23 fevereiro, 2017

Papa em Santa Marta: abandonar vida dupla, não adiar a conversão




(RV) “Não escandalizar os pequeninos com a vida dupla, porque o escândalo destrói”, disse o Papa Francisco na homilia da missa matutina celebrada, nesta quinta-feira (23/02), na Casa Santa Marta.

“Cortar a mão”, “arrancar o olho”, mas “não escandalizar os pequeninos”, ou seja, os justos, “os que confiam no Senhor, que simplesmente crêem no Senhor”.

“Mas o que é o escândalo? O escândalo é dizer uma coisa e fazer outra; é ter vida dupla. Vida dupla em tudo: sou muito católico, vou sempre à missa, pertenço a esta e aquela associação; mas a minha vida não é cristã. Não pago o que é justo aos meus funcionários, exploro as pessoas, faço jogo sujo nos negócios, reciclo dinheiro, vida dupla. Muitos católicos são assim. Eles escandalizam. Quantas vezes ouvimos dizer, nos bairros e outras partes: ‘Ser católico como aquele, melhor ser ateu’. O escândalo é isso. Destrói. Joga você no chão. Isso acontece todos os dias, basta ver os telejornais e ler os jornais. Os jornais noticiam vários escândalos e fazem publicidade de escândalos. Com os escândalos se destrói.”

O Papa citou o exemplo de uma empresa importante que estava à beira da falência. As autoridades queriam evitar uma greve justa, mas que não faria bem e queriam conversar com os chefes da empresa. As pessoas não tinham dinheiro para arcar com as despesas cotidianas, pois não recebiam o salário. O responsável, um católico, estava de férias numa praia no Oriente Médio e as pessoas souberam disso mesmo que a notícia não tenha saído nos jornais. “Estes são escândalos”, disse Francisco:

“No Evangelho, Jesus fala daqueles que escandalizam, sem dizer a palavra escândalo, mas se entende: ‘Você chegará ao Céu, baterá à porta e: Sou eu, Senhor! Não se lembra? Eu ia à Igreja, estava sempre com você, pertencia a tal associação, fazia muitas coisas. Não se lembra de todas as ofertas que eu fiz? Sim, lembro-me! As ofertas! Lembro-me bem: todas sujas, roubadas aos pobres. Não o conheço. Esta será a resposta de Jesus aos escandalosos que fazem vida dupla.”

“A vida dupla provém do seguir as paixões do coração, os pecados mortais que são as feridas do pecado original”, disse o Papa. A Primeira Leitura exorta a não se deixar levar pelas paixões do coração e a não confiar nas riquezas. A não dizer: “Contento-me de mim mesmo”. Francisco convidou a não adir a conversão:

“A todos nós, a cada um de nós, fará bem, hoje, pensar se há algo de vida dupla em nós, de parecer justos. Parecer bons fiéis, bons católicos, mas por baixo fazer outra coisa; se há algo de vida dupla, se há uma confiança excessiva: O Senhor me perdoará tudo. Então, continuo. Ok! Isso não é bom. Irei me converter, mas hoje não! Amanhã. Pensemos nisso. Aproveitemos da Palavra do Senhor e pensemos que o Senhor nisso é muito duro. O escândalo destrói.” (BS/MJ)

22 fevereiro, 2017

Papa na Audiência Geral: orgulho humano que explora a criação, destrói


(RV) Quarta-feira, 22 de fevereiro: audiência com Papa Francisco na Praça de São Pedro. Na sua catequese, partindo do cap. 8 da epístola de S. Paulo aos Romanos,  o Papa desenvolveu o tema “na esperança nós todos fomos salvos”, reafirmando que o orgulho humano, ao explorar a criação, também a destrói.

Muitas vezes somos tentados de pensar que a criação é nossa propriedade, uma posse que podemos explorar como quisermos e pela qual não devemos prestar contas a ninguém, mas Paulo nos recorda que a criação é um dom maravilhoso que Deus colocou nas nossas mãos, para podermos entrar em relação com Ele e nela podermos reconhecer a marca do seu desígnio de amor, para cuja realização todos somos chamados a colaborar, dia após dia – explicou Francisco:

“Mas quando se deixa levar pelo egoísmo, o ser humano acaba por arruinar mesmo as coisas mais belas que lhe foram confiadas. E assim sucedeu também com a criação. Com a experiência trágica do pecado, quebrada a comunhão com Deus, nós quebramos a comunhão original com tudo aquilo que nos rodeia e acabámos por corromper a criação, tornando-a assim escrava, submissa à nossa caducidade”

E, infelizmente – continuou o Papa - a consequência de tudo isso está dramaticamente diante dos nossos olhos todos os dias. Quando quebra a comunhão com Deus, o homem perde a sua beleza original e acaba por desfigurar tudo à sua volta; e onde tudo antes evocava o Pai Criador e o seu amor infinito, agora traz o sinal triste e desolador do orgulho e da ganância humana.

