembro de 1906;

- As virtudes heróicas do Servo de Deus Joseph Bau Burguet, Sacerdote diocesano, Pároco em Masarrochos (Espanha); nascido a 20 de abril de 1867 e morto a 22 de novembro de 1932;

- As virtudes heróicas do Servo de Deus Mario Ciceri, Sacerdote diocesano; nascido a 8 de setembro de 1900 e morto a 4 de abril de 1945;

- As virtudes heróicas da Serva de Deus Maria Giuseppa Aubert (no século: Susana), Fundadora do Instituto das Filhas de Nossa Senhora da Compaixão; nascida a 19 de junho de 1835 e morta a 1 de outubro de 1926;

- As virtudes heróicas da Serva de Deus Luce Rodríguez-Casanova y García San Miguel, Fundadora da Congregação das Mulheres Apostólicas do Sagrado Coração; nascida a 28 de agosto de 1873 e morta a 8 de janeiro de 1949;

- As virtudes heróicas da Serva de Deus Catarina Aurelia do Preciosíssimo Sangue (no século: Aurelia Caouette), Fundadora da Congregação das Irmãs Adoradoras do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo da União de Saint-Hyacinthe; nascida a 11 de julho de 1833 e morta a 6 de julho de 1905;

- As virtudes heróicas da Serva de Deus Leonia Maria Nastał, Irmã  professa da Congregação das Pequenas Servas da Bem-Aventurada Virgem Maria Imaculada; nascida a 8 de novembro de 1903, e morta a 10 de janeiro de 1940.

1.ª Pregação do Advento 2016: Espírito Santo, fonte de esperança


(RV) Começaram nesta sexta-feira dia 2 de dezembro as Pregações de Advento na Capela Redemptoris Mater no Vaticano. Nesta manhã esteve presente o Papa Francisco. As reflexões estão cargo do padre Raniero Cantalamessa. O tema geral é: “Bebamos, sóbrios, a embriaguez do Espírito Santo”.

Nesta sexta-feira dia 2 o padre Cantalamessa afirmou que o Espírito Santo é “a novidade teológica e espiritual mais importante depois do Concílio e a principal fonte de esperança da Igreja”.

No próximo ano – disse o frade capuchinho – comemoramos o 50º aniversário do início do Renovamento Carismático, um dos muitos sinais do despertar do Espírito e dos carismas na Igreja. Esta experiência renovada do Espírito Santo tem estimulado a reflexão teológica.
Segundo o padre Raniero, na ordem da criação e do ser, tudo parte do Pai, passa pelo Filho e chega a nós pelo Espírito; na ordem da redenção e do conhecimento, tudo começa com o Espírito Santo, passa pelo Filho e regressa ao Pai.

Nas suas meditações de Advento, o padre Cantalamessa propõe alguns aspetos da ação do Espírito Santo, partindo do Credo: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida”; “Que procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”; “ele falou pelos profetas".

A Carta aos Hebreus diz que "depois de falar um tempo através dos profetas, nos últimos tempos, Deus falou-nos pelo Filho". Assim, o Espírito não deixou de falar pelos profetas, fê-lo com Jesus e fá-lo ainda hoje na Igreja.

O pregador capuchinho concluiu a sua primeira meditação recordando que “a teologia, a liturgia e a piedade cristã, tanto no Oriente como no Ocidente, consolidaram um símbolo de fé: o Credo.

As pregações decorrem nas quatro sextas-feiras do Advento e percorrem os próximos dias 9, 16 e 23 de dezembro. Participam nas pregações cardeais, arcebispos, bispos, secretários das congregações, prelados da Cúria Romana e do Vicariato de Roma e também os superiores gerais e procuradores das Ordens Religiosas, que fazem parte da Capela Pontifícia.

(RS/MT)

TEXTO INTEGRAL DA 1.ª PREGAÇÃO:
 
Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap

Primeira pregação de Advento 2016
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“CREIO NO ESPÍRITO SANTO”

1. A novidade do pós-concílio

Com a celebração do 50º aniversário da conclusão do Concílio Vaticano II, terminou a primeira fase do "pós-concílio" e abriu-se uma outra. Se a primeira fase foi caracterizada por problemas relacionados à "recepção" do Concílio, esta nova será caracterizada, creio eu, pelo completar e integrar o Concílio; em outras palavras, pela releitura do Concílio à luz dos frutos produzidos por este, destacando também o que nele está ausente, ou presente apenas de forma embrionária.

