segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

II - Ass. Diocesana do XXXV Aniversário


AUDITÓRIO DA IGREJA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
(Rua Camilo Castelo Branco - Junto ao Marquês de Pombal)
10 de Janeiro de 2010
das 09:30 às 17:30 horas.


"BAPTIZADOS NO ESPÍRITO SANTO"

Pe. Manuel Morujão

Oração de Intercessão e Libertação - Adoração ao Santíssimo - Assmbela de Louvor - Eucaristia

sábado, 19 de Dezembro de 2009

LABAT cem vezes

Pai, deixa que neste dia tão especial te falemos com palavras semelhantes às que Jesus teu Filho usou contigo na sua última noite, antes de voltar para ti (Jo 17, 1-26). Atrevemo-nos a falar-te assim, porque Jesus insiste connosco para sermos um só com Ele e contigo, na força do Espírito que vos une a vós e nos une a nós convosco.

Pai, demos a conhecer-te àqueles que, do meio do mundo, nos deste. Eles eram teus e tu no-los entregaste e eles têm guardado a tua palavra (Jo 17, 6). Continuam teus, e apreciam-te cada vez mais neste jornal que entre nós circula e ao longo de tantos meses e anos, já atingiu a centena de números.

Os que por isso se voltaram mais para ti são multidão incontável, que a nossa memória não pode abarcar, mas o teu amor conhece um a um. São tantos como as estrelas do céu e as areias do mar. “É por eles que eu rogo. Não rogo pelo mundo, mas por aqueles que nos confiaste, porque são teus” (Jo 17, 9).

Pai, eu te louvo por tantas maravilhas que neles fizeste. Tu lhes revelaste o esplendor da tua glória e lhes deste a sentir o teu amor sem limites. Experimentaram a tua intimidade, a tua imensidão, a tua paz e a tua consolação. Sentiram em si próprios a tua paciência e a tua fidelidade, mesmo quando foram infiéis.

É por esses que te rogamos especialmente hoje, porque estão no mundo, mas não querem ser do mundo. “Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo. 17, 15). Não te peço que os poupes à violência da sedução e da luta, mas que o teu Espírito os trespasse e lhes mostre o que é ilusão e engano.

Rogo-te, Senhor, que os não deixes cegos, a entrar num caminho falso, sem retorno. Fala-lhes e “faz que eles sejam inteiramente teus, por meio da Verdade. A Verdade é a tua palavra” (Jo 17, 17). A Verdade é o teu conselho amigo, o único que não engana nem nos esquece. O único que é o nosso ânimo, a nossa força, a nossa esperança, o nosso encanto e o nosso futuro.

Bem sabes, Pai, melhor que eu, como a vida tem sido dura e difícil para muitos dos nossos irmãos, que sofrem no corpo e no espírito, ao mesmo tempo que vai aumentando neles a sede do teu amor. Mostra-lhes, Senhor, o esplendor da tua face e ficarão saciados.

Rogo-te, Senhor por todos eles, a quem queria transmitir as maravilhas que me revelaste, de surpresa em surpresa ao longo dos anos. O que me custa é não encontrar palavras para o dizer… É que só tu és a Palavra. Por isso te peço que lhes fales, “para que eles tenham em si a plenitude da minha alegria” (Jo. 17, 13).

Faz com eles, Pai, o que fizeste com tantos de nós: aquece as suas noites e ilumina de Natal as suas trevas.
Toma posse deles, Senhor, e leva-os ao cume do monte, como levaste a alguns de nós, e então te transfiguraste. Foi bom, muito bom. Não queríamos sair de lá…

Rogo-te, Senhor por todos esses com quem partilhaste tantos segredos do teu amor.

“Não te rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em ti por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como tu Pai estás em mim e eu em ti. Para que assim eles estejam em nós e sejam consumados na unidade” (Jo 17, 20-21).

Pai santo, é por Jesus teu Filho, com ele e nele, e na força do teu Espírito, que te rogamos por todos os que buscam para si o teu Natal. Juntos te prestamos toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Ámen. Aleluia.


Pe. Luís Archer (Labat 100 de Dezembro de 2009)

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

LABAT, um farol do Espírito



O Labat-Fogo do Espírito veio à luz, no início do novo milénio, depois da aprovação e bênção do senhor D. Manuel Clemente, Bispo Auxiliar de Lisboa, que lhe deu a paternidade escrevendo o primeiro editorial. Procurou, dentro das suas possibilidades, dar uma resposta modesta para a evangelização utilizando os meios de comunicação social, escrita e via Internet. Está ao trabalho da Igreja através do renovamento carismático.

