05 junho, 2017

Papa: encontro com missionários/as da Consolata



(RV) O Papa Francisco recebeu hoje, dia 5 de Junho de 2017, às 12 horas locais de Roma, em audiência na Sala Clementina do Vaticano, os cerca de 120 participantes do Capítulo Geral dos Missionários e Missionárias da Consolata.

Caros missionários e caras missionárias da Consolata! Estou feliz por receber-vos, por ocasião dos vossos respectivos capítulos gerais. Saúdo a todos com afecto e faço votos para que os vossos trabalhos capitulares se desenvolvam com serenidade e docilidade ao Espírito. Estendo a minha afectuosa saudação aos irmãos e irmãs das vossas congregações que operam muitas vezes em condições difíceis, nos diversos continentes e encorajo-os a prosseguir com generosa fidelidade no seu empenho de missão ad gentes.

Após estas palavras de saudação iniciais, Francisco prosseguiu o seu discurso, propondo aos presentes, algumas sugestões e conselhos por forma a permitir para que estes dias do Capítulo Geral, possam produzir, disse, frutos abundantes de bem para as respectivas comunidades e para a actividade missionária da Igreja em geral.

Vós sois chamados, recordou o Papa, a aprofundar o vosso carisma, para projectar-vos com renovado entusiasmo na obra da evangelização, na perspectiva das urgências pastorais  das novas pobrezas. Neste sentido, acrescentou o Santo Padre, quero exortar-vos a actuar um atento discernimento sobre a situação dos povos no seio dos quais desenvolveis a vossa acção evangelizadora.

Antes de mais, disse o Pontífice, não vos canseis nunca de levar conforto para as populações que estão quase sempre provadas pela grande pobreza e pelo sofrimento agudo, como acontece por exemplo em tantas partes da África e da América Latina. Deixai-vos continuamente provocar pelas realidades concretas com as quais entrais em contacto e procurais oferecer adequadamente, o testemunho da caridade que o Espírito infunde nos vossos corações.

A história dos vossos institutos, feita,  - como acontece em cada família – de alegrias e de dores, de luz e de sombras, foi marcada e permanece também marcada nestes últimos anos, pela Cruz de Cristo. Come não recordar aqui, os vossos irmãos e irmãs das vossas congregações que amaram o Evangelho da caridade mais do que a si próprios e coroaram o serviço missionário com o sacrifício da própria vida? Que a sua opção evangélica sem reservas, ilumine o vosso empenho missionário e seja de encorajamento para todos para prosseguir com renovada generosidade na vossa peculiar missão na Igreja.

Para levar avante esta missão não fácil, advertiu o Santo Padre, ocorre viver em comunhão com Deus e ter cada vez mais a percepção da sua misericórdia. De facto, é muito mais importante, salientou o Papa, darmo-nos conta de quanto somos amados por Deus do que quanto nós mesmos O amamos. Faz-nos bem recordar antes de mais, esta prioridade do amor de Deus gratuito e misericordioso e sentir o empenho e o nosso esforço como uma resposta à este amor misericordioso de Deus, disse.

Nesta perspectiva, acrescentou Francisco, a vida religiosa pode tornar-se um itinerário de redescoberta progressiva da misericórdia divina, facilitando a imitação das virtudes de Cristo e das suas atitudes ricas de humanidade, para depois dar testemunho perante todos aqueles de quem vos aproximais no vosso empenho pastoral.

Francisco advertiu aos presentes para que saibam também acolher com alegria e abertura de espírito os novos estímulos ao renovamento e ao empenho que provêm do contacto real com o Senhor Jesus presente e operante na missão através do Espírito Santo. Neste sentido, o Papa convidou aos presentes a seguir o exemplo do seu beato Fundador, não se deixando nunca levar pelo cansaço e procurar sempre imprimir um novo impulso à animação missionária, procurando dar particular atenção sobretudo ao diálogo com o Islão, o empenho para a promoção da dignidade  da mulher e dos valores da família, a sensibilidade para com os temas da justiça e da paz.

