23 fevereiro, 2019

A "transparência" no centro do terceiro dia do Encontro no Vaticano sobre menores

 
O Papa Francisco em oração  (ANSA)
 
Durante a oração inicial deste sábado foi lida a experiência de um abusado: “Estou cansado e exausto, é como se se escondessem atrás dos seus muros, a sua dignidade, os seus cargos que eu não entendo. Dói-me porque fui abusado, porque não dizem a verdade, e porque aqueles que deveriam ser ministros da verdade e da luz estão escondidos nas trevas".
 
Silvonei José- Cidade do Vaticano

A "transparência" é o tema central do terceiro dia do Encontro no Vaticano sobre "A proteção dos menores na Igreja" (21-24 fevereiro). Os temas dos dois primeiros dias foram: responsabilidade e accountability (prestar conta). 

O fruto da luz consiste na justiça e na verdade

Também na manhã deste sábado os trabalhos tiveram início na Sala Nova do Sínodo, na presença do Papa, com a oração de abertura. Depois do hino "Veni, Creator Spiritus", foi lida uma passagem da Carta de São Paulo aos Efésios (5: 1-11) que exorta a caminhar na caridade:

A imoralidade sexual e qualquer espécie de impureza ou cobiça nem sequer sejam mencionadas entre vós, como convém aos santos. Nada de palavrões ou conversas tolas, nem­ de piadas de mau gosto: são coisas incon­venientes; entregai-vos, antes, à ação de graças. Pois, ficai bem certos: nenhum libertino ou impuro ou ganancioso – que é um idólatra – tem herança no reino de Cristo e de Deus. Que ninguém vos iluda com palavras fúteis:­ é isto que atrai a ira de Deus sobre os rebeldes. Não sejais cúmplices destes. Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor.  Procedei como filhos da luz. E o fruto da luz é toda a espécie de bondade de justiça e de ver­dade. Discerni o que agrada ao Senhor e não tomeis parte nas obras estéreis das tre­vas, mas, pelo contrário, denunciai-as. 

Um abusado: ministros da luz escondidos nas trevas
  Como ocorreu nos dias anteriores, de seguida procedeu-se à leitura da experiência de um abusado:

"Eu sinto-me como um mendigo nos portões do castelo. Um mendigo da verdade, da justiça, da luz e tudo o que eu obtenho é o silêncio e pouquíssima informação, que eu tenho que extrapolar. Estou cansado e exausto, é como se se escondessem atrás dos seus muros, a sua dignidade, os seus cargos que eu não entendo. Dói-me porque fui abusado, porque não dizem a verdade e porque aqueles que deveriam ser ministros da verdade e da luz estão escondidos nas trevas". 

"Salvai-nos da tentação de negar os crimes"
 
Um longo silêncio precedeu a oração final:

"Deus Santo, vós nos chamastes à santidade e nos enviastes aos homens como testemunhas da vossa verdade. Vós nos Iluminastes com a luz do Evangelho e quisestes que vivessemos como filhos da luz. Nós Vos pedimos: dai-nos coragem para dizer a verdade e a liberdade para proclamar a nossa responsabilidade. Salvai-nos da tentação de negar os crimes e esconder a injustiça. Dai-nos a força para começar tudo de novo e de não desistir quando o pecado e a culpa obscurecem a luz do Evangelho. Fortalecei a nossa confiança no Vosso Filho, que é o único caminho, a verdade e a vida. O Vosso nome seja louvado por toda a eternidade". 

Três discursos e liturgia penitencial
 

O programa de hoje: dois discursos pela manhã. O primeiro foi de uma religiosa nigeriana, Ir. Verónica Openibo, superiora geral da Sociedade do Santo Menino Jesus, sobre o tema "Estar disponíveis: enviados ao mundo". O segundo foi do cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, presidente da Conferência Episcopal Alemã, que refletiu sobre o tema "Uma comunidade de fiéis transparente". O terceiro discurso, no período da tarde: a jornalista mexicana Valentina Alazraki fala sobre o tema "Comunicação: para todas as pessoas". Às 17h30, será realizada na Sala Regia a Liturgia Penitencial. Amanhã de manhã, às 9h30, o encontro termina com a missa celebrada também na Sala Regia.

