15 outubro, 2019

Francisco: o remédio contra a hipocrisia é a autoacusação



“Há uma atitude que o Senhor não tolera: a hipocrisia. É o que acontece no Evangelho de hoje. Convidam Jesus para jantar, mas para julgá-lo, não para fazer amizade”, afirmou o Papa na homilia da missa na Casa Santa Marta. 

Adriana Masotti - Cidade do Vaticano 

A hipocrisia foi o tema da homilia do Papa Francisco na Missa desta manhã celebrada na Casa de Santa Marta, sugerido pelo Evangelho do dia, que narra a história de Jesus, convidado por um fariseu para jantar e é criticado pelo anfitrião, porque não tinha lavado as mãos antes de estar à mesa.


E o Papa comenta: "Há uma atitude que o Senhor não tolera: a hipocrisia. É o que acontece hoje no Evangelho. Convidam Jesus para jantar, mas para julgá-lo, não para fazer amigos”.

A hipocrisia, continua ele, "é precisamente aparentar ser de um jeito e ser de outro”.  É pensar secretamente de maneira diferente do que aparenta ser. E Jesus não suporta isto. E frequentemente chama os fariseus de hipócritas, sepulcros caiados.

O de Jesus não é um insulto, é a verdade. "Por fora, tu és perfeito, antes ainda, engomado precisamente com a concretude - diz ainda Francisco - mas por dentro és outra coisa".

E afirma que "a atitude hipócrita vem do grande mentiroso, o diabo". Ele é o "grande hipócrita" e os hipócritas são seus "herdeiros":

A hipocrisia é a linguagem do diabo, é a linguagem do mal que entra no nosso coração e é semeada pelo diabo. Não se pode viver com pessoas hipócritas, mas elas existem. Jesus gosta de desmascarar a hipocrisia. Ele sabe que será precisamente este comportamento hipócrita que o levará à morte, porque o hipócrita não pensa se usa meios lícitos ou não, vai em frente: calúnia? "vamos caluniar"; falso testemunho? "busquemos um falso testemunho".

O Papa continua a dizer que alguém poderia objetar "que connosco não existe hipocrisia assim". Mas pensar isto, é um erro:

A linguagem hipócrita, não diria que é normal, mas é comum, é de todos os dias. O aparentar de uma maneira e ser de outra. Na luta pelo poder, por exemplo, as invejas, os ciúmes fazem-te parecer com uma maneira de ser e, por dentro, tens o veneno para matar, porque a hipocrisia mata sempre, sempre, mais cedo ou mais tarde mata.

 É necessário ser curado deste comportamento. Mas qual o remédio, pergunta Francisco? A resposta é dizer "a verdade diante de Deus. É acusar-mo-nos a nós mesmos:

Precisamos de aprender a acusar-nos: "Eu fiz isto, eu penso  assim, maldosamente ... sou invejoso, gostaria de destruir aquele ...", o que existe dentro, nosso, e dizer isto diante de Deus. Este é um exercício espiritual que não é comum, não é usual, mas procuremos fazê-lo:  acusar-mo-nos a nós mesmos,  ver-mo-nos no pecado, nas hipocrisias, na maldade que existe no nosso coração, porque o diabo semeia a maldade. E dizer ao Senhor: "Mas veja Senhor, como sou!", e dizer isto com humildade.

Aprendamos a acusar-mo-nos a nós mesmos, repete o Papa, acrescentando "talvez algo muito forte, mas é assim: um cristão que não sabe acusar-se a si mesmo não é um bom cristão" e corre o risco de cair na hipocrisia. E recorda a oração de Pedro quando disse ao Senhor: afasta-te de mim, porque sou um homem pecador.

"Que nós aprendamos a acusar-mo-nos – conclui o Papa - a nós, a nós mesmos".

VN

Sínodo: chamados filhos de Deus

 
Sínodo dos Bispos (Vatican Media)
 
A 11ª Congregação Geral do Sínodo dos Bispos dedicado à região Pan-Amazónica teve início às 9h da manhã desta terça-feira (hora local), na Sala sinodal, no Vaticano, com a oração da Hora Média na presença do Papa Francisco. Os trabalhos deste dia são guiados pelo presidente Delegado, o cardeal brasileiro, Dom João Braz de Aviz.
 
Sivonei José – Cidade do Vaticano
 
Como ocorre todos os dias os trabalhos sinodais têm inicio com a oração comum e com uma reflexão proposta por um dos padres sinodais. Nesta terça-feira a meditação foi proposta pelo arcebispo metropolitanto de Belo Horizonte e presidente da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Walmor Oliveira de Azevedo.

Com o título “Chamados filhos de Deus”, Dom Walmor iniciou a sua reflexão com uma pergunta: “Como pode o amor de Deus permanecer nele? Esta é a interpelante pergunta respondida por São João no terceiro capítulo de sua primeira carta. A resposta a esta pergunta é a questão central na construção da autenticidade no seguimento de Jesus. O discípulo e a discípula são remetidos a uma verificação do tecido que configura o núcleo mais íntimo do seu ser. A referência ao coração, a estação da interioridade, muito além de qualquer possível e arriscado intimismo, é pôr-se em corajoso exercício de análise e levantamentos a respeito da constituição misericordiosa de si mesmo.

O coração do discípulo – continuou o arcebispo de Belo Horizonte – “é visceralmente constituído dos sentimentos norteadores da competência de ver o outro e a ele não se fechar, mas sobre ele debruçar-se, comovendo-se, para atender-lhes demandas à luz do conhecimento deassuas necessidades e carências”.

Falando da compaixão, afirmou que a mesma “é o selo, único e insubstituível selo da autenticidade, cujas raízes da exemplaridade se encontram no modo de ser do Mestre Jesus, aquele que tem compaixão dos seus, ovelhas sem pastor, consciente da sua missão de ungido e enviado para anunciar a boa nova aos pobres, anunciar-lhes o ano da graça, em vez de cinzas, o óleo da alegria”.

Ao discípulo é indicado o caminho da resposta à inquietante interrogação, "como pode o amor de Deus permanecer nele?" Uma interrogação que há de ser o mais significativo incómodo existencial no processo diário de qualificação discipular.

Põe-se em questão uma indispensável envergadura - disse o arcebispo - que é projeto divino em nós. O princípio é lembrado: (1J0 3,1) "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos. Esta é a moldura da interpelação existencial posta pela palavra de Deus agora proclamada.

Dom Walmor continuou afirmando que “um holofote aceso iluminando a consciência humana interpela à percepção e impacto da tua condição, filho de Deus, considerado o presente grande dado pelo pai: somos chamados filhos de Deus. E nós o somos”.

Esta condição gratuita e amorosa impulsion-se pelo princípio do amor cuja lógica há-de ser considerada como condição para fomentar o novo em lugar do velho que corrompe:(1 Jo 4,10-11) "10. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados. 

"Pois esta é a mensagem que ouvistes desde o início: que nos amemos uns aos outros." Só esta é a escolha possível. Não há outra. A outra opção possível é o pecado. Ora, aquele que pratica o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio. Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo". (1 Jo 3,10-13) "Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não é de Deus, como também não é de Deus quem não ama o seu irmão. Pois esta é a mensagem que ouvistes desde o início: que nos amemos uns aos outros. Não como Caim, que, sendo do Maligno, matou o seu irmão. E por que o matou? Porque as suas obras eram más, ao passo que as do seu irmão eram justas.