O Labat, fiel a essa missão, aparece como um espaço aberto ao serviço dos grupos do renovamento e como um elo de ligação que, nas suas vertentes formativa e informativa, procura construir um laço de amor com seus leitores.

O Labat principiou, qual planta ténue, a necessitar de cuidados. O adubo para o crescimento e seus frutos é a acção do Espírito Santo que, através de um leque amplo e variado de colaboradores, tanto nacionais como estrangeiros, desde Bispos, a sacerdotes e leigos, lhe deram, através destes nove anos, corpo e maioridade.

O Labat adquiriu o estatuto de ‘o nosso Labat’, ‘o nosso amigo’, ‘o nosso companheiro’. Não é apenas mais um jornal, mas tornou-se ‘uma pessoa’ com quem dialogamos e escutamos, nos fortalecemos e animamos, e nos indica um rumo no caminho de cristãos renovados no Espírito.

O Labat ocupa hoje um lugar que ultrapassa a diocese de Lisboa. Fez-se presença mensal em todas as dioceses de Portugal e ultrapassou fronteiras. São os ecos do Espírito ao serviço das novas tecnologias da comunicação que enviam mailings solicitando a missão evangelizadora do Labat nos seus corações e lares.

O Labat tornou-se uma referência necessária e imprescindível para a história do renovamento na diocese de Lisboa.

A todos os generosos e dedicados amigos colaboradores que nestes nove anos, se comprometeram neste encargo, o nosso muito obrigado. Continuai a abraçar o vosso labat, pois o Espírito ilumina-vos. O renovamento está grato.

Um abraço de muita gratidão e profunda amizade.

João Silva
(Editorial Labat nº 100 - Dezembro 2009 e Janeiro 2010)

Vem, Espírito criador!


Para celebrar a 100ª edição do Labat, nada me pareceu tão oportuno como falar do Espírito Santo e, sobretudo, dar a conhecer um precioso livro, que é um conjunto de meditações, que todos devíamos meditar e saborear, acerca do Hino “Veni creator”.

O livro foi escrito pelo P. Raniero Cantalamessa, padre capuchinho, pregador há muitos anos da Casa Pontifícia, ou seja, do Santo Padre e daqueles que mais de perto trabalham com ele, como vários Cardeais.
Homem insigne em sabedoria bíblica, homem de uma profunda espiritualidade que, como afirmou o Papa no prefácio do livro: “ No diligente tratamento dos textos nunca, porém, o Autor, se detém na mera esfera do histórico; no passado ele vislumbra o presente, de tal modo que, conceitos aparentemente muito distantes, tornam-se subitamente práticos e convertem-se em orientações realizáveis na nossa vida.

A Obra, embora concebida como comentário ao hino consagrado ao Espírito Santo ‘Veni Creator Spiritus’, da autoria do teólogo alemão medieval Rábano Mauro (780-856), não é uma obra sobre o Espírito Santo”. Quem lê estas palavras do actual Papa não pode deixar de ficar com desejo e gosto de ler a grande Obra do Padre Catalamessa, publicado pelo Apostolado da Oração, Braga, num volume bem apresentado e rico de conteúdo, à venda nas livrarias.

Cada capítulo tem um título que é uma pequena oração tirada do Hino, mas o autor tomando o ensinamento de muitos teólogos e dos Santos Padres da Igreja, recheia o capítulo de muita sabedoria.

Examina, faz rezar o Espírito Santo, mistério de força e de ternura, Criador que transforma o caos em cosmos, que renova, em nossos dias, os primórdios do primeiro Pentecostes, que nos ensina a tornar-nos paráclitos, que ensina a fazer da nossa vida um dom, que nos comunica a vida divina, que nos livra do pecado e da tibieza, que nos faz vivenciar o amor de Deus, que nos comunica o odor da caridade de Cristo, que adorna a Igreja com imensidão dos carismas, que nos transmite a força de Deus, que dá sustento à nossa esperança, que dá força ao nosso anúncio, que nos conduz à verdade total, que nos faz passar do amor a nós mesmos ao amor de Deus, que prepara a redenção do nosso corpo, que nos assegura a vitória sobre o maligno, que nos concede a magna paz de Deus, que nos conduz ao discernimento espiritual, que infunde em nós o sentimento da filiação divina, que nos ensina a proclamar ‘Jesus é o Senhor’, que nos ilumina sobre a mistério da sua Pessoa.