VN

Papa: dar espaço ao gênio feminino na Igreja que é mãe

 
 Encontro de Proteção dos Menores na Igreja  (Vatican Media)
 
Após a conferência de Linda Ghisoni, na tarde de ontem (22/02) durante o encontro sobre a Proteção dos Menores no Vaticano, o Papa Francisco dirigiu algumas palavras aos presentes: não se trata de dar mais cargos à mulher na Igreja, mas de integrar no nosso pensamento a mulher como figura da Igreja 
 
Cidade do Vaticano

Ontem (22/02) foi realizado o segundo dia do encontro sobre a Proteção dos Menores no Vaticano. Depois da conferência de Linda Ghisoni, subsecretária na seção de Leigos Fiéis do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, o Papa Francisco tomou a palavra para confirmar um conceito que leva consigo no coração: a importância da mulher na Igreja, que é esposa e mãe de todos os seus filhos.
Ouça e compartilhe 
 Ouvindo a doutora Ghisoni ouvi a Igreja falar de si mesma. Ou seja, todos nós falamos sobre a Igreja. Em todos os discursos. Mas desta vez era a própria Igreja que falava. Não é apenas uma questão de estilo: o gênio feminino que se espelha na Igreja, que é mulher. 

A mulher imagem da Igreja
 

Portanto o Pontífice quis explicar o passo necessário que deve ser realizado antes de tudo no pensamento e na mentalidade comum, mais do que nos fatos. Pedir a uma mulher que faça uma conferência sobre um tema tão complexo como os abusos, sublinhou, não é somente uma prática de “feminismo eclesiástico”, mas, antes de tudo é convidar a própria Igreja a falar de si e das suas feridas.

Convidar uma mulher para falar não é entrar na modalidade de um feminismo eclesiástico, porque no final todo feminismo termina por ser um “machismo” de saias. Não. Convidar uma mulher para falar sobre as feridas da Igreja é convidar a própria Igreja para falar de si mesma, das suas feridas. E creio que que este seja o passo que devemos dar com muita força. A mulher é a imagem da Igreja que é mulher, é esposa, é mãe. Um estilo. Sem este estilo falaremos do povo de Deus, mas como organização, talvez sindical, mas não como família nascida da mãe Igreja. 

Repensar a Igreja com as categorias da mulher
 
Entrar no mistério feminino da Igreja, segundo as palavras de Francisco, quer dizer compreender plenamente a dimensão da vida, ser partícipes do que acontece exatamente quando uma mãe dá à luz a um filho. Portanto não se trata apenas de dar cargos importantes para a mulher na Igreja, mas de repensar com as categorias e o estilo da mulher.

Não se trata de dar mais cargos à mulher dentro da Igreja – sim, isso é positivo, mas assim não se resolve o problema – trata-se de integrar a mulher como figura da Igreja no nosso pensamento. E pensar na  Igreja com as categorias de uma mulher.

VN

22 fevereiro, 2019

Briefing sobre o encontro a "Proteção dos menores na Igreja" no Instituto Patrístico Augustinianum


Briefing sobre o encontro a "Proteção dos menores na Igreja" no Instituto Patrístico Augustinianum

A denúncia às autoridades civis em casos de abusos, o caso do ex-cardeal estadunidense Theodore Edgar McCarrick, a sinodalidade, a responsabilidade do bispo e a proximidade às vítimas: estes são alguns dos temas no centro do briefing, desta sexta-feira, realizado no Instituto Patrístico Augustinianum, dedicado ao encontro sobre "A proteção dos menores na Igreja".
Barbara Castelli - Cidade do Vaticano
 
Depois da "terrível crise" que atingiu os Estados Unidos precisamente por causa das "omissões", "estamos comprometidos a denunciar sempre" os casos de abuso: "a transparência representa o nosso futuro, devemos enfrentar os nossos pecados, não procurar fazê-los desaparecer". O cardeal Seán Patrick O'Malley, arcebispo de Boston, presidente da Comissão para a Proteção dos Menores e membro do Conselho dos Cardeais, deixa claro que a colaboração com as autoridades civis é essencial para "enfrentar e lidar com a traição cometida contra crianças e adultos vulneráveis".

No segundo “briefing” dedicado ao Encontro sobre "A proteção dos menores na Igreja", no Instituto Patrístico Augustinianum, o cardeal assinala também que "no momento não há nada mais urgente para a Igreja que se unir para individuar o melhor modo para proteger os menores". 