Caros irmãos e irmãs, continuai o vosso caminho com esperança. Que a vossa consagração missionária possa ser sempre mais fonte de encontro vivificante e santificante  com Jesus  e com o seu amor, fonte de consolação, paz e salvação para todos os homens. Faço votos para que as orientações elaboradas pelos respectivos Capítulos Gerais possam guiar os vossos institutos a prosseguir com generosidade no caminho traçado pelo Fundador  e seguido com heróica coragem por tantos irmãos e irmãs das vossas congregações. Invoco a celeste protecção de Maria, Raínha das Missões e o Beato Giuseppe Allamano, e de todo o coração dou à todos vós, a Bênção Apostólica, estendendo-a para a inteira Família da Consolata.

Papa: fazer obras de misericórdia é partilhar, se compadecer, arriscar




(RV) O ponto de partida da homilia do Papa Francisco foi a primeira leitura do Livro de Tobias. Os hebreus foram deportados para a Assíria: um homem justo, chamado Tobias, ajuda compatriotas pobres e - com o risco da própria vida - secretamente enterra os hebreus que são mortos impunemente. Tobias fica triste diante do sofrimento dos outros. Daqui a reflexão sobre 14 obras de misericórdia corporais e espirituais. Realizá-las - explica Francisco - não significa somente compartilhar o que se tem, mas se compadecer:

“Isto é, sofrer com quem sofre. Uma obra de misericórdia não é fazer algo para descarregar a consciência: uma boa acção, assim estou mais tranquilo, tiro um peso das costas... Não! É também sofrer a dor dos outros. Compartilhar e compadecer: caminham juntos. É misericordioso aquele que sabe compartilhar e também se compadecer com os problemas de outras pessoas. E aqui a pergunta: “Eu sei compartilhar? Eu sou generoso? Eu sou generosa? Mas também, quando vejo uma pessoa que está a sofrer, que está em dificuldade, também eu sofro? Sei colocar-me nos sapatos dos outros? Na situação de sofrimento?".

Aos judeus era proibido enterrar os seus compatriotas: eles mesmos poderiam ser mortos. Então Tobias corria perigo. Realizar obras de misericórdia - disse o Papa - não significa apenas partilhar e ter compaixão, mas também arriscar:

“Mas, muitas vezes se corre o risco. Pensemos aqui, em Roma. Em plena guerra: quantos se arriscaram, começando por Pio XII, para esconder os hebreus, para que não fossem mortos, para que não fossem deportados. Eles arriscaram a sua pele! Mas era uma obra de misericórdia, salvar a vida daquelas pessoas! Arriscar".

O Papa Francisco enfatiza dois outros aspectos. Quem faz obras de misericórdia pode ser ridicularizado por outros - como aconteceu com Tobias - porque é considerada uma pessoa que faz coisas loucas, em vez de estar tranquilo. E é alguém que se incomoda:

“Fazer obras de misericórdia é desconfortável. “Mas, eu tenho um amigo, um amigo doente, gostaria de visitá-lo, mas ... não tenho vontade ... prefiro descansar ou assistir TV ... tranquilo...”. Fazer obras de misericórdia é sempre desconfortável. É inconveniente. Mas o Senhor sofreu a inconveniência por nós: foi para a cruz. Para nos dar misericórdia”.

Quem “é capaz de fazer uma obra de misericórdia” - disse o Papa - é “porque sabe que ele recebeu misericórdia antes; que foi o Senhor a conceder misericórdia a ele. E se nós fazemos essas coisas, é porque o Senhor teve misericórdia de nós. E pensemos nos nossos pecados, nos nossos erros e em como o Senhor nos perdoou; perdoou-nos tudo, teve esta misericórdia” e “nós façamos o mesmo com os nossos irmãos”. “As obras de misericórdia - concluiu Francisco - são as que te tiram do egoísmo e nos fazem imitar Jesus mais de perto”. (BS/SP)

Mensagem do Papa para o Dia Mundial das Missões - Texto integral



(RV) Foi publicada neste domingo, dia 4 de junho, Solenidade de Pentecostes, a Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões, este ano a ser celebrado no domingo 22 de outubro de 2017. Já a seguir o Texto integral:

Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões
"A missão no coração da fé cristã"

 Queridos irmãos e irmãs!