Clareia o horizonte interpelativo diário para nos incomodar e, amparados e fecundados pela graça de Deus, - sublinhou o presidente da CNBB - darmos conta do que nos compete, exatamente em contramão do "possuir riquezas neste mundo e ver o nosso irmão passar necessidade, mas diante dele fechar o nosso coração. Somos desafiados a uma finesse relacional de modo a que não amemos só com palavras e de boca, mas por ações e na verdade. A verdade de Cristo é a sua compaixão, as suas entranhas de misericórdia.

E sempre exigente, porque diária e de todo momento, a tarefa de conseguir estar, existencialmente, dentro do princípio da qualificada filiação divina: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou. Não há outra alternativa senão amar de verdade, correndo sempre o risco de ser dada por descontada, por justificações ou comodidades, por incompetência relacional ou entupimentos humano afetivos, por estreitezas ou por mesquinhez. Nenhuma condição humana, com as circunstâncias que a configuram, está isenta do distanciamento do amor de verdade. 

O arcebispo de Belo Horizonte também recordou o dia em que a Igreja faz memória de Santa Teresa, virgem e doutora da Igreja. “Parece oportuno reportar-nos ao que ela indica como exercício vivencial diário, o que constitui a dinâmica da primeira morada do Castelo Interior/Moradas, uma de suas obras clássicas: Ela descreve a primeira morada com a indicação de duas dinâmicas sempre e permanentemente fundamentais na conquista e manutenção da qualificação da condição de filhos e filhas de Deus, discípulos e discípulas de Jesus, para a competência de amar de verdade: Conhece-te a ti mesmo e a Humildade.

Ela lembra que mesmo tendo alcançado, permanente ou momentaneamente, o matrimónio espiritual, intimidade fecunda no amor de Deus, por limitação do humano, escorregamos e caímos no estágio sempre em primeiro lugar que requer exercitar a humildade e o conhecimento de ti mesmo. Ninguém pode alimentar a pretensão de ter ultrapassado o estágio deste exercício espiritual diário sob pena de ilusão, endurecimento que entope e produz a dureza de coração que prejudica os pobres, faz sombra à razão, faz gostar de títulos, privilégios e dos primeiros lugares, deixando-se levar pela disputa ou tomado por indiferenças, incapacitando para o alcance de percepções para gestos concretos de solidariedade, desapego, simplicidade.

Ao contrário, alimentando à semelhança do coração dos fariseus um coração duro, o gosto pelas filacterias, amigos do dinheiro, distanciados também da misericórdia, da justiça e da verdade. “Santa Madre Teresa – concluiu Dom Walmor - indica-nos este fecundo caminho, como exercício espiritual e existencial permanente, conhecermo-nos  a snós mesmos e a humildade para qualificar a nossa cidadania e nos oportunizar, fecundados pela graça de Deus, para conquistar a envergadura de verdadeiros filhos e filhas de Deus, dando tecido bom à nossa cidadania, com força de testemunho transformador e profética atuação no mundo testemunhando o Reino”. 

VN

Sínodo: o poder do perdão na Amazónia


 Sínodo dos Bispos (Vatican Media)

O encontro com os jornalistas na Sala de Imprensa vaticana, no início desta segunda semana do Sínodo sobre a Amazónia contou com a presença de dom Carlo Verzeletti, bispo de Castanhal, dom José Ángel Divassón Cilveti, ex-Vigário Apostólico de Puerto Ayacucho, dom Josianne Gauthier, secretário geral da CIDSE, Aliança Internacional Católica de Agências de Desenvolvimento (Canadá), e José Gregorio Díaz Mirabal, Presidente do Congresso das Organizações Indígenas Amazónicas (COICA). 

Debora Donnini, Silvonei José - Cidade do Vaticano 

"Está a delinear-se um quadro no qual tudo está realmente conetado" e a Laudato si se vive concretamente. Foi o que disse na Sala de Imprensa do Vaticano, o padre Giacomo Costa, secretário da Comissão de Informação, falando sobre a 9ª Congregação Geral do Sínodo para a Amazónia, que teve início nesta manhã com a oração do Papa pelo Equador, como relatou o Prefeito do Dicastério da Comunicação, Paolo Ruffini.

Ricos os testemunhos de "como a Igreja em saída seja já uma realidade" com as comunidades que defendem a vida, o trabalho em equipe, conta o padre Costa, destacando como isso nos faz refletir sobre os desafios dos diversos ministérios e sobre a liturgia inculturada. Foi central também o tema da conversão ecológica integral e do "urgente pedido de uma aliança com a Igreja" para a defesa dos direitos. As vítimas pela proteção da terra exigem ações urgentes que possam levar a criação de um observatório eclesial internacional sobre as violações dos direitos humanos das populações. Poder-se-ia defender uma governação na qual as populações sem poder de negociação pudessem ser ouvidas. Falou-se também de modelos circulares de economia, de direitos ambientais, mas também de um crescimento da cultura da comunicação na Região Pan-Amazónica, com a valorização da mídia católica e a formação de "comunicadores nativos" para fortalecer as narrativas no território.

A necessidade de levar esta defesa dos povos indígenas aos lugares oficiais foi destacada por Josianne Gauthier, secretária geral da CIDSE (Aliança Internacional Católica de Agências de Desenvolvimento), que há mais de 50 anos apoia as comunidades na defesa dos seus direitos. "Um dos nossos papéis no Sínodo - disse - é ouvir”.

Sobre a experiência entre estes povos falou amplamente dom José Ángel Divassón Cilveti, ex-Vigário apostólico de Puerto Ayacucho, Venezuela, com referência ao grupo étnico dos Yanomami que vivem na área florestal entre a Venezuela e o Brasil. Nós, - disse ele -, estamos presentes ali como salesianos desde 1957. Depois do Concílio, iniciou-se uma nova etapa para realizar esta obra evangelizadora, para acompanhar estes povos. O critério passou a ser o da partilha da vida das comunidades, conscientes de que cabe a elas tomarem as rédeas nas mãos. Nós demos ajuda com projetos para que não dependessem dos outros. Centralizados na sua experiência, de que Jesus Cristo deveria ser levado até eles, no entanto, era necessário conhecer as suas vidas para não chegarmos como colonizadores. Então, houve uma preparação para o batismo. Dom Cilveti explicou como uma Igreja que ajuda estas pessoas começou a crescer, porque sem dúvida "o Evangelho traz coisas novas" como o perdão e estas pessoas "começaram a reconhecer o valor deste valor: a capacidade de perdoar ajudou-lhes a resolverem certos problemas, conseguiram superar muitos conflitos. Na Floresta Amazónica temos testemunhado estas mudanças”.

Vem de uma nova diocese perto da foz do rio Amazonas, fundada há 14 anos: 1.100 aldeias, poucos sacerdotes. Dom Carlo Verzeletti, bispo de Castanhal, Brasil, falou das dificuldades de celebrar a missa correndo de um ponto para o outro devido ao tamanho do território. No seu discurso, insistiu, entre outras coisas, sobre a ordenação dos homens casados para que a Eucaristia, - observou -, possa tornar-se uma realidade mais próxima das nossas comunidades.  Não sacerdotes de segunda classe, mas "pessoas preparadas que têm uma vida exemplar" e que poderiam fazer um trabalho extraordinário, afirmou, acrescentando que já saberia quem indicar. Para ele, o diálogo é, sem dúvida, central, como está a acontecer há anos, convidando os prefeitos e indo às paróquias porque não se deve destruir ainda mais a Amazónia.

