03 janeiro, 2017

Papa Francisco: carta aos bispos do mundo inteiro


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(RV) “Hoje, entre o nosso povo, infelizmente, ouve-se ainda a lamentação e o pranto de tantas mães, de tantas famílias, pela morte dos seus filhos, dos seus filhos inocentes”: é o que afirma o Papa Francisco na Carta enviada aos bispos do mundo inteiro por ocasião da Festa dos Santos Inocentes, celebrada na última quarta-feira, dia 28 de Dezembro do ano apenas transacto.

Hoje, disse Francisco na missiva, dia dos Santos Inocentes, enquanto continuam a ressoar nos nossos corações as palavras do anjo aos pastores «anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador» (Lc 2, 10-11), senti a necessidade de te escrever. Faz-nos bem ouvir uma vez mais este anúncio; ouvir dizer de novo que Deus está no meio do nosso povo. Esta certeza, que renovamos de ano para ano, é fonte da nossa alegria e da nossa esperança.

Como pastores, continua o Papa, fomos chamados para ajudar a fazer crescer esta alegria no meio do nosso povo. É-nos pedido que cuidemos desta alegria. Desejo, contigo, renovar o convite a que não nos deixemos roubar esta alegria, pois muitas vezes desiludidos – não sem razão – com a realidade, com a Igreja, ou mesmo desiludidos com nós próprios, sentimos a tentação de nos apegar a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera dos corações (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 83).

Entretanto, observa ainda o Santo Padre, a nosso malgrado, o Natal é acompanhado também pelo pranto. Os evangelistas não se permitiram mascarar a realidade para a tornar mais credível ou atraente; não se permitiram criar um fraseado «bonito», mas irreal; para eles, o Natal não era um refúgio imaginário onde esconder-se perante os desafios e as injustiças do seu tempo. Ao contrário, anunciam-nos o nascimento do Filho de Deus envolvido também numa tragédia de dor. No-lo apresenta com grande crueza o evangelista Mateus, citando o profeta Jeremias: «Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto; é Raquel que chora os seus filhos» (2, 18). É o gemido de dor das mães que choram a morte de seus filhos inocentes, causada pela tirania e desenfreada sede de poder de Herodes.

Um gemido que podemos continuar a ouvir também hoje, sublinha o Pontífice, que nos toca a alma e que não podemos nem queremos ignorar ou silenciar. Hoje, entre o nosso povo, infelizmente – e isto, disse o Papa, escrevo-o com profundo pesar –, ouve-se ainda a lamentação e o pranto de tantas mães, de tantas famílias, pela morte dos seus filhos, dos seus filhos inocentes.

Por conseguinte, sublinha ainda Francisco, contemplar o presépio é também contemplar este pranto, é também aprender a escutar o que acontece ao nosso redor e ter um coração sensível e aberto à dor do próximo, especialmente quando se trata de crianças, e é também ser capaz de reconhecer que ainda hoje se está a escrever este triste capítulo da história. Contemplar o presépio, isolando-o da vida que o circunda, seria fazer do Natal uma linda fábula que despertaria em nós bons sentimentos, mas privar-nos-ia da força criadora da Boa Nova que o Verbo Encarnado nos quer dar. E a tentação existe...

E o Papa pergunta-se: Pode-se, por ventura, viver a alegria cristã, voltando as costas a estas realidades? Pode-se realizar a alegria cristã, ignorando o gemido do irmão, das crianças?

Hoje, a exemplo de S. José, que, disse o Santo Padre, foi o primeiro a ser chamado a guardar a alegria da Salvação perante os crimes que estavam a acontecer ao seu redor, é pedido o mesmo também a nós, pastores: ser homens capazes de ouvir sem ser surdos à voz do Pai e, deste modo, poder ser mais sensíveis à realidade que nos rodeia. Hoje, tendo por modelo São José, somos convidados a não deixar que nos roubem a alegria; somos convidados a defendê-la dos Herodes dos nossos dias. E precisamos de coragem, como São José, para aceitar esta realidade, levantar-nos e meter-lhe mãos (cf. Mt 2, 20). A coragem para a proteger dos novos Herodes dos nossos dias, que malbaratam a inocência das nossas crianças. Uma inocência dilacerada sob o peso do trabalho ilegal e escravo, sob o peso da prostituição e da exploração. Inocência destruída pelas guerras e pela emigração forçada com a perda de tudo o que isso implica. Milhares de crianças nossas caíram nas mãos de bandidos, de máfias, de mercadores de morte cuja única coisa que fazem é malbaratar e explorar as suas necessidades.