 O Dia Mundial das Missões concentra-nos, também este ano, na pessoa de Jesus, «o primeiro e maior evangelizador» (Paulo VI, Exort. ap. Evangelii Nuntiandi, 7), que incessantemente nos envia a anunciar o Evangelho do amor de Deus Pai, com a força do Espírito Santo. Este Dia convida-nos a reflectir novamente sobre a missão no coração da fé cristã. De facto a Igreja é, por sua natureza, missionária; se assim não for, deixa de ser a Igreja de Cristo, não passando duma associação entre muitas outras, que rapidamente veria exaurir-se a sua finalidade e desapareceria. Por isso, somos convidados a interrogar-nos sobre algumas questões que tocam a própria identidade cristã e as nossas responsabilidades de crentes, num mundo baralhado com tantas quimeras, ferido por grandes frustrações e dilacerado por numerosas guerras fratricidas, que injustamente atingem sobretudo os inocentes. Qual é o fundamento da missão? Qual é o coração da missão? Quais são as atitudes vitais da missão?

A missão e o poder transformador do Evangelho de Cristo, Caminho, Verdade e Vida

1.         A missão da Igreja, destinada a todos os homens de boa vontade, funda-se sobre o poder transformador do Evangelho. Este é uma Boa Nova portadora duma alegria contagiante, porque contém e oferece uma vida nova: a vida de Cristo ressuscitado, o qual, comunicando o seu Espírito vivificador, torna-Se para nós Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14, 6). É Caminho que nos convida a segui-Lo com confiança e coragem. E, seguindo Jesus como nosso Caminho, fazemos experiência da sua Verdade e recebemos a sua Vida, que é plena comunhão com Deus Pai na força do Espírito Santo, liberta-nos de toda a forma de egoísmo e torna-se fonte de criatividade no amor.

2.      Deus Pai quer esta transformação existencial dos seus filhos e filhas; uma transformação que se expressa como culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23-24), ou seja, numa vida animada pelo Espírito Santo à imitação do Filho Jesus para glória de Deus Pai. «A glória de Deus é o homem vivo» (Ireneu, Adversus Haereses IV, 20, 7). Assim, o anúncio do Evangelho torna-se palavra viva e eficaz que realiza o que proclama (cf. Is 55, 10-11), isto é, Jesus Cristo, que incessantemente Se faz carne em cada situação humana (cf. Jo 1, 14).

A missão e o kairós de Cristo

3.         Por conseguinte, a missão da Igreja não é a propagação duma ideologia religiosa, nem mesmo a proposta duma ética sublime. No mundo, há muitos movimentos capazes de apresentar ideais elevados ou expressões éticas notáveis. Diversamente, através da missão da Igreja, é Jesus Cristo que continua a evangelizar e agir; e, por isso, aquela representa o kairós, o tempo propício da salvação na história. Por meio da proclamação do Evangelho, Jesus torna-Se sem cessar nosso contemporâneo, consentindo à pessoa que O acolhe com fé e amor experimentar a força transformadora do seu Espírito de Ressuscitado que fecunda o ser humano e a criação, como faz a chuva com a terra. «A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 276).

4.         Lembremo-nos sempre de que, «ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (Bento XVI, Carta. enc. Deus caritas est, 1). O Evangelho é uma Pessoa, que continuamente Se oferece e, a quem A acolhe com fé humilde e operosa, continuamente convida a partilhar a sua vida através duma participação efetiva no seu mistério pascal de morte e ressurreição. Assim, por meio do Batismo, o Evangelho torna-se fonte de vida nova, liberta do domínio do pecado, iluminada e transformada pelo Espírito Santo; através da Confirmação, torna-se unção fortalecedora que, graças ao mesmo Espírito, indica caminhos e estratégias novas de testemunho e proximidade; e, mediante a Eucaristia, torna-se alimento do homem novo, «remédio de imortalidade» (Inácio de Antioquia, Epistula ad Ephesios, 20, 2).