A dar voz, na primeira pessoa, àqueles que sempre viveram neste pulmão verde, é certamente José Gregorio Díaz Mirabal, que representa mais de 400 povos amazónicos. O indígena curripac da Venezuela, é presidente do Congresso de Organizações Indígenas Amazónicas (COICA), presente há 36 anos nos países amazónicos. Antes de mais nada o seu muito "obrigado" ao Papa Francisco que no ano passado, em Puerto Maldonado, recordou os povos indígenas e um muito "obrigado" à Repam pelo trabalho que está a realizar. É também o seu o "grito" para que termine a "invasão" de grandes projetos de desenvolvimento, empresas hidroelétricas, mineração, monocultura, roubo de terras. Muitos de nós são assassinados, disse ele, pedindo que os governos da Amazónia se sentem e conversem com eles e que se possa "fortalecer o vínculo entre a Igreja e os povos indígenas".

VN

14 outubro, 2019

Sínodo Amazónico: valorizar os carismas dos fiéis leigos, longe do clericalismo

 
Papa Francisco no intervalo da Congregação Geral 
 
Com a 10° Congregação Geral, realizada na tarde de 14 de outubro, prosseguem os trabalhos do Sínodo Especial Pan-amazónico, em andamento no Vaticano até 27 de outubro. Os padres sinodais presentes na Sala eram 177, na presença do Papa Francisco.
 
Vatican News – Cidade do Vaticano

Repensar as ministerialidades da Igreja à luz dos parâmetros da sinodalidade: este é um dos desafios da Igreja na Amazónia para que seja sempre mais Igreja da Palavra. Este foi o teor de alguns pronunciamentos feitos na tarde de hoje na Sala do Sínodo. A Palavra de Deus é presença ativa e misericordiosa, educativa e profética, formativa e performativa, interpelante no âmbito da ecologia integral e sinal de empenho social, económico, cultural e político para o desenvolvimento de um novo humanismo. São necessários novos ministros da Palavra, inclusive mulheres, para dar novas respostas aos desafios contemporâneos e é preciso investir nos leigos bem preparados que, em espírito missionário, saibam levar o anúncio do Evangelho a todos os lugares da Amazónia. Além disto, uma formação adequada dos leigos engajados é fundamental também para o nascimento de novas vocações.

O papel dos fiéis leigos e das mulheres

Uma Igreja ministerial, foi dito ainda na Sala, precisa que sejam melhor expressos e valorizados os carismas dos fiéis leigos, graças aos quais se manifesta a face da Igreja em saída, longe do clericalismo. Um pronunciamento, em especial, sugere que a questão dos assim chamados viri probati e da ministerialidade feminina sejam tratados numa Assembleia sinodal ordinária, porque são temas de alcance universal. Outra intervenção aconselha a que, antes dos viri probati presbiteri, se pense nos viri probati diaconi: o diaconato permanente, com efeito, pode representar um verdadeiro laboratório para ter homens casados no sacramento da Ordem. Em particular para o tema feminino, entre as colocações dos auditores sugere-se que sejam instituídos ministérios não ordenados para as mulheres leigas, entendendo o próprio ministério como um serviço, de modo a garantir em todo o território pan-amazónico a dignidade e a igualdade feminina. Estes ministérios poderiam ser, por exemplo, o da celebração da Palavra ou das atividades sócio-caritativas.

Proteção dos menores e dos adultos vulneráveis

Depois, houve espaço para a proteção dos menores e dos adultos vulneráveis na Amazónia: a terrível chaga da pedofilia e dos abusos sexuais requer, de facto, que a Igreja seja sempre vigilante e corajosa. O maior desafio, destacou-se, é a transparência e a responsabilidade diante destes crimes, para que possam ser prevenidos e combatidos. O tema da exploração sexual juvenil foi citado também noutras ocasiões: as redes criminosas – foi dito – roubam a infância das crianças, tornando-as vítimas, por exemplo, do tráfico de órgãos. As cifras são dramáticas: em 2018, somente no Brasil, foram contabilizados 62 mil casos de estupro. E trata-se de uma das cifras mais altas da região amazónica. Na base disto tudo, existem tanto graves desigualdades económicas, como carências de ações governamentais locais e internacionais capazes de combater estes delitos. Foi feito então um apelo para uma maior obra de prevenção no setor, com a ajuda das Conferências episcopais e das Congregações religiosas. A atenção aos menores e às mulheres foi reiterada também para exortar a luta contra o tráfico de pessoas: as vítimas deste drama estão entre as mais desumanizadas do mundo. Por isso pede-se que, através do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, as grandes empresas respeitem as normas internacionais sobre o tráfico e que sejam instituídas Comissões pastorais especiais para enfrentar o tráfico de pessoas.

Pastoral vocacional e Pastoral juvenil

Foi ressaltada ainda a importância da Pastoral vocacional: destaca-se que esta não pode faltar na obra de evangelização e deve ser acompanhada de uma Pastoral juvenil que seja, ao mesmo tempo, chamada e proposta de um encontro pessoal com Cristo. Os jovens que querem seguir Jesus, foi dito na Sala, devem ser amparados por uma formação adequada, através de um testemunho de vida santo e engajado. Os sacerdotes, portanto, deverão ser capazes de compreender profundamente as exigências da Amazónia: a catequese não pode ser demasiada académica, mas ser feita com espírito missionário e coração de pastor.

O recurso primário da água

Destacou-se também a importância da formação catequética à ecologia integral, em particular para a proteção e a salvaguarda da água, recurso primário e fonte de vida. O cuidado dos recursos hídricos – tema enfrentado ainda nos pronunciamentos de auditores e convidados especiais – é fundamental: todos os dias, com efeito, milhares de crianças no mundo morrem por doenças relacionadas com a água e milhões de pessoas sofrem por problemas hídricos. Como disse o Papa Francisco em diversas ocasiões, a próxima guerra mundial será ligada à água. Portanto, precisa-se de uma urgente consciencialização global para a proteção da casa comum e a reconciliação com a Criação, sinal da presença de Deus. Mais tarde é demasiado tarde, foi dito na Sala. A exortação a uma “conversão ecológica” diz respeito também à dimensão ética dos estilos de vida atuais, muitas vezes marcados pela tecnocracia e pela maximização do lucro como objetivo absoluto, em detrimento de uma visão do homem como ser humano integral.

O desafio da comunicação

Em sintonia com o que foi dito na 9° Congregação Geral, a Sala voltou a refletir sobre o tema da comunicação: através dos meios de comunicação de massa – afirmou-se –, é preciso abrir-mo-nos aos comunicadores de todas as culturas e de todas as línguas, de modo a reforçar os povos amazónicos. As mídias da Igreja, portanto, devem ser um espaço para consolidar os conhecimentos locais, inclusive, através da formação de comunicadores indígenas e camponeses. Entre as reflexões dos padres sinodais, esteve também a defesa dos povos indígenas, a ser levada avante, por exemplo, por meio da educação ou de pequenos projetos de desenvolvimento social. Muitas vezes excluídas da sociedade, de facto, as populações originárias não devem ser vistas como “incapazes”, mas protagonistas, e devem ser ouvidas, compreendidas e acolhidas. Depois, foi relançada a exortação para promover a vida consagrada feminina nos contextos periféricos urbanos da Amazónia, onde vivem os “invisíveis”, aqueles que não têm voz nem direitos. Eis então o convite para que as Comissões de justiça e paz e de direitos humanos possam cooperar mais entre si, em nome da defesa da vida do homem e do planeta.

