30 janeiro, 2011

Dizer a Caridade em Deus Caritas est


Procurando conhecer quem é Deus, tocamos invariavelmente a questão de quem somos nós.
De facto, o conhecimento de Deus não se pode separar do conhecimento de nós mesmos na nossa condição de humanos, por isso S. Francisco rezava: “Quem sois vós, Senhor, e quem sou eu?” Se fossemos anjos ou qualquer outro tipo de espíritos puros que vivêssemos da contemplação da Glória de Deus, estes problemas não se colocariam, mas somos Homens e é à medida humana que nós pensamos e sentimos.
O percurso mais fácil para conhecermos alguma coisa ou alguém, é ir daquilo que conhecemos para o que desejamos conhecer e ainda não entendemos totalmente. Partir do Homem para Deus é ir do visível ao invisível, da criatura ao Criador, da obra ao artista que se dá a conhecer pelos sinais que de Si mesmo deixa na Sua obra. É o único percurso porque “a Deus nunca ninguém o viu” e o que conhecemos d’Ele foi o que Ele revelou na obra da criação do Homem à sua imagem e semelhança, e do universo inteiro, e, finalmente, o que nos disse no seu Filho muito amado, a Palavra feita carne, Jesus Cristo.
As marcas que Deus deixou na sua obra são uma mensagem que o homem pode entender, e essas marcas dizem-nos Quem é Deus. É uma linguagem ou uma comunicação que o homem pode perceber porque foi dotado com essa capacidade. Ainda que isso exija algum esforço de compreensão Deus não pára de nos falar, porque não pára nem de criar nem de se nos dar. Antes de entrarmos propriamente na questão da linguagem, façamos alguns esclarecimentos.
O “que é o homem” é a pergunta que acompanha a humanidade deste os mais remotos exercícios da capacidade racional do ser humano. Desde cedo nos perguntámos por este mistério da natureza a quem foi dado o cuidado de todas as coisas. E o homem descobre-se como um ser de relação que está insatisfeito enquanto não encontra alguém que o compreenda, daí que tenha exultado de alegria ao ver outro ser humano, “osso dos seus ossos, carne da sua carne”.
O contacto com os outros que habitam o mesmo mundo diz-me quem eu sou, assim como, de algum modo, eu revelo o ser do outro naquilo que ele é, olho de fora e dum ponto de vista que o outro não tem. Dizemos aquilo que somos na relação com as outras pessoas, particularmente com os nossos pais: quando nos apresentamos apelamos muitas vezes ao nome dos nossos pais ou dos nossos avós para que outros nos conheçam. Somos invariavelmente um ser de relação, criados à imagem do Deus-relação na Trindade Santíssima, e essa relação faz-se pela linguagem que está para além de qualquer tipo de palavra.
A linguagem não é só o que sai da nossa boca, é o que sai de nós, coração e cabeça, corpo e alma. Os nossos gestos de carinho ou de agressão, o tom de voz, o modo como usamos o nosso corpo para nos dirigirmos aos outros, dizem muito de nós mesmos, e muitas vezes são mais eloquentes que as nossas palavras. O brilho de um olhar, um sorriso, ou um abraço, dizem muito mais do que algumas palavras que saem da nossa boca. É que o coração também é fonte e comunicação. A linguagem surge assim como fonte de comunhão, para além de todas as palavras e para lá de todas as distâncias.
 Comunicar, muito para além de dizer coisas e transmitir uma mensagem, é fazer-se presente a outro pelo afecto que lhe dedicamos ou pela memória que fazemos dele: “Ainda a palavra te não chegou à boca e já Eu, o Senhor, Te conheço perfeitamente”. A omnisciência divina não tem lugar para erros de interpretação; da parte de Deus, o perfeito comunicador, não há erro nem mal entendido, o que Ele diz corresponde inteiramente ao que quer dizer; não só o que Ele fez está muito bem feito, como o que Ele diz está muito bem dito. Mas, por outro lado, a natureza humana ferida pelo pecado está sujeita ao erro e à incompreensão, quer de quem diz quer de quem entende. O sentir e o pensar são duas ordens distintas de nos relacionarmos com alguém ou com alguma coisa. O que sinto é o que sinto, e embora não o saiba, ou não possa dizer, está lá como impressão.
Por outro lado o que penso pode ser mais acertado ou mais distante da minha intenção primeira. Não somos só receptores somos também emissores na comunicação, ou seja, não somos só ouvintes ou espectadores do que se passa à nossa volta, somos também emissores e actores, pessoas que têm alguma coisa a dizer. Comunicar e deixar que o outro se comunique, é viver e deixar viver, sem calar e sem matar quem se dirige a mim. Deixar que o outro fale e que me fale, é claramente um risco, é perigoso. Se é tão importante o cuidado na compreensão de uma mensagem, tentar fazer uma correspondência o mais possível exactas entre aquilo que recebemos e aquilo que pensamos que o outro nos queria comunicar, é também de particular importância expressar-se devidamente, de forma clara e distinta e evitando todos os erros e mal-entendidos.
O fazermo-nos entender ao outro não vai tanto pelas muitas palavras, mas pela qualidade, beleza e força que colocamos naquilo que somos e naquilo sai de nós, pois falamos “da abundância do coração”. A linguagem é muitas vezes também uma fonte de equívocos. Acontece-nos frequentemente não nos fazermos entender, e é mais frequente não nos fazermos entender do que as outras pessoas não nos entenderem, de facto, na maioria dos casos quando não nos entendem é porque não nos fizemos entender. Temos de ser humildes na consciência de que aquilo que comunicamos pode, por nossa culpa, ter erro ou conduzir ao erro. O Senhor Deus ao utilizar a nossa linguagem para se comunicar connosco, aceitou sujeitar-se aos possíveis erros de interpretação. Não que Ele tivesse erro no seu dizer, nós é que por sermos pequenos e limitados, poderíamos entender mal o que Ele nos diz. Para evitar ao máximo este erro Ele deu-nos o seu Santo Espírito que nos ajuda a entender o que na verdade nos quer dizer. “Uma vez falou Deus e duas ouvi”, ou seja, não só Deus falou como nos dá a Sua ajuda para compreendermos bem o que Ele disse, sem renunciarmos ao trabalho de interpretação, e, sem preguiça, abrir a mente e o coração para acolher o que Ele nos quer revelar.
Partilho convosco esta reflexão depois de termos celebrado há pouco as festas do Natal e da epifania em que o Senhor se dá a conhecer aos gentios por um sinal celeste. Será que alguma vez os Magos teriam entendido o sinal da estrela se Deus na força do Seu Espírito não tivesse guiado as suas mentes? A importância fundamental de saber ler os sinais de Deus, imitando a Virgem Maria que guardava e meditava no seu coração o que lhe era dado da parte do Senhor. A linguagem sendo um problema, não é irresolúvel, é antes um desafio da nossa humana capacidade para buscarmos a solução, para sermos rigorosos da nossa expressão. O apelo que o Santo Padre faz na sua Encíclica ao problema da linguagem para a questão do amor, estende-se a toda a nossa vida na atenção que nos merece o ir ao encontro do outro e de me relacionar com ele por meio da palavra, evitando todo o erro e mal compreensão.
Frei Gonçalo Henriques OFM
Labat – 25.1.2007