A maior novidade do pós-concílio, na teologia e na vida da Igreja, tem um nome específico: o Espírito Santo. O Concílio não havia ignorado a sua ação na Igreja, mas havia falado quase sempre "en passant", mencionando-o muitas vezes, mas sem destacar o seu papel central, nem sequer na constituição sobre a Liturgia. Em uma conversa, no tempo em que estávamos juntos na Comissão Teológica Internacional, recordo que o Pe. Yves Congar usou uma imagem forte a este respeito; falou de um Espírito Santo, espalhado aqui e ali nos textos, como se faz com o açúcar nos doces, mas que não se torna parte da composição da massa.

Mas o degelo havia começado. Podemos dizer que a intuição de São João XXIII do Concílio como sendo “um novo Pentecostes para a Igreja” encontrou a sua implementação somente mais tarde, terminado o concílio, como tem acontecido muitas vezes nas histórias dos concílios.

No próximo ano nós comemoramos o 50º aniversário do início, na Igreja Católica, da Renovação Carismática. É um dos muitos sinais – o mais evidente pela vastidão do fenômeno – do despertar do Espírito e dos carismas na Igreja. O Concílio havia preparado o caminho para a sua recepção, falando, na Lumen Gentium, da dimensão carismática da Igreja, juntamente com aquela institucional e hierárquica, e insistindo na importância dos carismas[1]. Na homilia da Missa Crismal da Quinta-feira Santa de 2012, Bento XVI disse:

"Quem olha para a história da época pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que muitas vezes assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que torna quase palpáveis a vivacidade inesgotável da Santa Igreja, a presença e a ação eficaz do Espírito Santo".

Ao mesmo tempo, a experiência renovada do Espírito Santo tem estimulado a reflexão teológica[2]. Depois do concílio se multiplicaram os tratados sobre o Espírito Santo: dentre os católicos, está o do próprio Congar[3], de K. Rahner[4], de H. Mühlen[5] e de von Balthasar[6], dentre os luteranos o de J. Moltmann[7] e M. Welker[8], e de muitos outros. Da parte do Magistério houve a encíclica de São João Paulo II "Dominum et vivificantem". Por ocasião do XVI centenário do concílio de Constantinopla, do 381, o próprio Sumo Pontífice, em 1982, promoveu um congresso internacional de Pneumatologia no Vaticano, cujas atas foram publicadas pela Livraria Editora Vaticana, em dois grandes volumes intitulados "Credo in Spiritum Sanctum[9]”.

Nos últimos anos estamos observando passos decididos nessa direção. No fim de sua carreira, Karl Barth fez uma declaração provocativa que foi, em parte, também uma autocrítica. Disse que no futuro iria desenvolver uma teologia diferente, a “teologia do terceiro artigo”. Por “terceiro artigo” entendia, naturalmente, o artigo do credo sobre o Espírito Santo. A sugestão não caiu no vazio. Desde que foi lançada a proposta surgiu a atual corrente denominada, precisamente, "Teologia do terceiro artigo".

Não acredito que tal corrente queira tomar o lugar da teologia tradicional (seria um erro se pretendesse), mas sim estar do lado e reaviva-la. Ela se propõe a fazer do Espírito Santo não somente o objeto do tratado que lhe diz respeito, a Pneumatologia, mas por assim dizer a atmosfera na qual se desenvolve toda a vida da Igreja e toda pesquisa teológica, "a luz dos dogmas", como um antigo Padre da Igreja definia o Espírito Santo.

O tratado mais completo desta recente corrente teológica é o volume de ensaios surgido em Inglês no último mês de setembro, com o título "Teologia do terceiro artigo. Para uma dogmática pneumatológica[10]”.  Nesse, partindo da doutrina trinitária da grande tradição, teólogos de várias Igrejas cristãs oferecem a sua contribuição, como premissa de uma teologia sistemática mais aberta ao Espírito e mais adequada às exigências atuais. Inclusive foi-me pedido, como católico, uma contribuição com um ensaio sobre “Cristologia e pneumatologia nos primeiros séculos da Igreja”.

2. O credo lido de baixo

As razões que justificam esta nova orientação teológica não são apenas de ordem dogmáticas, mas também históricas. Em outras palavras, compreende-se melhor o que é e o que se propõe a teologia do terceiro artigo, se se leva em conta como se formou o atual símbolo Niceno-Constantinopolitano. A partir desta história pode-se ver com maior clareza a utilidade de ler uma vez tal símbolo “de trás para frente”, ou seja, começando do final, em vez do início.

