22 outubro, 2010

Carta do Cardeal-Patriarca de Lisboa aos Párocos e às comunidades cristãs do Patriarcado de Lisboa

 Lisboa, 20 de Outubro de 2010 

Queridos Irmãos e Irmãs,

O Santo Padre Bento XVI iniciará o Advento com uma Vigília, por ele presidida, na Basílica de São Pedro, intitulada ³Vigília pela Vida Nascente´ e pede a todos os Bispos para o acompanharem, presidindo nas suas Dioceses, a uma Vigília. Aceitamos o convite do Santo Padre e convocamos para o Mosteiro dos Jerónimos, no dia 27 de Novembro, às 21h30m, uma vigília diocesana.
O Advento é preparação para a festa do nascimento de Jesus Cristo, Ele que é a fonte da vida e a sua plenitude vivida por um Homem. “Eu vim para que as ovelhas tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo. 10.10).
Neste desafio do Santo Padre, a expressão “vida nascente” refere-se, antes de mais, ao nascimento de Jesus, o Verbo eterno de Deus, nascido como Homem do seio da Virgem Maria. 
Todos estamos conscientes das agressões à vida, a esta busca da plenitude da vida, no nosso mundo contemporâneo. A Igreja está ao serviço da vida. Ela é “o povo da vida”, como afirmou João Paulo II. Ela acredita que toda a vida brota de Deus, que Jesus Cristo é a sua plenitude humana e a fonte da força que nos permite lutar pela verdade da vida, em todas as suas etapas e expressões. No seu convite, o Santo Padre afirma: Nesta Vigília celebrada por todas as Igrejas particulares, pediremos graça e a luz do Senhor para a conversão dos corações e daremos um testemunho eclesial comum para uma cultura da vida e do amor”. Esta Vigília situa-se, assim, no dinamismo da Nova Evangelização, tema da minha recente Carta Pastoral.
Esta Vigília preparará o nosso coração para iniciativas próximas do Santo Padre, tais como as Jornadas Mundiais da Juventude, em Madrid no próximo mês de Agosto e o VI Encontro Mundial da Famílias, em Milão, em 2012, sobre o tema “A família, o trabalho e a festa”. Manifestações centrais da expressão da vida.
Essa Vigília, será também, preparatória das ordenações, a realizar no dia seguinte, na Igreja dos Jerónimos. Entregar-se totalmente ao Senhor para o serviço do Reino, é uma expressão maior da vida e do serviço da vida.
Proponho, pois, quanto segue:

1.    A Vigília. Constará das primeiras Vésperas do Advento, Adoração Eucarística, bênção das grávidas.
2.    Convoco todos os diocesanos, mas de modo particular as famílias, as mulheres grávidas, os jovens.
3.    Sugiro que nas reuniões de Vigararia se decida fazer vigílias locais, paroquiais, inter-paroquiais ou vicariais nessa mesma noite, permitindo aos cristãos, mais afastados de Lisboa, unirem-se ao Santo Padre.
4.    Que esta Vigília do 1º Domingo do Advento seja completada com outras celebrações: bênção dos bebés, a 8 de Dezembro, a nível local; que as famílias, com as suas crianças, se encontrem comigo a 19 de Dezembro na Igreja do Mosteiro dos Jerónimos às 16 horas, para a bênção das imagens do Menino Jesus, a venerar nos presépios familiares.

Uma equipa diocesana, constituída pelo Cón. Carlos Paes, Cón. Luís Manuel e pelo Diácono Romero, prepararão e dinamizarão estas celebrações.
Na sua recente visita, o Papa desafiou-nos a fazer da nossa vida um lugar de beleza. Propõe-nos agora um caminho para que isso aconteça. A vida sem beleza é uma vida que ainda não se encontrou.
            Desejo a todos um Santo Advento.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

19 outubro, 2010

Carta Pastoral do Cardeal-Patriarca, à Igreja de Lisboa


«NOVA EVANGELIZAÇÃO»

 

Um desafio pastoral

 

O Cardeal-Patriarca de Lisboa quer um novo vigor da Nova Evangelização assente na fidelidade e na santidade daqueles que desempenham qualquer missão dentro da Igreja. Este desejo é manifestado por D. José Policarpo na Carta Pastoral dirigida à Igreja de Lisboa, publicada recentemente, intitulada "«Nova Evangelização», um desafio pastoral", que o próprio aqui apresenta.



Para acesso à Carta Pastoral, clique em:
 

15 outubro, 2010

A presença do Senhor na Palavra

Editorial do Labat n.º 107 de Setembro/Outubro de 2010

Começo por citar o Senhor Bispo D. Alberto Taveira que na última assembleia interdiocesana, em Fátima (XXXIII Assembleia Interdiocesana), nos recordou: 'O Renovamento carismático não é um meio para curas e dons, ou pedidos, mas sim um espaço para dizer: eu vi o Senhor. Os grupos de oração carismática sejam espaços sagrados  de abertura ao Espírito Santo onde se possa dizer: eu vi o Senhor. E a experiência de de dons e curas divinas por Jesus na vivência do grupo de oração seja levada ao fundo da sua existência em que a raíz está no Baptismo' (...)
Chamou-nos a viver a experiência do Ressuscitado - morte, ressurreição, ascensão e Pentecostes - pois Deus utiliza na vida de cada um muitas experiências maravilhosas.
'A efusão do Espírito Santo faz parte desta presença de Jesus em nós'.
Partindo desta verdade, convido cada leitor  do Labat (por norma, transcrito  neste blogue) a coabitar com a experiência da presença  do Ressuscitado que o Espírito Santo renovou pelas graças carismáticas. A pertença  do Senhor é sinal da sua presença na Palavra. Em Rm 10 e Sl 119, 115 vivemos esta prática: "A fé depende da pregação e a pregação é o anúncio da Palavra de Cristo que é farol para os meus passos e luz para os meus caminhos". As duas citações bíblicas constituem o centro da reflexão do programa pastoral 2010/2011 do Renovamento da diocesano.
O Espírito de Ressuscitado não pode estar encerrado. Ele precede-nos por toda a parte, abrindo longe nossos horizontes . Tornamo-nos pertença da Palavra, levar-nos -à a testemunhar: Eu vi o Senhor.
Dia a dia o sinal da presença de Jesus na Palavra. Esta verdade mede-se pelo amor ao outro e particularmente aos pobres onde está a presença do Senhor.
João Silva