29 janeiro, 2011

Trenação carismática: uma reflexão sobre as duas dimensões da Igreja

Uma das esperanças dos líderes do Renovamento Carismático (RC) desde o seu início foi que ele fosse visto como pertencendo verdadeiramente ao coração da Igreja. Este é ainda hoje o desejo. O RC contribuiu e ainda contribui para um aprofundamento na fé de muitos na Igreja Católica.
Qual a natureza dessa contribuição especial e como este relacionamento entre o RC e a Igreja em geral pode ser mais fortalecido? 
Entre outras coisas, o RC tem sido um instrumento para que o povo católico se tornasse mais consciente da presença e da acção do Espírito Santo. De forma geral, o conhecimento sobre o Espírito Santo é muito limitado para os católicos. O RC tem ajudado a grande maioria desses católicos a experimentarem a presença do Espírito Santo de uma maneira profunda e palpável na Sua essência. O Baptismo no Espírito Santo tem permitido aos católicos experimentarem um relacionamento pessoal com Jesus Cristo. 
Por sua vez, esta experiência tem levado muitos a uma compreensão mais profunda de que são chamados a continuar a missão de Jesus Cristo, acompanhada por sinais e prodígios. Isto é, o Espírito Santo foi reconhecido como uma realidade poderosa do nosso Deus: perdoando, curando, agindo e encorajando cada um de nós, quando nos dedicamos à nossa vocação cristã. A intimidade com a acção e a presença do Espírito Santo traduzida em muitos benefícios para a vida espiritual, assim como para a vida de toda a Igreja. 
O RC despertou uma nova energia, que nasce do verdadeiro encontro com o Deus vivo, que habita nosso ser, conforme nós celebramos e vivemos a nossa fé. Ele também infundiu a alegria e o entusiasmo nas nossas celebrações litúrgicas. Como resultado, muitas pessoas retornaram à prática da fé. Muitos adquiriram um amor mais profundo pelas Escrituras e desenvolveram uma sede pelo conhecimento dos ensinamentos da Igreja. O RC também encorajou a Igreja inteira a redescobrir o poder das orações de louvor e a ter uma crença firme e confiante, tanto nas orações de intercessão, quanto nas orações de cura em todas as suas dimensões. 
Muitos jovens encontraram um novo vigor na vivência da sua fé católica por completo. Alimentados pela palavra de Deus e impulsionados por um profundo desejo de santidade, muitos se têm dedicado generosamente à missão da Igreja. Escolas de evangelização foram estabelecidas em muitas partes do mundo, enquanto que grupos de oração, comunidades de aliança, grupos de estudos bíblicos, encontros internacionais e mistérios de cura têm enriquecido enormemente a vida da Igreja. Portanto, não é surpresa que o Papa João Paulo II tenha descrito o RC como um dom do Espírito Santo para a Igreja (Encontro com RC italiano em 13/03/02). Regozijemo-nos e demos graças por este dom maravilhoso. Por outro lado, o Papa João Paulo II indicou um caminho para o RC: aprofundar ainda mais o seu relacionamento com a vida da Igreja. 
Qual o significado do que o Santo Padre chamou de “maturidade eclesial”? Nós temos uma clara indicação do seu significado na encíclica Christifideles Laici N.30. Num primeiro momento, ela aborda uma chamada à santidade. Fomos chamados por Ele desde a eternidade (Ef. 1, 4) , predestinou-nos para sermos seus filhos adoptivos por meio de Jesus Cristo, por Sua livre vontade (Ef. 1, 5). Nós fomos marcados pelo Espírito Santo (Ef. 1, 13) e, portanto, a nossa fonte básica de formação tem que ser a palavra de Deus. Por conseguinte, o RC é constantemente desafiado a conduzir todos os seus membros em direcção à decisão radical do seguimento de Jesus (Jo 15, 5). 
Em segundo lugar, a maturidade eclesial implica na fidelidade ao ensino do magistério nas áreas da doutrina e moralidade. As pessoas envolvidas no RC têm que confiar que serão guiadas pelos ensinamentos da Igreja.
Em terceiro lugar, a maturidade eclesial aponta para a colaboração com os bispos locais, obediência a eles, e uma disposição para trabalhar junto a outros movimentos eclesiais. Onde existe rivalidade, entre os movimentos eclesiais, não há evidência de maturidade eclesial.
Em quarto lugar, a maturidade eclesial move-se em direcção à evangelização. O RC tem que ser reconhecido pelo seu apelo missionário. Precisamos de continuar a anunciar e a trabalhar em comunhão com os outros em qualquer oportunidade que se apresentar, para que a mensagem de Jesus possa ser proclamada corajosamente e em unidade com toda a Igreja. 
Nessa área, eu gostaria de ressaltar o grande trabalho que está a ser feito pelas diversas escolas de evangelização.
Finalmente, a maturidade eclesial é marcada pelo sério envolvimento nas questões sociais e na sociedade em geral. É muito importante que os membros do RC estejam à frente, na defesa da dignidade e dos direitos básicos de cada pessoa humana. 
Através do pontificado de João Paulo II, a Igreja está a chamar todos os envolvidos no RC a serem agradecidos por todas as graças que têm recebido. Entretanto, existe o desafio de continuarmos em comunhão com a Igreja na promoção de um modo de vida católico baseado nos carismas particulares do RC. Nós fomos presenteados com um desafio. Não temos nenhuma opção a não ser continuarmos a encontrar caminhos e maneiras de responder a este desafio para o benefício de todos.
Bispo Joe Grech, Membro do Conselho Internacional do RC, do ICCRS
Labat - 24.6.2003
(Adaptação ao português de Portugal, por LS)

Pequena biografia do Bispo Joe Gech:  Na sua história de vida ao serviço do Senhor, em que entre várias missões efectuadas com dedicação, comprometeu-se  profundamente com o seu ministério para jovens e migrantes e será especialmente lembrado com carinho, por todo o mundo, pela forma como abraçou o Renovamento Carismático Católico. Faleceu no dia 28 de Dezembro de 2010, na Austrália. Ele era  um verdadeiro pastor, mentor, amigo e guia. Serviu no ICCRS - Conselho Internacional do Renovamento Carismático, a partir de 2001, representando a Oceania.
Biografia resultante de pesquisas efectuadas pelo GOVV

26 janeiro, 2011

O DEMÓNIO E AS TENTAÇÕES (3)


É curioso percebermos que o Demónio é sempre retratado como uma figura horrenda, que só de olhar mete medo.

Se tal figura nos aparecesse pela frente, com certeza que a nossa imediata reacção seria fugir, nem sequer olhar, nem ouvir, e só faríamos o que o Demónio quisesse, por medo, por um profundo e terrível medo.
E, claro, na primeira oportunidade tentaríamos fugir dele, e procurar refúgio junto que quem nos pudesse defender de tal criatura horrenda.

E o retrato deste Demónio é o erro em que muitas vezes caímos, por pensarmos que ele assim nos aparece, ou que é assim que ele nos tenta.
A verdade é que se ele assim se apresentasse, poucos de nós nos deixaríamos tentar, e sem dúvida nenhuma procuraríamos Deus, com uma ânsia imensa de nos libertarmos de tal visão e presença assustadora.

Claro que se procurássemos Deus apenas por medo ao Demónio, assim que nos víssemos livres dele, (julgaríamos nós), logo a relação com Deus acabaria, porque acabava o motivo, a razão para tal relação.

Nada mais errado do que imaginarmos o Demónio como essa figura horrenda, assustadora, da qual apenas queremos fugir.