5.         O mundo tem uma necessidade essencial do Evangelho de Jesus Cristo. Ele, através da Igreja, continua a sua missão de Bom Samaritano, curando as feridas sanguinolentas da humanidade, e a sua missão de Bom Pastor, buscando sem descanso quem se extraviou por veredas enviesadas e sem saída. E, graças a Deus, não faltam experiências significativas que testemunham a força transformadora do Evangelho. Penso no gesto daquele estudante «dinka» que, à custa da própria vida, protege um estudante da tribo «nuer» que ia ser assassinado. Penso naquela Celebração Eucarística em Kitgum, no norte do Uganda – então ensanguentado pelas atrocidades dum grupo de rebeldes –, quando um missionário levou as pessoas a repetirem as palavras de Jesus na cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mc 15, 34), expressando o grito desesperado dos irmãos e irmãs do Senhor crucificado. Aquela Celebração foi fonte de grande consolação e de muita coragem para as pessoas. E podemos pensar em tantos testemunhos – testemunhos sem conta – de como o Evangelho ajuda a superar os fechamentos, os conflitos, o racismo, o tribalismo, promovendo por todo o lado a reconciliação, a fraternidade e a partilha entre todos.

A missão inspira uma espiritualidade de êxodo, peregrinação e exílio contínuos

6.         A missão da Igreja é animada por uma espiritualidade de êxodo contínuo. Trata-se de «sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 20). A missão da Igreja encoraja a uma atitude de peregrinação contínua através dos vários desertos da vida, através das várias experiências de fome e sede de verdade e justiça. A missão da Igreja inspira uma experiência de exílio contínuo, para fazer sentir ao homem sedento de infinito a sua condição de exilado a caminho da pátria definitiva, pendente entre o «já» e o «ainda não» do Reino dos Céus.

7.       A missão adverte a Igreja de que não é fim em si mesma, mas instrumento e mediação do Reino. Uma Igreja autorreferencial, que se compraza dos sucessos terrenos, não é a Igreja de Cristo, seu corpo crucificado e glorioso. Por isso mesmo, é preferível «uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (Ibid., 49).

Os jovens, esperança da missão

8.        Os jovens são a esperança da missão. A pessoa de Jesus e a Boa Nova proclamada por Ele continuam a fascinar muitos jovens. Estes buscam percursos onde possam concretizar a coragem e os ímpetos do coração ao serviço da humanidade. «São muitos os jovens que se solidarizam contra os males do mundo, aderindo a várias formas de militância e voluntariado. (...) Como é bom que os jovens sejam “caminheiros da fé”, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra!» (Ibid., 106). A próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar em 2018 sobre o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», revela-se uma ocasião providencial para envolver os jovens na responsabilidade missionária comum, que precisa da sua rica imaginação e criatividade.

O serviço das Obras Missionárias Pontifícias
9.         As Obras Missionárias Pontifícias são um instrumento precioso para suscitar em cada comunidade cristã o desejo de sair das próprias fronteiras e das próprias seguranças, fazendo-se ao largo a fim de anunciar o Evangelho a todos. Através duma espiritualidade missionária profunda vivida dia-a-dia e dum esforço constante de formação e animação missionária, envolvem-se adolescentes, jovens, adultos, famílias, sacerdotes, religiosos e religiosas, bispos para que, em cada um, cresça um coração missionário. Promovido pela Obra da Propagação da Fé, o Dia Mundial das Missões é a ocasião propícia para o coração missionário das comunidades cristãs participar, com a oração, com o testemunho da vida e com a comunhão dos bens, na resposta às graves e vastas necessidades da evangelização.