Vou tentar explicar o que quero dizer. O símbolo Niceno-Constantinopolitano reflete a fé cristã na sua fase final, depois de todos os esclarecimentos e as definições conciliares, concluídas no V século. Reflete a ordem alcançada ao final do processo de formulação do dogma, mas não reflete o próprio processo. Não corresponde, em outras palavras, ao processo pelo qual, de fato, a fé da Igreja historicamente foi formada, e nem sequer corresponde ao processo pelo qual se chega à fé hoje, compreendida como fé viva em um Deus vivo.

No credo atual, parte-se de Deus Pai e criador, dele passa-se ao Filho e à sua obra redentora, e, por fim, ao Espírito Santo atuante na Igreja. Na verdade, a fé seguiu o caminho oposto. Foi a experiência Pentecostal do Espírito que levou a Igreja a descobrir quem era realmente Jesus e qual havia sido o seu ensinamento. Com Paulo e especialmente com João, se chega a subir de novo de Jesus ao Pai. É o Paráclito que, como prometido por Jesus (João 16, 13), conduz os discípulos à "verdade plena" sobre ele e o Pai.

São Basílio de Cesareia resumiu nestes termos o desdobramento da revelação e da história da salvação:

"O caminho do conhecimento de Deus procede do único Espírito, através do único Filho, até o único Pai; inversamente, a bondade natural, a santificação secondo natura, a dignidade real, se difundem pelo Pai, por meio do Unigênito, até o Espírito[11]”.

Em outras palavras, na ordem da criação e do ser, tudo parte do Pai, passa pelo Filho e chega a nós no Espírito; na ordem da redenção e do conhecimento, tudo começa com o Espírito Santo, passa pelo Filho Jesus Cristo e retorna ao Pai. Podemos dizer que São Basílio é o verdadeiro iniciador da teologia do terceiro artigo! Na tradição ocidental tudo isso é expresso de forma sucinta na última estrofe do hino Veni Creator. Dirigindo-se ao Espírito Santo, a Igreja reza dizendo:

Per te sciamus da Patrem,

noscamus atque Filium,

te utriusque Spiritum

credamus omni tempore.

Faça que por meio de ti conheçamos o Pai,

que conheçamos ao mesmo tempo o Filho

e em ti que es o Espírito de ambos

creiamos firmemente hoje e sempre.

Isso de forma alguma significa que o Credo da Igreja não seja perfeito ou que deva ser reformado. Ele só pode ser assim do jeito que é. É a maneira de lê-lo que, por vezes, é útil mudar, para refazer o caminho com o qual se formou. Entre as duas formas de utilizar o credo – como um produto realizado, ou no seu próprio fazer-se –, existe a mesma diferença de fazer pessoalmente, no início da manhã, a escalada do Monte Sinai partindo do mosteiro de Santa Catarina, ou ler a narração de alguém que fez a escalada antes de nós.

3. Um comentário ao “terceiro artigo”

Com isto em mente, nas três meditações de Advento, gostaria de propor reflexões sobre alguns aspectos da ação do Espírito Santo, partindo precisamente do terceiro artigo do credo que lhe diz respeito. Este compreende três grandes afirmações. Vamos começar com a primeira:

a. “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida”.

O credo não diz que o Espírito Santo é "o" Senhor (acima, no credo, se proclama, "e creio em um só Senhor Jesus Cristo"!). Senhor (no texto original, to kyrion, neutro!) indica aqui a natureza, não a pessoa; diz o que é, não quem é o Espírito Santo. "Senhor" significa que o Espírito Santo compartilha o Senhorio de Deus, que está do lado do Criador, e não das criaturas; em outras palavras, que é de natureza divina.

A Igreja chegou a esta certeza baseando-se não somente na Escritura, mas também na própria experiência de salvação. O Espírito, já escrevia Santo Atanásio, não pode ser uma criatura, porque quando somos tocados por ele (nos sacramentos, na Palavra, na oração) fazemos a experiência de entrar em contato com Deus em pessoa, e não com o seu intermediário. Se nos diviniza, isso significa que ele próprio é Deus[12].

Não se poderia, no símbolo de fé, dizer a mesma coisa de forma mais explícita, definindo o Espírito Santo puramente e simplesmente “Deus e consubstancial ao Pai", como havia sido feito para o Filho? Certamente, e foi precisamente essa a crítica movida rapidamente por alguns bispos, dentre os quais São Gregório de Nazianzo, à definição. Por razões de conveniência e de paz, eles preferiram dizer a mesma coisa com expressões equivalentes, atribuindo ao Espírito, além do título de Senhor, também a isotimia, ou seja, a igualdade com o Pai e o Filho na adoração e na glorificação da Igreja.