Mas o Senhor não nos deixa sozinhos, ressaltou ainda o Papa, e mesmo neste quadro sombrio Ele nos dá uma nova perspectiva de libertação, de salvação universal, como nos diz S. Paulo, convidando-nos a escutar os gemidos de toda a criação:

“Se prestarmos atenção, de facto, tudo geme à nossa volta: geme a própria criação, gememos nós, os seres humanos e geme o Espírito dentro de nós, no nosso coração. Ora, estes gemidos não são um lamento estéril, desconsolado, mas - como explica o Apóstolo - são os gemidos de uma mulher que está a dar à luz; são os gemidos de quem sofrem, mas sabendo que está para vir à luz uma nova vida”.

E no nosso caso é realmente assim, reiterou Francisco, ainda estamos a lutar com as consequências do nosso pecado e tudo ao nosso redor, ainda leva consigo a marca das nossas fadigas, das nossas faltas, dos nossos fechamentos, mas ao mesmo tempo, sabemos que fomos salvos pelo Senhor e já podemos contemplar e antecipar em nós e naquilo que nos rodeia os sinais da Ressurreição, da Páscoa, que opera uma nova criação.

Este é o conteúdo da nossa esperança. O cristão não vive fora do mundo, ele é capaz de reconhecer na própria vida e naquilo que o rodeia os sinais do mal, do egoísmo e do pecado. Vive em solidariedade com os que sofrem, com os que choram, com os marginalizados, com os que se sentem desesperados ... Mas, ao mesmo tempo, o cristão aprendeu a ler tudo isso através dos olhos da Páscoa, com os olhos de Cristo Ressuscitado. E assim na esperança sabemos que o Senhor quer curar definitivamente com a sua misericórdia os corações feridos e humilhados e tudo o que o homem desfigurou com a sua maldade, e desta forma Ele regenera um novo mundo e uma nova humanidade, finalmente reconciliados no seu amor.

É verdade que também nós, os cristãos, somos por vezes tentados pela decepção, o pessimismo, e por vezes nos deixamos levar pelo lamento inútil, ou permanecemos sem palavras e nem sequer sabemos o que pedir, o que esperar, mas mais uma vez o Espírito Santo vem em nosso auxílio, o Espírito vê por nós para além das aparências negativas do presente e nos revela já agora os novos céus e a nova terra que o Senhor está a preparar para a humanidade – concluiu Francisco.

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Nas saudações o Papa Francisco dirigiu-se aos fiéis de língua portuguesa com estas palavras:

"Amados peregrinos de língua portuguesa, uma saudação fraterna para todos vós, com votos de que a visita de hoje à Cátedra de Pedro infunda nos vossos corações uma grande coragem para abraçardes diariamente a vossa cruz, e um vivo anseio de santidade para poderdes encher de esperança a cruz dos outros. Confio nas vossas orações. Obrigado pela visita!"

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Forte apelo do Papa, na audiência geral, para o Sudão do Sul, País devastado pela guerra e agora esgotado pela carestia. Mais de 100 mil pessoas sofrem de fome, um milhão em risco, conforme denunciado pela ONU:

“Suscitam particular preocupação as dolorosas notícias que chegam do martirizado Sudão do Sul, onde ao conflito fratricida se junta agora a uma grave crise alimentar que condena à morte de fome milhões de pessoas, entre elas muitas crianças. Neste momento, é mais do que nunca necessário o empenho de todos a não limitar-se apenas em declarações, mas a tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que elas possam chegar às populações que sofrem. Que o Senhor sustente estes nossos irmãos e aqueles que trabalham para ajudá-los”.