Fazer missão com Maria, Mãe da evangelização

10.       Queridos irmãos e irmãs, façamos missão inspirando-nos em Maria, Mãe da evangelização. Movida pelo Espírito, Ela acolheu o Verbo da vida na profundidade da sua fé humilde. Que a Virgem nos ajude a dizer o nosso «sim» à urgência de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus no nosso tempo; nos obtenha um novo ardor de ressuscitados para levar, a todos, o Evangelho da vida que vence a morte; interceda por nós, a fim de podermos ter uma santa ousadia de procurar novos caminhos para que chegue a todos o dom da salvação.

Vaticano, 4 de junho – Solenidade de Pentecostes – de 2017
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[Franciscus]

04 junho, 2017

RCC da Diocese de Lisboa - Vigíla de Pentecostes












Francisco: a Igreja nasce do perdão, unida na diversidade


(RV) Domingo 4 de junho, solenidade de Pentecostes. O papa Francisco presidiu à Missa numa Praça de S. Pedro repleta de fiéis e peregrinos provenientes da Itália e das várias partes do mundo. Na sua homilia o Papa referiu-se ao Espírito Santo, dom pascal por excelência e que não cessa de realizar coisas novas. Sobre ele, disse, as Leituras de hoje mostram-nos duas novidades: o Espírito que faz dos discípulos um povo novo (I leitura) e o Espírito que cria nos discípulos um coração novo (Evangelho).

Sobre o povo novo, Francisco ressaltou que no dia de Pentecostes o Espírito primeiro pousa sobre cada um e, depois, põe a todos em comunicação, a cada um dá um dom e reúne a todos na unidade. Por outras palavras, o mesmo Espírito cria a diversidade e a unidade e, assim, molda um povo novo, diversificado e unido: a Igreja universal.

“Em primeiro lugar, com fantasia e imprevisibilidade, cria a diversidade; com efeito, em cada época, faz florescer carismas novos e variados. Depois, o mesmo Espírito realiza a unidade: liga, reúne, recompõe a harmonia (…). E desta forma temos a unidade verdadeira, a unidade segundo Deus, que não é uniformidade, mas unidade na diferença”.

E Francisco falou de duas tentações que devemos evitar para conseguirmos a unidade na diversidade. E a primeira é: procurar a diversidade sem a unidade:

“Sucede quando se se quer distinguir, quando se formam coligações e partidos, quando se obstina em posições excludentes, quando se fecha nos próprios particularismos, porventura considerando-se os melhores ou aqueles que têm sempre razão – são os chamados guardiões da verdade!. Desta maneira escolhe-se a parte, não o todo, pertencer primeiro a isto ou àquilo e só depois à Igreja; tornam-se «adeptos» em vez de irmãos e irmãs no mesmo Espírito; cristãos «de direita ou de esquerda» antes de o ser de Jesus; inflexíveis guardiães do passado ou vanguardistas do futuro em vez de filhos humildes e agradecidos da Igreja. Assim, temos a diversidade sem a unidade”.

A tentação oposta, prosseguiu o Papa, é procurar a unidade sem a diversidade. E, deste modo, a unidade torna-se uniformidade, obrigação de fazer tudo juntos e tudo igual, de pensar todos sempre do mesmo modo; assim, a unidade acaba por ser homologação, e já não há liberdade.

Devemos, portanto, pedir ao Espírito Santo a graça de acolhermos a sua unidade, um olhar que, independentemente das preferências pessoais, abraça e ama a sua Igreja, a nossa Igreja; pedir a graça de nos preocuparmos com a unidade entre todos, de anular as murmurações que semeiam cizânia e as invejas que envenenam, porque ser homens e mulheres de Igreja significa ser homens e mulheres de comunhão, e também pedir um coração que sinta a Igreja como nossa Mãe e nossa casa: a casa acolhedora e aberta, onde se partilha a alegria multiforme do Espírito Santo – sublinhou Francisco.