A reflexão do Papa

No encerramento da Congregação, o Papa Francisco tomou a palavra, voltando a refletir sobre alguns temas que emergiram durante os trabalhos e evidenciando alguns aspetos que mais o impressionaram.

VN

Sínodo: "Primeiro, santos e depois, missionários"

 
Santo Padre na Sala do Sínodo (Vatican Media)
 
Foram retomados na manhã desta segunda-feira, os trabalhos do Sínodo dos Bispos dedicados à região Pan-Amazónica. Na presença do Santo Padre a 9ª Congregação Geral, na Sala do Sínodo, no Vaticano, teve início com a Oração da Hora Média. A reflexão nesta segunda-feira foi proposta por dom Omar de Jesús Mejia Giraldo, arcebispo de Florencia, Colômbia que teve como tema “A nossa missão: ser Santos”
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Silvonei José – Cidade do Vaticano
 
No início das suas palavras dom Mejia recordou que no último dia 3 de outubro, ele teve o privilégio de estar perto do túmulo do Beato José Allamano, fundador do Instituto Missionário da Consolata. Ali ele leu a seguinte frase: "Primeiro, Santos e depois, missionários". Quando cheguei à casa do Instituto Missionário da Consolata, em Roma - contiuou -, vi na minha caixa de correio, que me pediram para preparar esta simples reflexão. Ao procurar o texto que daria origem à minha intervenção, deparei-me com a Palavra de Deus que acabamos de ouvir: Sejam santos para mim, porque Eu sou santo, sou Javé, que vos separou dos outros povos para que sejam meus" (Lv 20, 26).

Neste contexto de oração sinodal dom Mejia recordou as palavras do Santo Padre na Santa Missa no início do Sínodo: "O anúncio do Evangelho é o primeiro critério para a vida da Igreja. É a sua missão, a sua identidade”. Este critério brota da primeira convicção: somos propriedade de Deus, não Deus nossa propriedade. A nossa missão é ocuparmo-nos continuamente das coisas do Pai (cf. Lc 2, 49). A nossa grande missão é pertencer inteiramente a Deus.

“Queridos irmãos e irmãs, - disse - estamos aqui porque queremos, à luz do Espírito Santo, discernir a atividade evangelizadora e missionária da Igreja na Amazónia. Vamos pedir a força do alto para entender que sem a graça de Deus tudo o que fizermos será inútil e inofensivo. Lembremo-nos de algo fundamental: a graça é sempre edificante e curativa.

Não esqueçamos: "Somos propriedade de Deus", "a terra é de Deus", "somos nação santa", "somos um povo sacerdotal". Com tudo isto, compreendemos que Deus pode escolher o povo que quer (pode escolher quem quer, mas também conta com a resposta generosa do eleito), sublinha-se a liberdade, a primeira decisão e a eleição gratuita de Deus.

Deus, na sua infinita misericórdia, - sublinhou o arcebispo Mejia - escolheu-nos para estarmos aqui, neste "instante vital". Ele escolheu-nos para que hoje sejamos luz e esperança na Amazónia e de lá, luz e esperança para o mundo. E se pensarmos um pouco no mistério de ser uma Igreja missionária na Amazónia? Trata-se de ser fermento na massa, um grupo de irmãos que Deus conduz por caminhos diferentes... Como Igreja, estamos no mundo. Como Igreja missionária, estamos na Amazónia, mas sem fins lucrativos, nem para devastá-la e aproveitar a sua riqueza material. Estamos na Amazónia para levar o estilo de vida de Jesus e "Vida em abundância" (cf. Jo 10,10). Estamos na Amazónia para "curar corações feridos" (cf. Lc 4, 16-19).

É normal ser criticado, porque muitas pessoas no mundo não entendem a nossa missão. A nossa tarefa é sermos diferentes, mas não estranhos. Como pessoas consagradas devemos ser terra de Deus, isto ensina-nos a rejeitar a vida sem Deus. Como pessoas consagradas, devemos realizar a nossa missão com sentido de eternidade. Não trabalhamos, não nos cansamos, não entregamos a nossa inteligência e vontade a Deus para sermos aplaudidos e felicitados, fazem-mo-lo com a liberdade de saber que os nossos nomes estão inscritos no Reino dos Céus. Nós entregam-mo-nos à missão por causa do Evangelho e pelo cuidado da casa comum como servos "inúteis" e sabendo que a nossa recompensa está no além.

À Santíssima Virgem Maria, Mãe da Esperança, - concluiu o arceispo - confiamos esta nova semana de discernimento do Sínodo da Amazónia. "Primeiro os santos e depois os missionários" (Beato José Allamano).

VN

13 outubro, 2019

A homilia do Papa na Missa de canonização de Irmã Dulce

 
 
 
"A salvação não é beber um copo de água para estar em forma; mas é ir à fonte, que é Jesus. Só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida".

HOMILIA DO SANTO PADRE
Eucaristia
no XXVIII Domingo do Tempo Comum com canonizações

«A tua fé te salvou» (Lc 17, 19). É o ponto de chegada do Evangelho de hoje, que nos mostra o caminho da fé. Neste percurso de fé, vemos três etapas, vincadas pelos leprosos curados, que invocam, caminham e agradecem.

Primeiro, invocar. Os leprosos encontravam-se numa condição terrível não só pela doença em si, ainda hoje difusa e devendo ser combatida com todos os esforços possíveis, mas pela exclusão social. No tempo de Jesus, eram considerados impuros e, como tais, deviam estar isolados, separados (cf. Lv 13, 46). De facto, quando vão ter com Jesus, vemos que «se mantêm à distância» (Lc 17, 12). Embora a sua condição os coloque de lado, todavia diz o Evangelho que invocam Jesus «gritando» (17, 13) em voz alta. Não se deixam paralisar pelas exclusões dos homens e gritam a Deus, que não exclui ninguém. Assim se reduzem as distâncias, e a pessoa sai da solidão: não se fechando em auto lamentações, nem olhando aos juízos dos outros, mas invocando o Senhor, porque o Senhor ouve o grito de quem está abandonado.

Também nós – todos nós – necessitamos de cura, como aqueles leprosos. Precisamos de ser curados da pouca confiança em nós mesmos, na vida, no futuro; curados de muitos medos; dos vícios de que somos escravos; de tantos fechamentos, dependências e apegos: ao jogo, ao dinheiro, à televisão, ao telemóvel, à opinião dos outros. O Senhor liberta e cura o coração, se O invocarmos, se lhe dissermos: «Senhor, eu creio que me podeis curar; curai-me dos meus fechamentos, livrai-me do mal e do medo, Jesus». No Evangelho de Lucas, verifica-se que os primeiros a invocar o nome de Jesus são os leprosos. Depois fá-lo-ão também um cego e um dos ladrões na cruz: pessoas carentes invocam o nome de Jesus, que significa Deus salva. De modo direto e espontâneo chamam Deus pelo seu nome. Chamar pelo nome é sinal de confidência, e o Senhor gosta disto. A fé cresce assim, com a invocação confiante, levando a Jesus aquilo que somos, com franqueza, sem esconder as nossas misérias. Invoquemos diariamente, com confiança, o nome de Jesus: Deus salva. Repitamo-lo: é rezar, dizer “Jesus” é rezar. A oração é a porta da fé, a oração é o remédio do coração.

