29 março, 2017

A esperança contra todas as outras formas de esperança



Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco recebeu, na manhã desta quarta-feira, dia 29 de Março de 2017, às 9,00 horas de Roma, na pequena sala da Aula Paulo VI, no Vaticano, os participantes à reunião da Comissão permanente para o Diálogo entre o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso e as Super-intendências iraquianas: xiita, sunita, e aquela para os cristãos: Yazidi, Sabei/Mandei.

Às 10 horas de Roma, Francisco presidiu a habitual Audiência Geral na Praça de S. Pedro, hoje , mais uma vez repleta de fiéis e peregrinos vindos das diversas partes da Itália e do mundo inteiro para assistir a catequese do Santo Padre. Tema da catequese deste ano é a esperança cristã. Hoje Francisco, apoiando-se na carta aos Romanos do Apostolo Paulo (Rm 4,16-25), falou de modo particular da “esperança contra todas as formas de esperança”.

O passo da Carta de S. Paulo aos Romanos que acabamos apenas de escutar, faz-nos um grande dom. De facto, somos habituados a reconhecer em Abraão o nosso pai na fé; hoje o Apóstolo nos faz compreender que Abraão é para nós também Pai na esperança e isto porque na sua história, nós podemos colher um anúncio da Ressurreição, da vida nova que vence o mal e a morte.

No texto, prossegue o Papa, se diz que Abraão acreditou no Deus que “dá a vida aos mortos e chama à existência as coisas que não existem, como se existissem”; Ele “ sem vacilar na fé não tomou em consideração o seu próprio corpo, já sem vigor por ser quase centenário, nem o seio de Sara, já sem vida”.

Esta é a esperança que também nós somos chamados a viver. O Deus que se revela à Abraão é o Deus que salva, o Deus que faz sair do desespero e da morte, o Deus que chama à vida. Na história de Abraão tudo se torna um hino ao Deus que liberta e regenera, tudo se torna profecia. E se torna profecia para nós que reconhecemos e celebramos o cumprimento de tudo isso no mistério da Páscoa. Deus, de facto, “ressuscitou Jesus dos mortos” para que também nós possamos passar por intermédio d’Ele da morte à vida. E então, realmente, Abraão pode muito bem ser chamado “pai de muitos povos” enquanto resplandece como anúncio de uma humanidade nova, resgatada por Cristo do pecado e da morte e introduzida uma vez por todas no abraço do amor de Deus.  

Abraão é portanto, para nós hoje, observa o Santo Padre,  não só o nosso pai na fé, mas é também, o nosso pai na esperança. Pois «foi com uma esperança, para além do que se podia esperar, que Abraão acreditou».

Estas palavras do apóstolo Paulo, acrescenta o Pontífice, mostram-nos a ligação íntima que existe entre a fé e a esperança. Esta não se apoia em raciocínios, previsões e certezas humanas, conseguindo ir mais além do que humanamente se pode esperar. É o caso de Abraão que acreditou na promessa divina de que haveria de ser pai de muitos povos, quando já nada o fazia esperar: a morte já o espreitava e a sua esposa, Sara, era estéril.

De facto, sublina ainda Francisco, a esperança teologal é capaz de subsistir no meio da derrocada de todas as esperanças humanas, porque não se funda numa palavra nossa, mas na Palavra de Deus. É uma esperança apoiada sobre uma promessa que, do ponto de vista humano, parece insegura e fora de todas as previsões; e contudo vemo-la resistir à própria morte, se quem promete é o Deus da Ressurreição e da Vida.

Eis então que somos chamados, a seguir o exemplo de Abraão: não obstante a sua vida já votada à morte, ele fiou-se de Deus, «plenamente convencido que Ele tinha poder para realizar o que tinha prometido». Peçamos a graça de viver apoiados, não tanto nas nossas seguranças e capacidades, mas sobretudo na esperança que brota da promessa de Deus, como verdadeiros filhos de Abraão. Só então a nossa vida assumirá uma luz nova, com a certeza de que Aquele que ressuscitou o seu Filho nos há de ressuscitar também a nós, para nos tornarmos verdadeiramente um só com Ele e com todos os nossos irmãos e irmãs na fé.