Quanto à segunda novidade, o Espírito que cria um coração novo, o Papa notou que Jesus Ressuscitado não condenou os seus, que O tinham abandonado e renegado durante a Paixão, mas deu-lhes o Espírito do perdão. O Espírito, portanto, é o primeiro dom do Ressuscitado, e ele foi dado, antes de mais nada, para perdoar os pecados. E assim o perdão, já do início da Igreja, é a cola que nos mantém unidos, o cimento que une os tijolos da casa, o dom elevado à potência infinita, e que mantém unido não obstante tudo, impedindo de soçobrar, e sem perdão, não se edifica a Igreja, observou Francisco acrescentando:

“O Espírito do perdão, que tudo resolve na concórdia, impele-nos a recusar outros caminhos: os caminhos apressados de quem julga, os caminhos sem saída de quem fecha todas as portas, os caminhos de sentido único de quem critica os outros. Ao contrário, o Espírito exorta-nos a percorrer o caminho com duplo sentido do perdão recebido e dado, da misericórdia divina que se faz amor ao próximo, da caridade como «único critério segundo o qual tudo deve ser feito ou deixado de fazer, alterado ou não”.

«Espírito de Deus, Senhor que estais no meu coração e no coração da Igreja, Vós que fazeis avançar a Igreja, moldando-a na diversidade, vinde! Continuai a descer sobre nós e ensinai-nos a unidade, renovai os nossos corações e ensinai-nos a amar como Vós nos amais, a perdoar como Vós nos perdoais – concluiu Francisco. (BS)

Papa na Vigília de Pentecostes: a paz é possível em nome de Jesus




(RV) Francisco presidiu à Vigília de oração de Pentecostes no Circo Máximo por ocasião do 50º aniversário da Renovação Carismática Católica. Participaram no evento carismáticos de todo o mundo e representantes do mundo evangélico e pentecostal.

"Hoje é mais do que nunca urgente a unidade dos cristãos, unidos pelo Espírito Santo, na oração e na acção pelos mais vulneráveis" – disse o Papa Francisco na sua meditação durante a Vigília de oração de Pentecostes, neste sábado à tarde no Circo Máximo. Cerca de 50 mil os presentes. A ocasião é o "Jubileu de Ouro" da Renovação Carismática Católica, 50 anos após o seu nascimento. Participaram no evento carismáticos de todo o mundo e, por vontade expressa do Papa, até mesmo membros do mundo evangélico e pentecostal. No fim da vigília, teve lugar a oração de perdão pelos pecados de divisão e, então, a oração pelo Baptismo no Espírito Santo.

Na sua meditação o Papa Francisco recordou o Pentecostes. A unidade é para a missão, para proclamar que Jesus é o Senhor, sublinhou o Papa disse, para anunciar  a Boa Nova a todos os povos, para demonstrar que a paz é possível, embora não seja fácil demonstrar ao mundo de hoje, mas em nome de Jesus pode-se fazer. Temos diferenças, prosseguiu Francisco, mas queremos ser "uma diversidade reconciliada". Em seguida, o Papa se concentrou  no ecumenismo do sangue:

"Hoje decidimos reunir-nos aqui, neste lugar – disse o Papa - porque aqui, durante as perseguições foram martirizados cristãos, para o divertimento daqueles que estavam a observar. Hoje há mais mártires de ontem! Hoje há mais mártires. Cristãos. Aqueles que matam os cristãos, antes de matá-los não perguntam: 'Mas tu és ortodoxo? Tu és católico? Tu és evangélico? Tu  és luterano? Tu és calvinista?'. Não! 'Tu és cristão?', degolado, imediatamente. Hoje há mais mártires que nos primeiros tempos”.

Amar-nos e caminharmos  juntos são os binários indicados por Francisco. Sem caminho, na verdade, nós nunca estaremos de acordo, ressalta o Papa. Em seguida pensa na Renovação Carismática Católica, convidando também a ler as obras do Cardeal Suenens:

"50 anos de Renovação Carismática Católica. Umacorrente de graça do Espírito! E porque corrente de graça? Porque não tem nem fundador, nem estatutos, nem órgãos de governo. É claro que nesta corrente nasceram múltiplas expressões que, certamente, são obras humanas inspiradas pelo Espírito, com vários carismas, e todos ao serviço da Igreja. Mas à corrente não se podem opor barragens, nem se pode bloquear o Espírito Santo numa gaiola!”.

