04 março, 2017

Papa: música sacra deve dar a beleza de Deus, não a visões nostálgicas


(RV) O Papa Francisco recebeu em audiência no Vaticano, neste sábado (04/03), cerca de 400 participantes da Conferência internacional sobre “Música e Igreja: culto e cultura, 50 anos depois da Musicam Sacram”.

A conferência quis aprofundar, numa óptica interdisciplinar e ecuménica, a relação actual entre música sacra e a cultura contemporânea, entre o repertório musical adoptado e utilizado pela comunidade cristã e as prevalecentes tendências musicais.

O primeiro documento do Concílio Vaticano II – observou Francisco no seu discurso – foi a Sacrosanctum Concilium, sobre a liturgia, da qual a ‘Musicam Sacram’ é uma das Instruções. E, citando, a introdução deste documento Francisco reiterou a importância da participação dos fiéis na liturgia:

"A acção litúrgica reveste-se de uma forma mais nobre quando é celebrada com o canto, com os ministros de cada grau desenvolvendo a sua função, e com a participação do povo. Desta forma, de facto, a celebração adquire uma expressão mais alegre, o mistério da sagrada Liturgia e a sua natureza hierárquica e comunitária, são manifestados mais claramente, a unidade dos corações é feita mais profunda pela unidade das vozes, os corações se elevam mais facilmente para coisas celestes pelo esplendor das coisas sagradas, e toda a celebração prefigura mais claramente a liturgia que se realiza na Jerusalém celeste”.

Seguindo as indicações do Concílio – prosseguiu Francisco – o documento destaca a importância da participação “activa, consciente e plena” de toda a assembleia dos fiéis, ressaltando que a "verdadeira solenidade da acção litúrgica não depende tanto da forma mais rica do canto e do aspecto grandioso das cerimónias, mas antes do modo digno e religioso da celebração.

A participação activa e consciente consiste, portanto, em saber entrar profundamente neste mistério, em sabê-lo contemplar, adorar e acolher.

Daí, a dupla missão que a Igreja é chamada a exercer, particularmente com os que, em várias capacidades, trabalham neste sector, explicou Francisco:

“Por um lado, salvaguardar e valorizar o rico e multiforme património herdado do passado, utilizando-o com equilíbrio no presente e evitando o risco de uma visão nostálgica ou "arqueológica"; por outro lado, é necessário fazer com que a música sacra e o canto litúrgico sejam plenamente "inculturados" nas linguagens artísticas e musicais da atualidade, ou seja, devem saber incarnar e traduzir a Palavra de Deus em cantos, sons, harmonias que façam vibrar o coração dos nossos contemporâneos, criando também um clima emotivo oportuno, capaz de alimentar a fé e suscitar o acolhimento e a plena participação no mistério que se celebra”.

O encontro com a modernidade e a introdução das línguas faladas na Liturgia criou muitos problemas – observou Francisco – e por isso os vários protagonistas neste âmbito (músicos e compositores, maestros, membros dos grupos corais e animadores da liturgia), podem dar uma preciosa contribuição à renovação qualitativa da música sacra e do canto litúrgico. E para isso, disse o Papa a terminar, é preciso promover uma adequada formação musical, mesmo para os que se preparam à vida sacerdotal, em diálogo com as correntes musicais do nosso tempo, com as instâncias das diferentes áreas culturais, e em atitude ecuménica.

Que a Virgem Maria, que no Magnificat cantou a santidade misericordiosa de Deus, vos acompanhe, concluiu o Santo Padre, encorajando os presentes a nunca perder de vista o objectivo de ajudar a assembleia litúrgica e o povo de Deus a perceber e participar, com todos os sentidos, físicos e espirituais, o mistério de Deus.

E a todos Francisco pediu, por favor, para que rezemos por ele e concedeu a sua Bênção apostólica.

03 março, 2017

QUARESMA 2017 (2)

Prossigo a viagem pelo deserto da Quaresma.

Sempre ao encontro de Cristo em mim, para que o Espírito Santo me vá mostrando caminho no amor do Pai.

Mais uma pedra no caminho e sento-me.
Esta tem escrito: Ressentimento!

O “outro”, que embora eu não queira me segue na viagem, diz-me logo pressuroso: Levanta-te, sai dessa pedra! Tu que falas tanto no perdão, não tens obviamente nenhum ressentimento em ti!
Não ligo ao que ele diz e fico a pensar.