Finalmente, não faltou uma saudação especial do Papa aos peregrinos de língua oficial portuguesa presentes na Praça de S. Pedro: “Com particular afeto, disse o Santo Padre, saúdo o grupo de «Amigos dos Museus de Portugal» e também os professores e os alunos do «Colégio Cedros», desejando a todos os peregrinos presentes de língua portuguesa e as respetivas famílias, uma renovada vitalidade espiritual na fiel e generosa adesão a Cristo e à Igreja. Olhai o futuro com esperança e não vos canseis de trabalhar na vinha do Senhor. Vele sobre o vosso caminho a Virgem Maria.

28 março, 2017

Mensagem do Papa ao X Fórum sobre o Futuro da Agricultura




(RV) E enquanto em Nova Iorque se fala de armas nucleares, em Bruxelas decorre o X Fórum sobre o Futuro da Agricultura no mundo. Ocasião para o Santo Padre transmitir também uma mensagem através do Cardeal Secretario Pietro Parolin que nele participa. Francisco convida a um empenho não só no sentido de melhorar o sistema de produção e de comercialização, mas também e sobretudo que se ponha a tónica no direito de cada ser humano a ter acesso a uma alimentação sã e suficiente e a ser nutrido conforme as próprias necessidades. É cada vez mais evidente a necessidade de pôr a pessoa humana no centro de qualquer acção, quer se trate de trabalhadores agrícolas, operadores económicos ou consumidores. Esta abordagem – lê-se na mensagem apresentada pelo Cardeal Parolin – se for partilhada como impulso ideal e não como dado técnico, permite ter presente a estreita relação entre agricultura, cuidado e custódia da Criação, o crescimento económico, os níveis de desenvolvimento e as necessidades actuais e futuras da população mundial.

As expectativas ligadas aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável definidas pela comunidade internacional [e que deverão ser atingidas até ao 2030], requerem que se enfrente a situação de certos países e zonas do mundo onde a actividade agrícola é carente porque não suficientemente diversificada e, por conseguinte, inadequada a responder ao contexto ambiental e às mutações climáticas. Trata-se de um mecanismo complexo que atinge sobretudo os mais vulneráveis excluídos não só dos processos de produção como também obrigados a abandonar as próprias terras e procurar refúgio e esperança de vida noutros lugares.

O futuro da agricultura – lê-se na mensagem – não pode ser pensado impondo modelos de produção que beneficiem apenas uma parte da população mundial, em prejuízo da outra parte. Qualquer esforço deve ser orientado, antes de mais, a fazer com que cada país possa crescer os próprios recursos para chegar à auto-suficiência alimentar. Há que pensar em novos modelos de consumo, formas de organização comunitária que valorize os pequenos produtores e preservem os ecossistemas locais e a bio-diversidade. Há que adoptar políticas de cooperação que não agravem a situação das populações menos avançadas ou a sua dependência externa.

O fosso entre a amplidão dos problemas e os resultados positivos até agora obtidos não deve desencorajar, nem criar desconfianças, mas sim responsabilizar – escreve o Papa na sua mensagem, esperançoso de que nesse Fórum cada um possa encontrar o encorajamento necessário para intensificar a obra empreendida, tornando-a cada vez mais criativa e estruturada. “É muito o que se fazer” – remata o Papa na mensagem.

Eliminação armas nucleares: um imperativo moral e humanitário




(RV) O Papa Francisco dirigiu nesta terça-feira uma mensagem à Conferência da ONU sobre a proibição das armas nucleares que iniciou ontem em Nova Iorque e termina no próximo dia 31. O objectivo principal é negociar um instrumento jurídico vinculante sobre a proibição dessas armas e leve à sua eliminação total. A reunião destes dias é a primeira parte deste processo. A delegação da Santa Sé a este encontro é chefiada pelo Subsecretário para as Relações com os Estados, D. António Camilleri. Será ele quem  apresentará a mensagem do Papa. Nela Francisco recorda, como fizera na sua visita à ONU em Setembro de 2015, que a Paz, a solução pacífica das controvérsias e o desenvolvimento das relações amigáveis entre as nações sublinhadas no preâmbulo da Carta da ONU são incompatíveis com uma ética e um direito baseados na destruição recíproca. Por isso, há que empenhar-se, todos, a favor de um mundo sem armas nucleares, e aplicar plenamente o Tratado de não proliferação.