É esta série maravilhosa de pequenos capítulos sobre o Espírito, fonte de vida e de santidade, água divina que lava e purifica, fogo que incendeia em nós o amor, que o P. Cantalamessa, com arte e sabedoria nos faz rezar.

Temos neste belo e precioso e livro uma verdadeira Summa teológica e espiritual sobre o Espírito Santo. O estilo, porém, não é o de um tratado de teologia, mas sim o da linguagem inspirada, que recorre aos símbolos, às imagens, ao canto, à poesia, à liturgia, à profecia e aos modelos de santidade.

Deste modo, o P. Raniero Cantalamessa - um dos maiores conhecedores da teologia do Espírito - revela-se um mestre na arte de entusiasmar cada leitor a um encontro verdadeiro e pessoal com o Espírito Santo. E todos precisamos de ter este contacto com o Espírito, que nos habita, que faz morada em nosso coração.

Ele é o Mestre interior, que reza em nós e nos ensina a rezar, é a sabedoria do Alto que nos ilumina a inteligência, é a força do Alto que nos pode fazer vencer tentações, levar a cruz de cada dia, ter vitória sobre o mal, e o Maligno. Sem esta comunhão com o Espírito não há verdadeira oração, não há vivência sacramental séria, não sabemos escutar a Palavra, não teremos a graça da união íntima com Deus.

Depois da Ascensão o Espírito Santo é o grande agente da vida e da santidade da Igreja e de cada um de nós. É Ele que nos cura, nos lava, nos purifica em ordem à santidade, à comunhão com Deus.

O Hino sobre o qual escreveu o Padre Catalamessa, da liturgia da Solenidade de Pentecostes, como prolongada e solene invocação do Paráclito, faz-nos compreender melhor as insondáveis riquezas do Espírito, como Pessoa divina, da sua acção e presença na história da salvação e na vida da Igreja e na nossa vida pessoal.

Sem devoção ao Espírito não nos abrimos à luz divina, não somos conduzidos nos caminhos da santidade, não temos a graça de viver de um modo evangélico, de saborear a Palavra de Deus, que é Palavra inspirada, não somos capazes de caminhar até à união mística. Só o Espírito, dom e graça do Alto, Deus verdadeiro, igual ao Pai e ao Filho, nos pode fazer realizar a maravilha da vida cristã.

Ter nas mãos este precioso livro do P. Catalamessa, saborear os seus ensinamentos, meditar com cuidado cada capítulo, tirar lições para a vida, fazer dele partilha na oração e nas reuniões, será um dos modos mais eficazes e mais felizes de celebrar o nº 100 do nosso Labat.

“Vem Espírito Criador”, vem animar nossas almas, vem ser luz e graça, vem ser fogo divino, vem fortalecer, iluminar, encorajar, divinizar.

“Vem, Espírito Criador”, que a tua presença em nós nos faça crescer em espírito de oração, em intimidade com a Trindade, em comunhão mais profunda com Jesus, em descoberta da Palavra, em amor filial com Maria, em sentido profunda de sermos Igreja.

“Vem, Espírito Criador, santifica-nos, transfigura-nos, diviniza nossos seres, identifica-nos com Jesus, fá-Lo viver em nós de um modo cada vez mais intenso, faz-nos viver n’Ele, para Ele, com Ele.

P. Dário Pedroso, SJ
(Labat n.º 100 de Dezembro de 2009)

Livro referido:

Vem, Espírito Criador!
Meditações sobre o Veni creator


Autor: P. Raniero Cantalamessa
Editora: "Editorial AO"

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Lei e Espírito



ESPÍRITO – HISTÓRIA – PALAVRA


Já referimos, aqui (Labat), este assunto. É da máxima importância tanto nos evangelhos como em S. Paulo. E se volto ao assunto é por causa do livro que estou a ler de E. P. Sanders, Paulo, a lei e o povo judaico (São Paulo, Ed. Academia Cristã/Paulus, 2009).

E. P. Sanders é reconhecido mundialmente como um dos melhores exegetas da Bíblia do Novo Testamento. O grande mérito deste autor consiste em tornar a ler a pessoa de Jesus, nos evangelhos, e de S. Paulo, nas cartas, à luz do pensamento judaico de então. Jesus e S. Paulo foram judeus. Não nasceram cristãos. Não eram nem gregos nem romanos.

À medida que a Igreja crescia e se dilatava pelos quatro cantos do mundo, o judaísmo era abandonado e combatido, e tanto Jesus como S. Paulo eram lidos, amados, proclamados urbi et orbi contra judeus e pagãos. Semelhante leitura não corresponde à verdade. O seu a seu dono.