Programa do Renovamento Carismático da Diocese de Lisboa

Ano Pastoral 2010/2011

“A Tua Palavra é farol para os meus passos e Luz para os meus caminhos” Si 119, 105

O Tema no seu tratamento e desenvolvimento apresenta como Objectivo Fundamental:

‘A FÉ DEPENDE DA PREGAÇÃO, E A PREGAÇÃO É O ANÚNCIO DA PALAVRA DE CRISTO’ Rm 10, 17

Objectivo geral:

DESENCADEAR O ACOMPANHAMENTO AOS GRUPOS DE ORAÇÃO

Este objectivo geral pode ser abordado através de diversos itens como:

»  Na recente Carta Pastoral do Cardeal-Patriarca à Igreja de Lisboa, onde quer uma novo vigor na ‘Nova Evangelização’ assente na fidelidade e na santidade daqueles que desempenham qualquer missão dentro da Igreja. Sobre esse documento, o Renovamento Carismático Diocesano procurará debruçar-se sobre algumas das ideias (‘no ardor sobrenatural e na força carismática, na força da fé vivida como amor a Cristo, nas palavras do Evangelho, na evangelização extensiva a todos e na experiência contemplativa’), aprofundando-as e aplicando-as à vivência cristã e de evangelização, na especialidade do Renovamento.

» Nos documentos e mensagens do Papa Bento XVI, durante a sua visita a Portugal, incluindo também as três crónicas sobre os discursos do Santo Padre que o P. Joaquim Carreira das Neves, OFM, escreveu para o Labat e publicações no Labat n.º 105, de Junho (neste blogue: Visita do Papa a Portugal I), Labat n.º 106, de Julho  (neste blogue: Visita do Papa a Portugal II) e Labat n.º 107, de Setembro/Outubro (neste blogue: Visita do Papa a Portugal III).

» No encontro vivo da Palavra; No estimular do empenho no anúncio da palavra de Deus; no desenvolver o encontro com Cristo, Rosto da Palavra, suscitando um apelo à santidade que implique compromisso e acção; em procurar impulsionar a construção da Igreja, casa da Palavra, aprofundando a vivência comunitária da Palavra de Deus;

» Com o assumir o chamamento e o desafio à missão, incentivando o empenho no anúncio da Palavra de Deus; No ajudar a perscrutar os sinais dos tempos à luz da Palavra, nos dias de hoje; Através do acompanhamento presencial na assistência ao grupo.

LINHAS PROGRAMÁTICAS A NÍVEL DIOCESANO

§ Assembleia Diocesana de Aniversário do Renovamento na Igreja de Lisboa, no dia 9 de Janeiro de 2011 (todo o dia);
§ Retiro anual da Quaresma, em Fátima, nos dias 8, 9 e 10 de Abril de 2011;
§ Assembleia de Líderes: 1.ª – em 5 de Março de 2011 e 2.ª – em 25 de Junho de 2011;
§ Accionar o secretariado diocesano de intercessão;
§ Dinamizar o secretariado diocesano de acolhimento;
§ Acções de acompanhamento e assistência, Seminários de Vida Nova do Espírito, Discernimentos e aniversários;
§ Utilizar os meios de comunicação social e tecnológica de informação - ao serviço da evangelização, na divulgação da vida cristã, na formação e crescimento do grupo, nas acções do ‘Renovamento Carismático Católico da Diocese de Lisboa’;
§ Da palavra escrita: livros, folhetos, brochuras e separatas;
§ De áudio-visuais: Cds e Dvd’s, Power Point, gravações e reproduções.

Contactos:  Tel . 21 760 54 70,  Tlm. 91 584 44 72,  Fax 21 764 73 44
Equipa de Serviço Diocesano Renovamento Carismático Católico
Rua Augusto Costa Costinha, n.º 17 – R/C
1500-064 LISBOA
Labat n.º 107 de Setembro/Outubro de 2010

Visita do Papa a Portugal III


A linhagem (descendência) do Povo de Deus

Na homilia do dia 13, no santuário de Fátima, o Papa dissertou sobre a primeira leitura da Bíblia, em Is 61, 9. A linhagem (descendência do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou”.
- Segundo os judeus, esta linhagem ou descendência, nasce em Abraão e continua pelos tempos dependente da “berit”, do pacto ou aliança, com leis próprias e identidade. Esta realidade contínua, ontem como hoje, como teologia fundamental do monoteísmo judaico. Para os mais ortodoxos dos judeus, há os judeus monoteístas e os outros.
- Para nós, cristãos, com a vinda de Jesus , esta linhagem radica não só em Abraão, mas também se redefine com a pessoa de Jesus. Segundo o NT, Jesus é novo primogénito da nova linhagem (Rm 5, 12ss; Ef., 2, passim). É desta maneira que a Mãe de Jesus, precisamente por ser mãe biológica, recebe uma mais valia religiosa no mistério da incarnação. Não há Messias, Salvador, Senhor, Filho de Deus sem a mãe.
Neste sentido, o Papa realça, como já fizera, o papel de Maria em Fátima. Outro tanto se diga do papel dos Pastorinhos. Eles viram a luz que vinha do céu, colada à presença de Maria. Eles viram e acreditaram.

A compreensão da dialéctica entre o sensível e visível versus não-sensível e não-visível

O Papa, meditando neste mistério de Fátima, levanta a sua voz para a compreensão da dialéctica entre o sensível e visível versus não-sensível e não-visível. Para tanto, disse o Papa: “exige-se uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma”. E continua: “Mais ainda, aquela Luz no íntimo dos Pastorinhos, que provém do futuro de Deus, é a mesma que se manifestou na plenitude dos tempos e veio para todos: o Filho de Deus feito homem (…).
Por isso a nossa esperança tem fundamento real, apoia-se num acontecimento que se coloca na história e ao mesmo tempo excede-a: é Jesus de Nazaré. (…) Mas quem tem tempo para escutar a sua Palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor? Quem vela, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração acordado em oração?”


O Papa repetiu por três vezes a verdade sobre a “linhagem do povo de Deus”. Na segunda vez disse: “A linhagem do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou” (Is 61, 9), com uma esperança inabalável e que frutifica num amor que se sacrifica pelos outros, mas não sacrifica os outros; antes – como ouvimos na segunda leitura – “Tudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 7).
Neste sentido disse Bento XXVI, “Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída”,
Aqui reside aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: “Onde está Abel, teu irmão?...”.