Hoje, apenas como exemplo, 75 milhões de crianças – por causa das emergências e das crises prolongadas – tiveram de interromper a sua instrução. Em 2015, 68% da totalidade das pessoas objeto de tráfico sexual no mundo eram crianças. Por outro lado, um terço das crianças que tiveram de viver fora do seu país, fê-lo por deslocamento forçado. Vivemos num mundo onde quase metade das crianças que morrem com menos de 5 anos é por desnutrição. Calcula-se que, no ano de 2016, 150 milhões de crianças realizaram um trabalho infantil, muitas delas vivendo em condições de escravidão. Segundo o último relatório elaborado pela UNICEF, se a situação mundial não mudar, em 2030 serão 167 milhões as crianças que viverão em pobreza extrema, 69 milhões de crianças com menos de 5 anos morrerão entre 2016 e 2030, e 60 milhões de crianças não frequentarão a escolaridade básica.

Ouçamos então disse o Papa, o pranto e a lamentação destas crianças; ouçamos também o pranto e a lamentação da nossa mãe Igreja, que chora não apenas pela dor provocada aos seus filhos mais pequeninos, mas também porque conhece o pecado de alguns dos seus membros: o sofrimento, a história e a dor dos menores que foram abusados sexualmente por sacerdotes. Pecado que nos cobre de vergonha. Pessoas que tinham à sua responsabilidade o cuidado destas crianças, destruíram a sua dignidade. Deploramos isso profundamente e pedimos perdão. Solidarizamo-nos com a dor das vítimas e, por nossa vez, choramos o pecado: o pecado que aconteceu, o pecado de omissão de assistência, o pecado de esconder e negar, o pecado de abuso de poder. Também a Igreja chora amargamente este pecado dos seus filhos e pede perdão.

Hoje, recordando o dia dos Santos Inocentes, quero que renovemos o nosso empenho total para que tais atrocidades não voltem a acontecer entre nós. Revistamo-nos da coragem necessária para promover todos os meios necessários e proteger em tudo a vida das nossas crianças, para que tais crimes nunca mais se repitam. Assumamos, clara e lealmente, a determinação «tolerância zero» neste campo, disse o Santo Padre.


Texto integral

Querido irmão!

Hoje, dia dos Santos Inocentes, enquanto continuam a ressoar nos nossos corações as palavras do anjo aos pastores «anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador» (Lc 2, 10-11), senti necessidade de te escrever. Faz-nos bem ouvir uma vez mais este anúncio; ouvir dizer de novo que Deus está no meio do nosso povo. Esta certeza, que renovamos de ano para ano, é fonte da nossa alegria e da nossa esperança.

Nestes dias, podemos experimentar como a liturgia nos toma pela mão e conduz ao coração do Natal, introduzindo-nos no Mistério e levando-nos pouco a pouco à fonte da alegria cristã.

Como pastores, fomos chamados para ajudar a fazer crescer esta alegria no meio do nosso povo. É-nos pedido que cuidemos desta alegria. Desejo, contigo, renovar o convite a que não nos deixemos roubar esta alegria, pois muitas vezes desiludidos – não sem razão – com a realidade, com a Igreja, ou mesmo desiludidos com nós próprios, sentimos a tentação de nos apegar a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera dos corações (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 83).

A nosso malgrado, o Natal é acompanhado também pelo pranto. Os evangelistas não se permitiram mascarar a realidade para a tornar mais credível ou atraente; não se permitiram criar um fraseado «bonito», mas irreal; para eles, o Natal não era um refúgio imaginário onde esconder-se perante os desafios e injustiças do seu tempo. Ao contrário, anunciam-nos o nascimento do Filho de Deus envolvido também numa tragédia de dor. No-lo apresenta com grande crueza o evangelista Mateus, citando o profeta Jeremias: «Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto; é Raquel que chora os seus filhos» (2, 18). É o gemido de dor das mães que choram a morte de seus filhos inocentes, causada pela tirania e desenfreada sede de poder de Herodes.