É verdade que falo muito do perdão, é verdade que o perdão é algo que muito desejo conseguir ter e dar, mas será que já não há mesmo nenhum ressentimento em mim?

Obrigo-me a percorrer a minha vida, nas coisas que mais me ofenderam, que mais me magoaram, e percebo que aqui e ali, o meu coração ainda estremece ao pensar em certos momentos, sobretudo em certas pessoas.
Percebo que ainda talvez não seja capaz de ter paz no coração quando penso nessas pessoas.
Julgo que já lhes perdoei, mas ainda guardo esse “amargo” que no fundo é um ressentimento.

Com todo o amor ouço a voz do Espírito Santo no meu coração a dizer-me: Não te apoquentes. A vontade inscrita no teu coração é perdoar e é nessa vontade que vais caminhando. Reza ainda mais por aqueles que te ofenderam e por aqueles que tu ofendeste.

Ah, Senhor, obrigado por me teres feito sentar nesta pedra do ressentimento, da qual me queres levantar para prosseguir caminho.

Ajuda-me a perceber e a viver que só o amor aos outros, sempre, é a Tua única vontade.


Monte Real, 3 de Março de 2017
Joaquim Mexia Alves
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Papa Francisco: verdadeiro jejum é ajudar os outros



(RV) O verdadeiro jejum, agradável a Deus, foi o tema da homilia do Papa Francisco na missa celebrada manhã desta sexta-feira (03/03), na Capela da Casa Santa Marta.

As leituras do dia falam do jejum, isto é – explica o Papa – “da penitência a que somos convidados a fazer no tempo da Quaresma” para aproximar-nos ao Senhor. A Deus agrada “o coração penitente” – diz o Salmo – “o coração que se sente pecador e sabe ser pecador”.

Na primeira leitura – tirada do Livro do Profeta Isaías – Deus repreende a falsa religiosidade dos hipócritas que jejuam enquanto cuidam dos próprios negócios, oprimem os operários e brigam “ferindo com punhos iníquos”.

Por um lado fazem penitência e por outro cometem injustiças, fazendo “negócios sujos”. O Senhor, ao contrário, pede um jejum verdadeiro, atento ao próximo:

“O outro é o jejum “hipócrita” – é a palavra que Jesus tanto usa – é um jejum para se mostrar ou para sentir-se justo, mas ao mesmo tempo cometem injustiças, não são justos, exploram as pessoas. “Mas eu sou generoso, farei uma bela oferta à Igreja” – 'Mas me diga, tu pagas o justo às tuas domésticas? Paga teus funcionários sem assinar a carteira? Ou como quer a lei, para que possam dar de comer aos seus filhos?’”.

O Papa Francisco fala de um caso ocorrido logo após a II Guerra Mundial com o Padre jesuíta Padre Arrupe, quando era missionário no Japão. Um rico homem de negócios fez a ele uma doação para actividades de evangelização, mas o acompanhava um fotógrafo e um jornalista. O envelope continha somente 10 dólares:

“Nós também fazemos o mesmo quando não pagamos o justo à nossa gente. Pegamos de nossas penitências, de nossos gestos, do jejum, da esmola, aceitamos uma propina: o suborno da vaidade, de se mostrar. Isso não é autenticidade, é hipocrisia. Por isso, quando Jesus diz ‘Quando vocês rezarem, entrem no seu quarto, fechem a porta, no escondido, quando derem esmola não faça soar a trombeta, quando jejuar não fiquem tristes. É o mesmo que dizer: Por favor, quando vocês fizerem uma boa obra não aceitem propina desta boa obra, é somente para o Pai.”

O Papa citou o Profeta Isaías, quando o Senhor fala aos hipócritas sobre o jejum verdadeiro. Palavras significativas também “para os nossos dias”:

“Não é este o jejum que escolhi: quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, e romper todo tipo de sujeição? Não consiste talvez em dividir o pão com o faminto, deixar entrar em casa os pobres, os sem-abrigo, vestir o que está nu sem transcurar os próprios parentes? Pensemos nestas palavras, pensemos em nosso coração, como nós jejuamos, rezamos, damos esmolas. Nos ajudará também a pensar: o que sente um homem depois de um jantar, que custou 200 euros, por exemplo, e volta para casa, vê um faminto, não olha para ele e continua caminhando? Nos fará bem pensar nisso.” (BS/JE/MJ)

02 março, 2017

Francisco encontra párocos da diocese de Roma



(RV) O Papa Francisco encontrou-se, na manhã de hoje, quinta-feira, dia 2 de Março de 2017, na Basílica de S. João em Latrão, com os párocos da Diocese de Roma para uma meditação sobre o tema “o progresso da fé na vida do sacerdote”. Para nós sacerdotes, disse Francisco, quando não cresce, quando não é madura a nossa fé, acabamos por praticar tanto mal.