A situação de conflito que se vive hoje no mundo – terrorismo, guerras assimétricas, segurança informática, problemáticas ambientais, pobreza… levam a perguntar-se se as armas nucleares podem ser realmente um freio, uma resposta eficaz a esses desafios. Isto sobretudo tendo em conta as catastróficas consequências humanas e ambientais a que o uso de tais armas levaria. E nem se fale nos recursos que tais armas requerem, recursos que poderiam ser empregues na promoção da paz e do desenvolvimento humano integral, na luta contra a pobreza e actuação da agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável – sublinha o Papa.

Além disso – continua – há que perguntar-se se é sustentável um equilíbrio baseado no medo, medo que tende a minar as relações de confiança entre os povos.

A paz e a estabilidade internacionais  não podem ser fundadas num falso sentido de segurança, na ameaça da destruição reciproca, na simples manutenção de um equilíbrio de poder. A paz – afirma o Papa na sua mensagem – deve ser construída sobre a justiça, o desenvolvimento humano integral, no respeito dos direitos fundamentais, na protecção do ambiente, na participação de todos na vida pública, na confiança entre os povos, na promoção de instituições pacíficas, no acesso à educação e à saúde, no diálogo e na sociedade. Nesta perspectiva, precisamos de ir para além do freio nuclear: a comunidade internacional é chamada a adoptar estratégias visionárias para promover o objectivo da paz e a estabilidade e evitar abordagens míopes aos problemas de segurança nacional e internacional.

Neste contexto- frisa ainda o Papa – o objectivo final da eliminação total das armas nucleares torna-se um imperativo moral e humanitário. É um processo que requer diálogo, construção e consolidação de mecanismos de confiança e cooperação.

Francisco chama ainda atenção para a crescente interdependência e globalização, o que significa que tudo é interligado e que qualquer resposta à ameaça nuclear tem de ser colectiva e consertada, baseada na confiança reciproca, orientada para o bem comum. Há que evitar recriminações recíprocas e de polarização que dificultam o diálogo em vez de o encorajar.

O Papa conclui a sua densa mensagem fazendo notar que esta reunião que pretende negociar um Tratado inspirado em argumentações éticas e morais é um exercício de esperança. E  augura que possa constituir um passo decisivo na caminhada em direcção a um mundo sem armas nucleares

27 março, 2017

ABENÇOADA TENTAÇÃO!

 
 
 
 
Às vezes, vem-me assim um abatimento, uma tristeza, não entendo de onde e porquê, como que a dizer-me que estou só, espiritualmente falando, como se Deus se tivesse apartado de mim e me deixasse entregue a mim próprio e às minhas fraquezas e defeitos.

E se me distraio e não luto, há uma secura, um vazio, que me quer iludir, colocando-me dúvidas, que insidiosamente entra na minha mente e me faz perguntar a mim próprio se tudo isto faz sentido, se Deus existe, se toda esta entrega me leva realmente a algum lado.

E hoje, como tantas vezes, o dia começou assim.

Mas estamos na Quaresma e à minha mente, à minha imaginação veio a imagem de Jesus Cristo no deserto, só, em jejum, e a ser tentado pelo demónio.

Qualquer comparação, entre as duas situações, seria absolutamente absurda, mas abriu-me a mente para a realidade de que, afinal estes momentos de abatimento, de tristeza, são também uma tentação do inimigo, a querer afastar-me da certeza de Deus, da alegria de Deus, da companhia, (mesmo que aparentemente ausente), de Deus.

E quero perceber porque é que Deus permite tais momentos, permite tais tentações, como um modo de me fortalecer na fé, tornando mais consciente em mim a necessidade espiritual e de vida, de cada vez mais estar unido a Ele em oração e vigília permanente, não só por mim, mas para dar testemunho de que Ele está realmente no meio de nós e em nós.