Segundo E. P. Sanders, a doutrina de S. Paulo acerca da Lei não é uniforme, contrariamente ao que católicos e protestantes têm dito e pregado. Costumamos apresentar a Lei judaica, sobretudo nas cartas aos Gálatas e Romanos, como o oposto do Espírito: o Antigo Testamento e respectiva Lei moisaica foi substituído pelo Espírito. A Lei morreu para dar lugar ao Espírito. Ser judeu é pertencer à Lei e ser cristão é pertencer ao Espírito. Esta visão é demasiado unilateral.

S. Paulo parte do princípio que Deus determinou um projecto de salvação para o seu povo – o judaico – através da Lei, mas que não é suprimido pelo mesmo princípio de salvação para toda a humanidade para o seu povo – o cristão – através de Jesus Cristo. O Paulo judeu não deixa de ser judeu pelo facto de ter sido apanhado por Jesus Cristo (Fl 3, 12: “Não que já o [Jesus] tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro, para ver se o [Jesus] alcanço, já que fui alcançado/apanhado por Cristo Jesus”).

A S. Paulo punha-se o dilema de difícil solução: a Lei do AT é santa porque dimana de Deus, mas a vinda de Jesus Cristo, para judeus e pagãos, não podia estar sujeita à Lei, dada aos judeus. Assim se explicam as antinomias entre o Espírito e a Lei em Gl 5, 16-26.
Neste contexto, S. Paulo tanto apresenta a antinomia entre Espírito e Lei como entre Espírito e carne (5, 18s: “Ora, se sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob o domínio da Lei. Mas as obras da carne estão à vista…”). Mas as obras da carne-Lei (vv. 19s “fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria. inimizades, contenda, ciúme, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas…”) também são condenadas na Lei do AT.
E as obras do Espírito (vv. 22s: “amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio) também são apresentadas na Lei do AT, embora sem esta cadência.

Esta antinomia é ainda mais clara em Romanos 7-8. No capítulo sétimo S. Paulo apresenta o seu pensamento sobre a Lei e no capítulo oitavo sobre o Espírito (19 vezes). Mas a Lei em 7, 13 é apresentada como boa (“Será então que aquilo que é bom se transformou em morte para mim? De maneira nenhuma!”).
Para resolver este dilema, S. Paulo deixa de apresentar a Lei-carne para apresentar como causa da morte e de todas as desgraças o pecado (v. 13b: “O pecado é que, para se manifestar como pecado, se serviu do que é bom [a Lei] e foi causa de morte para mim”).
Já antes escrevera (vv. 11-12: “É que o pecado, aproveitando-se da ocasião dada pelo mandamento [Lei], seduziu-me e deu-me a morte, por meio dele. Por conseguinte, a Lei é santa e o mandamento é santo, justo e bom”).
Segundo o Apóstolo, no desígnio de Deus sobre o seu povo, não fazia parte a morte, a física e a moral, mas ela existe e está presente na sua carne-humanidade. Como explicar? S. Paulo recorre ao pecado. Perguntamos: mas que pecado? S. Paulo apenas faz afirmações sem as explicar.
Outro texto deveras intrigante é o de Rm 2, 5-6: “Afinal, com a tua dureza e o teu coração impenitente, estás a acumular ira sobre ti, para o dia da ira e do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um conforme as suas obras…”.

Como conclusão devemos dizer que S. Paulo apresenta vários registos sobre a Lei. Há um desígnio de Deus, universal e absoluto, sobre a salvação através da Lei de Moisés. A Lei é boa e santa mas potenciadora do pecado e da morte porque é pela Lei que tomamos consciência do nosso estado de ser: “Não adorarás outro Deus… não cobiçarás…não desejarás a mulher do próximo…”.
Esta razão de ser da Lei tanto é válida ontem como hoje. Se ela impedir a fé em Jesus Cristo torna-se num muro de Berlim, contrária à liberdade (Gl.3, 1s:” Oh Gálatas insensatos! Quem vos enfeitiçou, a vós, a cujos olhos foi exposto Jesus Cristo crucificado? Só isto quero saber de vós: foi pelas obras da Lei que recebestes o Espírito ou pela pregação da fé?”; 5, 1: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”; 5, 13: “Irmãos, de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais…”).

Daqui deriva a necessidade da Lei do Espírito que tudo resume ao mandamento do amor (Gl 5, 5, 14: “É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo”).
Mas este mandamento é uma citação de Levítico 19, 18. Assim sendo, S. Paulo não é contrário à Lei de Moisés de modo unilateral. É judeu e é cristão porque o desígnio de Deus é único e irreversível. O que faz falta é saber ler e interpretar.
Há leis do AT que não interessam, mormente as leis identitárias do povo e da raça – circuncisão, sábado, kosher (leis da alimentação) -, que estabeleciam o tal muro de Berlim entre judeus e não-judeus.