“Senhor aumenta a nossa fé (Lc 17,5). Esta questão disse o Santo Padre, surgiu de forma espontânea nos discípulos quando o Senhor lhes estava a falar da misericórdia e disse que devemos perdoar setenta vezes sete. Peçamos também nós, no inicio desta nossa conversação, para que o Senhor aumente a nossa fé. O imploramos com a simplicidade do Catequismo da Igreja que nos diz que para viver, crescer e perseverar na fé até ao fim, devemos alimentá-la com a Palavra de Deus; devemos pedir ao Senhor de amentar a nossa fé. É uma fé que deve operar por intermédio da caridade, ser sustentada pela esperança e ser radicada na fé da Igreja.

Francisco, desenvolve assim a sua meditação apoiando-se naquilo que ele considera ser “três pontos fixos: a memória, a esperança e o discernimento. A memória, observou, como ensina o Catecismo da Igreja, está radicada na fé da Igreja, na fé dos nossos pais; a esperança é quanto nos sustenta na fé; o discernimento do momento o temos em consideração quando somos chamados a agir para por em prática aquela fé que opera por intermédio da acção da caridade.

«Tenho uma promessa – é sempre importante recordar a promessa do Senhor que me colocou no caminho; estou em caminho- tenho esperança, a esperança me indica o horizonte, me guia, é a estrela mas também aquilo que me sustenta, é âncora ligada a Cristo. E no momento específico, em cada encruzilhada da estrada, devo discernir um bem concreto, o passo em diante a dar em direcção do amor e também a maneira como o Senhor quer que o faça. Fazer memória das graças passadas confere a nossa fé a solidez da encarnação; coloca-a no seio de uma história, a história da fé dos nossos pais, que “morreram na fé sem terem obtido os bens prometidos, mas os viram e os saudaram de longe”. E nós, rodeados pela multidão de testemunhos, olhando para onde eles olham, teremos o olhar fixo em Jesus, Ele que é a origem da nossa fé e a leva ao seu cumprimento».

A esperança, por sua vez, observa o Papa, é aquela que abre a nossa fé às surpresas que Deus realiza na nossa vida. O nosso Deus é sempre maior de tudo quanto podemos pensar e imaginar sobre Ele, daquilo que lhe pertence e do seu modo de agir na história. Por conseguinte a abertura à esperança confere a nossa fé frescura e horizonte: aquela abertura que nos leva a ver a espoliação de Jesus o qual diante da alegria que lhe era colocada diante de si, Se submeteu à Cruz, desprezando a deshonra  e sentar-se a direita do Senhor transfigurado.

Finalmente o discernimento, que disse Francisco, é quanto torna concreta a nossa fé, tudo quanto torna operosa por meio da caridade, a nossa fé, aquilo que nos permite de dar testemunho crível: o discernimento do momento oportuno (kairos) é fundamentalmente rico de memória e de esperança: recordando com o amor, coloca o olhar com lucidez em tudo quanto nos orienta da melhor forma para a Promessa. E o que nos orienta da melhor forma em direcção à Promessa, é certamente, disse o Pontífice, sempre a cruz: aquele despojar-me da minha vontade, aquele drama interior do seja feito não como quero eu, mas como queres Tu, que nos coloca nas mãos do Pai e faz com que seja Ele a guiar a nossa vida.

Mediante estes três pontos fixos, Francisco desenvolve toda a reflexão sobre o processo do crescimento da fé na vida do sacerdote e o desafio  do discernimento pastoral no mundo de hoje tendo como ponto de referência a experiência de fé do Apostolo Pedro.

Francisco: Quaresma, tempo de dizer não à asfixia do Espírito




(RV) O  Papa Francisco celebrou a Missa, na tarde desta Quarta-feira de Cinzas (01/03), na Basílica de Santa Sabina, no Aventino, em Roma.