Identidade da acção pastoral e social cristã e católica

Continuando a ouvir o Papa, em discurso narrativo e não dogmático, gostaria também de salientar o seu pensamento quando, na Basílica da Santíssima Trindade se dirigiu aos responsáveis católicos pela acção social. Servindo-se da parábola do Bom Samaritano repetiu as palavras de Jesus ao doutor da lei: “Vai fazer o mesmo!”.

Bento XVI aplicou aos nossos dias estas palavras: “O amor incondicionado de Jesus que nos curou há-de converter-se em amor entregue gratuita e generosamente, através da justiça e da caridade, para vivermos com um coração de bom samaritano”. O Papa repetiu várias vezes a palavra “compaixão”. Este mundo, cheio de tecnologia e laicismo, precisa duma compaixão real, efectiva, que corresponda aos anseios do homem moderno.
Disse: “O cenário actual da história é de crise sócio-económica, cultural e espiritual, pondo em evidência a oportunidade de um discernimento orientado pela proposta criativa da mensagem social da Igreja. O estudo da sua doutrina social, que assume como principal força e princípio a caridade, permitirá marcar um processo de desenvolvimento humano integral que adquira profundidade de coração e alcance maior humanização da sociedade. Não se trata de puro conhecimento intelectual, mas de uma sabedoria que dê sabor e tempero, ofereça criatividade às vias cognoscitivas e operativas para enfrentar tão ampla e complexa crise.

Que as instituições da Igreja, unidas a todas as organizações não eclesiais, melhorem as suas capacidades de conhecimento e orientações para uma nova e grandiosa dinâmica que conduza para “aquela civilização do amor, que somente Deus colocou em todo o povo e cultura”.

Mais à frente, disse: “Muitas vezes, porém, não é fácil conseguir uma análise satisfatória da vida espiritual com a acção apostólica. A pressão exercida pela cultura dominante, que apresenta com insistência um estilo de vida fundado sobre a lei do mais forte, sobre o lucro fácil e fascinante, acaba por influir sobre o nosso modo de pensar, os nosso projectos e as perspectivas do nosso serviço, com o risco de esvaziá-los da motivação da fé e da esperança cristã que os tinha suscitado”. Neste sentido, refere por três vezes o problema da “identidade” da acção pastoral e social cristã e católica.

No pequeno discurso que fez aos Bispos saliento dois pontos. No primeiro, o Papa referiu o que muitos referem: a Igreja encontra-se num estado de “fadiga” e de “Invernos” (a fadiga da Igreja e o Inverno da Igreja). Mas num segundo tempo, o Papa vê que a resposta a esta fadiga e Inverno já está a acontecer em “novas comunidades eclesiais”.
O Espírito Santo “está a criar uma nova primavera, fazendo despertar nos jovens e adultos a alegria de serem cristãos, de viverem na Igreja que é o Corpo vivo de Cristo. Graças aos carismas, a radicalidade do Evangelho, o conteúdo objectivo da fé, o fluxo vivo da sua tradição comunicam-se persuasivamente e são acolhidos como experiência pessoal, com adesão da liberdade ao evento presente de Cristo”.
No meio da realidades e verdade da fé destas novas comunidades carismáticas, o Papa chama a atenção para a unidade da Igreja e diz aos Bispos que, se é preciso alguma redirecção para a unidade, para “encontrarem a estrada justa, que as correcções sejam feitas com compreensão – aquela compreensão espiritual e humana que sabe unir guia [direcção], gratidão e uma certa abertura e disponibilidade para aceitar aprender”.

O Papa exorta todos os católicos a serem testemunhas da ressurreição

No Porto, na homilia da eucaristia, o Papa dissertou sobre a leitura de Actos 1, 20-22, que tem como objectivo a substituição apostólica de Judas por Matias. O Papa refere a “desproporção” de forças em campo, que hoje nos espanta, e já há dois mil anos admirava os que viam e ouviam a Cristo. O Papa refere a pessoa de Jesus e os doze, aparentemente insignificantes, que, nesta desproporção de forças em campo, acabaram por levar o Evangelho por todo o lado.
E como os Actos referem a pessoa de Matias como alguém que tinha acompanhado Jesus desde o Baptismo de João até à Ressurreição, o Papa exorta todos os católicos a serem testemunhas da Ressurreição, como foi Matias e os doze. ”Meus irmãos, é necessário que vos torneis comigo testemunhas da ressurreição de Jesus. Na realidade, se não fordes vós as suas testemunhas no próprio ambiente, quem será em vosso lugar?
Mais à frente diz: “Temos de vencer a tentação de nos limitarmos ao que ainda temos, ou julgamos ter, de nosso e seguro: seria morrer a prazo, enquanto presença de Igreja no mundo, que aliás só pode ser missionária, no movimento expansivo do Espírito”.
Nesta perspectiva de Igreja missionária, o Papa apresenta uma vez mais esta Igreja no quadro cultural dos nossos dias: “Nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade; hoje, a Igreja é chamada a enfrentar desafios novos e está pronta a dialogar com culturas e religiões diversas, procurando construir juntamente com cada pessoa de boa vontade a pacífica convivência dos povos”.
E afirma: “Sim! Somos chamados a servir a humanidade do nosso tempo, confiando unicamente em Jesus, deixando-nos iluminar pela sua Palavra: “Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vedes e deis fruto e o vosso fruto permaneça” (Jo 15, 16).

A Igreja e a cultura

Finalmente, no CCB, o Papa disserta sobre a Igreja e a cultura. A este propósito fez três afirmações importantes.
Na primeira disse: “De facto a cultura reflecte hoje uma “tensão”, que por vezes toma formas de conflito, entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro”. E mais adiante: “Este conflito entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo”.
A segunda afirmação, em narrativa histórica tem a ver com a própria Igreja. Ele disse: “Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade”. E mais adiante: “A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras “verdades” ou com a verdade de outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade”.
A terceira afirmação que gostaria de aqui deixar, já no fim do seu pequeno discurso, refere a “beleza” das artes e da cultura: “Caros amigos… Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugres de beleza”.