Um gemido que podemos continuar a ouvir também hoje, que nos toca a alma e que não podemos nem queremos ignorar ou silenciar. Hoje, entre o nosso povo, infelizmente – escrevo-o com profundo pesar –, ouve-se ainda a lamentação e o pranto de tantas mães, de tantas famílias, pela morte dos seus filhos, dos seus filhos inocentes.

Contemplar o presépio é também contemplar este pranto, é também aprender a escutar o que acontece em redor e ter um coração sensível e aberto à dor do próximo, especialmente quando se trata de crianças, e é também ser capaz de reconhecer que ainda hoje se está a escrever este triste capítulo da história. Contemplar o presépio, isolando-o da vida que o circunda, seria fazer do Natal uma linda fábula que despertaria em nós bons sentimentos, mas privar-nos-ia da força criadora da Boa Nova que o Verbo Encarnado nos quer dar. E a tentação existe...

Pode-se viver a alegria cristã, voltando as costas a estas realidades? Pode-se realizar a alegria cristã, ignorando o gemido do irmão, das crianças?

O primeiro chamado a guardar a alegria da Salvação foi São José. Perante os crimes atrozes que estavam a acontecer, São José – exemplo de homem obediente e fiel – foi capaz de ouvir a voz de Deus e a missão que o Pai lhe confiava. E porque soube ouvir a voz de Deus e se deixou guiar pela sua vontade, tornou-se mais sensível àquilo que o rodeava e soube ler, com realismo, os acontecimentos.

Hoje é pedido o mesmo também a nós, pastores: ser homens capazes de ouvir sem ser surdos à voz do Pai e, deste modo, poder ser mais sensíveis à realidade que nos rodeia. Hoje, tendo por modelo São José, somos convidados a não deixar que nos roubem a alegria; somos convidados a defendê-la dos Herodes dos nossos dias. E precisamos de coragem, como São José, para aceitar esta realidade, levantar-nos e meter-lhe mãos (cf. Mt 2, 20). A coragem para a proteger dos novos Herodes dos nossos dias, que malbaratam a inocência das nossas crianças. Uma inocência dilacerada sob o peso do trabalho ilegal e escravo, sob o peso da prostituição e da exploração. Inocência destruída pelas guerras e pela emigração forçada com a perda de tudo o que isso implica. Milhares de crianças nossas caíram nas mãos de bandidos, de máfias, de mercadores de morte cuja única coisa que fazem é malbaratar e explorar as suas necessidades.

Hoje, apenas como exemplo, 75 milhões de crianças – por causa das emergências e das crises prolongadas – tiveram de interromper a sua instrução. Em 2015, 68% da totalidade das pessoas objeto de tráfico sexual no mundo eram crianças. Por outro lado, um terço das crianças que tiveram de viver fora do seu país, fê-lo por deslocamento forçado. Vivemos num mundo onde quase metade das crianças que morrem com menos de 5 anos é por desnutrição. Calcula-se que, no ano de 2016, 150 milhões de crianças realizaram um trabalho infantil, muitas delas vivendo em condições de escravidão. Segundo o último relatório elaborado pela UNICEF, se a situação mundial não mudar, em 2030 serão 167 milhões as crianças que viverão em pobreza extrema, 69 milhões de crianças com menos de 5 anos morrerão entre 2016 e 2030, e 60 milhões de crianças não frequentarão a escolaridade básica.