A segunda palavra é caminhar. É a segunda etapa. Neste breve Evangelho de hoje, aparece uma dezena de verbos de movimento. Mas o mais impressionante é sobretudo o facto de os leprosos serem curados, não quando estão diante de Jesus, mas depois enquanto caminham, como diz o Evangelho: «Enquanto iam a caminho, ficaram purificados» (17, 14). São curados enquanto vão para Jerusalém, isto é, palmilhando uma estrada a subir. É no caminho da vida que a pessoa é purificada, um caminho frequentemente a subir, porque leva para o alto. A fé requer um caminho, uma saída; faz milagres, se sairmos das nossas cómodas certezas, se deixarmos os nossos portos serenos, os nossos ninhos confortáveis. A fé aumenta com o dom, e cresce com o risco. A fé atua, quando avançamos equipados com a confiança em Deus. A fé abre caminho através de passos humildes e concretos, como humildes e concretos foram o caminho dos leprosos e o banho de Naaman no rio Jordão, (cf. 2 Re 5, 14-17). O mesmo se passa connosco: avançamos na fé com o amor humilde e concreto, com a paciência diária, invocando Jesus e prosseguindo para diante.

Outro aspeto interessante no caminho dos leprosos é que se movem juntos. Refere o Evangelho, sempre no plural, que «iam a caminho» e «ficaram purificados» (Lc 17, 14): a fé é também caminhar juntos, jamais sozinhos. Mas, uma vez curados, nove continuam pela sua estrada e apenas um regressa para agradecer. E Jesus desabafa a sua mágoa assim: «Onde estão os outros nove?» (17, 17). Quase parece perguntar pelos outros nove, ao único que voltou. É verdade! Constitui tarefa nossa – de nós que estamos aqui a «fazer Eucaristia», isto é, a agradecer –, constitui tarefa nossa ocuparmo-nos de quem deixou de caminhar, de quem se extraviou: somos guardiões dos irmãos distantes, todos nós! Somos intercessores por eles, somos responsáveis por eles, isto é, chamados a responder por eles, a tê-los a peito. Queres crescer na fé? Tu, que está aqui hoje, queres crescer na fé? Ocupa-te dum irmão distante, duma irmã distante.

Invocar, caminhar e… agradecer: esta é a última etapa. Só àquele que agradece é que Jesus diz: «A tua fé te salvou» (17, 19). Não se encontra apenas curado; também está salvo. Isto diz-nos que o ponto de chegada não é a saúde, não é o estar bem, mas o encontro com Jesus. A salvação não é beber um copo de água para estar em forma; mas é ir à fonte, que é Jesus. Só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida. Quando se encontra Jesus, brota espontaneamente o «obrigado», porque se descobre a coisa mais importante da vida: não o receber uma graça nem o resolver um problema, mas abraçar o Senhor da vida. E esta é a coisa mais importante da vida: abraçar  o Senhor da vida.

É encantador ver como aquele homem curado, que era um samaritano, manifesta a alegria com todo o seu ser: louva a Deus em voz alta, prostra-se, agradece (cf. 17, 15-16). O ponto culminante do caminho de fé é viver dando graças. Podemos perguntar-nos: Nós, que temos fé, vivemos os dias como um peso a suportar ou como um louvor a oferecer? Ficamos centrados em nós mesmos à espera de pedir a próxima graça, ou encontramos a nossa alegria em dar graças? Quando agradecemos, o Pai deixa-Se comover e derrama sobre nós o Espírito Santo. Agradecer não é questão de cortesia, de etiqueta, mas questão de fé. Um coração que agradece, permanece jovem. Dizer «obrigado, Senhor», ao acordar, durante o dia, antes de deitar, é antídoto ao envelhecimento do coração, porque o coração envelhece e se habitua mal. E o mesmo se diga em família, entre os esposos: lembrem-se de dizer obrigado. Obrigado é a palavra mais simples e benfazeja.

Invocar, caminhar, agradecer. Hoje, agradecemos ao Senhor pelos novos Santos, que caminharam na fé e agora invocamos como intercessores. Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela, na sua humildade, o esplendor da Páscoa. Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman quando diz: «O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (...) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (...) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum» (Parochial and Plain Sermons, V, 5). Peçamos para ser, assim, «luzes gentis» no meio das trevas do mundo. Jesus, «ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros» (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.

VN

O apelo do Papa pelo fim da violência na Síria e no Equador

 
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O Pontífice afirmou que ele e os padres sinodais acompanham “com preocupação” o que está a acontecer no Equador nas últimas semanas. Sobre a Síria, pediu o caminho do diálogo.
 
Cidade do Vaticano

Antes de concluir a cerimónia de canonização, o Papa Francisco rezou com os fiéis a oração mariana do Angelus e fez dois apelos: ao Médio Oriente e ao Equador.
“ O meu pensamento vai mais uma vez para o Médio Oriente. Em especial, à amada e martirizada Síria, de onde chegam novamente dramáticas notícias sobre a sorte das populações do nordeste do país, obrigadas a abandonar as próprias casas por causa de ações militares: entre estas, muitas famílias cristãs. A todos os envolvidos e à comunidade internacional, renovo o apelo para se empenharem com sinceridade, honestidade e transparência no caminho do diálogo para procurar soluções eficazes. ”
Paz social 

Quanto ao Equador, o Pontífice mencionou que acompanha “com preocupação” o que está a acontecer no país, nas últimas semanas. Não só ele, mas todos os membros do Sínodo dos Bispos para a Amazónia, de modo especial os equatorianos.

Francisco confia o Equador “à oração comum e à intercessão dos novos santos”, e une-se à dor pelos mortos, feridos e desaparecidos. “Encorajo a procurar a paz social, com especial atenção às populações mais vulneráveis, aos pobres e aos direitos humanos”. 

Novos santos 

O Pontífice fez também uma saudação aos polacos, que celebram o “Domingo do Papa”, agradecendo aos fiéis pela oração e o afeto constantes.

Francisco dirigiu um agradecimento aos cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis que pertencem às famílias espirituais dos novos santos que vieram a Roma para participar no rito. O Papa saudou as delegações oficiais e, de maneira especial, os delegados da Comunhão Anglicana, “com viva gratidão pela sua presença”.

VN

12 outubro, 2019

#SinodoAmazonico. Educação integral por uma “cidadania ecológica"

 
Sétima Congregação Geral
 
O Sínodo Especial para a Região Pan-amazónica prossegue os seus trabalhos: na manhã de sábado (12/10), na presença do Papa Francisco, realizou-se a 7° Congregação Geral. Os padres sinodais presentes na Sala eram 175.
 
Vatican News – Cidade do Vaticano

No dia em que a Igreja recorda Nossa Senhora Aparecida, a Sala do Sínodo elevou um canto em homenagem à Virgem, Padroeira do Brasil, e a Ela confiou os trabalhos da Assembleia. Seguidamente foi aberto espaço aos pronunciamentos de vários padres sinodais e de alguns auditores e auditoras. Entre os temas examinados, o da educação integral, instrumento de integração e de promoção dos povos amazónicos: por um desenvolvimento sustentável, destacou-se, ser necessário um acesso paritário à informação através da interdisciplinariedade e da transdisciplinariedade, distante da cultura do descarte e próximo à cultura do encontro. A tarefa dos educadores, portanto, deve ser renovada através da perspetiva da evangelização para que esteja à altura deste grande desafio que é a educação. Foi feita uma reflexão sobre a urgência de um pacto educativo, com perspectiva ecológica e como chave, a amazónica, de modo a promover o “bem viver”, “o bem conviver” e o “bem agir”. 