A expressão segundo a qual o Espírito Santo "dá a vida" é tomada de várias passagens do Novo Testamento: "É o Espírito que dá a vida" (Jo 6, 63); "A lei do Espírito dá a vida em Cristo Jesus" (Rm 8, 2); "O último Adão tornou-se espírito que dá a vida" (1 Cor 15, 45); "A letra mata, o Espírito dá a vida" (2 Cor 3, 6).
Temos três perguntas. Em primeiro lugar, que vida dá o Espírito Santo? Resposta: dá a vida divina, a vida de Cristo. Uma vida super-naturale, não uma super-vida natural; cria o homem novo, não o super-homem de Nietzsche "inchado de vida”. Em segundo lugar, onde nos dá uma vida assim? Resposta: no batismo, que é apresentado, de fato, como um “renascer do Espírito” (Jo 3, 5), nos sacramentos, na palavra de Deus, na oração, na fé, no sofrimento aceite em união com Cristo. Em terceiro lugar, como o Espírito nos dá a vida? Resposta: fazendo morrer as obras da carne! "Se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis", diz São Paulo em Romanos 8, 13.

b. “... e procede do Pai (e do Filho) e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”

Passemos agora à segunda grande afirmação do credo sobre o Espírito Santo. Até agora, o símbolo de fé nos falou da natureza do Espírito, não ainda da pessoa; nos disse o que é, não quem é o Espírito; falou-nos sobre o que é comum ao Espírito Santo, ao Pai e ao Filho – o fato de ser Deus e de dar a vida. Com a presente afirmação se passa ao que distingue o Espírito Santo do Pai e do Filho. O que o distingue do Pai é que procede dele (um é aquele que procede, outro de quem procede!); o que o diferencia do Filho é que procede do Pai e não por geração, mas por inspiração; para expressar-nos em termos simbólicos, não como o conceito (logos) que procede da mente, mas como o sopro que procede da boca.

É o elemento central do artigo do credo, aquele com o qual se pretendia definir o lugar que ocupa o Paráclito na Trindade. Esta parte do símbolo é conhecida especialmente pelo problema do Filioque, que foi por um milênio o objeto principal de desacordo entre o Oriente e o Ocidente. Não vou me debruçar sobre este problema já muito discutido, até porque eu mesmo já falei aqui, tratando sobre o acordo de fé entre Oriente e Ocidente na Quaresma do ano passado.

Vou apenas destacar o que podemos reter desta parte do símbolo e que enriquece a nossa fé comum, além das disputas teológicas. Isso nos diz que o Espírito Santo não é um parente pobre na Trindade. Não é um simples "modo de agir" de Deus, uma energia ou um fluido que permeia o universo como pensavam os estóicos; é uma "relação subsistente", portanto, uma pessoa.

Não tanto a "terceira pessoa do singular", mas sim "a primeira pessoa do plural". O "Nós" do Pai e do Filho[13]. Quando, para expressar-nos de modo humano, o Pai e o Filho falam do Espírito Santo, não dizem “eles”, mas dizem “nós”, porque ele é a unidade do Pai e do Filho. Aqui se vê a fecundidade extraordinária da intuição de Santo Agostinho para o qual o Pai é aquele que ama, o Filho o amado e o Espírito o amor que os une, o dom mútuo. Sobre isso está baseada a crença da Igreja ocidental, segundo a qual o Espírito Santo procede “do Pai e do Filho”.

O Espírito Santo, apesar de tudo, será sempre o Deus escondido, mesmo se conhecemos os efeitos. Ele é como o vento: ninguém sabe de onde vem e para onde vai, mas vemos os efeitos da sua passagem. É como a luz que ilumina tudo o que está à frente, ficando ela própria escondida.

Por isso é a pessoa menos conhecido e amada das Três, apesar de ser o Amor em pessoa. Nos é mais fácil pensar no Pai e no Filho como “pessoas”, mas é mais difícil para nós o Espírito. Não existem categorias humanas que podem ajudar-nos a compreender este mistério. Para falar de Deus Pai nos ajudamos da filosofia que trata da causa primeira (o Deus dos filósofos); para falar do Filho temos a analogia da relação humana pai-filho e temos também a história, já que o Verbo se fez carne. Para falar do Espírito Santo só temos a revelação e a experiência. A própria Escritura fala dele servindo-se quase sempre de símbolos naturais: a luz, o fogo, o vento, a água, o perfume, a pomba.