Ouçamos o pranto e a lamentação destas crianças; ouçamos também o pranto e a lamentação da nossa mãe Igreja, que chora não apenas pela dor provocada aos seus filhos mais pequeninos, mas também porque conhece o pecado de alguns dos seus membros: o sofrimento, a história e a dor dos menores que foram abusados sexualmente por sacerdotes. Pecado que nos cobre de vergonha. Pessoas que tinham à sua responsabilidade o cuidado destas crianças, destruíram a sua dignidade. Deploramos isso profundamente e pedimos perdão. Solidarizamo-nos com a dor das vítimas e, por nossa vez, choramos o pecado: o pecado que aconteceu, o pecado de omissão de assistência, o pecado de esconder e negar, o pecado de abuso de poder. Também a Igreja chora amargamente este pecado dos seus filhos e pede perdão. Hoje, recordando o dia dos Santos Inocentes, quero que renovemos o nosso empenho total para que tais atrocidades não voltem a acontecer entre nós. Revistamo-nos da coragem necessária para promover todos os meios necessários e proteger em tudo a vida das nossas crianças, para que tais crimes nunca mais se repitam. Assumamos, clara e lealmente, a determinação «tolerância zero» neste campo.

A alegria cristã não é uma alegria que se constrói à margem da realidade, ignorando-a ou fazendo de conta que não existe. A alegria cristã nasce duma chamada – a mesma que recebeu São José – para «tomar» e proteger a vida, especialmente a dos santos inocentes de hoje. O Natal é um tempo que nos desafia a guardar a vida e ajudá-la a nascer e crescer; a renovar-nos como pastores corajosos. Esta coragem que gera dinâmicas capazes de tomar consciência da realidade que estão a viver hoje muitas das nossas crianças e de trabalhar por lhes garantir as condições necessárias para que a sua dignidade de filhos de Deus seja não só respeitada, mas também e sobretudo defendida.

Não deixemos que lhes roubem a alegria. Não nos deixemos roubar a alegria, guardemo-la e ajudemo-la a crescer.

Façamos isto com a mesma fidelidade paterna de São José e deixando-nos guiar pela mão de Maria, a Mãe da ternura, para que não se endureça o nosso coração.

Com fraterna estima

Francisco

Vaticano, Festa dos Santos Inocentes, Mártires,

28 de dezembro de 2016

02 janeiro, 2017

Dom Tomasi: ouvir o Papa sobre a Síria




(RV) Prossegue o cessar-fogo na Síria depois do acordo que entrou em vigor nesta sexta-feira dia 30 de dezembro. Uma trégua muitas vezes invocada pelo Papa Francisco que se comprometeu pessoalmente a facilitar de toda maneira o fim das hostilidades no país e o respeito pelos direitos fundamentais das pessoas envolvidas no conflito que dura mais de 5 anos. 

Sobre as esperanças de paz na Síria e o papel do Papa e da Santa Sé, a nossa emissora entrevistou o Arcebispo Silvano Maria Tomasi, membro do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz. 

Dom Tomasi: “A paz que se prevê neste momento para a Síria é uma opção realmente oportuna, uma janela de oportunidade, ou seja, é um momento em que se pode tentar começar as negociações por uma paz estável no Oriente Médio. É um cessar-fogo frágil. Agora, a comunidade internacional deve fazer o possível para ajudar neste momento o diálogo e levar adiante uma negociação sólida, que constitua a base para um futuro mais sereno nesta parte do mundo. O problema é que nesses cinco anos foram mortas mais de 300 mil pessoas, causados seis milhões de deslocados internos e quatro milhões de refugiados nos países vizinhos como a Jordânia, Turquia e Líbano, sobretudo. Devemos realmente nos mover na direção de responsabilidade da parte da comunidade internacional, porque a guerra na Síria foi uma guerra feita pelos grandes poderes e grupos regionais no território. Esperamos que desta vez seja o momento oportuno. Que o passo dado, o de permitir a chegada de ajudas humanitárias e sobretudo o cessar-fogo, possam realmente iniciar uma solução estável”. 

O Papa Francisco disse várias vezes em relação à Síria, e não só, que não se pode falar de paz e depois com uma mão, debaixo do banco, passar armas para as partes em conflito. Existe sempre um interesse econômico perverso que alimenta as guerras...

Dom Tomasi: “Na raiz desta violência, que foi destruidora de um país que funcionava, existe a sede de poder. Quem vai dominar o Oriente Médio? Sunitas ou xiitas? A Rússia ou os Estados Unidos? Devemos fazer com que os interesses das grandes potências e dos grandes movimentos religiosos não se tornem força de morte para as pessoas e populações locais que se tornam simplesmente vítimas de ambições que não tem nada a ver com o seu futuro, com o futuro e a vida normal dessas famílias e pessoas. O Papa insiste na proteção dos civis e dos vulneráveis porque é a vida das pessoas comuns e são as famílias que nós encontramos pelas ruas de várias cidades do Oriente Médio que pagam o preço mais caro, com a morte de seus entes queridos, a fome e o exílio. Devemos realmente fazer com que a comunidade internacional retome a consciência de que não se pode brincar com a vida dos outros.”