E então, a secura pode ainda permanecer, a sensação de estar só pode ainda continuar, mas no fundo do coração brilha a luz da certeza do que Ele me diz, do que Ele nos diz, se O quisermos escutar:
Eu estou aqui e nunca daqui sairei, a não ser que conscientemente me queiras rejeitar.

Abençoada tentação, que acaba por produzir tais frutos da graça de Deus!


Monte Real, 27 de Março de 2017
Joaquim Mexia Alves

26 março, 2017

Papa no Angelus: também nós fomos iluminados: caminhar na luz

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(RV) 26 de março de 2017, IV Domingo da Quaresma. Antes da oração mariana do Angelus, o Papa Francisco, dirigindo-se aos milhares de fiéis e peregrinos presentes na Praça de São Pedro, comentou o Evangelho no centro do qual, disse, está Jesus e o cego de nascença. Cristo restitui-lhe a vista, explicou o Papa, primeiro misturando a terra com saliva, ungindo depois com ela os olhos do cego e dizendo-lhe em seguida para se  ir lavar na piscina de Siloé. O homem vai, se lava, e recupera a vista.

“Com este milagre Jesus se revela como luz do mundo; e o cego de nascença representa cada um de nós, que fomos criados para conhecer a Deus, mas por causa do pecado somos como cegos, precisamos de uma luz nova, a da fé, que Jesus nos deu. De facto, aquele cego do Evangelho recuperando a vista se abre ao mistério de Cristo: se prostra perante Jesus, o ‘Filho do Homem’ e confessa: ‘Eu creio, Senhor!

Este episódio leva-nos a reflectir sobre a nossa fé em Cristo, Filho de Deus e também se refere ao baptismo, primeiro sacramento da fé e que nos faz "vir à luz", mediante o renascimento pela água e o Espírito Santo – explicou Francisco:

“O cego de nascença curado nos representa quando nós não nos apercebemos que Jesus é "a luz do mundo", quando olhamos para outro lado, quando  preferimos confiar em pequenas luzes, quando ziguezagueamos no escuro. O facto de que aquele cego não tem nome nos ajuda a espelhar-nos com o nosso rosto e o nosso nome na sua história”.

Na verdade, também nós fomos "iluminados" por Cristo no Baptismo – prosseguiu o Papa - e, portanto, somos chamados a comportar-nos como filhos da luz, o que exige uma mudança radical de mentalidade, uma capacidade de julgar homens e coisas segundo uma outra escala de valores, que vem de Deus, porque o Baptismo exige uma escolha firme e decidida de viver como filhos da luz, e caminhar  na luz.

E o que significa caminhar na luz? – se perguntou Francisco:

“Significa antes de tudo abandonar as luzes falsas: a luz fria e fátua do preconceito contra os outros, porque o preconceito distorce a realidade e nos enche de aversão contra aqueles que julgamos sem misericórdia e condenamos sem apelo. Uma outra luz falsa, porque sedutora é ambígua, é a do interesse pessoal: se avaliamos as pessoas e coisas com base nos critérios de nossa utilidade, do nosso prazer, do nosso prestígio, não fazemos a verdade nas relações e nas situações”.

Que Virgem Santa – concluiu o Papa - nos obtenha a graça de acolher novamente nesta Quaresma a luz da fé, redescobrindo o dom inestimável do Baptismo, e esta nova iluminação nos transforme nas atitudes e acções, para sermos também nós, a portadores de um raio da luz de Cristo.

Depois do Angelus, Francisco falou dos novos beatos da Espanha:

“Ontem em Almería (Espanha) foram beatificados José Álvarez-Benavides y de la Torre, e 114 companheiros mártires. Estes sacerdotes, religiosos e leigos foram testemunhas heróicas de Cristo e do seu Evangelho de paz e reconciliação fraterna. O seu exemplo e a sua intercessão sustentem o empenho da Igreja na construção da civilização do amor”.