O Espírito Santo é quem faz a Igreja, disse o Papa Francisco: a esposa do Apocalipse, uma única esposa, "uma esposa tem o Senhor". E depois o Papa recorda a importância do louvor. "A Igreja conta convosco", diz o Papa, agradecendo a Renovação Carismática Católica  e deixando-lhe um mandato:

"Partilhar  com todos na Igreja o Baptismo no Espírito Santo, louvar  ao Senhor  sem cessar, caminhar juntos com os cristãos de diferentes Igrejas e comunidades cristãs na oração e na acção pelos mais necessitados. Servir os mais pobres e os enfermos, isto esperam de vós, Renovação Carismática Católica, a Igreja e o Papa, mas de vós todos: todos, todos vós que entrastes nesta corrente de graça! Obrigado”.
 
A vigília tinha sido precedida pelas saudações de abertura de Michelle Moran e Gilberto Barbosa, respectivamente presidentes do ICCRS (International Catholic Charismatic Renewal Services) e da Catholic Fraternity (Fraternidade Católica), que organizaram o encontro. Sob o palco estava um grupo de pobres acompanhados pelo Esmoleiro do Papa.
(BS)

02 junho, 2017

Papa Francisco: apascentar o povo de Deus com humildade



(RV) O Papa Francisco celebrou nesta manhã de sexta-feira a Santa Missa na Capela da Casa Santa Marta. Em sua homilia, o Papa comentou o Evangelho do dia (Jo 21,15-19), em que Jesus ressuscitado conversa com Pedro à margem do lago, onde o apóstolo tinha sido chamado. É um diálogo tranquilo, sereno, entre amigos, enfatiza Francisco, na atmosfera da Ressurreição do Senhor. Jesus confia o seu rebanho a Pedro, fazendo-lhe três perguntas, perguntando se ele o ama:

 “Jesus escolhe o mais pecador dos apóstolos, os outros fugiram, este renegou Ele: 'Não o conheço'. E Jesus lhe pergunta: 'Mas você me ama mais do que estes?'. Jesus escolhe o mais pecador”.

E foi escolhido, portanto, “o mais pecador” para “apascentar o povo de Deus. Isto nos faz pensar”, observa Francisco. Jesus pede a Pedro para apascentar o seu rebanho com amor:
“Não apascentar com a cabeça para cima, como o grande dominador, não: apascentar com humildade, com amor, como Jesus fez. Esta é a missão que Jesus dá a Pedro. Sim, com os pecados, com os erros. Tanto é assim que, logo após esse diálogo, Pedro faz um deslize, um erro, é tentado pela curiosidade e disse ao Senhor: “Mas este outro apóstolo para onde vai, o que fará?”. Mas com amor, no meio de seus erros, e seus pecados ... com amor: ‘Porque essas ovelhas não são as suas ovelhas, são as minhas ovelhas’, diz o Senhor. “Ame-as. Se você é meu amigo, você tem que ser amigos delas’”.

O Papa recorda quando Pedro nega Jesus diante da serva do sumo sacerdote: está seguro em negar o Senhor como estava seguro quando tinha confessado: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Recorda o olhar de Jesus que cruza com o de Pedro, que acabara de lhe renegar. E o apóstolo, “corajoso ao renegar, é capaz de chorar amargamente”:

“E então, depois de toda uma vida servindo ao Senhor acabou como o Senhor: na cruz. Mas não se vangloria: ‘Termino como meu Senhor!’. Não, pede ele: ‘Por favor, me coloquem na cruz com a cabeça para baixo, para que pelo menos vejam que não sou o Senhor, sou o servo’. Isto é o que nós podemos tirar deste diálogo, deste diálogo tão bonito, tão sereno, tão amigável, tão pudico. Que o Senhor nos dê sempre a graça de caminhar pela vida com a cabeça para baixo: com a cabeça alta para a dignidade que Deus nos dá, mas com a cabeça para baixo, sabendo que somos pecadores e que o único Senhor é Jesus, nós somos servos”. (BS/SP)