Cidadania ecológica
 
A Amazónia é uma região rica de diversidade não somente biológica, mas também cultural: hoje, as comunidades que a habitam vêem-se ameaçadas pela expansão do mundo assim dito “civilizado” que, na realidade, preocupa-se somente com a exploração dos recursos naturais para capitalizar a riqueza. Por isto, é necessária uma educação integral que restabeleça a conexão entre o homem e o meio ambiente, formando indivíduos capazes de cuidar da casa comum, em nome da solidariedade, da consciência comunitária e da “cidadania ecológica”. A ecologia integral, afirmou-se, deve tornar-se parte do modo de viver na Igreja para o mundo. O tema da Encíclica Laudato si’ deve ser levado seriamente em consideração, porque enquanto o homem aposta numa homologação forçada, Deus quer uma harmonia de diferenças. E disto a Amazónia é um modelo virtuoso, enquanto representa a unidade na diversidade do seu sistema ecológico e dos povos que a habitam. Eis então o chamamento a não homologar, excluir ou dominar os povos e a Criação, para que não prevaleçam injustiças e violências, como por exemplo o land grabbing ou as perfurações em zonas marinhas protegidas. 

O tema do trabalho e o drama do tráfico
 
Outro pronunciamento enfrentou o tema da interação entre ecologia e trabalho, dois âmbitos que têm em comum, muitas vezes, dinâmicas tecnocráticas ou de exploração. Pelo contrário, recordo-se que é necessário promover uma teologia da Criação, de modo a reconstruir uma relação não predatória com a natureza. O tema do trabalho também foi mencionado moutro pronunciamento sobre o desemprego juvenil: é a primeira e mais grave forma de exclusão e marginalização da juventude, afirmou-se, com situações alarmantes de escravidão nos campos ou na cidade; também é trágico o drama do trabalho infantil. Houve uma reflexão sobre a necessidade de promover os direitos dos trabalhadores, relançando a economia solidária, as bioeconomias locais e a energia renovável, priorizando o bem comum e não o lucro. Outro tema tocado foi o tráfico de seres humanos, em todas as suas dramáticas facetas, entre as quais prostituição, trabalho forçado e tráfico de órgãos. Trata-se de crimes de lesa humanidade, foi dito na Sala, e por isso se impõe um novo imperativo moral, junto a um esforço legislativo internacional para libertar a sociedade destes delitos. 

O papel das mulheres
 
Voltou-se a falar, depois, do papel das mulheres, muito ativas nas comunidades amazónicas e prontas a partilhar as responsabilidades pastorais com os sacerdotes. Trata-se de uma questão profunda, que não pode ser contornada superficialmente, declarou-se. Por isso, num pronunciamento foi pedido que as mulheres sejam de facto equiparadas à mesma dignidade dos homens no âmbito dos ministérios não ordenados, já que muitas Congregações religiosas femininas foram e ainda são verdadeiras heroínas da Amazónia pelo nascimento de comunidades em diversos pontos da região. Também os auditores e as auditoras falaram da experiência da vida consagrada na Amazónia e sobre o seu empenho para a promoção das vocações indígenas, respeitosas das identidades e verdadeiro enriquecimento para a espiritualidade da Igreja. Em especial, foi reiterado o empenho das consagradas nas regiões de periferia e a versatilidade da sua atuação. Portanto, requer-se um maior reconhecimento e uma maior valorização das mulheres consagradas, para que não caminhem mais “para trás”, mas “ao lado”, na ótica de uma sinodalidade eclesial distante do clericalismo. 

A questão das vocações
 
Quanto ao tema dos viri probati, na Sala refletiu-se sobre, por qual motivo faltam vocações e a incapacidade da Igreja de despertá-las. Um pronunciamento sugeriu a promoção de experiências locais de ministérios temporários para homens casados, desde que sejam reconhecidos e aprovados pelo ordinário local e pela comunidade eclesial. Outro orador sugere a instituição de uma Comissão pan-amazónica ou regional para a formação de futuros sacerdotes, de modo a ir ao encontro das dificuldades económicas das dioceses e da falta de educadores. Foi recordada a importância do diaconato permanente. 

Os migrantes não são números
 
Os padres sinodais voltaram a falar ainda das migrações: a Amazónia, de facto, está entre as regiões da América Latina com maior mobilização nacional e internacional. É central, portanto, o chamamamento a não considerar o migrante como um mero dado sociológico ou político, mas como local teológico para reiterar o empenho da Igreja a favor da justiça e do respeito dos direitos humanos, em busca de um sistema económico justo e solidário. É necessária uma Pastoral atenta a este tema, destacou-se na Sala, uma Pastoral que seja uma obra não somente social, mas também e sobretudo espiritual, capaz de levar esperança e de promover a verdadeira integração dos migrantes. 

A tarefa missionária da Igreja e o desafio ecuménico
 
Além disto, na Sala do Sínodo fez-se referência à tarefa missionária da Igreja, numa região como aquela da Amazónica, em que vivem cerca de 38 milhões de pessoas, inclusive grupos de indígenas voluntariamente isolados: também a eles, foi dito, deve ser levada a Palavra de Deus através da linguagem do amor e da oração. É necessário um testemunho coerente, belo, capaz de atrair; a Igreja deve ser “em saída”, kerygmatica, educadora da fé; que se coloque-se em diálogo, aprecie e valorize os povos, fecundando as culturas com a riqueza evangélica, porque dela não se espera somente projetos, mas uma Pessoa, isto é, Jesus Cristo. A missão da Igreja comporta também um âmbito ecuménico, destacou-se, para promover juntos a proteção do meio ambiente, a defesa dos direitos dos povos indígenas e o diálogo. 

Os auditores: a Amazónia não é uma mercadoria. Não ao colonialismo
 
No encerramento da Congregação, a Sala ouviu alguns auditores e auditoras: entre os temas apresentados, a delimitação e a proteção dos territórios indígenas, para que não sejam expropriados e depredados em nome das atividades mineiras extrativistas ou por centrais hidroelétricas. A defesa da terra equivale à defesa da vida: os governos locais devem acabar com as injustiças contra os povos nativos, muitas vezes discriminados ou não considerados como uma cultura viva, com costumes, línguas e tradições próprias. Também a comunidade internacional deve intervir concretamente para acabar com os delitos perpetrados contra os nativos da Amazónia, porque esta região não pode ser tratada como mercadoria. O cuidado da casa comum não deve ser objeto de propaganda ou de lucro, mas verdadeira proteção da Criação, distante do “colonialismo” económico, social e cultural que quer modernizar o território impondo modelos de desenvolvimento estranhos às culturas locais. Foi feita a sugestão de criar, nas Igrejas locais, um fundo de subsistência para iniciativas de etnoecologia ou de agroecologia e de segurança alimentar, partindo de lógicas amazónicas.

VN

11 outubro, 2019

Sínodo: apelo para sentir-se guardião da Criação

 
 Sínodo amazónico
 
Todo o homem é chamado a cuidar da Casa comum, a fazer um exame de consciência, a não alimentar os pecados ecológicos que devastam não só a Amazónia, mas todo o planeta. Este é o apelo sincero lançado durante o encontro com os jornalistas na Sala de Imprensa da Santa Sé.
 