E a propósito da sua visita pastoral, ontem, à diocese de Milão, Francisco acrescentou as seguintes palavras:

“E a propósito de Milão, quero agradecer o Cardeal Arcebispo e todo o povo de Milão pelo caloroso acolhimento de ontem. Verdadeiramente senti-me em casa. E isto por parte de todos: crentes e não-crentes. Muito obrigado queridos milaneses. Constatei que é verdade aquilo que se diz: ‘Em Milão se recebem as pessoas com o coração na mão!’”

A todos o Papa desejou um bom domingo pedindo, por favor, para que não nos esqueçamos de rezar por ele.

[Buon pranzo e arrivederci] “Bom almoço e até logo”. (BS)

Encontro com crismandos conclui visita do Papa a Milão




(RV) Uma multidão de 80 mil jovens acolheu o Papa no Estádio de São Siro, em Milão, aos gritos de “Francisco, Francisco”, naquele que foi o seu último compromisso em terras ambrosianas antes de regressar a Roma. Uma verdadeira festa da fé, com muita música, cores e danças.

No encontro com os crismandos, o Santo Padre respondeu a algumas perguntas feitas por um jovem crismando, por um casal e por uma catequista.

Um jovem

O primeiro a interpelar Francisco foi um jovem: “Quando tinhas a nossa idade, o que te ajudou a fazer crescer a amizade com Jesus?”

“São três coisas, com um fio unindo as três”. Os avós podem ajudar  a crescer na amizade com Jesus, esta é a minha experiência, disse Bergoglio.  “A nona me ensinou a rezar, também minha mãe”. “Os avós tem a sabedoria da vida”, reiterou o Papa, e com esta sabedoria “nos ensinam como caminhar próximos a Jesus. A mim o fizeram”. “Falem com vossos avós. Perguntem a eles, escutem-nos, falem com eles”.

Depois, “brincar com os amigos também me ajudou muito” – acrescentou o Papa - pois é bom “sentir alegria nas brincadeiras com os amigos, sem insultos”, e pensar, “assim brincava Jesus”. “Nos faz bem brincar com os amigos, porque quando o jogo é limpo, se aprende a respeitar os outros, se aprende a fazer uma equipe, a trabalhar juntos. E isto nos une a Jesus”. E se houver brigas, “depois pedir perdão”.

Por fim, uma terceira coisa que o ajudou muito a crescer na amizade com Jesus: ir à paróquia, reunir-se com os outros. É algo importante. Estas três coisas...um conselho que dou a vocês. Vos farão crescer na amizade com Jesus. “Com estas três coisas tu rezarás mais. E a oração é aquele fio que une as três coisas”.

Um pai

Um pai, ao lado de sua esposa, foi o segundo a dirigir-se ao Pontífice: “Como transmitir aos nossos filhos a beleza da fé? Às vezes parece realmente difícil poder falar deste tema sem ser chatos e banais e partilhar com eles a fé? Que palavras usar?

Em resposta, o Papa convidou os pais a recordarem-se das pessoas “que deixaram uma marca” na fé deles e “o que deles ficou marcado”, pedindo que por alguns minutos “voltassem a ser filhos para recordar as pessoas” que os ajudaram a acreditar. “Todos trazemos na memória, mas especialmente no coração, alguém que nos ajudou a crer”, observou.

O Papa explica que as crianças, os filhos, observam o comportamento dos adultos, “captando tudo”, “tirando as suas conclusões e os seus ensinamentos”. Neste sentido, aconselha os pais “a terem cuidado deles, a ter cuidado de seus corações, de sua alegria e de sua esperança”.

Quando se coloca um filho no mundo se deve ter a consciência de que temos a responsabilidade de fazê-lo crescer na fé. E acrescentou, que quando os pais brigam, as crianças sofrem e não crescem na fé.

“Os “olhos” de vossos filhos pouco a pouco memorizam e lêem com o coração como a fé é uma das melhores heranças que vocês receberam de vossos pais, de vossos antepassados. Mostrar a eles como a fé nos ajuda a seguir em frente, a enfrentar os tantos dramas que temos, não com uma atitude pessimista, mas confiante, este é o melhor testemunho que podemos dar a eles”.