O Demónio apresenta-se-nos sempre cheio de uma beleza sedutora, na figura de um pretenso bem, na representação de uma pretensa consciência individual correcta e pura.

O Demónio não nos contradiz, não “luta” contra nós, pelo contrário, toma aquilo em que acreditamos, (às vezes de forma tão superficial), e tenta-nos a fazer o que ele quer, convencidos, (porque não reflectimos verdadeiramente), de que estamos a fazer o bem.
E por vezes caímos nesse erro tempos infindos, até nos apercebermos, ou melhor, sermos levados, (pelo amor de Deus), a perceber o erro em que nos deixámos viver.

Tantas vezes que procuramos em nós aquilo que consideramos os “grandes pecados” e não os reconhecendo nas nossas vidas, nos convencemos que o caminho é seguro, e que a conversão é real e está “concluída”.

Mas se reflectirmos sobre o que acima se escreve, percebemos que o Demónio não age, (de um modo geral), sobre aquilo que é fácil para nós detectarmos como pecado, como erro, como fraqueza.
Assim seria muito “fácil” para nós resistirmos às tentações.

Não, o “trabalho” do Demónio é um “trabalho” discreto e continuado, servindo-se das coisas mais simples, para depois do hábito criado, partir para as coisas maiores.

Uma mentira pequena não é pecado, ouvimos nós tantas vezes dizer.
Claro que não é um pecado grave, (depende da mentira claro e do mal que ela possa causar noutros ou em nós próprios), mas não deixa de ser mentira e portanto uma coisa má, de que nós com certeza não nos orgulhamos.
Nenhum mentiroso começa uma vida de mentira, por grandes mentiras, mas sim por coisas tão pequenas, que parecem não ter importância, mas depois se vão tornando hábito e, claro, para cobrir uma mentira é sempre preciso continuar a mentir.
Rapidamente quem assim vive, torna-se dependente da mentira, e, como tal, vive sempre na insegurança, no medo de ser “apanhado” e envergonhado, portanto muito longe de uma vida serena, tranquila, de uma vida em liberdade, que o Senhor na Verdade quer dar a cada um.

Podemos transportar este exemplo para as nossas vidas e tentarmos perceber em que é que eu me deixo tentar e cedo com facilidade, tentando convencer-me de que afinal não estou a errar, mas em que afinal estou verdadeiramente preso, porque se tornou num vício para mim.

Outro modo de o Demónio nos tentar, é fazer-nos desviar do centro das nossas vidas, que é Deus sem dúvida, para, enganando-nos com um pretenso bem, fazer-nos colocar o nosso acreditar, a nossa esperança, a nossa confiança, naquilo que sendo de Deus, não é o próprio Deus.
Reparemos como tantos de nós usamos expressões tais como: eu tenho muita fé em Santo António, em Santa Rita, neste ou naquele Santo, nesta ou naquela oração ou novena, etc., etc.
Então deixamo-nos levar por “orações infalíveis”, “novenas cem por cento seguras”, e normas e conceitos que nada têm a ver com Deus, ou melhor, que nos retiram o pensamento, a confiança, a esperança no amor misericordioso de Deus, para os colocarmos nessas “orações” e “rituais”.
Assim somos nós que queremos “controlar” aquilo que Deus nos pode dar e nós queremos obter, como por exemplo, a “obrigatoriedade” de Deus nos conceder o que pedimos, se rezarmos uma qualquer oração trinta vezes, se fizermos vinte e cinco fotocópias duma pagela, ou se não quebrarmos uma qualquer “corrente de oração”, e reenviarmos determinada mensagem.
Claro que podemos e devemos orar, fazer novenas, e pedir a intercessão dos Santos, mas a nossa fé, a nossa confiança, a nossa esperança é sempre no Deus que nos criou e ama, porque se assim não for, se assim não vivermos, estamos desde logo a falhar no primeiro e mais importante Mandamento:
«Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente.» Mt 22, 37

E se a nossa fé, a nossa confiança, a nossa esperança não estão em Deus, nunca compreenderemos que aquilo que pedimos não nos seja concedido, porque não conseguimos perceber que a vontade de Deus é sempre o melhor para nós, e assim, afastamo-nos “zangados”, rompendo com a aliança de amor que Deus fez connosco, e cedendo, sem dúvida, à tentação da qual nem sequer nos apercebemos.
E essa tentação leva-nos a procurar em “espiritualidades”, práticas e lugares errados, aquilo que pensamos não ter obtido de Deus, deixando-nos envolver em coisas que nos tiram a liberdade e nos amarram a situações que nos destroem.

Mas também o Demónio se serve da nossa consciência, tentando manipulá-la para seu “proveito”, que é sempre afastar o homem de Deus.
Deus criou-nos livres e deu-nos uma consciência livre, de tal modo que está na nossa vontade aceitar o amor de Deus e retribuí-lo, ou rejeitá-lo e negá-lo.
Mas Jesus Cristo também nos deixou a Igreja e nela e com ela, a Sua Palavra, a Doutrina, a Tradição que devem sempre nortear a nossa vida e serem o guia seguro do Caminho que o Senhor mesmo nos preparou e deu a conhecer.
E aí, na nossa consciência, o Demónio “valoriza” a nossa liberdade como estando acima do próprio Deus.
Claro que não o faz claramente, mas levando-nos a pensar que mais importante do que tudo, é a nossa consciência, e que mesmo que ela não esteja de acordo com o que nos ensina a Igreja, sendo “livre” e “correcta” para nós, é sempre correcta e agrada a Deus.
Assim o “verdadeiro juiz” das nossas acções passamos a ser nós mesmos, o que acaba por nos constituir como deuses de nós próprios, e nós sabemos bem que juiz em causa própria é sempre “justiça” errada.
Assim o Sacramento da Confissão deixa de “fazer sentido”, e lá estaremos nós a dizer ao mundo que apenas nos confessamos a Deus.
Claro que somos livres por vontade de Deus, claro que a nossa consciência é livre por vontade de Deus, mas a nossa vida e a nossa consciência só são verdadeiramente livres quando são iluminadas pela Verdade, quando vivem no amor com e a Deus, e aos outros, porque é em Deus que está a Verdade, porque Deus é a Verdade, e só a Verdade nos libertará.
«Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.» Jo 8, 31-32

Quase que poderíamos dizer que assim é impossível resistir ao Demónio e às suas tentações! Claro que não!

Porque se a nossa vida, a nossa consciência, estiverem em comunhão permanente com Deus, é por Ele, pelo Espírito Santo, que são iluminadas, e em todo o tempo Ele nos mostrará a insidia do Demónio, e nos dará forças para vencermos as tentações.
E mesmo que caiamos, uma e outra vez, sabemos, porque acreditamos, que a misericórdia de Deus é infinitamente maior do que o nosso pecado, e procurando o Sacramento da Confissão, reconciliamo-nos, por Sua graça, com Deus e com os irmãos.

Não é em vão que Jesus Cristo nos diz repetidamente para não nos deixarmos adormecer (Lc 22,46), para não sermos cristãos “mornos” (Ap 3,16), mas sim para vigiarmos e orarmos constantemente (Lc 21,36), porque é Ele mesmo que nos promete o envio do Espírito Santo, que recebemos no Baptismo, porque é Ele mesmo, o Espírito Santo, que nos iluminará, nos guiará, e até por nós falará (Mt 10,20), se a Ele nos entregarmos confiadamente.

«mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.» Jo 14, 26

Monte Real, 26 de Janeiro de 2011

(continua)
Joaquim Mexia Alves

24 janeiro, 2011

Mensagem do Papa Bento XVI para o 45º dia Mundial das Comunicações Sociais

Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital
5 de Junho de 2011

Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião do XXXXV Dia Mundial das Comunicações Sociais, desejo partilhar algumas reflexões, motivadas por um fenómeno característico do nosso tempo: a difusão da comunicação através da rede internet. Vai-se tornando cada vez mais comum a convicção de que, tal como a revolução industrial produziu uma mudança profunda na sociedade através das novidades inseridas no ciclo de produção e na vida dos trabalhadores, também hoje a profunda transformação operada no campo das comunicações guia o fluxo de grandes mudanças culturais e sociais. As novas tecnologias estão a mudar não só o modo de comunicar, mas a própria comunicação em si mesma, podendo-se afirmar que estamos perante uma ampla transformação cultural. Com este modo de difundir informações e conhecimentos, está a nascer uma nova maneira de aprender e pensar, com oportunidades inéditas de estabelecer relações e de construir comunhão.
Aparecem em perspectiva metas até há pouco tempo impensáveis, que nos deixam maravilhados com as possibilidades oferecidas pelos novos meios e, ao mesmo tempo, impõem de modo cada vez mais premente uma reflexão séria acerca do sentido da comunicação na era digital. Isto é particularmente evidente quando nos confrontamos com as extraordinárias potencialidades da rede internet e a complexidade das suas aplicações. Como qualquer outro fruto do engenho humano, as novas tecnologias da comunicação pedem para ser postas ao serviço do bem integral da pessoa e da humanidade inteira. Usadas sabiamente, podem contribuir para satisfazer o desejo de sentido, verdade e unidade que permanece a aspiração mais profunda do ser humano.
No mundo digital, transmitir informações significa com frequência sempre maior inseri-las numa rede social, onde o conhecimento é partilhado no âmbito de intercâmbios pessoais. A distinção clara entre o produtor e o consumidor da informação aparece relativizada, pretendendo a comunicação ser não só uma troca de dados, mas também e cada vez mais uma partilha. Esta dinâmica contribuiu para uma renovada avaliação da comunicação, considerada primariamente como diálogo, intercâmbio, solidariedade e criação de relações positivas. Por outro lado, isto colide com alguns limites típicos da comunicação digital: a parcialidade da interacção, a tendência a comunicar só algumas partes do próprio mundo interior, o risco de cair numa espécie de construção da auto-imagem que pode favorecer o narcisismo.
Sobretudo os jovens estão a viver esta mudança da comunicação, com todas as ansiedades, as contradições e a criatividade própria de quantos se abrem com entusiasmo e curiosidade às novas experiências da vida. O envolvimento cada vez maior no público areópago digital dos chamados social network, leva a estabelecer novas formas de relação interpessoal, influi sobre a percepção de si próprio e por conseguinte, inevitavelmente, coloca a questão não só da justeza do próprio agir, mas também da autenticidade do próprio ser. A presença nestes espaços virtuais pode ser o sinal de uma busca autêntica de encontro pessoal com o outro, se se estiver atento para evitar os seus perigos, como refugiar-se numa espécie de mundo paralelo ou expor-se excessivamente ao mundo virtual. Na busca de partilha, de «amizades», confrontamo-nos com o desafio de ser autênticos, fiéis a si mesmos, sem ceder à ilusão de construir artificialmente o próprio «perfil» público.
As novas tecnologias permitem que as pessoas se encontrem para além dos confins do espaço e das próprias culturas, inaugurando deste modo todo um novo mundo de potenciais amizades. Esta é uma grande oportunidade, mas exige também uma maior atenção e uma tomada de consciência quanto aos possíveis riscos. Quem é o meu «próximo» neste novo mundo? Existe o perigo de estar menos presente a quantos encontramos na nossa vida diária? Existe o risco de estarmos mais distraídos, porque a nossa atenção é fragmentada e absorvida por um mundo «diferente» daquele onde vivemos? Temos tempo para reflectir criticamente sobre as nossas opções e alimentar relações humanas que sejam verdadeiramente profundas e duradouras? É importante nunca esquecer que o contacto virtual não pode nem deve substituir o contacto humano directo com as pessoas, em todos os níveis da nossa vida.
Também na era digital, cada um vê-se confrontado com a necessidade de ser pessoa autêntica e reflexiva. Aliás, as dinâmicas próprias dos social network mostram que uma pessoa acaba sempre envolvida naquilo que comunica. Quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais. Segue-se daqui que existe um estilo cristão de presença também no mundo digital: traduz-se numa forma de comunicação honesta e aberta, responsável e respeitadora do outro. Comunicar o Evangelho através dos novos midia significa não só inserir conteúdos declaradamente religiosos nas plataformas dos diversos meios, mas também testemunhar com coerência, no próprio perfil digital e no modo de comunicar, escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando não se fala explicitamente dele. Aliás, também no mundo digital, não pode haver anúncio de uma mensagem sem um testemunho coerente por parte de quem anuncia. Nos novos contextos e com as novas formas de expressão, o cristão é chamado de novo a dar resposta a todo aquele que lhe perguntar a razão da esperança que está nele (cf. 1 Pd 3, 15).
O compromisso por um testemunho do Evangelho na era digital exige que todos estejam particularmente atentos aos aspectos desta mensagem que possam desafiar algumas das lógicas típicas da web. Antes de tudo, devemos estar cientes de que a verdade que procuramos partilhar não extrai o seu valor da sua «popularidade» ou da quantidade de atenção que lhe é dada. Devemos esforçar-nos mais em dá-la conhecer na sua integridade do que em torná-la aceitável, talvez «mitigando-a». Deve tornar-se alimento quotidiano e não atracção de um momento. A verdade do Evangelho não é algo que possa ser objecto de consumo ou de fruição superficial, mas dom que requer uma resposta livre. Mesmo se proclamada no espaço virtual da rede, aquela sempre exige ser encarnada no mundo real e dirigida aos rostos concretos dos irmãos e irmãs com quem partilhamos a vida diária. Por isso permanecem fundamentais as relações humanas directas na transmissão da fé!
Em todo o caso, quero convidar os cristãos a unirem-se confiadamente e com criatividade consciente e responsável na rede de relações que a era digital tornou possível; e não simplesmente para satisfazer o desejo de estar presente, mas porque esta rede tornou-se parte integrante da vida humana. A web está a contribuir para o desenvolvimento de formas novas e mais complexas de consciência intelectual e espiritual, de certeza compartilhada. Somos chamados a anunciar, neste campo também, a nossa fé: que Cristo é Deus, o Salvador do homem e da história, Aquele em quem todas as coisas alcançam a sua perfeição (cf. Ef 1, 10). A proclamação do Evangelho requer uma forma respeitosa e discreta de comunicação, que estimula o coração e move a consciência; uma forma que recorda o estilo de Jesus ressuscitado quando Se fez companheiro no caminho dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35), que foram gradualmente conduzidos à compreensão do mistério mediante a sua companhia, o diálogo com eles, o fazer vir ao de cima com delicadeza o que havia no coração deles.
Em última análise, a verdade que é Cristo constitui a resposta plena e autêntica àquele desejo humano de relação, comunhão e sentido que sobressai inclusivamente na participação maciça nos vários social network. Os crentes, testemunhando as suas convicções mais profundas, prestam uma preciosa contribuição para que a web não se torne um instrumento que reduza as pessoas a categorias, que procure manipulá-las emotivamente ou que permita aos poderosos monopolizar a opinião alheia. Pelo contrário, os crentes encorajam todos a manterem vivas as eternas questões do homem, que testemunham o seu desejo de transcendência e o anseio por formas de vida autêntica, digna de ser vivida. Precisamente esta tensão espiritual própria do ser humano é que está por detrás da nossa sede de verdade e comunhão e nos estimula a comunicar com integridade e honestidade.
Convido sobretudo os jovens a fazerem bom uso da sua presença no areópago digital. Renovo-lhes o convite para o encontro comigo na próxima Jornada Mundial da Juventude em Madrid, cuja preparação muito deve às vantagens das novas tecnologias. Para os agentes da comunicação, invoco de Deus, por intercessão do Patrono São Francisco de Sales, a capacidade de sempre desempenharem o seu trabalho com grande consciência e escrupulosa profissionalidade, enquanto a todos envio a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, Festa de São Francisco de Sales, 24 de Janeiro de 2011.