Amedeo Lomonaco, Silvonei José – Cidade do Vaticano
 
"Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. As palavras da oração do Credo são a premissa de um apelo sincero que tem a intensidade de uma súplica. A pronuncia-lo foi dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo de Palmas, Brasil, respondendo às perguntas dos jornalistas na Sala de Imprensa da Santa Sé. Para o prelado brasileiro é urgente mudar e remodelar os estilos de vida: "Estamos cometendo pecados contra o Criador, contra a natureza e nunca fazemos um exame de consciência". "O conceito de pecados ecológicos para muitos é algo novo, também para a Igreja: devemos começar a confessá-los". "Se começássemos a pensar num estilo de vida mais simples, mais coerente e a viver do essencial, mudaríamos a configuração do mundo”. A questão ecológica, acrescentou, não diz respeito apenas aos ambientalistas e às ONG, mas envolve todos: cada homem deve sentir-se responsável pelo futuro do planeta. Os homens, observou o arcebispo de Palmas, não são os donos da natureza. Pelo contrário, são chamados a serem "os guardiães da Criação" e a defender este dom de Deus, "há necessidade de formação ecológica": é preciso aprender a respeitar a Casa comum. 

Terra de mártires e de escravidão

A exortação para cuidar da Casa comum está entrelaçada com o retrato de um mundo cada vez mais desfigurado por interesses económicos. Referindo-se ao território da sua diocese, dom Pedro Brito Guimarães apontou alguns fenómenos preocupantes, incluindo a expansão vertiginosa do cultivo da soja e o consequente processo de desmatamento. Outra ameaça está ligada à expansão descontrolada da agricultura industrial que, mesmo numa região rica em rios, corrói um recurso fundamental como a água. Os danos causados pelos pecados ecológicos nesta terra e em outras regiões da Amazónia são cicatrizes e feridas indeléveis.

Dom Joaquín Pertíñez Fernández, bispo de Rio Branco, recordou páginas dramáticas da história da região amazónica. Neste território, explicou ele, muito sangue foi derramado. É a terra dos mártires missionários, mas é também o lugar onde muitos trabalhadores se tornaram escravos e encontraram a morte. Diz-se, afirmou o bispo de Rio Branco, que debaixo de cada seringueira há um morto. Esta árvore, da qual se obtém uma borracha natural, fazendo incisões na casca dos arbustos, está ligada a profundos sofrimentos. "Há feridas - sublinhou dom Joaquín Pertíñez Fernández - que gostaríamos de apagar. Gostaríamos de escrever uma história diferente”. 

As duas dimensões do Sínodo

Referindo-se aos trabalhos sinodais, o cardeal Carlos Aguiar Retes, arcebispo da Cidade do México, destacou que o Sínodo tem duas dimensões. A primeira diz respeito à Amazónia e o seu imenso património natural e cultural. A segunda é global e refere-se a todo o planeta. Estes são dois níveis que se intersetam e que não podem ser separados. A Amazónia - disse o purpurado - deve consciencializar-nos de que estamos a colocar em risco o equilíbrio da Casa comum. Por esta razão, disse ele, é essencial mudar os estilos de vida das nossas sociedades e opormo-nos - como disse muitas vezes o Papa Francisco - à cultura do descarte. 

A Amazónia e o "trânsito religioso

O bispo de Rio Branco, dom Joaquín Pertíñez Fernández, também abordou o fenómeno que ele chamou de "trânsito religioso". Há muitas pessoas, disse ele, "que passam de uma Igreja a outra". "Devido à falta de sacerdotes, não temos condições de estar presentes em todos os lugares. São espaços vazios que nós, como católicos, somos incapazes de ocupar e outros vêm ocupá-los". "Por falta de cultura, o povo acredita em falsas promessas - talvez no âmbito da saúde - e acaba aderindo; então é difícil distanciar-se. Saltam de uma Igreja para outra à procura de uma solução mais prática do que espiritual".

Povos isolados

Respondendo a uma pergunta sobre os povos da Amazónia que vivem em condições de isolamento, o arcebispo de Palmas, dom Pedro Brito Guimarães, disse que "muitas vezes são obrigados a isolarem-se", a entrarem na floresta porque "fogem de alguém que ocupa o seu território". É uma "forma de autodefesa". "Às vezes é impossível chegar até eles, e quando o fazemos, temos de estar preparados”. São povos "muito frágeis" que se sentem ameaçados. 

A contribuição das mulheres ao Sínodo

Durante o encontro com os jornalistas foi também recordada a contribuição das mulheres no Sínodo. A Irmã Birgit Weiler, da Congregação das Irmãs Missionárias Médicas, colaboradora da Pastoral para o cuidado da criação da Comissão de Ação Social da Conferência Episcopal Peruana, disse que no seu Círculo Menor (grupo de trabalho), como em outros, "há uma atmosfera muito aberta: nós mulheres sentimo-nos acolhidas, há uma grande liberdade de expressão". Muitos bispos partilham as nossas preocupações e o que nos faz mal, e querem que as coisas mudem.  "Precisamos de mais mulheres em posições de liderança" e é importante, acrescentou, que as mulheres sejam "incluídas em decisões importantes".

No Peru, lembrou a religiosa, "as mulheres teológicas estão a trabalhar em conjunto com as mulheres indígenas para o desenvolvimento da teologia indígena. Quando questionada pelos jornalistas sobre a falta de direito de voto para as mulheres presentes no Sínodo, a irmã Birgit expressou uma esperança: "Nós esperamos, desejamos que se chegue ao ponto em que as nossas superioras possam votar, assim como podem fazer os superiores homens. Sou muito grata ao Papa Francisco - disse a religiosa -, por todos os passos que levaram à presença de 35 mulheres neste Sínodo. É já um grande passo avante”.

VN

10 outubro, 2019

Jovens e Evangelho, anúncio e mangas arregaçadas



Crescer na fé. Sim, mas como? É o que pergunta o Papa no sétimo capítulo da “Christus vivit”, em que diz: os jovens amadurecem se for usada com eles "a linguagem da proximidade" e oferecem-se "locais apropriados" para fazer experiência. Tamandani Kamuyanja, jovem de 25 anos do Malauí, confirma. A entrada num Movimento eclesial, garante ela, ensinou-lhe a amar o Evangelho.
209. Queria apenas assinalar, brevemente, que a pastoral juvenil supõe duas grandes linhas de ação. Uma é a busca, a convocação, o chamamento que atraia novos jovens para a experiência do Senhor. A outra é o crescimento, o desenvolvimento dum percurso de maturação para quantos já fizeram esta experiência.

210. Relativamente à primeira, a busca, confio na capacidade dos próprios jovens, que sabem encontrar os caminhos atraentes para convidar. Sabem organizar festivais, competições desportivas, e sabem também evangelizar nas redes sociais com mensagens, canções, vídeos e outras intervenções. Devemos apenas estimular os jovens e dar-lhes liberdade de ação, para que se entusiasmem com a missão nos ambientes juvenis. O primeiro anúncio pode despertar uma profunda experiência de fé no meio dum retiro de conversão, numa conversa no bar, num recreio da Faculdade, ou qualquer outro dos insondáveis caminhos de Deus. O mais importante, porém, é que cada jovem ouse semear o primeiro anúncio na terra fértil que é o coração doutro jovem.