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Ao grupo de língua italiana o Papa dirigiu uma cordial saudação aos diáconos da Diocese de Milão e à Sociedade de Maria, bem como a delegação da "Tocha Beneditina da Paz", com o arcebispo de Spoleto-Norcia, Dom Renato Boccardo, o abade de Montecassino Dom Donato Ogliari e o Abade de Subiaco Dom Mauro Meacci, convidando a todos a se fazerem promotores da cultura da paz em todos os ambientes de vida.

Na festa da Cátedra de São Pedro Apóstolo, dia de especial comunhão dos crentes com o Sucessor de São Pedro e a Santa Sé, Francisco dirigiu um pensamento especial aos jovens, aos doentes e aos recém-casados: Queridos jovens, disse o Papa, encorajo-vos a intensificar a vossa oração em favor do meu ministério petrino; queridos doentes, agradeço-vos pelo testemunho de vida dado no sofrimento para a edificação da comunidade eclesial; e vós, queridos recém-casados, construí a vossa família no mesmo amor que une o Senhor Jesus à sua Igreja.

O Papa deu a todos a sua bênção

Papa: apoios para o Sudão do Sul, devastado por guerra e fome


(RV) Forte apelo do Papa, na audiência geral, para o Sudão do Sul, País devastado por um conflito que está pondo de joelhos uma população já esgotada pela carestia. Mais de 100 mil pessoas sofrem de fome, um milhão em risco e um milão e meio de refugiados, conforme denunciado pela ONU.

Ajudemos o Sudão do Sul, e não apenas por palavras. É forte o apelo do Papa para um país bem enraizado no seu coração, pelo qual tem mostrado preocupação e sofrimento. Uma terra devastada pela guerra, violência e carestia. Eis as palavras do Papa Francisco:

“Suscitam particular preocupação as dolorosas notícias que chegam do martirizado Sudão do Sul, onde ao conflito fratricida se junta agora a uma grave crise alimentar que condena à morte de fome milhões de pessoas, entre elas muitas crianças. Neste momento, é mais do que nunca necessário o empenho de todos a não limitar-se apenas em declarações, mas a tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que elas possam chegar às populações que sofrem. Que o Senhor sustente estes nossos irmãos e aqueles que trabalham para ajudá-los”.

Independente desde 2011, o Sudão do Sul em 2013 aprofundou mais uma vez numa guerra civil que, apesar dos acordos de paz, se reacendeu em julho passado entre os grupos que apoiam o presidente Salva Kiir e aqueles que estão ligados ao seu ex-presidente, Riek Machar, o primeiro do grupo étnico Dinka e o segundo da etnia Nuer. E o País entrou novamente numa espiral de "assassinatos deliberados de civis, violações e saques", como foi denunciado por organizações como a Amnesty International

21 fevereiro, 2017

Calendário do Papa Francisco, para a Quaresma

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Mudar de atitude em relação aos migrantes: do descarte ao acolhimento - Papa



(RV) Na manhã desta terça-feira 21 de fevereiro, às 10.30, o Papa Francisco recebeu em audiência, na Sala Clementina, no Vaticano, cerca de 250 participantes no Fórum internacional sobre as migrações que tem lugar hoje e amanhã em Roma, por iniciativa do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Integral, pelos Missionários Escalabrinianos e pela Fundação Adenauer. Tema: “Integração e Desenvolvimento: da reacção à acção”.

No seu amplo discurso sobre um assunto que lhe está particularmente a peito – as migrações -  o Papa Francisco disse que não é possível ler os actuais desafios dos movimentos migratórios contemporâneos  sem incluir o binómio “desenvolvimento e integração” e disse que foi para este fim que quis instituir o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Integral com uma secção sobre migrantes, refugiados e vítimas da trata.

Francisco fez notar depois que as migrações, anélito profundo do ser humano à felicidade, marcaram desde sempre a humanidade. Não são, portanto, um fenómeno de hoje. Aliás, para nós cristãos, é toda a vida que é vista como um itinerário em direcção à pátria celeste. Hoje, infelizmente, prosseguiu, estamos a viver uma época fortemente caracterizada por migrações, de pessoa, para não dizer de povos. Trata-se, de facto, “em grande parte dos casos”, “de deslocações forçadas, causadas por conflitos, desastres naturais, perseguições, mudanças climáticas, violências, pobreza extrema e condições de vida indignas”.