O Santo Padre iniciou a homilia com uma passagem do Profeta Joel: «Voltai-vos para mim de todo o coração, e convertei-vos ao Senhor».

Este é o grito com o qual o profeta se dirige ao povo em nome do Senhor; ninguém podia sentir-se excluído: «Chamem os idosos, reúnam os jovens e crianças de peito, (…) o esposo (…) e a esposa». Todo o povo fiel é convocado para se pôr a caminho e adorar o seu Deus, porque «Ele é piedade e compaixão, paciente e rico em misericórdia».

“Queremos também nós fazer ecoar este apelo, queremos voltar ao coração misericordioso do Pai. Neste tempo de graça que hoje iniciamos, fixemos mais uma vez o nosso olhar na sua misericórdia”, sublinhou Francisco.

Quaresma, vitória da misericórdia

A seguir, o Papa disse: “A Quaresma é um caminho que nos conduz para a vitória da misericórdia sobre tudo o que procura esmagar-nos ou reduzir-nos a qualquer coisa que não corresponda à dignidade de filhos de Deus. A Quaresma é a estrada da escravidão para a liberdade, do sofrimento para a alegria, da morte para a vida. O gesto das cinzas, com que nos colocamos a caminho, nos lembra a nossa condição original: fomos tirados da terra, somos feitos de pó. Sim, mas pó nas mãos amorosas de Deus, que soprou o seu espírito de vida sobre cada um de nós e quer continuar a soprar; quer continuar a dar-nos aquele sopro de vida que nos salva de outros tipos de sopro: a asfixia sufocante causada pelos nossos egoísmos, asfixia sufocante gerada por ambições mesquinhas e silenciosas indiferenças; asfixia que sufoca o espírito, estreita o horizonte e anestesia o palpitar do coração. O sopro da vida de Deus nos salva desta asfixia que apaga a nossa fé, resfria a nossa caridade e cancela a nossa esperança. Viver a Quaresma é ter anseio por este sopro de vida que o nosso Pai não cessa de nos oferecer na lama da nossa história”.

Para Francisco, o sopro de vida que vem de Deus “nos liberta daquela asfixia de que muitas vezes nem estamos conscientes, habituando-nos a «olhá-la como normal», apesar dos seus efeitos que se fazem sentir; parece-nos «normal», porque nos habituamos a respirar um ar em que a esperança é rarefeita, ar de tristeza e resignação, ar sufocante de pânico e hostilidade”.
Quaresma, tempo de dizer não

“A Quaresma é o tempo para dizer não. Não à asfixia do espírito pela poluição causada pela indiferença, pela negligência de pensar que a vida do outro não me diz respeito; por toda a tentativa de banalizar a vida, especialmente daqueles que carregam na sua própria carne o peso de tanta superficialidade. A Quaresma significa não à poluição intoxicante das palavras vazias e sem sentido, da crítica grosseira e superficial, das análises simplistas que não conseguem abraçar a complexidade dos problemas humanos, especialmente os problemas de quem mais sofre. A Quaresma é o tempo de dizer não; não à asfixia duma oração que nos tranquilize a consciência, duma esmola que nos deixa satisfeitos, dum jejum que nos faça sentir bem. A Quaresma é o tempo de dizer não à asfixia que nasce de intimismos que excluem, que querem chegar a Deus esquivando-se das chagas de Cristo presentes nas chagas dos seus irmãos: espiritualidades que reduzem a fé a culturas de gueto e exclusão.”

Quaresma, tempo de memória

O Papa disse ainda que “a Quaresma é tempo de memória. É o tempo para pensar e nos perguntar: Que seria de nós se Deus nos tivesse fechado as portas? Que seria de nós sem a sua misericórdia, que não se cansou de nos perdoar e sempre nos deu uma oportunidade para começar de novo? A Quaresma é o tempo para nos perguntarmos: Onde estaríamos nós sem a ajuda de tantos rostos silenciosos que nos estenderam a mão de mil modos e, com acções muito concretas, nos devolveram a esperança e ajudaram a recomeçar?”