O Deus de Jesus Cristo e o Deus de Paulo (teologia e cristologia em S. Paulo caminham juntos) é para todos e não apenas para um povo ou raça. As leis identitárias deste povo-raça facilmente nos conduzem ao racismo. Jesus Cristo e o seu Espírito libertam-nos deste perigo que, na prática, ontem e hoje continua bem vivo entre alguns judeus, cristãos e muçulmanos.

Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM (Labat n.º 100 de Dezembro de 2009)

III – Caminhar no Espírito



Alimentemos o nosso caminhar no Espírito, nesse fogo e braseiro que renovam e transformam nosso coração, com os meios que o Senhor nos oferece: os sacramentos da Eucaristia e Confissão, a leitura e reza da Bíblia, a oração no Espírito, o amor ao irmão e a vida em grupo.


A I parte do ensinamento, no Labat nº 96, Julho 2009, pags. 4 e 5 (lançado neste blogue, em Agosto de 2009).
A II parte do ensinamento foi publicado, no Labat nº 99, Novembro 2009, pag. 7. (também consta neste blogue, no mês de Novembro de 2009).
A III parte do ensinamento é apresentada na coluna ‘Caminhar no Espírito’ do Labat nº 100, Dezembro de 2009 (igualmente neste blogue, através do presente texto).

1. A PALAVRA DA BÍBLIA

A Palavra – lida, rezada, escutada, adorada, mastigada, aceite como resposta do Espírito ao nosso coração, amada e acolhida – constitui um sinal verdadeiro, uma força e uma presença insubstituível para o nosso caminhar no Espírito. O modo como escutamos a Palavra que rezamos é importante para ela nos conduzir ao coração de Deus.

Deus fala a cada um pessoalmente através da Bíblia pelo Espírito Santo (1). Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo (2). Vós que percorreis os jardins da Escritura, não o tendes que o fazer depressa ou com negligência. Cavai cada Palavra para dela tirar o Espírito. Imitai a abelha laboriosa que de cada flor recebe o seu mel (3).
A Palavra torna-se oração e a oração torna-se esperança. Bento XVI refere-se, assim a esse momento surpreendente da escuta da Palavra do DEUS Vivo: Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança é a oração. Quando já ninguém me escuta, Deus ainda ouve. Quando já não posso falar com ninguém, posso falar sempre com DEUS (4). A leitura leva à boca alimento sólido, a meditação corta-o e mastiga-o, a oração saboreia-o, a contemplação é a própria doçura que alegra e recria (5).

1. S. Jerónimo
2. Santo Padre.
3. Texto, dos Padres da Igreja
4. Bento XVI
5. Guido, cartuxo e autor medieval.

2. ORAÇÃO NO ESPÍRITO SANTO

Oração pessoal, diária, familiar e comunitária

Vivamos a Oração num diálogo íntimo com o Senhor, dando-LHE acção de graças, adorando-O, louvando-O, meditando, cantando, pedindo e suplicando, escutando e contemplando. S. Vicente de Paulo, pai dos pobres, era um homem que fazia da oração o ponto de apoio e o lugar de descoberta da vontade de Deus.

Bento XVI recordou que ‘Jesus subiu ao monte para rezar’ e que “enquanto rezava” se verificou o “luminoso mistério da transfiguração”. Ao subir ao monte, sublinhou ‘Jesus quis manifestar aos seus amigos a luz interior que o inundava plenamente quando rezava’. Ainda encoraja a todos a procurarem o silêncio e o recolhimento, para deixar mais espaço à oração e à meditação da Palavra de DEUS.

Somos cristãos orantes na alegria do Espírito

“Andai sempre alegres, orai sem cessar e em todas as circunstâncias (boas ou más), dai graças, pois é a Vontade de Deus em Jesus Cristo a vosso respeito” - 1 Ts 5, 16-22.

Se queres começar a possuir a Luz de DEUS – reza; se já estás empenhado na subida da perfeição e queres que essa Luz cresça em ti – reza; se queres a fé – reza; se queres a Esperança – reza; se queres a Caridade – reza; se queres o espírito de Pobreza – reza; se queres a Obediência, a Castidade, a Humildade, a Mansidão e a Fortaleza – reza. Seja qual for a virtude que aspiras – reza.

A oração é como a respiração da alma

Assim como é necessária uma boa capacidade respiratória para o funcionamento sadio de todos os órgãos do corpo, do mesmo modo, uma forte vontade de orar o é para a alma, sobretudo quando nos preparamos para o caminhar numa vida nova, para o caminhar no Espírito.

3. CAMINHAR NO ESPÍRITO É NECESSARIAMENTE VIVER NO AMOR AOS IRMÃOS

O amor é a única dívida que temos para com todos. “Não deveis nada a ninguém a não ser o amor mútuo” – Rm 13, 8. O amor de DEUS foi derramado nos nossos corações – Rm 5, 5.

Este amor é o amor com que DEUS nos ama e com que nos faz amar a Ele e ao próximo. É uma capacidade nova de amar. A prática desse amor é o sinal revelador do caminhar no Espírito.

Nós amamos o próximo ou gostamos apenas do próximo?

Gostamos, por exemplo, de ananás, ou manga, ou papaia, ou banana? E gostamos desses frutos com a casca, ou sem a casca? Então, gostamos ou amamos a fruta?
Ora a grande diferença em amar o irmão, é amá-lo com os seus defeitos. É aceitá-lo como ele é. Gostar somente, não é amar como o Senhor nos manda. No amor, cada um é atraído por aquilo que ama, sem que experimente coacção alguma exterior. Tudo se faz com alegria, espontaneidade e não por hábito, costume ou cálculo, é amor. O amor é contrário ao veneno dos juízos que algumas vezes fazemos dos nossos irmãos.

“Quem ama voa, corre, rejubila, é livre, nada teme e nada o pode conter. Muitas vezes o amor não conhece medida, mas arde sem medida alguma. O amor não sente peso, não liga ao cansaço, desejaria estar sempre presente e fazer mais do que aquilo que pode”. Pelo contrário, “quem não ama, fracassa e dá-se por vencido” – Imitação de Cristo, III, 5.

Em relação ao amor e perdão, o Senhor nos ensinou a rezar o Pai-nosso.

Digamo-lo silabicamente e meditando cada palavra que rezamos.

Deus está presente em nós. Mas, quantas vezes, procuramo-Lo fora de nós próprios. Alguns de nossos irmãos são tentados a saltitarem de grupo em grupo ou a procurar sem descanso, fora de si, lugares ou guias de oração. Entremos dentro de nós mesmos, pois aí mora a verdade. Deus está dentro de ti. Não o procures fora de ti. Caminha n’Ele e com Ele.

Há uma história sobre um animal selvagem, o almíscar, que possui em si uma bolsa perfumada. O animal percorre vales e montes à procura desse aroma que sente, mas que ignorava que viesse de dentro dele. Nessa procura constante, cai dum penhasco. Rebenta a bolsa. E, nesse momento descobre esse aroma em si. Já não pode viver esse aroma, porque morre.

Não imitemos esta imagem que vos apresento. Porque, DEUS está em ti, em mim, em nós. Encontramo-LO no nosso coração e encontramo-LO na nossa vida.

Maria Olga

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Quadra Festiva


e que o NOVO ANO

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

II Assembleia Regional



LOCAL

Auditório da Igreja de Nossa Sr.ª do Amparo
Rua Ernesto da Silva - 13 C - Benfica - Lisboa



PREGADOR

Padre Dário Pedroso S.J.

sábado, 21 de Novembro de 2009

O precioso dom da vida



O mês de Novembro, pelas celebrações que invocamos e pelos temas que reflectimos, pelas intenções que rezamos e pelas festas que nos alegram o coração, é, de verdade um mês dedicado à vida, ao valor da vida.
Os Santos que celebramos no dia 1, foram os heróis não só da fé mas da vida, pois souberam viver com amor e intensidade cristã, este dom precioso que o Criador concedeu a cada homem e a cada mulher. Os santos assumiram a vida com toda a grandeza e realidade humana e evangélica, e souberam vivê-la com a tenacidade e a generosidade própria de quem sabe que a vida é um dom precioso e que deve ser tomada e vivida a sério.
Não é só na sua dimensão espiritual e orante, sacramental ou pastoral, que os Santos foram grandes. É na expressão mais eloquente da sua humanidade, naquilo que o homem e a mulher têm de semelhante ao Deus Criador, naquele que faz, que vive num verdadeiro humanismo.
O apreço pelas suas vidas foi levado pelos Santos muito a sério.Souberam jogá-las pelo Senhor e pelos irmãos, respeitaram a sua vida e a dos outros, tantas vezes se dedicaram a salvar a vida do próximo e a trabalhar para ele com toda a audácia e tenacidade.
Podemos dizer que os Santos foram uns apaixonados pela vida, com dom, e, por isso viveram a sua intensamente e maravilhosamente, como se dedicaram de alma e coração a ajudar e a salvar a vida dos outros, são só movidos por uma filantropia humana, mas impulsionados pela caridade, como virtude teológica.
Por isso o seu pensamento, o seu coração, as suas obras estavam sempre centradas nos outros, sempre cuidando do pobre, do marginal, do infeliz, do injustiçado, do que passava fome ou sede, do que não tinha casa ou família, de todos os que tinham uma vida menos sã e menos digna. Era aí que estava o coração dos Santos e as suas vidas e actividades.
A vida era sempre um valor inestimável, algo precioso, a ser definido, ser guardado, a ser cuidado com carinho, dedicação e zelo.
Os Santos dedicaram-se sempre a viver e promulgar, a defender a fazer cresçer a "cultura da vida", o amor à vida, o respeito pela vida. Foram os grandes benfeitores da humanidade, pela defesa da vida, por criarem condições de vida mais dignas, por saberem apreciar o dom que é a vida de cada pessoa.
Hoje, em muitas partes do mundo, no seio duma sociedade sem grandes valores, duma sociedade que tantas vezes não tem atenção, nem respeito, nem amor pela vida, onde há tanto crime, tanto ódio, tanta vingança, tanta injustiça, tanta fome, tanta depravação moral, hoje, onde em muitos países se cultiva a "cultura da morte" é urgente gritar bem alto o valor da vida humana. Ninguém tem o direito de matar. Daí o criador do aborto, o crime do terrorismo, o crime da eutanásia, o crime da destruição das vidas humanas, pela violência, pela injustiça, por tantos modos verdadeiramente criminosos.
E o pior e mais grave é a desfaçatez com que se arrojam argumentos que justifiquem matar, verdadeiros sofismas, medonhos criminosos, que querem justificar a morte de inocentes. Se ficamos horrorizados com os milhares de mortos da Grande Guerra, não podemos ficar menos ,horrorizados pelos milhões de mortos provocados pelo aborto, pela fome, pelo terrorismo, pela violência déspota.Matar é matar, e é sempre um mal, um crime, um dano horrível para a vida dos outros. Ninguém tem o direito de o fazer movido por motivos malévolos e criminosos, por orgulho ou soberba, por violência criminosa.
Precisamos de saber cuidar, com amor e muita ternura da nossa vida e da vida de cada pessoa, mesmo das crianças que ainda estão no seio de suas mães, mas que já são pessoa humana. Se é crime matar uma criança depois de nascer e deitá-la para a lixeira embrulhada num saco plástico, não é menos crime matá-la, meses antes quando ainda está nos seio de sua mãe. E a mãe não pode afirmar que é dona do seu corpo para poder matar uma vida que está dentro dela, mas que não é dela, pois é uma pessoa humana, que merece todo o respeito e deve ser defendida com toda a alma e todo o coração. Saibamos com os Santos, os heróis da vida e os benfeitores da humanidade, lutar pela "cultura da vida", não deixando que se matem inocentes.
Como os Santos punhamo-nos sempre do lado da pessoa humana para a defender, para cuidar dela, esteja ela no seio da sua mãe, viva como criança ou como adolescente ou jovem, seja pessoa adulta ou já idosa, porventura doente e se consciência. Sejamos santos a cuidar das vidas humanas, candidatos a benfeitores da humanidade, verdadeiros defensores daquilo que é mais precioso, que é mais dom inviolável do Criador, a vida humana.
Tratem-la como uma flor bonita e bela, com encanto e suavidade, que merece a nossa dedicada atenção e o nosso amor fraterno. Saibamos dar vidas à vida. Saibamos colaborar com o Criador num amor desinteressado e dedicado pela vida de cada pessoa.
Ajudemos a construir uma sociedade com valores humanos, que são sempre valores éticos "cultivar" a vida, o bem, a vontade, a justiça, o amor.
Cuidemos a vida. Não deixemos que haja atentados a este dom inviolável do Criador. Saibamos defender os direitos dos mais fracos, mais doentes, mais débeis, mais expostos à tirania. Lutemos para que os próprios mais da comunicação social não atentam contra a vida, esse tesouro admirável. Lutemos para que os governos não façam leis que ajudem a matar e a destruir a vida de seres humanos. De qualquer cor, de qualquer religião, de qualquer credo político, a vida uma humana mercê respeito, atenção, amor. Lutemos pela vida contra a morte, o crime, a violência destruidora e criminosa.

Dário Pedroso SJ (Labat n.º 99, de Novembro de 2009)

O poder da Palavra de Deus transforma corações e sua história


Pelo Arcebispo Charles Chaput
(Síntese da 1.ª parte do ensinamento da Conferência Nacional Católica da Bíblia, em Junho de 2009, em Denver, Colorado, E.U.A.)

No livro "Uma nova canção para o Senhor", do Papa Bento XVI (então cardial Ratzinguer), partilhou a seguinte reflexão: "o facto das palavras de Deus serem aquilo que Deus disse ou está a dizer-nos , estarem acessíveis no mundo é verdadeiramente a notícia mais excitante de todas que eu posso imaginar. Mas muito poucos pensam na palavra de Deus como suficientemente excitante ou merecedora de notícia para ser procurada todos os dias. E por essa razão muitos de nós perdem a mais importante notícia de acontecimento da vida.
A experiência de Deus, o Criador do universo, a falar-nos através da sua Palavra. A Palavra de Deus é tão necessária para a renovação, na nossa vida pessoal e na cultura à nossa volta. Ao longo dos séculos, quando o povo de Deus se desviava d'Ele, a renovação era necessária. De tempos a tempos, na história do povo escolhido e da Igreja de Deus, a renovação veio como sobre a recuperação da Palavra de Deus. A Palavra de Deus tem o poder para transformar corações e também a história. E ao recordarmos esses períodos de renovação na história da salvação podemos aprender importantes lições para os nossos próprios dias.

A renovação do povo de Deus pela recuperação da Palavra de Deus

No Antigo Testamento o mais importante exemplo dramático da renovação da Palavra de Deus é a história de Josias, que podemos encontrar no final do 2.º livro dos Reis ou 2.º de Crónicas. A história de Josias é a história da renovação do povo de Deus através da recuperação da Palavra de Deus, num tempo no qual os líderes e a maioria do povo de Deus tinha assimilado os piores elementos da cultura pagã que os rodeava.

Para renovar a Igreja e o mundo temos que começar por nós próprios

Josias tinha tudo contra si, uma cultura que tinha bebido, por quase duas gerações, o pior da cultura pagã, uma família que estava longe do Senhor, uma imensa responsabilidade e um poder limitadíssimo, entregue a ele numa idade tão jovem.
As coisas tinham-se tornado tão perversas que Israel tinha perdido completamente a Palavra de Deus,
esta cópia foi encontrada num templo praticamente abandonado. Restaurou o templo e a sua oração e pela sua liderança a separação entre Deus e o seu povo foi curada.
A renovação acontece porque Jesus recuperou a Palavra de Deus e tornou-a viável para todos, como dizem as escrituras ele leu as escrituras a todo o povo, adultos e crianças" (2Rs 23, 2).
Precisamos de nos recordar da lição do testemunho de Josias, isto é, precisamos de escutar a Palavra de Deus, não apenas um dia na semana, mas todos os dias, até que ensope profundamente a nossa alma. Isto foi o que Josias fez, e qualquer renovamento pessoal ou eclesial requer que cada um de nós recupere a prática diária de rezar e escutar a Palavra de Deus.
Outra lição chave a reter de Josias é a necessidade de esperança no meio da escuridão. A cultura dos dias de Josias tinha-se capitulado às piores formas de paganismo. A sua perseguição pessoal de santidade voou para o rosto da fraqueza da sua própria família.
O próprio templo de Jerusalém tinha sido convertido num santuário pagão e toda a sua profanidade durou mais do que uma geração. O deus de Israel foi tão completamente abandonado que o livro do Torah se perdeu. Por outras palavras, Josias recusou desesperar-se face à avassaladora tarefa de reformar o povo de Deus. Em vez disso colocou a sua confiança no Senhor e lutou contra as probabilidades.
Deste modo o antigo testamento pode dizer que "a
lembrança de Josias é mistura de incenso, preparado pela arte do perfumista; é como o mel, que é doce em todas as bocas, ou a música num banquete" (Eclo 49, 1). A doçura do mel é tipicamente comparada com a palavra de Deus como é visto no salmo 19,10. Mas desde que Josias embebeu a palavra de Deus tão profundamente no seu coração, a sua memória retém o sabor da doçura da Palavra de Deus. As nossas vidas também devem ser infundidas com a doçe fragância da Palavra de Deusa e a esperança brilhante que nos é trazida no meio dos nossos tempos mais escuros!

Labat n. 99, de Novembro de 2009