Compreenderemos totalmente quem é o Espírito Santo só no paraíso. Na verdade, o viveremos em uma vida que não terá fim, em um aprofundamento que nos dará alegria imensa. Será como um incêndio muito doce que inundará a nossa alma e a encherá de bem-aventuranças, como quando o amor invade o coração de uma pessoa e esta se sente feliz.

c. "... e falou pelos profetas"

Estamos na terceira e última grande afirmação sobre o Espírito Santo. Depois de professar a nossa fé na ação vivificante e santificadora do Espírito na primeira parte do artigo (o Espírito que é o Senhor e dá a vida), agora se menciona também a sua ação carismática. Dessa se nomeia um carisma por todos, aquele que Paulo disse ser o primeiro por importância, ou seja, a profecia (cf. 1 Cor 14).

Até do carisma profético se menciona somente um momento: o Espírito que “falou por meio dos profetas”, ou seja, no Antigo Testamento. A afirmação é baseada em vários textos da Escritura, mas, em particular, em 2 Pedro 1, 21: "Movidos pelo Espírito Santo, falaram alguns homens da parte de Deus."

4. Um artigo a ser completado

A Carta aos Hebreus diz que "depois de falar um tempo por meio dos profetas, nos últimos tempos, Deus falou a nós no Filho" (cf. Hb 1,1-2). O Espírito não parou, então, de falar por meio dos profetas; o fez com Jesus e o faz ainda hoje na Igreja. Esta e outras lacunas do símbolo foram preenchidas gradualmente na prática da Igreja, sem necessidade, para isso, de mudar o texto do credo (como aconteceu, infelizmente, no mundo latino, com a adição do Filioque). Vemos um exemplo na epiclese da liturgia ortodoxa rezada por São Tiago, que diz assim:

"Envia... o teu santíssimo Espírito, Senhor e vivificador, que senta contigo, Deus e Pai, e com o teu Filho unigênito; que reina consubstancial e co-eterno. Ele falou na Lei, nos Profetas e no Novo Testamento; desceu em forma de pomba em nosso Senhor Jesus Cristo no rio Jordão, repousando sobre ele, e desceu sobre os santos apóstolos... no dia do Santo Pentecostes[14]".

Ficaria decepcionado quem quisesse encontrar no artigo sobre o Espírito Santo tudo, ou talvez só o melhor, da revelação bíblica sobre ele. Isso mostra a natureza e o limite de cada definição dogmática. O seu objetivo não é dizer tudo sobre um dado de fé, mas traçar um perímetro dentro do qual deve-se colocar cada afirmação sobre tal dado e que nenhuma afirmação pode contradizê-lo. A isso deve-se acrescentar, no nosso caso, o fato de que o artigo foi elaborado em um momento no qual a reflexão sobre o Paráclito estava apenas no começo e razões históricas contingentes ( o desejo de paz do imperador) impunham, como mencionei acima, um acordo entre as partes.

Contudo, nós não fomos abandonados somente com as palavras do credo sobre o Paráclito. A teologia, a liturgia e a piedade cristã, tanto no Oriente como no Ocidente, cobriram de “carne e sangue” as parcas afirmações do símbolo de fé.

Na sequência de Pentecostes, a relação íntima e pessoal com o Espírito Santo com cada palavra (uma dimensão completamente ausente no símbolo), é expressa por títulos como Pai dos pobres, luz dos corações, doce hóspede da alma e dulcíssimo alívio. A mesma sequência dirige ao Espírito Santo uma série de orações que são especialmente belas e respondem às nossas necessidades. Concluimos, proclamando-as juntos, talvez tentando encontrar entre elas aquela que sentimos mais necessária para nós:

Lava quod est sórdidum,
riga quod est áridum,
sana quod est sáucium.

Flecte quod est rígidum,
fove quod est frígidum,
rege quod est dévium.

Lava o que está impuro,

molha o que está seco,

cura o que sangra.

Dobra o que está rígido,

aquece o que está frio,

endireita o que está torto.

[© Tradução ao português, do original italiano, feita por Thácio Siqueira]

 
[1] Lumen gentium 12.

[2] Cf. La riscoperta dello Spirito. Esperienza e teologia dello Spirito Santo, a cura di Claus Hartmann e Heribert Muhlen, Milano 1975 (ed. originale, Erfahrung und Theolgie des Heiligen Geistes, München 1974).