“A Quaresma é o tempo para voltar a respirar, é o tempo para abrir o coração ao sopro do Único capaz de transformar o nosso pó em humanidade. É o tempo não tanto para rasgar as vestes frente ao mal que nos rodeia, mas sobretudo para dar espaço na nossa vida a todo o bem que podemos realizar, despojando-nos daquilo que nos isola, fecha e paralisa. A Quaresma é o tempo da compaixão para dizer com o salmista: «Dai-nos [Senhor] a alegria da Vossa salvação, sustentai-nos com um espírito generoso», a fim de proclamarmos com a nossa vida o Vosso louvor e que o nosso pó – pela força do Vosso sopro de vida – se transforme em «pó enamorado». (BS/MJ)

QUARESMA 2017 (1)

 
 
 
Começo a minha caminhada pelo deserto da Quaresma.

Vou devagar, não tenho pressa. Passo a passo para me poder encontrar, ou melhor, para deixar que o Espírito Santo me faça encontrar naquilo que sou realmente e sobretudo naquilo que desejava ser, segundo a vontade de Deus.

Uma pedra no caminho e sento-me.
A pedra tem escrito em toda a sua largura: mentira!

Uma voz estranha, incómoda, diz para eu me levantar e continuar a caminhar, porque nada tenho a ver com a mentira.
Pois, o inimigo passeia pelo deserto da minha Quaresma!

Afasto essa voz de mim, entro no meu coração e reflicto, medito, nessa pedra em que me sento.

Sim, não vejo grandes mentiras, mentiras que prejudiquem outros, mas vejo tantas outras, sem sentido e por vezes perniciosas até para mim.

Mentiras para me fazer melhor do que os outros, mentiras para me desculpar de tantos erros, mentiras ocasionais sobre coisas sem sentido, mentiras até a mim próprio, para tentar enganar a minha consciência.

Ah, Senhor, obrigado por me teres feito sentar nesta pedra da mentira, da qual me queres levantar para prosseguir caminho.

Ajuda-me a perceber e a viver que só a verdade, sempre, é a Tua única vontade.


Monte Real, 2 de Março de 2017
Joaquim Mexia Alves
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01 março, 2017

Leia aqui a Mensagem Quaresmal do Cardeal-Patriarca de Lisboa

Para vermos donde Deus nos vê
«E teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa… Apenas o teu Pai, que está presente em segredo…»

Uma Quaresma, irmãos, uma Quaresma para convertermos o olhar. Como é necessário, como é urgente. Nada menos do que isto, de facto. Ouvimo-lo a Jesus, falando da verdadeira esmola, da verdadeira oração e do verdadeiro jejum.
Da verdade de tudo, que só acontece sob o olhar de Deus, apenas o olhar de Deus. De Deus que vê o oculto, de Deus que está no segredo. Aí mesmo, onde residem as intenções e o essencial das vidas, nossas e alheias. Na nascente e na foz, no princípio e na finalidade do que se faz ou não se faz, bem como no porquê das coisas. O verdadeiro porquê.
Jesus ofereceu-se em cada cuidado prestado, inteiramente e porque sim. Não precisava de mais e nunca buscou plateia nem aplauso, bem pelo contrário. Porque as necessidades dos outros eram imediatamente as suas; como do próprio Deus, que nos cria a todos e nos reclama em cada um. O segredo de Jesus foi estar sempre com o Pai. Sendo um só com Ele, foi constantemente para todos.
Quando Jesus rezou – e Jesus rezava sempre, pois que nada fazia fora de Deus – era ao Pai que se dirigia, dia e noite, em espírito e verdade. Qualquer ostentação, “religiosa” que fosse, estaria a mais.
Quando jejuou – mesmo Ele, que também comia e bebia – era por lhe bastar como alimento o cumprimento da vontade do Pai, plena saciedade da alma.
Agora nós, que nos queremos seus discípulos e celebramos as Cinzas das nossas vaidades… Começando a Quaresma, propomo-nos ser também assim, muito mais assim, ou seja, vendo as coisas como Ele próprio as via e, pelo seu Espírito, nos ensina a vê-las. Porque ser cristão é substancialmente um outro modo de ver e o nosso batismo é propriamente uma iluminação. Não há nenhuma cura de cegueira nos Evangelhos que se resuma à incapacidade física. Nunca se trata de oftalmologia apenas, mas de soteriologia sempre.
Reduzimos liturgicamente a ornamentação. Como o devemos fazer no consumo de bens, para maior atenção e correspondência às necessidades dos outros. Mas, com tudo isto, vejamos como Jesus via e sintamos como Jesus sentia – o coração de Deus no coração do mundo.