BENEDICTUS PP. XVI

21 janeiro, 2011

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA O XIX DIA MUNDIAL DO DOENTE 2011

11 de Fevereiro de 2011

«Pelas suas chagas fostes curados» (1 Pd 2, 24)

Queridos Irmãos e Irmãs!

Todos os anos, na memória da Bem-Aventurada Virgem de Lourdes, que se celebra a 11 de Fevereiro, a Igreja propõe o Dia Mundial do Doente. Esta circunstância, como quis o venerável João Paulo II, torna-se ocasião propícia para reflectir sobre o mistério do sofrimento e, sobretudo, para tornar as nossas comunidades e a sociedade civil mais sensíveis aos irmãos e irmãs doentes. Se todos os homens são nossos irmãos, aquele que é débil, sofredor ou necessitado de cuidado deve estar mais no centro da nossa atenção, para que nenhum deles se sinta esquecido ou marginalizado; com efeito «a grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. Isto vale tanto para o indivíduo como para a sociedade. Uma sociedade que não consegue aceitar os que sofrem e não é capaz de contribuir, mediante a com-paixão, para fazer com que o sofrimento seja compartilhado e assumido mesmo interiormente é uma sociedade cruel e desumana» (Carta enc.  Spe salvi, 38). As iniciativas que serão promovidas nas diversas Dioceses, por ocasião deste Dia, sirvam de estímulo para tornar cada vez mais eficaz o cuidado para com os sofredores, também na perspectiva da celebração de modo solene, que terá lugar em 2013, no Santuário mariano de Altötting, na Alemanha.
1. Tenho ainda no coração o momento em que, durante a visita pastoral a Turim, pude deter-me em reflexão e oração diante do Santo Sudário, diante daquele rosto sofredor, que nos convida a meditar sobre Aquele que carregou sobre si a paixão do homem de todos os tempos e lugares, inclusive os nossos sofrimentos, as nossas dificuldades e os nossos pecados. Quantos fiéis, no curso da história, passaram diante daquele tecido sepulcral, que envolveu o corpo de um homem crucificado, que corresponde em tudo ao que os Evangelhos nos transmitem sobre a paixão e a morte de Jesus! Contemplá-lo é um convite a reflectir sobre quanto escreve São Pedro: «Pelas suas chagas fostes curados» (1 Pd 2, 24). O Filho de Deus sofreu, morreu, mas ressuscitou, e exactamente por isso aquelas chagas tornam-se o sinal da nossa redenção, do perdão e da reconciliação com o Pai; tornam-se, contudo, também um banco de prova para a fé dos discípulos e para a nossa fé: todas as vezes que o Senhor fala da sua paixão e morte, eles não compreendem, rejeitam, opõem-se. Para eles, como para nós, o sofrimento permanece sempre carregado de mistério, difícil de aceitar e suportar. Os dois discípulos de Emaús caminham tristes, devido aos acontecimentos daqueles dias em Jerusalém, e só quando o Ressuscitado percorre a estrada com eles, se abrem a uma visão nova (cf. Lc 24, 13-31). Também o apóstolo Tomé mostra a dificuldade em crer na via da paixão redentora: «Se eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei» (Jo 20, 25). Mas diante de Cristo que mostra as suas chagas, a sua resposta transforma-se numa comovedora profissão de fé: «Meu Senhor e meu Deus» (Jo 20, 28). O que antes era um obstáculo intransponível, porque sinal da aparente falência de Jesus, torna-se, no encontro com o Ressuscitado, a prova de um amor vitorioso: «Somente um Deus que nos ama a ponto de carregar sobre si as nossas feridas e a nossa dor, sobretudo a dor inocente, é digno de fé» (Mensagem Urbi et Orbi, Páscoa de 2007).
2. Queridos doentes e sofredores, é justamente através das chagas de Cristo que podemos ver, com olhos de esperança, todos os males que afligem a humanidade. Ressuscitando, o Senhor não tirou o sofrimento e o mal do mundo, mas extirpou-os pela raiz. À prepotência do Mal opôs a omnipotência do seu Amor. Indicou-nos então, que o caminho da paz e da alegria é o Amor: «Como Eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aos outros» (Jo 13, 34). Cristo, vencedor da morte, está vivo no meio de nós E enquanto com São Tomé dizemos também: «Meu Senhor e meu Deus», seguimos o nosso Mestre na disponibilidade a prodigalizar a vida pelos nossos irmãos (cf. 1 Jo 3, 16), tornando-nos mensageiros de uma alegria que não teme a dor, a alegria da Ressurreição.
São Bernardo afirma: «Deus não pode padecer, mas pode compadecer». Deus, a Verdade e o Amor em pessoa, quis sofrer por nós e connosco; fez-se homem para poder com-padecer com o homem, de modo real, em carne e sangue. Em cada sofrimento humano, portanto, entrou Aquele que partilha o sofrimento e a suportação; em cada sofrimento difunde-se a con-solatio, a consolação do amor partícipe de Deus para fazer surgir a estrela da esperança (cf. Carta enc. Spe salvi, 39).
A vós, queridos irmãos e irmãs, repito esta mensagem, para que sejais suas testemunhas através do vosso sofrimento, da vossa vida e da vossa fé.
3. Considerando o encontro de Madrid, no mês de Agosto de 2011, para a Jornada Mundial da Juventude, gostaria de dirigir também um pensamento especial aos jovens, especialmente aos que vivem a experiência da doença. Com frequência a Paixão e a Cruz de Jesus causam medo, porque parecem ser a negação da vida. Na realidade, é exactamente o contrário! A Cruz é o «sim» de Deus ao homem, a expressão mais elevada e intensa do seu amor e a fonte da qual brota a vida eterna. Do Coração trespassado de Jesus brotou esta vida divina. Só Ele é capaz de libertar o mundo do mal e de fazer crescer o seu Reino de justiça, de paz e de amor ao qual todos aspiramos (cf. Mensagem para a Jornada Mundial da Juventude de 2011, 3). Queridos jovens, aprendei a «ver» e a «encontrar» Jesus na Eucaristia, onde Ele está presente de modo real para nós, até se fazer alimento para o caminho, mas sabei reconhecê-lo e servi-lo também nos pobres, nos doentes, nos irmãos sofredores e em dificuldade, que precisam da vossa ajuda (cf. ibid., 4).
A todos vós jovens, doentes e sadios, repito o convite a criar pontes de amor e solidariedade, para que ninguém se sinta sozinho, mas próximo de Deus e parte da grande família dos seus filhos (cf. Audiência geral, 15 de Novembro de 2006).
4. Ao contemplar as chagas de Jesus o nosso olhar dirige-se ao seu Sacratíssimo Coração, no qual se manifesta em sumo grau o amor de Deus. O Sagrado Coração é Cristo crucificado, com o lado aberto pela lança, do qual brotam sangue e água (cf. Jo 19, 34), «símbolo dos sacramentos da Igreja, para que todos os homens, atraídos pelo Coração do Salvador, bebam com alegria na fonte perene da salvação» (Missal Romano, Prefácio da Solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus). Especialmente vós, queridos doentes, sentis a proximidade deste Coração cheio de amor e bebeis com fé e alegria de tal fonte, rezando: «Água do lado de Cristo, lava-me. Paixão de Cristo, fortalece-me. Oh, bom Jesus, ouve-me. Nas tuas chagas, esconde-me» (Oração de Santo Inácio de Loyola).
5. Na conclusão desta minha Mensagem para o próximo Dia Mundial do Doente, desejo exprimir o meu afecto a todos e a cada um, sentindo-me partícipe dos sofrimentos e das esperanças que viveis quotidianamente em união com Cristo crucificado e ressuscitado, para que vos conceda a paz e a cura do coração. Juntamente com Ele ao vosso lado vigie a Virgem Maria, que invocamos com confiança como Saúde dos enfermos e Consoladora dos sofredores. Aos pés da Cruz realiza-se para Ela a profecia de Simeão: o seu Coração de Mãe é trespassado (cf. Lc 2, 35). Do abismo da sua dor, participação no sofrimento do Filho, Maria tornou-se capaz de assumir a nova missão: tornar-se a Mãe de Cristo nos seus membros. Na hora da Cruz, Jesus apresenta-lhe cada um dos seus discípulos, dizendo-lhe: «Eis o teu filho» (cf. Jo 19, 26-27). A compaixão materna para com o Filho torna-se compaixão materna para cada um de nós nos nossos sofrimentos quotidianos (cf. Homilia em Lourdes, 15 de Setembro de 2008).
Queridos irmãos e irmãs, neste Dia Mundial do Doente, exorto também as Autoridades a fim de que invistam cada vez mais energias em estruturas médicas que sirvam de ajuda e apoio aos sofredores, sobretudo aos mais pobres e necessitados e, dirigindo o meu pensamento a todas as Dioceses, transmito uma saudação afectuosa aos Bispos, aos sacerdotes, às pessoas consagradas, aos seminaristas, aos agentes no campo da saúde, aos voluntários e a todos os que se dedicam com amor a cuidar e aliviar as chagas de cada irmão e irmã doente, nos hospitais ou casas de cura, nas famílias: nos rostos dos doentes sabei ver sempre o Rosto dos rostos: o de Cristo.
A todos garanto a minha recordação na oração, enquanto concedo a cada um a especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 21 de Novembro de 2010.
BENEDICTUS PP. XVI
Fonte: http://www.vatican.va/phome_po.htm