As feridas da aldeia global

Na "nossa aldeia global", prossegue o capuchinho, "um facto que ocorre numa parte do mundo tem consequências para todos": por isso "devemos ajudar-nos e apoiar-nos uns aos outros para tornar a Igreja um lugar seguro para todos, especialmente para as crianças".

No que diz respeito à punição e ao abandono do ministério por parte de quem se mancha de crimes semelhantes, falou dom Charles J. Scicluna, arcebispo de Malta, secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé e membro da Comissão Organizadora. "Aqueles que podem ferir os jovens não devem ser deixados no ministério", disse ele. A punição pode ser proporcional, mas uma atitude prudente "é fundamental": "Eu não removo alguém do rebanho para puni-lo, mas para proteger o rebanho".
A Igreja deve ser “uma equipa”
O arcebispo de Malta evidenciou também o tema da colegialidade, porque a Igreja “é uma equipa” e ninguém deve ser deixado sozinho em situações de crise. O que está em andamento nas diferentes nuances culturais, é uma verdadeira “mudança de mentalidade”, afirmou o cardeal Blase Joseph Cupich, arcebispo de Chicago e membro do Comissão organizadora.

“Todos sairemos daqui mudados”, acrescentou ele, na consciência de que “devemos investir uns nos outros”. O purpurado agradeceu também as vítimas pela sua “coragem” e “testemunho’. “Todos nós”, prosseguiu, “queremos resultados concretos”, que os bispos sintam a “responsabilidade” de suas ações. 

Uma força tarefa para as pequenas realidades

O prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, tomou parte da coletiva com os jornalistas, junto com o presidente da Fundação Vaticana Joseph Ratzinger-Bento XVI, pe. Federico Lombardi,  moderador do encontro.

Ruffini ilustrou os muitos temas debatidos nas últimas 24 horas, em plenário e no âmbito dos círculos menores. Foi reiterada a importância de “procedimentos claros” a fim de favorecer “uma redução dos casos de abuso”, a relevância dos leigos, a possibilidade de criar uma “força tarefa” para ajudar as “Igrejas pequenas” e a promoção de uma “cultura da denúncia”.

Nos grupos de trabalho fdebateu- se sobre, como “evitar o fenómeno dos seminaristas errantes, excluídos de um seminário e acolhidos noutro”.

Por sua vez, o pe. Lombardi enfatizou a atmosfera do encontro, “serena, positiva, incluindo a gravidade do tema, a sua seriedade, e dor que isso comporta”. “Eu não sinto tensões na assembleia”, esclareceu. “Sinto um grande desejo de refletir juntos”.

VN

Entrevista sobre o livro ORANDO EM VERSO II






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Cardeal Gracias: bispos devem enfrentar colegialmente a crise dos abusos


Encontro sobre a "Proteção dos menores na Igreja" prosseguirá até domingo, 24 de fevereiro   (Vatican Media)

O segundo dia de trabalhos do Encontro sobre a "Proteção dos menores na Igreja" trata sobretudo da “prestação de contas”, discutindo as soluções a serem adotadas de acordo com o Direito Canónico para avaliar os casos em que os pastores falharam na sua responsabilidade e agiram com negligência. O primeiro relator do dia foi o arcebispo de Bombay, Cardeal Oswald Gracias 

Raimundo de Lima - Cidade do Vaticano 

Prossegue na Sala Nova do Sínodo, no Vaticano, esta sexta-feira (22/02), no seu segundo dia de atividades, o Encontro sobre a proteção dos menores na Igreja, que se realizará até este domingo, 24 de fevereiro.

Este segundo dia de trabalhos com os presidentes das Conferências episcopais do mundo inteiro trata sobretudo da “prestação de contas”, discutindo as soluções a serem adotadas de acordo com o Direito Canónico para avaliar os casos em que os pastores falharam na sua responsabilidade e agiram com negligência.

O primeiro relator do dia foi o arcebispo de Bombay, na Índia, cardeal Oswald Gracias, cuja exposição teve como título Accountability (prestação de contas) numa Igreja Colegial e Sinodal.

Já em sua introdução o purpurado indiano ressaltou que a experiência de abusos sexuais presente em algumas partes do mundo não é um fenómeno limitado e que a Igreja deve assumir uma ótica honesta, fazer discernimentos rigorosos e agir de modo decisivo para impedir que se verifiquem abusos no futuro, fazendo o possível para favorecer a recuperação das vítimas. 

Esforço do Papa e da Igreja para enfrentar a crise

O cardeal Gracias observou que a importância e o alcance universal deste desafio levaram o Papa Francisco a convocar este encontro, ressaltando o esforço do Pontífice e da Igreja para enfrentar essa crise.

Com a ajuda de Deus, disse, será possível modelar e definir o modo em que a Igreja inteira, a nível regional, nacional, diocesano local e até mesmo paroquial, assumirá a tarefa de enfrentar os abusos sexuais internamente.
“Portanto, a sinodalidade pode ser verdadeiramente vivida incorporando todas as decisões e as medidas derivantes de cada um destes diferentes níveis, tendo bases vinculadoras.”
O arcebispo de Bombay acrescentou que isso inclui o envolvimento dos leigos, homens e mulheres. Enquadrando tudo isso numa perspectiva pessoal, prosseguiu:

“Nenhum bispo deveria dizer a si mesmo: ‘enfrento este problema e desafio-os sozinho’. Porque pertencemos ao colégio dos bispos, em união com o Santo Padre, partilhamos accountability (a prestação de contas) e responsabilidade. A colegialidade é um contexto essencial para enfrentar as feridas de abuso infligidas às vítimas e à Igreja em geral. Nós bispos precisamos de voltar mais vezes ao ensinamento do Concílio Vaticano II para nos encontrarmos na mais ampla missão e ministério da Igreja.”

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O purpurado indiano disse ver a esse propósito uma ampla margem de ulteriores progressos no âmbito dessa colegialidade. Talvez se possa progredir, conseguindo esclarecer alguns pontos, entre os quais, destacou que não se pode ignorar que na Igreja tivemos dificuldades em enfrentar a questão do abuso de modo justo; estreitamente ligado a este ponto se encontra a vontade de admitir pessoalmente os erros e pedir ajuda.

O cardeal Gracias se disse convencido de que não existem alternativas reais à colegialidade e à sinodalidade, resumindo o desafio enfrentado juntos. 

O desafio dos abusos sexuais na Igreja

O abuso sexual de menores e adultos na Igreja revela uma complexa rede de fatores interligados entre os quais: psicopatologia, decisões morais pecaminosas, ambientes sociais que permitem o abuso, respostas institucionais e pastorais muitas vezes inadequadas ou claramente danosas ou falta de respostas.

O abuso perpetrado por clérigos, acrescentou (bispos, sacerdotes, diáconos) e por outros que servem na Igreja (por exemplo professores, catequistas, treinadores) traduzem-se em danos incalculáveis quer diretos, quer indiretos. 

Justiça

Embora o abuso sexual seja muitas coisas, entre as quais violação e traição da confiança, na sua raiz é um ato de grave injustiça. As vítimas falam do seu sentimento de terem sido injustamente violadas. “Uma obrigação fundamental que diz respeito a todos nós, individualmente e colegialmente, é dar justiça àqueles que foram violados.” 

Recuperação

Além de defender a justiça, observou o cardeal, uma Igreja colegial representa a recuperação. “Certamente, essa recuperação deve alcançar as vítimas dos abusos. Deve também estender-se às pessoas atingidas, incluído as comunidades cuja confiança foi traída ou duramente colocada à prova.

“A primeira mensagem, dirigida em particular às vítimas, é uma solidariedade respeitosa e o reconhecimento honesto da sua dor e do seu sofrimento. Embora isto pareça óbvio, nem sempre se verificou. Ignorar ou minimizar aquilo que as vítimas experimentaram exaspera-lhes a dor e retarda a sua recuperação. No seio de uma Igreja colegial podemos unir-nos na consideração e na compaixão para alcançar a compreensão.” 

Peregrinação

Tomando a imagem de povo peregrino de Deus, o purpurado ressaltou que esta condição significa que somos uma comunidade continuamente chamada ao arrependimento e ao discernimento. “Devemos arrepender-nos e fazê-lo colegialmente, porque falimos ao longo do caminho. Devemos procurar o perdão”, enfatizou.

“Há muito a ser feito. Com os desdobramentos da crise dos abusos, sabemos que não existe uma solução fácil ou rápida. Estamos sintonizados para seguir em frente, passo a passo e juntos. Isto requer discernimento.”

Para assumir esta colegialidade, a fim de enfrentar a questão da prestação de contas e responsabilidade, o cardeal indiano propôs na sua conclusão, reivindicar a nossa identidade no colégio apostólico unido ao Sucessor de Pedro, e fazê-lo com humildade e franqueza; invocar coragem e audácia, porque o percurso não está traçado com grande precisão e exatidão; abraçar o caminho do discernimento prático, porque queremos realizar aquilo que Deus quer de nós nas circunstâncias concretas da nossa vida; e ser dispostos a pagar o preço de seguir a vontade de Deus em circunstâncias incertas e dolorosas.

VN

21 fevereiro, 2019

Papa Francisco: escutemos o grito dos pequenos que pedem justiça



O Papa Francisco abriu os trabalhos do encontro sobre "A proteção dos menores na Igreja" que começou nesta quinta-feira (21), no Vaticano, e vai até domingo. A introdução do Pontífice aconteceu logo depois da oração inicial, quando desejou "não simples e evidentes condenações, mas medidas concretas e eficazes a serem realizadas".

Andressa Collet – Cidade do Vaticano 

No início da manhã desta quinta-feira (21), o Papa Francisco introduziu os trabalhos do primeiro dia do encontro inédito sobre a proteção dos menores dentro da Igreja. A conferência reúne, pela primeira vez, os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo no Vaticano para abordar o tema.

O Papa começou o encontro afirmando o seu forte desejo de responsabilidade em interpelar Patriarcas, Cardeais, Arcebispos, Bispos, Superiores Religiosos e Responsáveis “diante da chaga dos abusos sexuais perpetrados por homens da Igreja em detrimento dos menores”. Todos juntos e “com a docilidade” da condução do Espírito Santo, “escutemos o grito dos pequenos que pedem justiça”.
“ O santo Povo de Deus nos vê e espera de nós não simples mas evidentes condenações, 

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Responsabilidade pastoral e eclesial

O Pontífice pediu que o encontro tivesse a incumbência do “peso da responsabilidade pastoral e eclesial que nos obriga a discutir juntos, de maneira sinodal, sincera e aprofundada sobre como enfrentar esse mal que aflige a Igreja e a humanidade. O santo Povo de Deus nos vê e espera de nós não simples e evidentes condenações, mas medidas concretas e eficazes a serem realizadas. São necessárias medidas concretas”, acrescentou Francisco.

O Papa enalteceu, então, que o percurso de todos através deste encontro, no Vaticano, começa “armados da fé e do espírito de máxima parresia, de coragem e concretude”.

Como subsídio, disse Francisco, “permito-me partilhar convosco alguns importantes critérios, formulados pelas diversas Comissões e Conferências Episcopais que chegaram até nós. São orientações para ajudar a nossa reflexão que serão entregues a vós. São um simples ponto de partida que veio de vós e volta para vós”. 

Transformar o mal em consciência e purificação

O Papa Francisco, então, agradeceu a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, a Congregação para a Doutrina da Fé e os membros da Comissão Organizadora pelo “excelente trabalho desenvolvido com grande empenho em preparar este encontro”. E o Pontífice finalizou:
“ Peço ao Espírito Santo para nos sustentar nestes dias e de ajudar-nos a transformar este mal numa oportunidade de consciência e de purificação. A Virgem Maria nos ilumine para procurar curar as graves feridas que o escândalo da pedofilia causou tanto nos pequenos como nos crentes. ”
Ouvir as vozes das vítimas

Os trabalhos do encontro iniciaram com uma oração, durante a qual alguns testemunhos de vítimas foram partilhados – de quem não pôde falar ou foi silenciado. Os presentes na conferência elevaram as próprias orações para que cada um pudesse ouvir aqueles que “foram violados e feridos, maltratados e abusados”, reconhecendo “as feridas do povo para que seja feita justiça”.

“Não consentir que os nossos fracassos”, foi a oração ao Senhor, “façam os homens perderem a fé em ti e no teu Evangelho”. Um longo e denso silêncio seguiu a uma das experiências que foram lidas:

“Ninguém me escutava; nem os meus pais, nem os meus amigos, nem depois as autoridades eclesiásticas. Não me escutavam e nem mesmo o meu choro. E eu questiono: porquê? E questiono-me, porque Deus não me escutou?”

VN