211. Nesta busca, deve-se privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a vida, desperta esperança e anseios. É necessário aproximarem-se dos jovens com a gramática do amor, não com o proselitismo. A linguagem que os jovens entendem é a de quantos dão a vida, a daqueles que estão ali por eles e para eles, e a de quem, apesar das suas limitações e fraquezas, esforçam-se por viver coerentemente com a sua fé. Ao mesmo tempo, devemos procurar, ainda com maior sensibilidade, como encarnar o querigma na linguagem dos jovens de hoje.

212. Quanto ao crescimento, quero fazer uma advertência importante. Acontece em alguns lugares que, depois de ter provocado nos jovens uma experiência intensa de Deus, um encontro com Jesus que tocou no seu coração, propõe-lhes encontros de «formação» onde se abordam apenas questões doutrinais e morais: sobre os males do mundo atual, sobre a Igreja, a doutrina social, sobre a castidade, o matrimónio, o controle da natalidade e sobre outros temas. Resultado: muitos jovens aborrecem-se, perdem o fogo do encontro com Cristo e a alegria de O seguir, muitos abandonam o caminho e outros ficam tristes e negativos. Acalmemos a ânsia de transmitir uma grande quantidade de conteúdos doutrinais e procuremos, antes de mais nada, suscitar e enraizar as grandes experiências que sustentam a vida cristã. Como dizia Romano Guardini, «na experiência dum grande amor (…), tudo o que acontece transforma-se num episódio interno àquela».[112]

213. Qualquer projeto formativo, qualquer percurso de crescimento para os jovens deve, certamente, incluir uma formação doutrinal e moral. De igual modo é importante que aqueles estejam centrados em dois eixos principais: um é o aprofundamento do querigma, a experiência fundante do encontro com Deus através de Cristo morto e ressuscitado; o outro é o crescimento no amor fraterno, na vida comunitária, no serviço.

214. Sobre isto, insisti muito na Exortação Evangelii gaudium e acho que seria oportuno lembrá-lo. Por um lado, seria um erro grave pensar que, na pastoral juvenil, «o querigma é deixado de lado a favor duma formação supostamente mais “sólida”. Nada há algo mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que este anúncio. Toda a formação cristã é, em primeiro lugar, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne».[113] Por isto, a pastoral juvenil deveria incluir sempre momentos que ajudem a renovar e aprofundar a experiência pessoal do amor de Deus e de Jesus Cristo vivo. Fá-lo-á valendo-se de vários recursos: testemunhos, cânticos, momentos de adoração, espaços de reflexão espiritual com a Sagrada Escritura e, inclusivamente, com vários estímulos através das redes sociais. Mas nunca se deverá substituir esta experiência feliz de encontro com o Senhor por uma espécie de «doutrinação».

215. Além disto, qualquer plano de pastoral juvenil deve conter claramente meios e recursos variados para ajudarem os jovens a crescer na fraternidade, viver como irmãos, auxiliarrm-se mutuamente, criar comunidade, servir os outros, aproximarrm-se dos pobres. Se o amor fraterno é o «novo mandamento» (Jo 13, 34), «o pleno cumprimento da lei» (Rm 13, 10) e o que melhor demonstra o nosso amor a Deus, então deve ocupar um lugar relevante em todo o plano de formação e crescimento dos jovens.

Ambientes adequados

216. Em todas as nossas instituições, devemos desenvolver e reforçar muito mais a nossa capacidade de receção cordial, porque muitos dos jovens que chegam encontram-se numa situação profunda de orfandade. E não me refiro a certos conflitos familiares, mas a uma experiência que atinge igualmente crianças, jovens e adultos, mães, pais e filhos. Para muitos órfãos e órfãs, nossos contemporâneos – talvez para nós mesmos –, comunidades como a paróquia e a escola deveriam oferecer percursos de amor gratuito e promoção, de afirmação e crescimento. Hoje, muitos jovens sentem-se filhos do fracasso, porque os sonhos dos seus pais e avós acabaram queimados na fogueira da injustiça, da violência social, do «salve-se quem puder». Quanto desenraizamento! Se os jovens cresceram num mundo de cinzas, não é fácil para eles sustentar o fogo de grandes ilusões e projetos. Se cresceram num deserto vazio de sentido, como poderão ter vontade de se sacrificar para semear? A experiência de descontinuidade, desenraizamento e queda das certezas basilares, favorecida pela cultura mediática atual, provoca esta sensação de profunda orfandade à qual devemos responder, criando espaços fraternos e atraentes onde haja um sentido para viver.

217. Criar «lar» é, em última análise, «criar família; é aprender a sentir-se unido aos outros, sem olhar a vínculos utilitaristas ou funcionais, unidos de modo a sentir a vida um pouco mais humana. Criar lares, “casas de comunhão”, é permitir que a profecia encarne e torne as nossas horas e dias menos rudes, menos indiferentes e anónimos. É criar laços que se constroem com gestos simples, diários e que todos podemos realizar. Como todos sabemos muito bem, um lar precisa da colaboração de todos. Ninguém pode ficar indiferente ou alheio, porque cada qual é uma pedra necessária na sua construção. Isto implica pedir ao Senhor que nos conceda a graça de aprender a ter paciência, aprender a perdoar-nos; aprender em cada dia a recomeçar. E quantas vezes temos de perdoar e recomeçar? Setenta vezes sete, todas as vezes que for necessário. Criar laços fortes requer a confiança, que se alimenta diariamente de paciência e perdão. Deste modo concretiza-se o milagre de experimentar que, aqui, se nasce de novo; aqui todos nascemos de novo, porque sentimos a eficácia da carícia de Deus que nos permite sonhar o mundo mais humano e, consequentemente, mais divino».[114]

218. Neste contexto, é preciso oferecer lugares apropriados aos jovens, nas nossas instituições: lugares que eles possam gerir a seu gosto, com a possibilidade de entrar e sair livremente, lugares que os acolham e onde lhes seja possível encontrarem-se, espontânea e confiadamente, com outros jovens tanto nos momentos de sofrimento ou de aborecimento como quando desejam festejar as suas alegrias. Algo do género foi realizado por alguns oratórios e outros centros juvenis, que em muitos casos são o ambiente onde os jovens vivem experiências de amizade e enamoramento, onde se encontram e podem partilhar música, atividades recreativas, desporto e também a reflexão e a oração com pequenos subsídios e várias propostas. Assim abre caminho àquele indispensável anúncio de pessoa a pessoa, que não pode ser substituído por nenhum recurso ou estratégia pastoral.

219. «A amizade e o intercâmbio, frequentemente mesmo em grupos mais ou menos estruturados, possibilita reforçar competências sociais e relacionais num contexto onde não se sentem avaliados nem julgados. A experiência de grupo constitui também um grande recurso para a partilha da fé e a ajuda mútua no testemunho. Os jovens são capazes de guiar outros jovens, vivendo um verdadeiro apostolado no meio dos seus próprios amigos».[115]

220. Isto não significa que se isolem e percam todo o contacto com as comunidades paroquiais, os movimentos e outras instituições eclesiais. Mas os jovens inserir-se-ão melhor em comunidades abertas, vivas na fé, desejosas de irradiar Jesus Cristo, alegres, livres, fraternas e comprometidas. Tais comunidades podem ser os canais que os levam a sentir que é possível cultivar relações preciosas.

VN