20 janeiro, 2011

O DEMÓNIO E AS TENTAÇÕES (2)


Não pretendo, obviamente, com estes textos, fazer nenhum “tratado” sobre o Demónio, ou “estudo” sobre a Demonologia, (pois para isso há diversos livros que poderei indicar), mas tão só reflectir e partilhar, (em pensamentos e palavras simples), sobre aquilo que no dia-a-dia nos é dado a conhecer e viver sobre este assunto.

Partindo do texto anterior é-nos dado perceber que hoje em dia, muitas pessoas atribuem ao Demónio, acontecimentos, acções e atitudes, que depois de bem analisadas, percebemos que são afinal “coisas” do dia-a-dia, do viver de cada um.

A procura de justificações para coisas que não parecem à partida “normais”, o sentido da procura do sobrenatural que hoje em dia tantos vivem, (tantas vezes de maneira errada), os discursos “inflamados” de alguns para tentarem levar as pessoas a Cristo por medo ao demónio, leva a que muitas pessoas não analisem com bom senso os factos de que são “vítimas”, (e de que não poucas vezes são os próprios “culpados”), a atribuírem ao Demónio coisas que, como dizia acima, são factos do dia-a-dia.

Contribui, aliás, certamente para tudo isto, a invasão diária pela televisão e outros meios, de cartomantes, videntes, médiuns, e tantas coisas mais, que nos levam a olhar para o sobrenatural como algo que nos mete medo, e que influencia as nossas vidas sem nos podermos defender.

A título de exemplo conto, que há poucos anos, veio uma pessoa ter comigo pedindo conselho e oração, pois tinha a certeza que o Demónio estava a influenciar a sua vida, (tal como pessoas “amigas” lhe diziam e afirmavam), e ela já não colocava em dúvida, estando assustada e em certo sentido “desesperada” sem saber o que fazer.

Resumindo a conversa, forçosamente longa, os factos mais importantes desenvolviam-se numa semana e eram os seguintes: tinham assaltado a sua casa, a sua filha tinha abortado naturalmente e o seu neto tinha tido um acidente de automóvel.

Conversámos sobre a vida que essa pessoa levava, sobretudo da sua vivência cristã, e depois analisámos calmamente os factos que a levavam a pensar que o Demónio andava a “atormentar” a sua vida.

A casa tinha sido assaltada, quando essa pessoa se deslocou ao supermercado por 10 minutos e deixou as janelas abertas. Só que demorou mais de uma hora e quando regressou a casa tinha sido roubada.
A filha tinha abortado naturalmente, mas já era a terceira vez, (tendo apesar de tudo já um filho, salvo o erro), e já tinha sido alertada pelo seu médico, pois tinha alguns problemas físicos que podiam provocar precisamente o aborto natural.
O neto tinha 18 anos, carta de condução recente, e o acidente tinha acontecido numa madrugada de sábado.

Obviamente que a pessoa, colocada perante os argumentos, percebeu que tudo o que tinha acontecido era “normal” na vida do dia-a-dia, e que não era o Demónio que se andava a encarniçar contra ela.

Mas a verdade é que, (por força do que lhe tinham dito e da sua própria “convicção” induzida pelo que ouvia), essa pessoa tinha vivido dias verdadeiramente assustada com a possibilidade de o Demónio estar na sua vida.

Com isto quero eu dizer que o Demónio não pode actuar e influenciar a vida das pessoas?
De modo nenhum o quero dizer, ou afirmar, mas sim que devemos ter sempre a perspectiva correcta daquilo que realmente se passa, e sobretudo não nos deixarmos influenciar por quem em tudo vê o Demónio.

Fomos criados por Deus em liberdade, e é em liberdade, perante Deus, que tomamos as nossas decisões, e que fazemos as nossas acções.

Podemos ser tentados a fazer o mal?
Sim, com certeza!
Mas só o fazemos, se verdadeiramente nos dispusermos a fazê-lo.

Eu posso ser tentado a beber demasiadamente e ficar bêbado, mas não é o Demónio que me senta ao volante do meu carro.
Eu posso ser tentado a cometer um aborto, mas não é o Demónio que toma a decisão e me leva a essa acção.
Eu posso ser tentado a mentir, mas não é o Demónio que fala pela minha boca.

Com certeza que aqui não estamos a falar de possessões demoníacas, (muito raras entre nós), mas sim na acção tentadora do Demónio que apenas se torna efectiva pela nossa vontade, pelo nosso querer.

Lembremo-nos sempre:
«Não vos surpreendeu nenhuma tentação que tivesse ultrapassado a medida humana. Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças, mas, com a tentação, vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar.» 1 Cor 10, 13

Por isso a vigilância constante, permanente, que passa pela vida de oração, pela leitura orante e o estudo da Palavra de Deus, pelos Sacramentos, mormente a Confissão e a Eucaristia, (com a Comunhão Eucarística), com o aprofundar da fé, ouvindo a Igreja que ensina pela voz dos seus membros, pelos documentos colocados à disposição dos fiéis, pela voz do Santo Padre, lendo livros reconhecidamente católicos e pedindo conselho a quem efectivamente os pode dar, como os sacerdotes e leigos empenhados e reconhecidos como tal.

«No entanto, o poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito, mas, de qualquer modo, criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus.» Catecismo da Igreja Católica 395

Monte Real, 20 de Janeiro de 2011

(continua)
Joaquim Mexia Alves

19 janeiro, 2011

A unidade dos cristãos é acima de tudo um dom de Deus

Papa na  audiência geral - 19 de Janeiro de 2011

Na audiência geral desta quarta-feira, segundo dos oito dias da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, Bento XVI apresentou quatro “pilares” que considera necessários para a construção da unidade dos cristãos, lamentando que as divisões entre Igrejas não permitam celebrar em conjunto a Eucaristia.
“Durante esta semana é particularmente viva a amargura pela impossibilidade de partilha da própria mesa eucarística, sinal que estamos ainda longe da realização daquela unidade pela qual Cristo orou”, constatou.
Ao recordar que “a história do movimento ecuménico é assinalada por dificuldades e incertezas", Bento XVI salientou que ela é “também uma história de fraternidade, de cooperação e de partilha humana e espiritual.
No seu discurso, o Papa desenvolveu os quatro elementos do tema da Semana pela Unidade dos Cristãos, ‘Eram assíduos na escuta do ensinamento dos apóstolos e na união fraterna, na fracção do pão e na oração’, frase que evoca a experiência da comunidade de Jerusalém tal como é narrada no livro bíblico dos Actos dos Apóstolos (séc. I).
Para Bento XVI, as características que definem o primeiro grupo de cristãos como espaço “de unidade e de amor” continuam a representar “os pilares da vida de toda a comunidade cristã e constituem também o único fundamento sólido sobre o qual avançar na construção da unidade visível da Igreja”.
Referindo-se à primeira particularidade dos cristãos de Jerusalém, o Papa salientou que “ainda hoje a comunidade dos crentes reconhece na referência ao ensinamento dos apóstolos a norma da própria fé”.
No que respeita à união fraterna, segundo tópico do tema da Semana de Oração, Bento XVI sublinhou que, à semelhança do que aconteceu “ao tempo da primeira comunidade cristã”, ela continua a ser hoje “a expressão mais tangível, sobretudo para o mundo externo, da unidade entre os discípulos” de Cristo.
A intervenção de Bento XVI centrou-se também na “fracção do pão”, termo que evoca o relato bíblico em que dois viajantes que faziam o trajecto entre Jerusalém e Emaús com Cristo, apenas o reconheceram quando, na refeição tomada ao anoitecer, ele partiu o pão.
“A comunhão com o sacrifício de Cristo é o cume da nossa união com Deus e representa por isso também a plenitude da unidade” dos cristãos, disse o Papa, que lamentou não poder ser possível concretizá-la em conjunto.
No entender de Bento XVI, esta “experiência dolorosa”, que confere uma “dimensão penitencial” à oração de todos os cristãos, “deve tornar-se motivo de um empenho ainda mais generoso da parte de todos”, para que, “removidos os obstáculos à plena comunhão”, chegue o dia em que seja possível “partir juntos o pão eucarístico e beber do mesmo cálice”.
A oração, por seu lado, “é desde sempre a atitude constante dos discípulos de Cristo” que possibilita a abertura “à fraternidade”, “ao perdão e à reconciliação”.
O Papa realçou que os cristãos têm “uma responsabilidade comum” para o mundo, ao oferecer um “forte testemunho” que os torne “portadores de uma mensagem que oriente e ilumine os caminhos” da humanidade, “muitas vezes privados de pontos de referência claros e válidos”.
Bento XVI deixou uma saudação em português, exortando os peregrinos lusófonos ali presentes “a perseverar na oração, pedindo a Deus o dom da unidade.
"Queridos irmãos e irmãs,
Estamos celebrando a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, cujo tema, neste ano, refere-se à experiência da primeira comunidade cristã, descrita nos Atos dos Apóstolos: “Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42). Aqui encontramos quatro características que definem a primeira comunidade e que constituem uma sólida base para a construção da unidade visível da Igreja: “Escutar o ensinamento dos apóstolos”, ou seja, o testemunho da missão, vida, morte e ressurreição do Senhor; “a comunhão fraterna”, isto é, dividir os próprios bens, materiais e espirituais; “a fração do pão” - a eucaristia – o ápice da nossa união com Deus e que representa a plenitude da unidade; e, finalmente, “a oração”, que deve ser a atitude constante dos discípulos de Cristo. Com efeito, o caminho para a construção da unidade entre os cristãos deve manter no centro a oração: isso nos lembra que a unidade não é um simples fruto da ação humana, mas é, acima de tudo, um dom de Deus.
* * *
Amados peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! A todos saúdo com grande afeto e alegria, exortando-vos a perseverar na oração, pedindo a Deus o dom da unidade, a fim de que se cumpra no mundo inteiro o seu desígnio de salvação! Ide em paz!"
 
Fonte: http://www.radiovaticana.org

15 janeiro, 2011

João Paulo II "merece esta exaltação" afirma D. José Policarpo

A beatificação do Papa João Paulo II é uma alegria para toda a Igreja e não surpreendeu o Cardeal-Patriarca de Lisboa que reconhece em Karol Wojtyla "um padre a sério", "lutador", "optimista" e com "fino sentido de humor".

14 janeiro, 2011

Beatificação de João Paulo II

João Paulo II será beatificado por Bento XVI no Vaticano a 1 de Maio próximo, Domingo da Divina Misericórdia

O Papa Bento XVI aprovou hoje a publicação do decreto que comprova um milagre atribuído à intercessão de João Paulo II, concluindo assim o processo para a sua beatificação.
A sala de imprensa da Santa Sé anunciou, entretanto, que a cerimónia de beatificação vai decorrer aqui no Vaticano, a 1 de Maio, Domingo da Divina Misericórdia, e será presidida por Bento XVI.
O milagre agora comprovado refere-se à cura da freira francesa Marie Simon Pierre, que sofria da Doença de Parkinson.
A religiosa pertence à congregação das Irmãzinhas das Maternidades Católicas e trabalha em Paris, tendo superado, em 2005, todos os sintomas da doença de que sofria há quatro anos.
A decisão abriu caminho, em definitivo, à beatificação do Papa polaco, que liderou a Igreja Católica entre 1978 e Abril de 2005, quando faleceu.
A data escolhida para a beatificação recorda a celebração litúrgica mais próxima da morte de João Paulo II, que faleceu na véspera da festa da Divina Misericórdia, por ele criada em 2000.
Como o próprio Bento XVI recordou, em 2008, durante o jubileu do ano 2000 "João Paulo II estabeleceu que na igreja inteira o Domingo a seguir à Páscoa passasse a ser denominado também Domingo da Divina Misericórdia".
João Paulo II tornara pública a sua decisão no âmbito da cerimonia de canonização de Faustina Kowalska (30.04.2000), religiosa polaca nascida em 1905 e falecida em 1938, "zelosa mensageira de Jesus Misericordioso".
Os trâmites processuais para o reconhecimento do milagre atribuído à intercessão de João Paulo II aconteceram segundo as normas estabelecidas em 1983.
A legislação estabelece a distinção de dois procedimentos: o diocesano e o da Congregação, dito romano.
O primeiro realiza-se no âmbito da diocese na qual aconteceu o facto: O bispo abre a instrução sobre o pressuposto milagre na qual são reunidas tanto os depoimentos das testemunhas oculares interrogadas por um tribunal devidamente constituído, como a completa documentação clínica e instrumental inerente ao caso.
A canonização é a confirmação, por parte da Igreja, que um fiel católico é digno de culto público universal (no caso dos beatos, o culto é diocesano) e de ser dado aos fiéis como intercessor e modelo de santidade. 

Fonte: http://www.radiovaticana.org

13 janeiro, 2011

O DEMÓNIO E AS TENTAÇÕES (1)


Muito se fala do demónio nestes tempos actuais.

Uns, tentando afirmar a sua não existência, convencidos que, por muito o afirmarem, ele deixa de existir.
Nunca uma mentira, por muito sustentada que seja, se torna verdade, e afirmar que o demónio não existe, é mentir.

Outros afirmando a sua existência, mas de tal modo, que mais parece ser o demónio quem dirige ou permanentemente interfere nas nossas vidas, e em tudo o que acontece no dia-a-dia.

Realmente o demónio existe, como nos diz o Catecismo da Igreja Católica, e assim sendo é para nós cristãos católicos, Doutrina em que devemos acreditar

II. A queda dos anjos

391. Por detrás da opção de desobediência dos nossos primeiros pais, há uma voz sedutora, oposta a Deus (266), a qual, por inveja, os faz cair na morte (267). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo (268). Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali – De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus» (269).

392. A Escritura fala dum pecado destes anjos (270). A queda consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram Deus e o seu Reino. Encontramos um reflexo desta rebelião nas palavras do tentador aos nossos primeiros pais: «Sereis como Deus» (Gn 3, 5). O Diabo é «pecador desde o princípio» (1 Jo 3, 8), «pai da mentira» (Jo 8, 44).

393. É o carácter irrevogável da sua opção, e não uma falha da infinita misericórdia de Deus, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado. «Não há arrependimento para eles depois da queda, tal como não há arrependimento para os homens depois da morte» (271).

414. Satanás ou Diabo e os outros demónios são anjos decaídos por terem livremente recusado servir a Deus e ao seu desígnio. A sua opção contra Deus é definitiva. E eles tentam associar o homem à sua revolta contra Deus.

Mas o que me leva hoje a escrever sobre o demónio, não é afirmar a sua existência, que acima é confirmada pelo Catecismo, e portanto, para nós cristãos católicos é uma realidade, mas sim o modo como, por alguns, é afirmada esta existência e a sua influência na vida do mundo e de cada um.

É que muitas vezes tenta incutir-se um medo irracional ao demónio, atribuindo-lhe tudo o que de mal acontece, como se da nossa parte não houvesse qualquer responsabilidade no mal que por vezes fazemos ou sofremos.

Em primeiro lugar, a meu ver, este é um caminho errado para tentar levar alguém ao amor, (Deus), por medo do ódio, (demónio).

É que ouve-se e assiste-se não poucas vezes a discursos inflamados, tentando levar as pessoas a Deus, apenas ou tendo como razão, a “fuga” ao demónio, à protecção da influência do demónio.

Ora ninguém ama porque tem medo!
A comunhão com Deus é sempre uma comunhão de amor, e não uma relação de interesse próprio num só sentido.
Não se ama a Deus, porque se tem medo do demónio, mas quando muito, por medo ao demónio, “rezam-se” orações intermináveis e repetitivas, caindo em superstições, para pedir a Deus que nos proteja do maligno.
Mas assim não há uma relação de amor com Deus, mas apenas uma relação de interesse da nossa parte, para que Aquele que consideramos mais poderoso, nos proteja daquele de quem temos medo.
É pouco, muito pouco, para uma relação do amado, (o homem), com o amor, (Deus), pois o amor alimenta-se e vive do amor, e não do medo.

Nenhum pai, nenhuma mãe, incute medo ao seu filho para que ele os ame!
Quando muito esse filho, assim, poderá afirmar pela boca um amor, que afinal é só medo também.

O amor de Deus pelo homem  não se consubstancia de modo algum apenas na vontade de Deus proteger o homem dos ataques do maligno, mas sim na vontade de Deus, expressa no Seu infinito amor pelo homem, amor que tudo perdoa, para que, pela graça da salvação, o homem possa gozar da felicidade eterna na e da presença do Criador.

Porque a resposta pelo homem ao amor de Deus, tem de ser sempre o amor do homem a Deus, e só nesta comunhão de amor o homem está protegido do mal, pelo amor de Deus, não só dando-lhe forças para vencer as tentações, mas também e sobretudo pelo infinito perdão de Deus ao homem, sempre que este se deixa cair em tentação.
 
Não dão um pai e uma mãe as suas vidas por um filho em perigo?

Então que medo podemos nós ter, se o nosso Deus de amor já deu a vida por nós?

Ao dar a Sua vida por nós e ao ressuscitar, Jesus Cristo, Nosso Deus e Senhor, venceu o mal, venceu a morte, e por isso mesmo, quem permanece em Cristo, Cristo permanece nele, e se Cristo permanece nele, quem pode alguma coisa contra ele, em quem Cristo permanece.

Conforme afirma São Paulo:

«Que mais havemos de dizer? Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós? Ele, que nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?
Quem poderá separar-nos do amor de Cristo?
A tribulação, a angústia,
a perseguição,
a fome, a nudez,
o perigo, a espada?
De acordo com o que está escrito:
Por causa de ti, estamos expostos à morte o dia inteiro,
fomos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro.
Mas em tudo isso saímos mais do que vencedores,
graças àquele que nos amou.
Estou convencido de que nem a morte nem a vida,
nem os anjos nem os principados,
nem o presente nem o futuro,
nem as potestades,
nem a altura, nem o abismo,
nem qualquer outra criatura
poderá separar-nos do amor de Deus
que está em Cristo Jesus, Senhor nosso.» Rm 8, 31-39

Outra coisa que se revela de importância decisiva, é a nossa constante, permanente, vigilância sobre as nossas fraquezas, para que não caiamos em tentação e para que caindo, não cortemos da nossa parte a aliança com Deus, pois da parte d’Ele, a aliança permanece intacta, porque Ele é sempre fiel, mesmo quando somos infiéis.

«Se formos infiéis, Ele permanecerá fiel, pois não pode negar-se a si mesmo.» 2 Tm 2,13

Monte Real, 13 de Janeiro de 2011

(Continua)
Joaquim Mexia Alves