Na sua Mensagem Quaresmal o Papa Francisco lembra a parábola do rico egoísta e gozador e do pobre Lázaro, a morrer de miséria. A Lázaro só Deus é que o via, recebendo-o logo no “seio de Abraão”, nome antigo do Paraíso que oferece. Não o via o rico, nem podia ver, com o olhar derramado sobre tantas púrpuras e linhos, mais iguarias sem fim. Por isso também não viu a Deus nem lhe reteve a Palavra, que requer silêncio para escutar e guardar. Guardar no oculto, saber no segredo e sóbrios do mais. Com o espírito inteiramente livre para Deus e o coração disponível para os outros.
Convertamos o olhar interior do desejo, purifiquemo-lo de mil concupiscências que nos aprisionam o espírito. Uma Quaresma pode não ser demais, quando a vida inteira corre o risco de ser de menos. Tragicamente de menos, para nós que nos adiamos e para os outros que nos esperam, se não coincidirmos com o olhar de Deus, que vê o que está oculto e debaixo de tanta aparência e distração. De Deus que aí mesmo nos espera, no reino da misericórdia e da justiça – e, só assim, da paz.Sem culpar ninguém para nos desculparmos a nós, olhemos um pouco em redor, pelas notícias que se propalam, as novidades que se anseiam, os comentários que se fazem e as culpas e desculpas que se distribuem à vez. Olhemos realmente para tudo isto e façamo-lo agora com “olhos de ver”. Tanto juízo apressado sobre o grande ou pequeno mundo, tanta distração do essencial e tão fraco critério habitualmente… Na precipitação com que vamos, na excitação que nos induzem, ficamos tão pela rama, vogamos tão longe do olhar de Deus. Do olhar de Deus sobre nós e os outros.
Dos olhos compassivos de Jesus, mesmo quando advertia, sempre para salvar. Como olhou para Natanael, ainda que este desprezasse quem quer que viesse de Nazaré. Como olhou para Levi, mesmo que este cobrasse para estrangeiros. Como olhou para Zaqueu, que também não gozava de grande consideração em Jericó. Como olhou para aquela mulher apanhada em adultério… Como olha agora para cada um de nós, que havemos de pôr a mão na consciência e aí mesmo encontrar o olhar de Deus, que vê o que está oculto. O olhar de Deus, tão íntimo, tão essencial, tão recriador. Como o daquele pai que rejubilou com o regresso do filho pródigo e o viu quando este ainda vinha longe.
Deixemos então que o Espirito divino, esse mesmo que Jesus compartilha com o Pai, nos purifique inteiramente, para coincidirmos mais no nosso íntimo e segredo com a própria intimidade divina, outro nome da misericórdia plena. Ser cristão é ser ungido pelo Espírito de Cristo. Sejamo-lo, pois, e tão feitos como ditos. Que esta Quaresma chegue para tal, num mundo tão cansado de esperar, mesmo quando ilude a esperança. Não a retardemos nós.


Em cada Quaresma fazemos uma renúncia diocesana em favor de necessidades mais prementes. Em 2016 juntámos cerca de duzentos e cinquenta mil euros para responder a várias urgências sócio-caritativas. Este ano a renúncia destina-se a obras no Seminário dos Olivais, onde se formam os futuros padres para o Patriarcado de Lisboa e para outras dioceses de Portugal, África e Índia, alguns gratuitamente. A manutenção e os custos deste inestimável serviço eclesial são consideráveis, ainda que feitos com muita contenção.
Precisamos agora de restaurar a parte do edifício que tem servido para a Conferência Episcopal Portuguesa, que sairá no próximo Verão. Assim poderemos cumprir a indicação da Congregação para o Clero que prevê um “tempo propedêutico”, sempre que possível em casa própria, como será o Seminário de Caparide, e um Seminário Maior onde se façam depois os estudos filosóficos, teológicos e pastorais.
Sei que posso contar com a sensibilidade e o carinho dos diocesanos de Lisboa para com os nossos Seminários. Também aí se aprende a ver o mundo com um olhar profundamente cristão e pastoral, sendo este o critério maior para certificar a vocação dos futuros padres. Mas só com a ajuda de muitos se poderá levar por diante tão grande tarefa, que aliás beneficia, além de Lisboa, tantas outras dioceses.
Confiemos em Deus que conhece por dentro a generosidade dos corações e sempre recompensa “a cem por um”!          