Um cenário que interpela políticos, sociedade civil, Igreja, e pede respostas ainda mais urgentes, coordenadas e eficazes. Preocupado, Francisco sugere respostas articuladas entorno de quatro verbos: acolher, proteger, promover, integrar.  E desenvolveu cada um deles:

Acolher: na óptica de Francisco urge uma mudança de atitude para ultrapassar a indiferença em relação a esses irmãos e antepor ao temor uma generosa atitude de acolhimento em relação a quem bate à nossa porta. Há também que abrir canais humanitários acessíveis e seguros para os que fogem de guerras. Um acolhimento responsável e digno começa – frisa o Papa – por uma colocação desses irmãos e irmãs em espaços adequados e decorosos, não grandes aglomerados, cujo resultado tem sido o surgir de outras vulnerabilidades e mal-estares, mas sim programas de acolhimento mais capilares que parecem ter facilitado o encontro pessoal, uma melhor qualidade dos serviços, e maiores garantias de sucesso.

O verbo proteger levou o Papa a recordar os milhões de migrantes  - como requerentes asilo, as vítimas da trata, aos indocumentados…  mais expostos a abusos e violências. Protegê-los – disse – é um imperativo moral que deve ser traduzido em instrumentos jurídicos políticos internacionais e nacionais, claros e pertinentes, justos e clarividentes. Nessa luta coordenada contra, de modo particular, “os traficantes de carne humana” que lucram com as desventuras dos outros, “podeis estar certos de que estará sempre a Igreja.”
No capítulo “Promover”, o Papa sublinha que não basta promover o desenvolvimento integral de migrantes, prófugos e refugiados. A Doutrina Social da Igreja ensina que o desenvolvimento é um direito inalienável de cada ser humano. E como tal a sua concretização deve ser assegurada tanto a nível individual como social, dando a todos um acesso équo às possibilidade de escolha e de crescimento. Aqui também é necessário – recordou Francisco – uma acção coordenada de todas as forças vivas, incluindo as instituições religiosas. E mandou um recado aos países de origem dos emigrados:

A promoção humana dos migrantes e das suas famílias começa nas comunidades de origem, lá onde deve ser garantido, juntamente com o direito de poder emigrar, também o direito de não ter que emigrar, ou seja o direito de encontrar na própria pátria condições que permitam uma realização digna da existência”.

E neste contexto, Francisco encorajou os programas de cooperação internacional e de desenvolvimento transnacional em que os  migrantes sejam incluídos como protagonistas. 

O Papa passou depois ao terceiro verbo – integrar que, disse, não é assimilação nem incorporação, mas sim um processo bidireccional fundado no mútuo reconhecimento da riqueza cultural do outro. Evitar isolamentos ou fechamentos tanto duma parte como de outra; respeito, isso sim, das leis, da parte de quem chega, sensibilização das populações autóctones para o encontro com o outro, valorizar a família no processo de integração também com programas de reunião familiar do migrante. O Papa recordou ainda que para a comunidade cristã “a integração pacífica de pessoas de várias culturas é, de certo modo, um reflexo da sua catolicidade” ou seja de uma Igreja ”aberta e desejosa de abraçar a todos”.

Conjugar estes quatro verbos na primeira pessoa do singular e do plural – disse Francisco – é hoje um dever, um dever de justiça económica, de équa distribuição dos bens, de co-responsabilidade, entendida como principio de subsidiariedade, ou seja liberdade de desenvolvimento a todos os níveis, mas também “responsa-bilidade pelo bem comum da parte de quem detém o poder”. 

Ao dever de justiça o Papa acrescenta também o “dever de civilização”, de valores de acolhimento e fraternidade, codificados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, em numerosas convenção e pactos internacionais.

Cada migrante é uma pessoa humana que, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalienáveis que devem ser respeitados por todos e em todas as situações”.

Hoje mais do que nunca – continuou o Papa – é necessário reafirmar a centralidade da pessoa humana, sem permitir que nada, nem sequer a condição de irregularidade legal, ofusque a dignidade essencial do homem.

Mas há ainda um outro dever que o Papa não deixa atrás: o da solidariedade, ou seja empatia e compaixão em relação às tragédias que “marcam com o fogo” a vida de tantos migrantes. As tradições religiosas ensinam que a solidariedade nasce da capacidade de compreender a necessidade do irmão e de assumi-la.

“É dever de solidariedade contrastar a cultura do descarte e dar maior atenção aos mais fracos, pobres e vulneráveis. Por isso é necessário uma mudança de atitude em relação aos migrantes e refugiados da parte de todos”

Passar de uma cultura do descarte a uma “cultura do encontro, a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor.”

E o Papa concluiu chamando a atenção para uma categoria de migrantes particularmente vulneráveis e que somos chamados a acolher, proteger promover e integrar: as crianças e adolescentes.

(DA)

Papa: santa vergonha vença a tentação da ambição, mesmo na Igreja



(RV) Que o Senhor nos dê a graça da ‘santa vergonha’ diante da tentação da ambição que envolve todos, inclusive os bispos e as paróquias. Foi a exortação do Papa na homilia da missa matutina da terça-feira (21/02), na Casa Santa Marta.

Francisco recordou que quem quer ser o primeiro, seja o último e o servidor de todos.

“Todos seremos tentados”: é o ponto de partida da homilia, inspirada nas leituras do dia. A primeira lembra que quem quer servir o Senhor se deve preparar para a tentação. Já o Evangelho fala de Jesus quando anuncia aos discípulos a sua morte, eles não entendem e têm medo de interrogá-lo. “Esta é a tentação de não cumprir a missão”, disse o Papa. “Jesus também foi tentado: no deserto, três vezes pelo diabo, e depois por Pedro, perante o anúncio da sua morte.

Mas há outra tentação narrada no Evangelho: os discípulos discutem sobre quem deles é o maior e se calam quando Jesus os interpela sobre o motivo da discussão. Calam-se porque se envergonham:

“Mas eram pessoas boas, que queriam seguir o Senhor, servir o Senhor, mas não sabiam que o caminho do serviço ao Senhor não era assim tão fácil, não era como filiar-se numa organização, numa associação de beneficência, para fazer o bem. Não, é outra coisa. Eles temiam isso. E depois, a tentação da mundanidade: desde o momento que a Igreja é Igreja e até hoje isto aconteceu, acontece e acontecerá. Por exemplo, as lutas nas paróquias. ‘Eu quero ser presidente desta associação, quero me promover um pouco’. Quem é o maior, aqui? Quem é o maior nesta paróquia? Não, eu sou mais importante do que ele; aquele não porque fez aquilo... e assim por diante... a corrente dos pecados”.

A tentação que leva a ‘falar mal do outro’ e a ‘se promover’... Francisco fez outros exemplos concretos para explicar esta tentação:

“Algumas vezes nós, padres, dizemos com vergonha, nos presbitérios: ‘Eu gostaria daquela paróquia... Eu queria aquela...’. É o mesmo: este não é o caminho do Senhor, mas o caminho da vaidade, da mundanidade. Inclusive entre nós, bispos, acontece o mesmo: a mundanidade chega como tentação. Muitas vezes ‘Eu estou nesta diocese mas estou de olhos naquela, porque é mais importante, e articulo buscando influências, faço pressão, empurro neste ponto para chegar lá’. ‘Mas o Senhor está lá’. O desejo de ser mais importante nos leva ao caminho da mundanidade.

O Papa exortou a pedir sempre ao Senhor ‘a graça de nos envergonharmos’ quando nos encontrarmos nestas situações:

Jesus inverte aquela lógica. Sentado entre eles, lhes recorda que ‘quem de vós quer ser o primeiro, seja o último e o servidor de todos’. E pega um menino e o coloca no meio deles.

O Papa pediu para rezar pela Igreja, ‘por todos nós’, para que o Senhor nos defenda ‘das ambições, da mundanidade e de nos sentirmos maiores do que os outros’:

“Que o Senhor nos dê a graça da vergonha, aquela santa vergonha, quando nos encontrarmos nesta situação, diante da tentação. ‘Sou capaz de pensar assim? Quando vejo o meu Senhor na cruz e quero usar o Senhor para me promover? E nos dê a graça da simplicidade de uma criança: entender que somente o caminho do serviço... E ainda, imagino ainda outra pergunta: ‘Senhor, eu te servi toda a vida, fui o último toda a vida. E agora, o que nos diz o Senhor?’. ‘Diga de você mesmo: ‘sou um servo inútil’. (BS/CM)

19 fevereiro, 2017

Cardeal-Patriarca lança conta no Twitter e analisa a comunicação do Papa

O Cardeal-Patriarca de Lisboa estreou-se neste sábado, no Twitter, desafiando todos a não deixarem de “sonhar os sonhos de Deus”. O primeiro tweet de D. Manuel Clemente foi lançado nesta rede social no final da 2ª Jornada Diocesana da Comunicação do Patriarcado, que decorreu neste sábado, 18 de fevereiro, no Centro Pastoral de Torres Vedras.