Existe um dito: “As palavras são levadas pelo vento”, mas aquilo que se semeia na memória, no coração, permanece para sempre.

O Papa observa que em muitos lugares, muitas famílias têm a bonita tradição de irem juntas à Missa e depois a um parque. Assim, que a fé se torna uma exigência da família com outras famílias. Neste sentido. Francisco também exorta os pais a brincarem com seus filhos, a “perderem tempo” com eles.

Também educar à solidariedade, às obras de misericórdia. Neste ponto o Papa coloca um acento na “festa, na gratuidade, no buscar outras famílias e viver a fé como um espaço de prazer familiar”. A isto deve ser acrescentado outro elemento:  “não existe festa sem solidariedade”. Não dar o supérfluo, “mas dividir com os outros aquilo que temos”.

Uma catequista

Por fim, uma catequista pede ao Papa um conselho sobre como abrir à escuta e ao diálogo com todos os educadores que trabalham com os jovens:

A educação deve ser harmônica, responde o Papa. Educar com o conteúdo, as atitudes na vida e os valores. Mas nunca educar somente, por exemplo, com noções, ideias. Também o coração se deve fazer crescer na educação, o fazer, o modo de caminhar na vida.

Uma educação baseada no pensar-fazer-sentir (cabeça-mãos-coração). O conhecimento é multiforme, nunca é uniforme. Não separar. Não educar somente o intelecto – dar noção intelectual é importante, mas isto, sem o coração e as mãos, não serve.

Os jovens/alunos tem interesses e facilidades diferentes.  Para isto – diz o Papa – o professor deve estimular as boas qualidades de seus alunos.

O Papa, por fim, chama a atenção para o bullying. “Estejam atentos!”.

Agora pergunto a vocês, crismandos...escutem em silêncio: na vossa escola, em vosso bairro, há alguém que você insulta, engana, porque ele/ela tem algum defeito, porque é gordo, magro, isto ou aquilo?...pensem! Vocês gostam de fazê-los passar vergonha e de bater neles por isto? Pensem! Isto se chama bullying. Por favor...ainda não acabei...Por favor! Para o Sacramento da santa Crisma, façam a promessa ao Senhor de nunca fazer isto e nunca permitir que se faça isto em vosso colégio, escola, bairro, entendido? E me prometam nunca enganar, insultar o companheiro de colégio, de bairro. Prometem isto hoje? (Siiim, respondem!). O Papa não está contente com a resposta. Prometem isto? (Siiim, respondem!). Este sim disseram ao Papa. Agora em silêncio, pensem que coisa ruim é isto e pensem se vocês são capazes de prometer isto a Jesus. Prometem a Jesus nunca fazer este bullying? ...siiim!.  Obrigado! E que o Senhor vos abençoe.

Com a oração do Pai Nosso e a bênção final, o Santo Padre deixou o Estádio de São Siro pouco depois das 19 horas (hora local), para dirigir-se ao aeroporto e retornar a Roma. (BS/JE)

25 março, 2017

Papa Francisco: a alegria da salvação nasce na vida quotidiana

 
(RV) No âmbito da sua visita pastoral à Diocese de Milão, o Papa Francisco presidiu neste sábado (25 de março, Solenidade da Anunciação do Senhor) à Santa Missa no Parque de Monza, com presença de milhares de fiéis. Na homilia, comentando o Evangelho do dia, Francisco referiu-se antes de tudo às duas anunciações de que fala S. Lucas: a anunciação de João Baptista, quando Zacarias estava em plena liturgia no Santuário do Templo, e a anunciação de Jesus, num lugar apartado, a Galileia, cidade periférica e no anonimato da casa de Maria.

O contraste entre as duas anunciações – explicou Francisco – diz-nos que o novo templo de Deus, o novo encontro de Deus com o seu povo acontece em lugares inesperados, nas margens, na periferia, e que é na periferia onde Deus se encontrará com o seu povo, Deus se fará carne para caminhar connosco desde o seio de Maria sua mãe.