Sé Patriarcal, 1 de março de 2017

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Patriarcado de Lisboa

Padre Michelini: Exercícios Espirituais, tempo para parar




(RV) A Quaresma tem início este 1º de março com a celebração do rito da imposição das cinzas. O Papa, de 5 a 10 de março, participará com a Cúria na Casa do Divino Mestre, em Ariccia, nos tradicionais Exercícios Espirituais, este ano pregados pelo Padre franciscano Giulio Michelini, 53 anos, milanês, docente do Instituto Teológico de Assis. Mas, como ele recebeu o convite do Papa?

“Devo dizer a verdade que, imediatamente, a quem me apresentou a proposta – um dos colaboradores estreitos do Papa Francisco – eu reagi dizendo logo: “Bem, confio”. Conversei com quem me ajuda, a cada pouco me aconselho com o meu director espiritual, e ele me disse assim: “Olha, Padre Giulio, mas foste tu quem pediu?. E eu respondi: “Jamais faria isto!”. E depois me disse: “Fale como se falasse a um dos discípulos de Cristo, como tu fazes”. E isto me deixou sereno”.

O senhor é um especialista do evangelista Mateus e será exactamente a Paixão narrada por Mateus a inspirar as suas meditações...

“O Evangelho de Mateus é o Evangelho da Igreja, isto é, aquele que mais valoriza a figura de Pedro; não somente é o único Evangelho que utiliza a palavra ‘ecclesia’ – Igreja – duas vezes, mas é o Evangelho que mais fala de Pedro. E portanto me pareceu bonito estar diante de Pedro e falar com ele do Evangelho que é o primeiro Evangelho, ou chamado também de “Evangelho eclesial” da Igreja”.

Além disto, mais de uma vez o Papa fez referência à vocação de Mateus, que tanto influenciou a sua vida espiritual, nas suas escolhas: não é assim?

“E é de facto uma ideia importante, porque naquela vocação – como o Papa Francisco observou – há o olhar de misericórdia de Jesus. Ora, nós sabemos que o Evangelho de Mateus é o Evangelho da misericórdia. A palavra éleos – misericórdia – aparece mais vezes no Evangelho de Mateus do que nos outros Evangelhos. E portanto, mesmo se Lucas é aquele que, por exemplo, nos narra as parábolas da misericórdia, como aquelas do capítulo 15, a ovelha perdida, o filho pródigo, a moeda perdida, deve ser dito no entanto que Mateus insiste sobre isto e o Papa identificou-se com o olhar de Jesus que chama Pedro, porque foi chamado e foi usada de misericórdia para com ele”.

Estas são meditações oferecidas à Cúria e ao Papa. Recordemos que o tempo dos Exercícios Espirituais, ao menos como os havia pensado Santo Inácio de Loyola, é um tempo em que cada cristão deveria refazer-se. Neste início de Quaresma, o que nos poderia dizer a este respeito? Qual é a finalidade dos Exercícios Espirituais?

“O problema é justamente este, de que na nossa vida, às vezes, nós vamos em frente porque fazemos tantas coisas; talvez nos faça bem parar, quer durante o dia, quer em um tempo especial como a Quaresma, onde nos perguntamos: “Para onde estou a ir? O que estou a fazer? Por que estou a fazer? Estou a fazer bem? Quem me guia? É o Espírito que me guia? É o meu desejo de sucesso que me guia, do dinheiro? Como vivo os meus relacionamentos?”. Quem sabe poderíamos dizer: façamos a cada dia um balanço, uma verificação e a Quaresma, no fundo, é isto, porque paramos. Assim, eu proponho um jejum, em particular das coisas que às vezes nos distraem e que são, por exemplo, o bombardeio mediático, e sobre isto deveríamos estar muito atentos. Enquanto estávamos a fazer esta entrevista, chegaram para mim, acredito, cinco mensagens no whatsapp e agora sou obrigado a vê-las! Realmente, às vezes a quantidade de informações, mesmo banais, que nos chegam, são no fundo também perigosas. Portanto, esta é uma forma de pausa um pouco para recuperar e parar. Temos realmente necessidade disto, sobretudo neste tempo”.