Amanhã é o Dia Mundial da Paz. Neste 2016, que está se concluindo, a Igreja, a Santa Sé, facilitaram processos de paz: pensemos nas relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, pensemos na Colômbia. Qual é o papel específico que a Santa Sé pode desempenhar pela paz e a reconciliação?

Dom Tomasi: “A Santa Sé não é um poder econômico ou militar. Digo sempre que as alabardas da Guarda Suíça não podem deter as bombas modernas, especialmente as bombas atômicas. Devemos agradecer ao Senhor pelos passos positivos que foram dados neste ano que está se concluindo. A mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial de Oração pela Paz se concentra na não-violência ativa, ou seja, usar a não-violência como estratégia política que recolhe, depois de 50 anos de mensagens sobre a paz, um pouco do fruto deste caminho que foi percorrido. Fazer com que a família humana se conscientize que a solução dos problemas não está no uso de armas, mas no diálogo, na criação de encontros fraternos e na criação de pontes e não de muros.”

(MJ)

01 janeiro, 2017

Papa: Ângelus no Dia Mundial da Paz


(RV) Ás 12 horas locais de Roma, deste primeiro dia do novo ano 2017, o Santo Padre procedeu a celebração mariana do Ângelus na Praça de S. Pedro, hoje repleta de peregrinos e fiéis provenientes de diversas partes do mundo para assistir à esta cerimónia, neste dia especial de solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e dia mundial da paz.

Partindo do Evangelho deste domingo, Francisco concentrou a sua mensagem sobre a estreita relação que existe entre o “sim” de Maria, Mãe de Deus, e o mistério da encarnação, o nascimento em Belém do Menino Jesus que os nossos olhos contemplaram nestas festividades natalícias e os pastores adoraram como Filho de Deus, o Salvador, o Príncipe daquela Paz que celebramos neste dia 1 de Janeiro de 2017.

Deus, disse Francisco, pediu a Maria para ser não somente a Mãe do seu Filho Unigénito, mas de cooperar também com o próprio Filho na realização do plano da salvação, por forma a que através dela, serva humilde, cumpram-se as grandes obras da misericórdia divina. Daí que hoje, primeiro dia do novo Ano 2017, como os pastores de Belém, enquanto contemplamos, disse o Papa, a ícone do Menino deitado nos braços da sua Mãe, sejamos capazes de sentir crescer nos nossos corações, um sentido de imensa gratidão para com Aquela que deu ao mundo o Salvador: Obrigado, ó Santa Mãe do Filho de Deus Jesus! Obrigado pela tua humildade, pela tua fé, pela tua coragem! Rezai por nós, peregrinos no tempo, ajudai-nos a caminhar nas sendas da paz ! Ámen.

Após a recitação da oração mariana do Ângelus, Francisco, dirigiu-se mais uma vez aos presentes congregados na Praça de S. Pedro, recordando que o ano 2017 que estamos a iniciar hoje, só “será bom, na mediada em que cada um de nós, com a ajuda de Deus, procurará fazer o bem, dia após dia. Só assim acrescentou o Papa, se constrói a paz, dizendo “não” mediante factos concretos, ao ódio e à violência; e dizer “sim” à fraternidade e à reconciliação. E Francisco recordou que passaram cinquenta anos, desde que o seu predecessor, Papa Paulo VI, inaugurou a celebração do Dia Mundial da Paz, que também celebramos hoje, com o objectivo de reforçar o empenho comum e pessoal de construir um mundo pacífico e fraterno.

Na mensagem deste ano, disse o Papa, propus de assumir a não-violência como estilo para uma política de paz”. Mas infelizmente, constatou o Pontífice, a violência foi, mais uma vez, protagonista nesta noite de augúrios e de esperança mediante um grave atentado em Istambul, na Turquia.  E o Papa exprimiu a sua proximidade na oração aos defuntos e aos seus familiares, aos feridos e à todo o povo turco.