E é o próprio Deus – prosseguiu Francisco – que toma a iniciativa e escolhe de inserir-se, como fez com Maria, nas nossas casas, nas nossas lutas quotidianas, cheias de ânsias e também de desejos; e é dentro das nossas cidades, das nossas escolas e universidades, das praças e dos hospitais que acontece o anúncio mais belo que possamos escutar: “Alegra-te, o Senhor está contigo!”, uma alegria que se torna solidariedade, hospitalidade e misericórdia para com todos.

Mas como Maria – observou ainda Francisco - podemos também nós estar perturbados e, em tempos de ritmo vertiginoso e cheios de especulação, como os nossos, podermos dizer:
"Como vai isso acontecer" em tempos assim tão cheios de especulação? Se especula sobre a vida, o trabalho, a família. Se especula sobre os pobres e os migrantes; se especula sobre os jovens e o seu futuro. Tudo parece estar reduzido a números, deixando, por outro lado, que a vida quotidiana de muitas famílias se colore de incerteza e insegurança. Enquanto a dor bate à porta de muita gente, enquanto em muitos jovens cresce a insatisfação por falta de oportunidades reais, a especulação abunda em toda parte”.

Como é possível viver a alegria do Evangelho, hoje, nas nossas cidades? É possível a esperança cristã nesta situação, aqui e agora? – se perguntou Francisco.

Estas duas perguntas tocam a nossa identidade, a vida das nossas famílias, dos nossos países e dos nossas cidades; elas tocam a vida dos nossos filhos, dos nossos jovens e exigem de nós um novo modo de situar-nos na história - explicou Francisco, que também acrescentou:

“Se continuam a ser possíveis a alegria e a esperança cristã, não podemos, e não queremos permanecer perante tantas situações dolorosas como meros espectadores que olham para o céu esperando que "páre de chover". Tudo o que acontece exige de nós que olhemos para o presente com audácia, com a coragem de quem sabe que a alegria da salvação toma forma na vida quotidiana da casa de uma jovem de Nazaré”.

E perante as nossas perturbações, o Papa mencionou três chaves que o Anjo nos oferece para nos ajudar a aceitar a missão que nos é confiada: evocar a memória, a pertença ao povo de Deus e a possibilidade das coisas impossíveis.

Sobre a memória, o Papa frisou que também nós, hoje, somos convidados a fazer memória, a olhar para o nosso passado para não esquecer de onde viemos; para não esquecer os nossos antepassados, os nossos avós e de tudo aquilo por que passaram para chegar onde estamos hoje. A memória, disse ainda Francisco, ajuda-nos a não ficar prisioneiros de discursos que semeiam fracturas e divisões como único modo de resolver os conflitos.

Mas faz-nos bem recordar ainda que somos membros do povo de Deus, disse Francisco falando da importância da pertença ao povo de Deus:

“Milaneses, sim, Ambrosianos, certamente, mas parte do grande povo de Deus. Um povo formado por mil rostos, histórias e proveniências, um povo multicultural e multiétnico. Esta é uma das nossas riquezas. É um povo chamado a hospedar as diferenças, a integrá-las com respeito e criatividade e a celebrar a novidade que vem dos outros; um povo que não tem medo de abraçar os confins, as fronteiras; um povo que não tem medo de dar acolhimento a quem dela necessita, porque sabe que lá está o seu Senhor”.

E sobre a possibilidade das coisas impossíveis, o Papa advertiu que quando pensamos  que tudo depende apenas de nós continuamos prisioneiros das nossas capacidades, da nossa força e dos nossos horizontes míopes, mas quando nos deixamos ajudar, aconselhar, e quando nos abrimos à graça, parece que o impossível começa a tornar-se realidade.

E Francisco concluiu recordando que, como ontem, Deus continua a procurar aliados, continua a procurar homens e mulheres capazes de crer, capazes de fazer memória, de sentir-se parte do seu povo para cooperar com a criatividade do Espírito. Deus continua a caminhar nos nossos bairros e nas nossas ruas, e em todos os lugares em busca de corações capazes de ouvir o seu convite e fazer que que se torne carne, aqui e agora – rematou Francisco. (BS)