(BS/AP/JE)

Papa Francisco: Audiência geral, na quarta-feiras das Cinzas


(RV) Hoje, quarta-feira, dia 1 de Março de 2017, Quarta-feira das cinzas, início do caminho quaresmal, dia da habitual audiência geral do Papa Francisco, que teve lugar às 10 horas de Roma, na Praça de S. Pedro repleta de fiéis e peregrinos provenientes de diversas partes da Itália e do mundo inteiro. Tema da catequese de hoje: a Quaresma como caminho da esperança.

Neste dia, disse Francisco, Quarta-feira das Cinzas, entramos no Tempo litúrgico da Quaresma. E já que estamos desenvolvendo o ciclo da catequese sobre a esperança cristã, hoje quero falar-vos da Quaresma como caminho da esperança.

De facto, observou o Santo Padre, a Quaresma foi instituída na Igreja como tempo de preparação para a Páscoa, e portanto todo o sentido deste período de quarenta dias tem no mistério pascal a sua fonte de luz e  ao qual está orientado.

«Podemos imaginar o Senhor Ressuscitado que nos chama a sair das nossas trevas e caminharmos em direcção à Ele, que é a Luz. A Quaresma é um período de penitência, também de mortificação, mas não um fim in si mesmo; é um fim finalizado a fazer-nos ressuscitar com Cristo, a renovar a nossa identidade baptismal, isto é, a renascer novamente “do alto”, do amor de Deus. Eis porque a Quaresma é por sua natureza, tempo de esperança».

Para entender melhor o significado de tudo isso, acrescenta o pontífice, devemos fazer referência à experiência fundamental do Êxodo povo de Israel, que Deus libertou da escravidão do Egipto, por meio de Moisés, e guiou durante quarenta anos no deserto até entrar na Terra da liberdade. Foi um período longo e conturbado, cheio de obstáculos, em que, muitas vezes, o povo se viu tentado a desistir e voltar para o Egipto. Mas venceu a esperança de alcançar a terra prometida.

De facto, todo o caminho, sublinha ainda o Papa, foi percorrido na esperança: a esperança de chegar a terra prometida, e neste sentido foi um autêntico êxodo, uma saída da escravidão para a liberdade. Cada passo, cada fadiga, cada queda e cada retomada, tudo tinha sentido só no seio do desígnio ( de salvação de Deus, que quer a vida e não a morte para o seu povo, a alegria e não a dor.

  é o seu êxodo. Para nos salvar, Jesus teve que se humilhar, fazendo-se obediente até à morte na Cruz, libertando-nos, assim, da escravidão do pecado. Desse modo, Jesus nos indica o caminho da nossa peregrinação pelo deserto da vida, um caminho exigente, mas cheio de esperança. Isto significa que a nossa salvação é certamente um dom, mas pois que se trata de uma história de amor, requer o nosso “sim” e a nossa participação como nos demonstra a nossa Mãe Maria e depois dela todos os santos

«A Quaresma vive desta dinâmica: Cristo nos precede com o seu êxodo, e nós atravessamos o deserto graças à Ele e  atrás d’Ele. Ele é tentado por nós e venceu o Tentador por nós, mas também nós devemos com Ele enfrentar as tentações e superá-las. Ele nos dá a água viva do seu Espírito e a nós cabe a tarefa de procurar beber da sua fonte, nos Sacramentos, na oração, na adoração; Ele é a luz que vence as trevas, é nós somos chamados a alimentar a pequena chama da luz que nos fora confiada no dia do nosso Baptismo. (…) Com o coração aberto para este horizonte, entramos na Quaresma, sentindo-nos parte do povo santo de Deus, iniciamos com alegria este caminho de esperança».

Após a pregação da catequese, o Papa Francisco saudou todos os presentes. Não faltou a habitual saudação aos peregrinos de língua oficial portuguesa presentes na Praça de S. Pedro: “Saúdo os peregrinos de língua portuguesa, particularmente os diversos grupos vindos de Portugal. Ao iniciar a Quaresma, faço votos de que a vossa peregrinação a Roma fortaleça em todos a esperança e consolide, no amor divino, os vínculos de cada um com a sua família, com a comunidade eclesial e com a sociedade. Que Nossa Senhora vos acompanhe e proteja”!