CONCLUSÕES:

Na minha perspectiva, o Papa deixou-nos os seguintes reptos:

1)   Repensar Fátima como “lugar teológico”;
2)   Repensar a história a partir da fé cristã e a sua revelação dinâmica;
3)   Repensar a identidade da verdade cristã no mundo moderno de democracia e em diálogo com outras “verdades”;
4)   Repensar os novos movimentos de orientação carismática na hierarquia da Igreja.
 
Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM
Labat n.º 107 de Setembro/Outubro de 2010

14 outubro, 2010

O Coração de Maria na História



O mês de Outubro é outro mês dedicado a Nossa Senhora, é o mês do Rosário. No dia 7 celebramos a Festa da Senhora do Rosário e somos convidados a contemplar Nossa Senhora ao longo do mês, dia após dia, como Mãe e Mestra. A devoção a Nossa Senhora e o seu culto, lança-nos para Jesus, centram-nos em Jesus, conduzem ao Salvador e Redentor. Os mistérios do Rosário devem ser caminho cristológico, meditação cristológica. Com Maria a Jesus, com Maria para Jesus.
Mas neste mês do Rosário, como todos os dias do ano, Maria tem que estar presente na nossa vida. Ela é a Mãe da Humanidade, Mãe da Igreja, Mãe de cada um de nós, Mãe das Famílias, Mãe dos Sacerdotes. Mãe dos consagrados.
Em Maria, como em Jesus, o mais importante é sempre o amor. E o amor está simbolizado no Coração. Celebrar Maria e Mãe, é entrar na contemplação do seu Coração, nas riquezas do seu Coração maternal, que foi sempre e continua a ser “Tabernáculo de Deus Trindade”, nosso refúgio, nosso amparo. Examinar como, ao longo da história, este Coração Imaculado foi conhecido, venerado e amado, é escola para a nossa vida. Saibamos com a ajuda do Espírito, aprofundar esta riqueza de dom e de espiritualidade para tirar grandes lições para a nossa vida quotidiana.
A devoção e o culto ao Imaculado Coração de Maria, quase que atravessa toda a história da espiritualidade e da cultura, da liturgia e da oração, tendo picos importantes, como a actuação de São João Eudes, a acção de S. Francisco de Sales, até às aparições de Fátima. O Coração como realidade que simboliza a pessoa, o amor, a identidade, foi o vencedor do mal, do pecado, do maligno.
Foi o Coração Imaculado, o Coração d’Aquela que foi concebida sem pecado, que com seu amor, com sua força e vitalidade, seu amor invencível que venceu a serpente de que fala o Génesis e o dragão de que fala o Apocalipse. O Coração de Mãe Imaculada, é a força do amor vitorioso, do amor que salva e liberta, do amor que renova vidas e corações, do amor que vence a batalha contra o mal.
Viver a devoção do Imaculado Coração de Maria é o modo de actualizar, sem cessar, em nós e nos outros, a alegria da vitória sobre o pecado e sobre o mal. Com Ela, a Mãe e seu Imaculado Coração, a vitória tem sido sempre daqueles e daquelas que se acolhem em seu Coração, que lhes pedem protecção e amparo, que buscam n’Ela força e graça.
Vitórias pessoais na vida de cada dia, vitórias da paz e unidade na vida das famílias, vitórias na vida da Igreja, vitórias na vida do mundo, vitórias da paz contra a guerra, do amor contra o ódio, da luz contra as trevas, da liberdade contra a escravidão, do bem e da justiça contra o mal e injustiça.
Toda a vitória do Imaculado Coração foi marcando a história da Igreja e do Mundo. Cada página dessa história, que passa pelo coração e pela alma de pessoas concretas, por situações familiares e sociais, são vitórias que a Imaculada, a Mulher sem pecado, vencedora do dragão, vencedora pelo amor infinito, trinitário, sobre a miséria humana, a fragilidade do mundo.
Se soubermos olhar com olhos de fé e de contemplação cristã, com o Evangelho nas mãos e no coração, percebemos que a vitória sobre o comunismo russo, foi vitória do Imaculado Coração de Maria. A queda do muro de Berlim, da destruição da chamada União Soviética, foi vitória do Amor do Coração Imaculado a força vencedora contra o mal e o pecado.
E quando, com fé e humildade, olhamos as nossas pequenas batalhas, as nossas vitórias, para que reine o amor, a paz e a justiça, sabemos que é o Coração da Mãe Imaculada, que está connosco e vence as vitórias.
Temos que acreditar, contra tudo e contra todos, contra o poder do mal que impera em muitas instituições e manipula muitos corações, muitas vidas, muitos poderes que o Coração Imaculado será refúgio, vitória certa contra o mal da guerra, do crime, do pecado de toda a ordem, do ódio à Igreja, dos valores anticristo. O Coração Imaculado a Quem o mundo está consagrado, a Quem Portugal foi consagrado, será vencedor em nós e connosco de todas as vitórias.
Saibamos rezar-Lhe, saibamos confiar, saibamos consagra-nos sem cessar ao Imaculado coração e veremos os resultados das sucessivas vitórias. Nós, a família, o mundo, serão outros, pois reinará a paz, a justiça, a verdade, o valor da vida e do amor. Não tenhamos medo do dragão, do Maligno e de todos aqueles que já fizeram pacto com o mal, com o satânico, os que querem uma sociedade sem valores éticos, os que lutam por nos enganar, impondo esquemas de vida ou leis que degradam, que violentam a dignidade da pessoa humana, que vão contra Deus e a sua lei.
Maria e Mãe de Coração Imaculado, com a força da sua virtude e do seu amor, será vencedora. Rezemos muito, confiemos muito, acreditemos contra toda a esperança. Com o Imaculado Coração de Maria a vitória será sempre da graça, do amor e da vida.
Necessitamos de saber olhar a história amorosa do Imaculado Coração de Maria, de ler à luz da fé muitos acontecimentos, de olhar páginas maravilhosas da história, e ficarmos a dar graças por tanto bem, tanto dom, tanta vitória.
Precisamos de rezar muito, de suplicar muito, de implorar muito pois a oração é a força para todas as vitórias. Precisamos de sermos ousados no testemunho que queremos dar acerca do Imaculado Coração, do seu amor materno, das suas vitórias.
Jesus nos disse: “Não tenhais medo, Eu venci o mundo”. E disse-nos também: “Eu estarei convosco até ao fim do mundo”. Com Ele, com a vitória d’Ele, a fé nos diz que temos sempre a Mãe e o seu Imaculado Coração. Ele sempre quis assim, Ele sempre o deseja.
O Imaculado Coração é a vitória contra o mal e contra o pecado. Vivamos a alegre certeza que o Imaculado Coração, agora como durante toda a história da Igreja e do mundo, será a grande vitória na nossa vida, pois nem o poder satânico nas pessoas ou nas instituições, poderá nada contra o Coração invencível da Mãe.
Dário Pedroso, SJ
Labat n.º 107, de Setembro/Outubro de 2010

11 outubro, 2010

5. Igreja Santa e Pecadora

Série: “Cultivar a Fé”

Dizemos no Credo: “creio na Igreja, una, santa...”
Cada cristão é chamado por S. Paulo “santo” (Cf 1Cor 6,1; 16,1), pois nascemos no baptismo revestidos da graça e da santidade que Deus, pelo sacramento e pela acção do Espírito. Por outro lado, como se diz na Lumen Gentium, 12, a “Igreja é o povo santo de Deus”, família de baptizados, os “santos”, Corpo Místico em que esses santos são membros vivos e activos.
Por isso o Concílio Vaticano II afirmou: “A Igreja é, aos olhos da fé, indefectivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é proclamado o ‘único Santo’, com o Pai e o Espírito, amou a Igreja como sua esposa, entregou-Se por ela para a santificar, uniu-a a Si como seu Corpo e cumulou-a com o dom do Espírito Santo para glória de Deus (Lumen Gentium, 39). A fé, como nos diz o texto, é que nos poderá dar a certeza desta santidade da Igreja, e da santidade de cada baptizado.
Por outro lado, porque composta de homens e mulheres pecadores, a Igreja tem um caminho de santidade a percorrer, que passa pela vida e santidade de cada cristão e de cada cristã.
Como afirma o Concílio, a Igreja está revestida de uma verdadeira mas imperfeita santidade, uma santidade nunca acabada, sempre a caminho, sempre aberta ao Espírito que santifica e liberta (Cf Lumen Gentium, 48). Nos seus membros a santidade perfeita ainda não está adquirida, embora todos os baptizados sejamos chamados à santidade, todos temos vocação para a atingir, Deus não nos falta com os seus dons, meios e graças.
Por isso o Concílio afirmou: “Munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um pelo seu caminho” (Lumen Gentium, 11).
Todos, sem excepção, temos de caminhar para a santidade, para que brilhe ainda mais a santidade da Igreja. Daí a nossa responsabilidade cristã, a necessária audácia no caminho da santidade.
A Igreja santa, vai através das suas obras e acções, sobretudo através da oração e dos sacramentos, sendo agente de santificação dos fiéis, ajudando todos a adquirir aquela santidade que Deus quer no seu plano de amor.
Por isso, como sacramento de Cristo, o “Santo”, a Igreja, pelo seu modo de agir é santificante (Cf Catecismo da Igreja Católica, 824). Se Jesus é o autor e o consumador da santidade, se Ele é a Cabeça do Corpo Místico que é a Igreja, ela, pelo poder de Jesus, vai ajudando todos os fiéis a serem mais santos.
E a caridade é a perfeição da santidade, ou seja, é a caridade que “ dirige todos os meios da santificação, lhes dá alma e os conduz ao seu fim (Lumen Gentium, 42). Seremos tanto mais santos quanto mais amarmos. E o amor é a luz da santidade que iluminará o coração de todos os homens.
Jesus é o Cordeiro sem mancha, santo e inocente, mas a Igreja encerra no seu seio pecadores, que somos todos nós. Por isso quando vemos algo que não está bem na Mãe Igreja, devemos sentir dor e pena dessa falta e, ao mesmo tempo, corresponsabilidade dela, pois somos parte do Corpo, somos pedra do Templo, não somos santos como devíamos.
Todos somos pecadores (Cf Catecismo da Igreja Católica, 827). Todos temos em nós fragilidades e pecados, todos somos membros impuros, da Igreja santa. Já santos mas ainda pecadores...numa luta que durará a vida inteira.
Por isso a Igreja no seu passado e no seu presente, assume-se pecadora e com necessidade do perdão de Deus. Daí o Papa João Paulo II já ter pedido perdão, dezenas de vezes, pelos “pecados” da Igreja.
E esta verdade não nos deve derrotar mas dar ânimo para a luta, para o crescimento da santidade quotidiana.
Temos que ser mais dignos da Mãe-Igreja...
Dário Pedroso, SJ
Labat n.º 74 de Setembro de 2006

4. A Igreja: Riqueza dos símbolos

Série: 'Cultivar a Fé'

Para o cristão menos atento, a imensa riqueza de símbolos acerca da Igreja, pode passar despercebida.
Esta riqueza é, por si mesma, uma grande catequese. Estamos habituados, como vimos antes, a olhar a Igreja como Corpo de Cristo, do Qual Ele é a Cabeça, mas outros símbolos, nos escapam com facilidade.
Vamos olhá-los e aprender algumas lições.
Do Antigo Testamento nos vem a ideia de Povo de Deus, que é assumida no Novo, como sendo a Igreja. Povo que Deus ama, Povo que caminha para a Casa do Pai, Povo constituído em Corpo, do Qual Jesus é Cabeça (Cf Ef 1,22; Cl 1,18, LG 6).
Povo Santo, do conjunto dos baptizados, ungidos pelo Espírito, que constituem uma “nação santa”, um “povo sacerdotal” já que todos recebem o sacerdócio comum dos fiéis, participando, pelo baptismo, do sacerdócio de Cristo.
A Igreja é rebanho e redil, cuja porta é Cristo (Cf Jo10, 1-10).
Já no Antigo Testamento Israel era o rebanho do Senhor e Deus era o seu Pastor.
Na Igreja o Pastor do rebanho é o Senhor, que por outro lado Se apresenta como Bom Pastor que dá a sua vida pelas ovelhas, Se faz alimento do rebanho.
E este rebanho, é governado ao longo dos séculos, pelos Pastores, que o Divino Pastor coloca à sua frente (Cf Ez 34,11-31; Jo 10, 11-15).
O Pastor conhece e ama o rebanho, cada uma das ovelhas, dá a vida por todas.
A Igreja é a agricultura ou o campo de Deus (Cf 1Cor 3,9).
Neste campo, nesta vinha eleita, (Israel era a vinha do Senhor), a Videira verdadeira é Cristo (Cf Jo 15,1-5), cuja vida e fecundidade vai alimentando, dando seiva aos ramos, dando uvas abundantes (Cf Lumen Gentium 6).
Cada um de nós faz parte da Videira total, como ramos unidos Àquele que disse de Si mesmo: “Eu sou a Videira”. Daremos tanto mais fruto, quanto mais unidos a Jesus, quanto mais permanecermos n’Ele.
“A Igreja é também chamada muitas vezes construção de Deus (Cf 1 Cor3,9).
O próprio Senhor Se comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou pedra angular (Mt.21,42; Act.4,11; 1 Pe 2,7; Sl 118, 22).
Sobre este fundamento é a Igreja construída sobre os Apóstolos (Cf 1 Cor 3,11), e dele recebe firmeza e coesão” (Catecismo da Igreja Católica, 756).
E neste mesmo número afirma-se ainda que esta construção recebe vários nomes: casa de Deus, habitação de Deus, tabernáculo de Deus, templo santo de Deus.
Somos, como cristãos, “pedras vivas” (Cf 1 Pe 2,5) deste Templo, a santa Mãe Igreja, a Esposa de Cristo, o seu Corpo Místico.
“A Igreja é também chamada Jerusalém do Alto, e nossa mãe (CF Gl 4,26; Ap 12,17), é também descrita como esposa imaculada do Cordeiro sem mancha (Cf. Apo 19,7; 22,17), a qual Cristo amou, pela qual Se entregou para a santificar (Cf Ef 5,25-26), que uniu a Si por um vínculo indissolúvel, e à qual, sem cessar, ‘alimenta e presta cuidados’(Ef 5,29) (Cf Lumen Gentium 6).
Igreja Mãe que nos gera pelo baptismo e nos alimenta pelos outros sacramentos, sobretudo pela Eucaristia, onde temos Jesus, a fonte da graça.
Além destas denominações e símbolos aprece-nos ainda o termo riquíssimo de conteúdo, da Igreja como “sacramento”.
O Concílio, na Constituição Dogmática Lumen Gentium (1) afirma: “A Igreja em Cristo é como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano”.
Se é sacramento é sinal de graça, manifesta e actualiza o mistério do amor de Deus pelos homens. A Igreja “é assumida por Ele como instrumento da redenção universal”(Lumen Gentium, 9).
Dário Pedroso, s.j.
Labat n.º 62 de Junho de 2006

3. A Igreja, comunhão de amor

Série: 'Cultivar a Fé'

A Igreja, como ícone da Trindade, nascida do amor do Espírito Santo, é comunhão de amor dos membros entre si, e do Corpo com a Cabeça, que é Cristo.
“A Igreja é una, graças à sua fonte: o supremo modelo e princípio deste mistério é a unidade na Trindade das pessoas divinas, dum só Deus, Pai, e Filho no Espírito Santo” (Catecismo da Igreja Católica, 813).

A união dos fiéis, dos membros vivos, das pedras vivas do Templo do Senhor, é comunhão de irmãos que o Espírito Santo ungiu e consagrou. O mistério insondável da Igreja, como Esposa, unida ao seu Esposo, Jesus Cristo, é plena comunhão dos membros com a Cabeça do Corpo Místico.
O amor gera comunhão e unidade. O Espírito que é amor, já no seio trinitário gerava a comunhão plena entre o Pai e o Filho e, agora, na Igreja, através da sua acção, unitiva, gera a comunhão de todos os membros num só Corpo: “O Espírito Santo que habita nos crentes e que enche e rege toda a Igreja, realiza esta admirável comunhão dos fiéis e une-os todos intimamente em Cristo que é o princípio da unidade”(Catecismo da Igreja Católica, 813).
Aliás a Eucaristia, como sacramento de unidade, pela graça da comunhão, faz de muitos um só Corpo, pois se todos comungamos o mesmo Corpo eucarístico e para formarmos um só Corpo Místico, uma Igreja una.
“ A comparação da Igreja como um corpo lança uma luz particular sobre a ligação íntima existente entre a Igreja e Cristo. Ela não está somente reunida à volta d’Ele: esta unificada n’Ele, no seu Corpo. Na Igreja, Corpo de Cristo, são de salientar mais especificamente três aspectos: a unidade de todos os membros entre si, pela união a Cristo; Cristo, Cabeça do Corpo, a Igreja, Esposa de Cristo” (Catecismo da Igreja Católica, 789).
E cada um destes aspectos revela-nos o mistério da comunhão e da unidade.
Mas esta unidade e comunhão não se realiza só entre os fiéis e Cristo, mas entre os fiéis uns com os outros. Unidos ao Papa, aos Bispos, aos Sacerdotes, aos Consagrados, aos Leigos, todos unidos entre si, são a Igreja una.
Daí que todos os pecados, todas as acções que sejam contra a unidade e a comunhão, não só não realizam o plano de Deus, como vão destruindo a própria unidade e comunhão da Igreja.
E esta unidade deve estimular sem cessar a caridade em ordem a uma comunhão e uma mor cada vez mais universais:
“Daí que se algum membro sofre, todos sofrem com ele,; se algum membro recebe honras, todos se alegram” ( Lumen Gentium7).
Veja-se neste sentido o texto de Gl 3,27-28, que termina dizendo: “todos vós sois um só, em Cristo Jesus”.
Esta unidade a Cristo realiza e solidifica a unidade entre todos.
Tudo o que for egoísmo, egocentrismo, desunião, crítica destrutiva, falta de justiça, de paz, de partilha entre os fiéis, é um atentado à unidade e à comunhão da Igreja. Tudo o que não nos lança a colaborar na vida apostólica, em unidade com o Papa, com os Bispos, é falta de comunhão na vida eclesial.
Não podemos “fazer capelas”, temos de construir “igreja”, e esta é una, tem de estar unida pela acção unificadora do Espírito. Não à divisão e à discórdia, não ao egoísmo e à falta de amor, não ao isolamento e à falta de partilha.
O Catecismo da Igreja Católica pergunta: “Quais são os vínculos da unidade?” e dá a seguinte resposta: ‘Acima de tudo a caridade, que é o vínculo da perfeição’ (Col 3,14).
Mas a unidade da Igreja peregrina é assegurada também por laços visíveis de comunhão: - a profissão duma só fé, recebida dos Apóstolos;- a celebração comum do culto divino, sobretudo dos sacramentos; - a sucessão apostólica pelo sacramento da Ordem, que mantém a concórdia fraterna da família de Deus” (815) (Cf. Lumen Gentium 14; CIC cân 205).
Dário Pedroso, SJ
Labat n.º 61 de Maio de 2006

2. A Igreja é comunhão de fé

Série: 'Cultivar a fé' 

A vida trinitária é o modelo de toda a vida cristã. E a Trindade é comunhão plena de Pessoas, pois o amor que é total e infinito, faz que três Pessoas sejam um só Deus. A trindade é Família divina, é comunhão plena de amor, de dom mútuo, de acolhimento total.
A Igreja encontra na Trindade o seu modelo de comunhão e, sem deixar de ser hierárquica, a Igreja tem de crescer sem cessar no esforço de comunhão, de unidade, de vida partilhada, em que todos os fiéis têm o seu lugar vital e fecundo, realizando uma comunhão cada vez mais plena, mais total, mais ao jeito trinitário.
A Igreja é, antes de mais, uma comunidade de fé. “A fé dos fiéis é a fé da Igreja, recebida dos Apóstolos, tesouro de vida que se enriquece na medida em que é partilhada” ( Cf Catecismo da Igreja Católica, 949).
A fé, dom dado pelo Espírito Santo, leva-nos a entrar em comunhão com os outros crentes, a viver a fé da Igreja, Esposa de Cristo.
A fé não pode ser algo isolado, partidário, como se fosse algo só nosso, feito ao nosso jeito, pior ainda construído por nós.
O crente mergulha na fé da Igreja, aceita essa fé como sua, adere ao que a Igreja acredita e define. Muitas vezes encontramos pessoas, que acerca de questões essenciais, se põem a congeminar, a formular opiniões, a afirmar: “eu acho que...”.
Em questões de fé há que aderir de alma e coração àquilo que é a fé da Igreja, verdadeiro tesouro vindo dos Apóstolos. Esta adesão exige humildade, exige simplicidade, exige pobreza interior, para fazer nossa a fé da própria Igreja.
Não somos nós que fazemos o “Credo”, não somos nós que fazemos os “dogmas”, não somos nós que tecemos o símbolo dos Apóstolos.
Aderimos com liberdade interior àquilo que o Credo, os dogmas, a fé da Igreja nos ensina e nos mostra com sabedoria e vida.
Mas como a fé não é cega nem estúpida, devemos formar-nos, esclarecermo-nos, ler, estudar, compreender, saborear em oração e reflexão pessoal e comunitária, o depósito sagrado da fé.
Devemos formar-nos e ajudar a formar os outros. Devemos amadurecer a nossa fé e ajudar a amadurecer e quando se não estuda, não se reflecte, não se reza a fé que nos foi dada, podemos caminhar por atalhos de ignorância, de superstição, de uma fé enfezada, muito à nossa medida.
E já não é a fé da Igreja, vivida em comunhão de crentes, na alegre vivência do tesouro de vida que os Apóstolos nos deixaram e que o Magistério da Igreja nos vai fazendo compreender e saborear, aderir com uma fé cada vez mais adulta e mais amadurecida.
Sem esta comunhão de fé não há verdadeira Igreja. Daí nascem as heresias, as seitas, a falta de unidade na mesma fé.
Por outro lado, como indica o Catecismo da Igreja Católica no número acima citado, esse tesouro de vida recebido dos Apóstolos, vai-se enriquecendo na medida em que é partilhado.
Partilhar a fé, partilhar a reflexão, a oração, o estudo da Palavra, é um modo maravilhoso de ir aumentando, enriquecendo a própria fé. É em comunhão, em partilha, em reflexão comum, em vida comunitária, que a fé se torna mias adulta e vai amadurecendo cada vez mais.
Sozinhos, isolados, metidos connosco, não fazemos crescer o tesouro da fé, que é vida de crentes, que deve ser partilhada para ser mais enriquecida.
Vamo-nos educando uns aos outros, vamos fazendo comunidade de crentes, vamos assumindo em comum a fé da Igreja.
Que belo desafio nos é deixado: a Igreja é, antes de mais, uma comunidade de fé.
Precisamos de amadurecer esta comunhão, que fará mais viva a fé que professamos.
E quanto mais viva for a fé mais intensa será a comunhão.
Dário Pedroso, s.j.
Labat n.º 59 de Março de 2006

1. A Igreja, Templo do Espírito Santo

Série: 'Cultivar a fé'

Parece que não podemos determinar com precisão o nascimento da Igreja, pois uns teólogos fazem-na nascer no Cenáculo, com a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, outros, na cruz, com a morte de Cristo e com o sangue e água que brotaram do seu lado aberto, que simbolizam o Baptismo e a Eucaristia, outros no Domingo de Páscoa quando Jesus aparece aos onze Apóstolos reunidos na Cenáculo, lhes concede uma primeira efusão do Espírito e lhes dá o poder de perdoar os pecados, outros, finalmente, situam o nascimento da Igreja no dia de Pentecostes, quando o Espírito desceu em línguas de fogo sobre Maria e os Apóstolos.
De um modo ou de outro a Igreja tem um nascimento pascal, uma origem vinda do mistério pascal, que nasce na Ceia, passa pela Cruz, começa a florir na Páscoa e tem o seu cume no Pentecostes.
Cada momento é nascimento de algo de novo que constitui a Igreja. Todos, no seu conjunto, fazem-na nascer, como Povo de Deus, como Corpo de Cristo, como Esposa de Jesus, como Templo vivo do Espírito Santo.
Mas o Espírito Santo, dado em Domingo de Páscoa, quando Jesus afirma:
“Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos”(Jo 20,22-23), ou dado em plenitude, no dia de Pentecostes (Cf Ac 2,1-13), é a “alma da Igreja”, é Ele que a vivifica , que age em todos os cristãos e no conjunto do Corpo, é Ele que faz da Igreja “templo do Deus vivo” (2 Cor 6.16).
“É ao Espírito de Cristo, como a um princípio oculto, que se deve atribuir o facto de todas as partes do Corpo estarem unidas, tanto entre si como com a Cabeça suprema, pois Ele está todo na Cabeça, todo no Corpo, todo em cada um dos seus membros” ( Cf Catecismo da Igreja Católica, 797).
O Espírito presente em cada cristão desde o dia do Baptismo, recebido de um modo novo no sacramento do Crisma, e agindo em cada um dos sacramentos, é o dinamizador da vida e da santidade da Igreja.
Sem Espírito não haveria Igreja, não haveria sacramentos, não haveria santidade, não haveria conhecimento da Palavra que alimenta a própria Igreja, não haveria unidade, comunhão, serviço, partilha fraterna, dons e carismas.
O Espírito é o grande agente, o grande protagonista da vida da Igreja.
“O Espírito Santo é o princípio de toda acção vital e verdadeiramente salvífica em cada uma das diversas partes do Corpo.
Ele realiza de múltiplas maneiras, a edificação de todo o Corpo na caridade; pela Palavra de Deus ‘que tem o poder de construir o edifício’ (Ac 20,32); mediante o Baptismo, pelo qual forma o Corpo de Cristo; pelos sacramentos que curam os membros de Cristo; pela ‘ graça dada aos Apóstolos que ocupa o primeiro lugar entre os seus dons’; pelas virtudes que fazem agir segundo o bem; enfim, pelas múltiplas graças especiais (chamados carismas) pelos quais Ele torna os fiéis ‘aptos e disponíveis para assumir os diferentes cargos e ofícios proveitosos para a renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, 798).
A Igreja, tendo a sua origem e a sua vivificação na acção do Espírito, é pneumatológica, é pneumática, é pentecostal.
Atenta à voz do Espírito, ao sopro divino, às moções interiores d’Aquele que é a sua alma e a fonte da sua vida, a Igreja tem de estar sempre aberta àquilo que o Espírito lhe quer dizer, a quer levar a renovar, a deseja, como seu “motor espiritual”, fazer realizar de um modo sempre novo.

Daqui nascerá uma atenção particular e muito peculiar à acção do Espírito, uma abertura à sua acção dinamizadora, aos seus carismas, ao seu movimento interior, àquilo que de novo e de maneira amorosa,
o Espírito a quer fazer viver e dimensionar.
Dário Pedroso, s.j.
Labat n.º 58, de Fevereiro de 2006

10 outubro, 2010

9-8: O Coração Trespassado

Série: 'Oração e Vida'

O mistério do amor infinito de Deus revela-se no Coração trespassado do Verbo feito carne no seio da Virgem Maria. Deus é Amor (1Jo 4,8), mas esse amor está simbolizado no Coração de Cristo. É todo o amor divino e todo o amor humano que ali está presente, misticamente simbolizado, no Coração trespassado do Cordeiro, no Coração do Bom Pastor, no Coração do Bom Samaritano, no Coração do Amigo dos pecadores, no Coração do Redentor.
Deus é Coração. Deus tem Coração. Deus é Amor e não pode nunca deixar de amar e de amar-nos. Amor infinito, total, perfeito. E todo esse amor está no Coração do Filho, que foi trespassado na cruz.
Dá pena sentir que em muitos locais, em muitas paróquias, em certos movimentos, em gente que tem responsabilidade na Igreja, a devoção e o culto ao Sagrado Coração de Jesus pareça uma velharia de antigamente, algo desactualizado, sem sentido de novidade, sem motivos para uma pastoral dita moderna e actualizada. Como anda enganada essa gente!!! Santo Deus!!!
Basta ouvir os jovens, basta ver os corações que eles traçam com um canivete nas cascas das árvores ou nos bancos dos jardins, basta ver o coração trespassado com uma seta que desenham nos cadernos, nos livros, nos seus “diários íntimos”, nas cartas que escrevem, sobretudo quando estão mais apaixonados.
O coração é uma linguagem universal, é um símbolo universal para falar do amor, para dizer que se ama e que se é amado.
Porquê, então deitar fora a grandeza desse símbolo, porquê não evangelizar através dele?
Porquê não se servir dessa linguagem universal para anunciar o amor louco de Jesus por nós e a retribuição do nosso amor por Ele?
Porquê ter medo de falar do Coração de Cristo Redentor?
Porquê acabar com a devoção e a prática das Primeiras Sextas Feiras, com os tríduos do Coração de Jesus, com as Horas Santas, com o sentido bíblico e espiritual do coração, da amizade por Jesus, da reparação do Coração do Amigo?
Será que temos vergonha dessa linguagem?
Será que não percebemos que os jovens gostam dela e se sentem atraídos a usá-la?
Será que o Coração, porque exigente no amor, no dom, na entrega, na reciprocidade, nos mete medo?
Será que alguns pastores têm medo de serem tidos por antiquados só porque ainda “acreditam nessas coisas”?
Mas se Deus é Coração, ou como disse um místico da escola carmelita, parafraseando o prólogo de S. João: “no princípio era o Coração”, temos que descobrir a riqueza teológica e espiritual, bíblica e pastoral do mistério do Coração d’Aquele que deu a vida por nós e que, cada dia, renova esse dom na Eucaristia, ou como afirmou Paulo VI: “ A Eucaristia é o maior dom do Coração de Jesus”.
Abramos os olhos, abramos sobretudo o coração para esse Coração divino que continua a ter sede, a sede mística do alto da cruz, a sede da nossa amizade, do nosso tempo, do nosso coração, da nossa oração, da nossa amizade. Não nos intimidemos, não nos assustemos com as exigências do divino Amor.
Abramos o osso Coração ao Amor do Coração do Redentor, que continua aberto para que nós possamos entrar n’Ele, para encontrarmos n’Ele graça e santidade, paz e misericórdia, refúgio e repouso, vida e felicidade.
Tudo nos vem desse Coração, dessa fonte divina sempre aberta e a jorrar torrentes de misericórdia e de graça. Não deitemos fora esta riqueza, não desprezemos este tesouro.
Seria um “crime”, seria um “pecado”, seria, sem dúvida, um erro pastoral, um desajuste ao sentido profundo do amor que nos baila no coração. Sejamos modernos, usemos o coração como distintivo do amor.
Dário Pedroso, SJ
Labat n.º 75 de Setembro de 2007