Francisco agradeceu em seguida o Presidente da República italiana pelos augúrios de bom ano que lhe dirigiu, ao mesmo tempo que exprimiu a sua gratidão “por tantas iniciativas de oração e de empenho para a paz que se realizam em todos os cantos do mundo inteiro”. Neste sentido, Francisco saudou, de modo particular os participantes da manifestação “Paz por toda Terra”, presentes na Praça de S. Pedro. Obrigado, disse o Papa, pela vossa presença e pelo vosso testemunho. E a todos, Francisco augurou um ano de paz na graça do Senhor, com a protecção materna de Maria, Mãe de Deus. Boas Festas, e por favor, não esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até breve, concluiu dizendo o Santo Padre.

Francisco: homilia da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus


(RV) O Papa Francisco celebrou esta manhã, 1 de Janeiro de 2017, às 10 horas de Roma, na Basílica de S. Pedro, repleta de fiéis e peregrinos vindos de diversos cantos da Itália e do mundo, a Santa Missa por ocasião da solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Publicamos na íntegra, a esplêndida homilia pronunciada pelo Santo Padre:

«Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Assim descreve Lucas a atitude com que Maria acolhe tudo aquilo que estava a viver naqueles dias. Longe de querer compreender ou dominar a situação, Maria é a mulher que sabe conservar, isto é, proteger, guardar no seu coração a passagem de Deus na vida do seu povo. Aprendeu a sentir a pulsação do coração do seu Filho, ainda Ele estava no seu ventre, ensinando-Lhe a descobrir, durante toda a vida, o palpitar de Deus na história. Aprendeu a ser mãe e, nesta aprendizagem, proporcionou a Jesus a bela experiência de saber-Se Filho. Em Maria, o Verbo eterno não só Se fez carne, mas aprendeu também a reconhecer a ternura maternal de Deus. Com Maria, o Deus-Menino aprendeu a ouvir os anseios, as angústias, as alegrias e as esperanças do povo da promessa. Com Ela, descobriu-Se a Si mesmo como Filho do santo povo fiel de Deus.

Nos Evangelhos, Maria aparece como mulher de poucas palavras, sem grandes discursos nem protagonismos, mas com um olhar atento que sabe guardar a vida e a missão do seu Filho e, consequentemente, de tudo o que Ele ama. Soube guardar os alvores da primeira comunidade cristã, aprendendo deste modo a ser mãe duma multidão. Aproximou-Se das mais diversas situações, para semear esperança. Acompanhou as cruzes, carregadas no silêncio do coração dos seus filhos. Muitas devoções, muitos santuários e capelas nos lugares mais remotos, muitas imagens espalhadas pelas casas lembram-nos esta grande verdade. Maria deu-nos o calor materno, que nos envolve no meio das dificuldades; o calor materno que não deixa, nada e ninguém, apagar no seio da Igreja a revolução da ternura inaugurada pelo seu Filho. Onde há uma mãe, há ternura. E Maria, com a sua maternidade, mostra-nos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes; ensina-nos que não há necessidade de maltratar os outros para sentir-se importante (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 288). E o santo povo fiel de Deus, desde sempre, A reconheceu e aclamou como a Santa Mãe de Deus.

Celebrar, no início de um novo ano, a maternidade de Maria como Mãe de Deus e nossa mãe significa avivar uma certeza que nos há de acompanhar no decorrer dos dias: somos um povo com uma Mãe, não somos órfãos.

As mães são o antídoto mais forte contra as nossas tendências individualistas e egoístas, contra os nossos isolamentos e apatias. Uma sociedade sem mães seria não apenas uma sociedade fria, mas também uma sociedade que perdeu o coração, que perdeu o «sabor de família». Uma sociedade sem mães seria uma sociedade sem piedade, com lugar apenas para o cálculo e a especulação. Com efeito as mães, mesmo nos momentos piores, sabem testemunhar a ternura, a dedicação incondicional, a força da esperança. Aprendi muito com as mães que, tendo os filhos na prisão ou estendidos numa cama de hospital ou subjugados pela escravidão da droga, esteja frio ou calor, faça chuva ou sol, não desistem e continuam a lutar para lhes dar o melhor; ou com as mães que, nos campos de refugiados ou até no meio da guerra, conseguem abraçar e sustentar, sem hesitação, o sofrimento dos seus filhos. Mães que dão, literalmente, a vida para que nenhum dos filhos se perca. Onde estiver a mãe, há unidade, há sentido de pertença: pertença de filhos.