“Amigos, é com muita alegria que aqui estou, convosco, no Twitter. Não deixemos de sonhar os sonhos de Deus”, disse D. Manuel Clemente na sua conta @patriarcalisboa que foi inaugurada ao final da tarde de sábado.
O centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima e a visita do Papa foram os temas fortes deste segundo encontro que reuniu responsáveis da comunicação do Patriarcado de Lisboa. Além dos workshops de formação focados nos temas de vídeo, gestão da presença digital, design e ferramentas práticas para comunicar, este foi também um dia para conhecer alguns projetos de comunicação que estão a ser desenvolvidos nas paróquias a propósito da vinda do Papa nos dias 12 e 13 de maio.
O repto lançado era mesmo esse: “E se o Papa fosse à sua paróquia? Como comunicava?”. O Cardeal-Patriarca de Lisboa acredita que o faria como só o Papa o sabe fazer: falando diretamente às pessoas. D. Manuel Clemente considera que este é o segredo da comunicação de Francisco: “O Papa é uma pessoa, fala para as pessoas e fala de uma pessoa: Jesus Cristo”. Ou seja, direciona a sua mensagem para as pessoas, nas circunstâncias concretas em que se encontram.
Neste encontro, Madalena Fontoura, profundamente conhecedora da mensagem de Fátima, apresentou o que considera serem os quatro pilares da comunicação de Fátima: presença, reparação, paz e capela. “A presença de Fátima é importante numa sociedade que tenta por a Igreja num canto. Fátima é um lugar de presença: aquela presença que veio até nós e nos atrai”, afirmou a oradora. A ideia de capela explica-se no contexto das aparições, pois “Nossa Senhora disse a Lúcia para ali se fazer uma capela”, mas também porque a “religião, esta ligação entre o céu e a terra se faz através da Igreja. Não temos uma fé sozinha, mas que se vive num lugar, com morada, caras. Esta fé vive-se numa Igreja.”
Francisco Líbano Monteiro falou do projeto “Eu acredito”, grupo que agrega vários movimentos juvenis e que está a preparar os jovens para o seu encontro com o Papa. O jovem responsável pela comunicação deste movimento diz que o objetivo é “juntar a Igreja em torno da figura do Papa e de um evento que é o centenário das aparições”. Toda a comunicação deste grupo, que surgiu em 2010 antes da visita do Papa Bento XVI e que foi reativado no final do ano passado, é difundir a mensagem de Fátima e fazer dos jovens missionários da paz.
Estas jornadas diocesanas contaram ainda com o contributo de Carmo Rodeia, responsável pela comunicação do santuário de Fátima, que desvendou um pouco do que está a ser feito para celebrar o centenário das aparições e para preparar o encontro com o Papa Francisco. “Aquilo que nós queremos é fazer com que todos os portugueses sejam, nos dias 12 e 13 de maio, peregrinos de Fátima”, desejou. Para esta profissional, a viagem do Papa Francisco a Portugal é um momento particular para todo o país. “Sendo esta uma viagem apostólica, ainda nos faz sentir mais privilegiados porque nós portugueses, todos os que se consideram peregrinos de Fátima, são também peregrinos com o Papa Francisco”, frisou. Na sua intervenção, Carmo Rodeia anunciou que o site da visita do Papa Francisco a Portugal vai estar disponível na segunda semana do próximo mês de março.


É nosso dever praticar a justiça. A vingança é proibida - Papa no Angelus


(RV) Dia quase primaveril em Roma, com céu limpo e sol brilhante sobre os numerosos fiéis e turistas que se reuniram na Praça de São Pedro com o olhar elevado à janela do terceiro andar do Palácio Apostólico, donde o Papa Francisco fez, como todos os domingos ao meio dia, a sua breve reflexão sobre o evangelho do dia. O de hoje, disse, oferece uma daquelas páginas que melhor exprimem a “revolução” cristã, ou seja o da verdadeira justiça e não a de “olho por olho, dente por dente”. É o evangelho de São Mateus, capítulo 5, versículos 38-48.  Perante a lei do talhão que era a de pagar com a mesma moeda, ou seja a morte ao assassino, a amputação a quem tinha ferido alguém, etc., Jesus ensina a pagar o mal com o bem. É só quebrando a cadeia do mal que se pode mudar realmente as coisas. A represália não leva nunca à resolução do conflito.

Para Jesus – disse o Papa – a recusa da violência pode mesmo comportar a renuncia ao legitimo direito, aceitar sacrifícios, mas esta renuncia não quer dizer que “as exigências da justiça sejam ignoradas ou contraditas; antes pelo contrário, o amor cristão que se manifesta de forma especial na misericórdia, representa uma realização superior da justiça”.
“O que Jesus nos quer ensinar é a “clara distinção que devemos fazer entre a justiça e a vingança”. “distinguir , a justiça da vingança, repetiu Francisco. E recordou que a justiça é consentida, enquanto que a vingança é proibida.

“É nosso dever  praticar a justiça. É-nos, pelo contrário, proibido vingar ou fomentar, de forma for, a vingança, enquanto expressão do ódio e da violência”

O que Jesus quer – prosseguiu o Papa – não é propor uma nova ordem civil, mas sim o mandamento do amor em relação ao próximo que compreende também o amor pelo inimigo, o que não significa aprovação do mal feito pelo inimigo, mas pôr-se num plano superior, de magnanimidade, semelhante ao do Pai celeste que “faz brilhar o seu sol sobre os maus e sobre os bons, e faz chover sobre os justo e sobre os injustos”. E o Papa recordou estas palavras de Jesus, que não são, todavia fáceis de pôr em prática, reconheceu:

“Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” – dizia Jesus”.  E isto não é fácil, ehn!.

Mas não devemos esquecer que também o inimigo é “uma pessoa humana” criada à imagem de Deus, só que ofuscada por uma conduta indigna”. E quando falamos de inimigos, não devemos pensar noutras pessoas, longínquas, não. Devemos pensar  também em nós mesmos, no facto que podemos também nós entrar em conflito com o nosso próximo e por vezes mesmo com os nossos familiares:

“Quantas inimizades nas famílias, quantas?! Pensemos nisso. Os inimigos são também aqueles que falam mal de nós, nos caluniam e nos fazem mal. E não é fácil digerir isso! A todos eles somos chamados a responder com o bem, que tem também ele as suas estratégias, inspiradas no amor”.

E o Papa concluiu pedindo a Nossa Senhora para que nos ajude a seguir Jesus nesta exigente caminhada que exalta verdadeiramente a dignidade humana e nos faz viver como filhos do nosso Pai que está nos Céus. Que nos ajude a praticar a paciência, o diálogo, o perdão e a ser artesão de comunhão e de fraternidade na nossa vida quotidiana, sobretudo nas nossas famílias.

Depois da reza das Ave Marias, o Papa recordou com estas palavras a República Democrática do Congo, o Paquistão e o Iraque...

“Caros irmãos e irmãs, continuam, infelizmente, a chegar notícias de recontros violentos e brutais na região do Kasai Central da República Democrática do Congo. Sinto forte a dor pelas vítimas, especialmente as crianças arrancadas às próprias famílias e à escola para ser usadas como soldados.  Asseguro a minha proximidade e oração, também pelo pessoal religioso e humanitário que actua naquela difícil região; e renovo um premente apelo à consciência e à responsabilidade das Autoridades nacionais e da Comunidade internacional, a fim de que se tomem decisões adequadas e tempestivas para socorrer esses nossos irmãos e irmãs. Rezemos por eles e por todas as populações que também noutras partes do Continente africano e do mundo sofrem devido à violência e à guerra. Penso, de modo particular, nas caras populações do Paquistão e do Iraque, atingido por cruéis actos terroristas nos dias passados. Rezemos pelas vítimas, pelos feridos e seus familiares. Rezemos ardentemente para que cada coração endurecido pelo ódio se converta à paz, segundo a vontade de Deus. Rezemos em silêncio por eles". 

Seguiu-se silêncio e uma oração...

O Papa saudou depois os peregrinos da Itália e do mundo presentes na Praça de São Pedro e concluiu desejando a todos um bom domingo e pedindo para não nos esquecermos de rezar por ele.

(DA)