[3] Y. Congar, Credo nello Spirito Santo, 2,  Brescia 1982, pp. 157-224

[4] K. Rahner, Erfahrung des Geistes. Meditation auf Pfingsten, Herder, Friburgo  i. Br. 1977.

[5] H. Mühlen , Der Heilige Geist als Person. Ich - Du - Wir, Münster in W., 1963

[6] U. von Balthasar, Spiritus Creator, Brescia 1972, p. 109.

[7] J. Moltmann, Lo Spirito della vita, , Brescia 1994, pp. 102-108

[8] M. Welker, Lo Spirito di Dio. Teologia dello Spirito Santo, Brescia 1995, p.62.

[9] Editi da Libreria Editrice Vaticana nel 1983.

[10] Third Article Theology: A Pneumatological Dogmatics, a cura di Myk Habets, Fortress Press, Settembre 2016.

[11] Basilio di Cesarea, De  Spiritu Sancto XVIII, 47 (PG 32 , 153).

[12] S. Atanasio, Lettere a Serapione, I, 24 (PG 26, 585).

[13] Cf H. Mühlen, Der Heilige Geist als Person. Ich - Du - Wir, Aschendorff, Münster in W. 1963. Il primo a definire lo Spirito Santo il «divino Noi» è stato S. Kierkegaard, Diario II A 731 (23 aprile 1838).

[14] In A. Hänggi - I. Pahl, Prex Eucharistica, Fribourg, Suisse, 1968, p. 250.

01 dezembro, 2016

Papa: vencer as resistências à graça de Deus




(RV) Quinta-feira, 1 de dezembro, na Missa em Santa Marta o Papa Francisco afirmou que todos temos no coração resistências à graça de Deus: é preciso encontrá-las e pedir ajuda ao Senhor, reconhecendo-se pecadores.

Tomando como estímulo a frase da liturgia do dia: “que a tua graça vença as resistências do pecado”, o Santo Padre concentrou-se nas resistências que existem na vida cristã e distinguiu-as dizendo que existem as abertas que são saudáveis, pois estão abertas à graça de Deus, e outra, mais perigosas, que são aquelas escondidas – disse Francisco:

“Mas essas resistências escondidas, que todos temos, como são? Sempre vêm para deter um processo de conversão. Sempre! É deter, não é lutar contra. Não, não! É ficar parado; sorrir, talvez: mas você não passa. Resistir passivamente, de maneira escondida. Quando há um processo de mudança numa instituição, numa família, eu ouço dizer: ‘Há resistências ali’… Mas graças a Deus! Se não existissem, a coisa não seria de Deus. Quando há essas resistências é o diabo que as semeia ali, para que o Senhor não prossiga”.

Estas resistências escondidas – nas palavras do Papa – podem ser de três tipos: aquelas das palavras vazias, que vivem na camuflagem espiritual: dizem sim diplomaticamente mas não mudam nada; depois há as resistências das palavras justificativas, ou seja, quando uma pessoa se justifica continuamente e tem sempre “uma razão para se opor”; finalmente, existem as palavras acusadoras que se verificam quando se resiste à graça de Deus acusando os outros para “não olhar para si mesmos”.

Segundo o Santo Padre, quando existem resistências não é preciso ter medo, mas pedir ajuda ao Senhor, reconhecendo-se pecador:

“Digo-lhes para não ter medo quando cada um de vocês, cada um de nós, vê que em seu coração existem resistências. Digam claramente ao Senhor: ‘Olha, Senhor, eu procuro cobrir isso, fazer aquilo para não deixar entrar a sua palavra. Senhor, com grande força, socorre-me. A sua graça vença as resistências do pecado’. As resistências são sempre um fruto do pecado original que nós levamos. É feio ter resistências? Não é bonito! O feio é tomá-las como defesa da graça do Senhor. Ter resistência é normal. É dizer: Sou pecador, ajuda-me Senhor! Preparemo-nos com esta reflexão para o próximo Natal.”

No final da missa, o Papa recordou que neste dia 1 de dezembro celebram-se os 100 anos do assassinato do Beato Charles de Foucauld, ocorrido na Argélia em 1916. Era “um homem que venceu tantas resistências e deu um testemunho que fez bem à Igreja. Peçamos que nos abençoe do céu e nos ajude a caminhar nos caminhos de pobreza, contemplação e serviço aos pobres” – afirmou o Papa.
(RS/BF/MJ)