Começar o ano lembrando a bondade de Deus no rosto materno de Maria, no rosto materno da Igreja, nos rostos das nossas mães, protege-nos daquela doença corrosiva que é a «orfandade espiritual»: a orfandade que a alma vive quando se sente sem mãe e lhe falta a ternura de Deus; a orfandade que vivemos quando se apaga em nós o sentido de pertença a uma família, a um povo, a uma terra, ao nosso Deus; a orfandade que se aninha no coração narcisista que sabe olhar só para si mesmo e para os seus interesses, e cresce quando esquecemos que a vida foi um dom – dela somos devedores a outros – e somos convidados a partilhá-la nesta casa comum.

Foi esta orfandade autoreferêncial que levou Caim a dizer: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Como se declarasse: ele não me pertence, não o reconheço. Tal atitude de orfandade espiritual é um câncer que silenciosamente enfraquece e degrada a alma. E assim, pouco a pouco, nos vamos degradando, já que ninguém nos pertence e nós não pertencemos a ninguém: degrado a terra, porque não me pertence; degrado os outros, porque não me pertencem; degrado a Deus, porque não Lhe pertenço; e, por fim, acabamos por nos degradar a nós próprios, porque esquecemos quem somos e o «nome» divino que temos. A perda dos laços que nos unem, típica da nossa cultura fragmentada e desunida, faz com que cresça esta sensação de orfandade e, por conseguinte, de grande vazio e solidão. A falta de contacto físico (não o virtual) vai cauterizando os nossos corações (cf. Carta enc. Laudato si’, 49), fazendo-lhes perder a capacidade da ternura e da maravilha, da piedade e da compaixão. A orfandade espiritual faz-nos perder a memória do que significa ser filhos, ser netos, ser pais, ser avós, ser amigos, ser crentes; faz-nos perder a memória do valor da diversão, do canto, do riso, do repouso, da gratuidade.

Celebrar a festa da Santa Mãe de Deus faz despontar novamente no rosto o sorriso de nos sentirmos povo, de sentir que nos pertencemos; saber que as pessoas, somente dentro duma comunidade, duma família, podem encontrar a «atmosfera», o «calor» que permite aprender a crescer humanamente, e não como meros objetos destinados a «consumir e ser consumidos». Celebrar a festa da Santa Mãe de Deus lembra-nos que não somos mercadoria de troca nem terminais receptores de informação. Somos filhos, somos família, somos povo de Deus.

Celebrar a Santa Mãe de Deus impele-nos a criar e cuidar espaços comuns que nos dêem sentido de pertença, de enraizamento, que nos façam sentir em casa dentro das nossas cidades, em comunidades que nos unam e sustentem (cf. ibid., 151).

Jesus Cristo, no momento do dom maior que foi o da sua vida na cruz, nada quis reter para Si e, ao entregar a sua vida, entregou-nos também sua Mãe. Disse a Maria: Eis o teu filho, eis os teus filhos. E nós queremos acolhê-La nas nossas casas, nas nossas famílias, nas nossas comunidades, nos nossos países. Queremos encontrar o seu olhar materno: aquele olhar que nos liberta da orfandade; aquele olhar que nos lembra que somos irmãos, isto é, que eu te pertenço, que tu me pertences, que somos da mesma carne; aquele olhar que nos ensina que devemos aprender a cuidar da vida da mesma maneira e com a mesma ternura com que Ela o fez, ou seja, semeando esperança, semeando pertença, semeando fraternidade.

Celebrar a Santa Mãe de Deus lembra-nos que temos a Mãe; não somos órfãos, temos uma mãe. Professemos, juntos, esta verdade! Convido-vos a aclamá-La três vezes como fizeram os fiéis de Éfeso: Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus.